JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

DRAMAS, MUITOS DRAMAS

Ao primeiro sinal de tpm, jogo meu computador pro lado e evito escrever até não ter nenhuma interferência dos meus hormônios nervosos. Não é sempre que acontece, mas quando coisas absolutamente triviais começam a me tirar do sério sem nenhum motivo aparente e me fazem tacar pratos na parede, transformando minha vida num dramalhão mexicano maior do que eu já me esforço para transformar, não vejo melhor saída senão ficar quieta no meu canto até que a poeira abaixe e eu possa novamente respirar em paz. Não é uma solução, nem de longe uma saída definitiva, mas ainda é a melhor alternativa que tenho pra não ficar espalhando ódio gratuito por aí e minimizar os estragos feitos nessa época tão instável do mês.

Eu teria continuado com minha postura de gente grande, encarando esse mundo hostil em que todos são inimigos em potencial de cabeça erguida, como a adulta e pessoa madura que sou (?). Mas em determinado momento deve ter ficado difícil demais manter a pose, porque olhem só eu aqui, escrevendo esse texto amargurado enquanto me esforço pra não abaixar a cabeça no teclado e começar a chorar no meio da assessoria inteira. E tudo isso porque, basicamente, ser gente grande é uma coisa muito chata, que cansa pacas e cês me desculpem, mas eu não quero brincar disso mais não.

Tudo começou porque, depois de um feriado maravilhoso, eu voltei pra casa e me dei conta de que ficar três dias sozinha, sendo a dona do meu próprio nariz, não significava a paz que eu almejava, mas um mundo de responsabilidades que não faço a menor ideia de como lidar. É meu closet fora de ordem, o quarto que prefiro não comentar, cachorro fazendo cocô onde não deve e eu tendo que limpar mesmo com uma cólica terrível, o remédio que não faz efeito, o dinheiro contado e a gasolina cara demais, a pilha de louça que não para de crescer e o almoço substituído por lanches insossos que não me seguram nem até às 16hrs. Isso, claro, sem contar o pedaço do meu primeiro molar que resolveu cair, deixando minha autoestima já cagada, infinitamente pior.

São coisas assim, absurdamente simples, que adquirem a forma de um monstro e me deixam querendo chorar sozinha num canto escuro, em posição fetal, enquanto espero que minha mãe chegue e conserte tudo com sua varinha mágica. A varinha, é claro, não existe, mas nesse momento de desespero com uma pitada de depressão, gerenciar uma casa me parece um trabalho complexo demais pra ser tratado de outra forma, em especial quando penso nas tantas vezes que saí de casa deixando meu quarto uma verdadeira zona e tive a surpresa de encontrar tudo devidamente arrumado quando voltei.

A Ana de dez anos (!!!!) atrás reviraria os olhos para essa versão meio deprimida que não tem sequer tempo de fazer as unhas e faz questão de chorar pitangas por motivos tão triviais, mas não é como se isso deslegitimasse meu sofrimento, porque por mais tosco que tudo seja de fato, o câncer do vizinho nunca curou meu resfriado. Eu poderia estar lavando a louça, limpando a casa e cozinhando à noite o almoço do dia seguinte? Podia. Tanto podia que, saindo do estágio, o plano é exatamente trocar de roupa e começar uma faxina no quarto que promete abalar as estruturas de toda a residência. Mas a grande verdade é que, no fundo no fundo, temo que tudo isso não passe de um plano furado, que eu chegue em casa e só pense em colocar meu pijama quentinho, tomar chá e talvez um Rivotril, permitindo que esse ciclo vicioso continue até, sei lá, minha mãe chegar e tomar as rédeas da situação.

Ou até que a tpm passe e eu não permita que Zezé di Carmago (e Luciano, claro) cante alegremente no meu carro sobre flores colhidas no jardim do amor enquanto desejo que esse tal jardim queime no fogo do inferno.

Num mundo perfeito, morar sozinha por alguns dias seria exatamente como nos filmes, o glamour das mulheres independentes brilhando em neon na minha testa. Eu continuo curtindo ficar sozinha de vez em quando. Poder fazer minhas coisas sem interrupção, andar de camiseta e calcinha pela casa, ficar na sala até muito tarde e comer em horas nada ortodoxas porque todas essas bobagens são deliciosas demais para serem dispensadas. Talvez eu até curta lavar a louça quando penso que posso transformar esse momento nojento em uma folia romantizada que vira cena de um filme qualquer. Mas não tentem me enfiar garganta abaixo que tudo é tão fácil quanto parece ser, mesmo que, por hora, minha visão de mundo esteja um pouquinho equivocada e mais descrente que o normal.

Ser independente não é glamouroso porque ter uma casa inteira sob sua responsabilidade, mesmo que por alguns dias, é algo que pesa por si só. Porque não é fácil conciliar estudo, trabalho e vida pessoal com os problemas da vida cotidiana, quando tudo o que eu quero é deitar, ler um livro e comer uma pizza inteira sozinha porque pizza fixes everything. Romantizado nas páginas de um livro ou nas cenas de um filme, parece que a gente consegue se virar em mil, resolver todos os problemas e continuar impecável, sem nenhum fio de cabelo fora do lugar. Talvez eu até consiga, um dia, mas pelo menos por enquanto, só quero poder chegar em casa, dar um abraço na minha mãe e não me preocupar com a cama pra arrumar ou o almoço do dia seguinte. Obrigada.

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3 Comments

  • Reply Paloma 21 de fevereiro de 2015 at 9:49 PM

    Amiga, tô te abraçando. Nada disso é fácil e na tpm tudo fica um milhão de vezes pior. Só digo que você tem sim capacidade de fazer tudo isso, e a única coisa que te diferencia da sua mãe nesse aspecto é que ela tem a experiência. Experiência essa que você também vai ter, no seu tempo, quando você quiser. Você só está em um mal momento, e tem todo o direito de estar. Mas logo passa, e quero te ver de pé em breve (xô pra esses hormônios que fazem essas coisas com a gente).

    beijos.

  • Reply Larissa 22 de fevereiro de 2015 at 2:52 AM

    Posso falar? Você me descreveu aí. Eu sinto exatamente as mesmas coisas em relação a morar sozinha, é ótimo, maravilhoso não ter de ficar dando satisfação pra alguém por ter deixado tal coisa em tal lugar (no caso, minha mãe me enxendo pq deixei as chaves em x lugar) mas é uma droga conciliar casa x trabalho x vida social. Eu fico irritadíssima comigo quando passa uma semana e eu não tive tempo de limpar, a vantagem é que a casa nunca fica suuuuuuja mas ta toda desarrumada, ai eu fico mais irritada ainda pq eu não sei me organizar, perco o ânimo e deixo passar mais um dia e quando eu percebo ta aquele ciclo de raiva que nunca para! Eu só queria chegar em casa e não me preocupar se eu tive de sair depressa e deixei a louça na pia, a roupa no varal, … Acordar e não ter de pensar “e ai? o que vou fazer pra comer hoje?” iauhsuia É complicado ú_u
    Mas vai tudo dar certo, eu tento acreditar nisso pelo menos :P

  • Reply Suelen 22 de fevereiro de 2015 at 9:54 PM

    Ai Ana, como me identifiquei! Também fiquei ~dona de casa~ por uns dias enquanto minha mãe cuidava da vó no hospital e, olha, cada vez que pensava em tudo que tinha pra fazer, em todas as responsabilidades, minha vontade era deitar em posição fetal e chorar :~ E na tpm, então? Depressão na certa! :(

    Força, miga! <3

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