I WANNA BE A ROCKSTAR

ENTÃO EU ASSISTI UM SHOW DO QUEEN

Em tempo real, pela televisão, sem Freddie Mercury e sem John Deacon, mas ainda assim.

Cheguei da aula na última sexta-feira (pior que estudar à noite, só ter aula numa noite de sexta-feira) com a única pretensão de colocar meu pijama, deitar no sofá e acompanhar o Rock in Rio. Sinceramente, o line-up desse ano não me empolgou tanto quanto o das edições anteriores (vamos dizer apenas que nada supera 30STM, Muse e Bon Jovi), mas eu não sou de negar folia, ainda mais se a folia em questão me reserva um show do Queen (sem Freddie Mercury e John Deacon, sim, mas não se pode ter tudo na vida), e eu jamais seria capaz de dispensar umas horinhas “””””ao lado””””” de Brian May e Roger Taylor, com o plus da minha diva favorita do momento, mais conhecida por aí como Adam Lambert – não sem antes curtir um show incrível do OneRepublic e um pouquinho de The Script (que cheguei conhecendo uma música e saí já considerando pacas).

risos

Quando uma pessoa se propõe a assistir um show no conforto de sua casa, o mínimo que ela espera é se divertir com tudo isso, ainda que com a certeza de nunca estar se divertindo tão plenamente quanto as pessoas que estão, de fato, vivendo aquele momento. Sei lá, né? Por mais que meu nível de comprometimento sempre ultrapasse o limite saudável da coisa, não dá pra comparar minha experiência com a de quem de fato esteve lá, pulando no meio de um bando de gente suada, tomando banho de cerveja e curtindo cada segundo. Eu posso até fazer minha festa particular, subir na mesa e dançar com os braços pra cima no meio da sala, mas nunca vai ser a mesma coisa, o mesmo clima, o mesmo sentimento. Paciência, tem outros troféu. No entanto, enquanto eu assistia o show do Queen na sexta-feira, tive a impressão de estar de fato assistindo algo muito muito especial e vivendo aquilo de alguma forma, como se o que aconteceu na Cidade do Rock (odeio esse nome, meu deus) naquele dia transpassasse qualquer barreira e alcançasse toda e qualquer pessoa que estivesse ali, de coração aberto.

Se eu deixei meu pote de Nutella de lado (sempre um termômetro confiável sobre meu nível de envolvimento com alguma coisa) pra viver aquele momento não foi só porque eu tive a sorte de crescer ouvindo Queen e precisava aproveitar aquela chance talvez única de ver os caras (ou uma parte deles) em tempo real. Foi por isso também, é claro, mas não só por isso, muito menos o tempo inteiro, e acho que foi por esse motivo que mesmo as pessoas que não conheciam a banda tanto assim se jogaram de cabeça e curtiram cada minuto daquele momento tanto quanto eu. Minha timeline do twitter nunca esteve tão bonita e mais de uma vez eu me vi agradecendo pela existência da internet. Não era só eu ali, comentando um show de uma banda que adoro desde criancinha; mas sim eu, com uma porção de gente que chegou no bonde quando nasceu ou dois minutos depois da abertura do show e que estava se divertindo horrores mesmo assim. Melhor que isso só estar tomando banho de cerveja no Rio de Janeiro, mas, mais uma vez, não se pode ter tudo.

Vi minha mãe viver toda uma catarse particular enquanto assistia o show, o mesmo show que ela jurou de pé junto que não conseguiria assistir inteiro porque estava com sono demais, mas que só saiu da frente da tv depois do encerramento. Fiquei imaginando o que aquilo deve ter significado pra ela que 30 anos atrás estava curtindo outro show deles, também em tempo real, no Rock in Rio de 85, do sofá de casa, exatamente como eu ali em 2015, também aos 22. Nossos 22 anos marcados por um show que nem vimos ao vivo e mesmo assim conseguimos sentir o tempo inteiro, não é bonito isso? Gosto de pensar que, quando falamos no poder que a música tem de ultrapassar barreiras de tempo e espaço, e conversar de forma quase universal com tantas pessoas diferentes, é desse tipo de coisa que estamos falando. Eu sempre me emociono com shows, em especial de bandas mais antigas, porque tudo isso fica muito evidente o tempo inteiro. A gente vira, olha pro lado e tem um vovô curtindo aquelas músicas com seu neto; ou um pai abraçando o filho enquanto, juntos, os dois cantam um refrão. Não é bonito isso? Não é especial? Vocês não ficam meio embasbacados quando pensam que tudo isso continua fazendo tanto sentido, mesmo numa sociedade que muda o tempo todo, numa velocidade quase insana de acompanhar? Eu fico demais.

Foi por isso que eu fiquei extremamente chateada com quem só reclamou o tempo inteiro porque noooosa o Adam Lambert, nooooossa, nooooossa, mas ele não é o Freddie Mercury (cê jura, cara pálida?), nooooooossa que horror, que horror (mas do John Deacon ninguém lembrou, risos eternos), não a ponto de atrapalhar todo o meu momento, mas porque no fundo eu queria que as pessoas se permitissem curtir o momento, sem ficar comparando todo mundo ou caçando defeito o tempo inteiro, sem pensar demais se aquele era um acerto ou o grande erro do milênio (spoiler: se não foi um acerto, pelo menos foi um erro maravilhoso demais). Pensar nisso me faz lembrar automaticamente na minha relação perturbada com as adaptações dos meus livros favoritos, e que, de tanto ser chata, eu perdi uma bela chance de curtir várias experiências incríveis. É mais ou menos como aquele gif ótimo da Elizabeth Olsen, que ela diz que não é legal odiar as coisas e que na verdade isso é bem chato. Já usei esse gif num outro post, mas vou me permitir usar de novo porque o blog é meu e sempre acho importante reforçar.

you think its cool to hate things

and its not its boring

Comparar o Adam Lambert ao Freddie Mercury é tão insano quanto, sei lá, tentar comparar um gato e um peixe – duas coisas que nem se a gente se esforçar muito vão ser parecidas ou meramente comparáveis algum dia. Eu adorei ver o Adam naquele palco não porque já gostava dele (gostava), nem porque ele é esse cara incrível de quem eu realmente queria ser amiga (ele é, e a solicitação de amizade continua de pé), mas porque o tempo todo quem eu vi naquele palco não foi uma cópia furada do Freddie Mercury, muito menos um cara que teve a pretensão de ser parecido com ele, mesmo que só por algumas horas. Eu morri de medo porque sei que o público de bandas tão importantes como o Queen, por exemplo, costuma ser meio resistente a esse tipo de mudança, e eu entendo o apelo, de verdade, mas às vezes a gente precisa (ou pelo menos deveria) se permitir curtir e apenas curtir, sem precisar tirar a faca da bota o tempo inteiro. Adam não fez feio (inclusive, alguém me ensine a superar aquele homem), e se no dia seguinte a repercussão do show foi tão boa foi porque, entre outras coisas, ele provou que era sim capaz, e foi lá e fez um trabalho impecável, sendo o Adam – e só o Adam – topete, calça de couro e unhas pretas pra completar.

Num dos momentos mais bonitos do show, aliás, Adam nem sequer estava lá, ainda que ele fizesse as vezes de vocalista na maior parte do tempo. Ouvir Love Of My Life cantada por May, pelo público e em seguida pelo próprio Freddie, me deu a dimensão real da importância daquele show, que tinha a participação do Adam e foi maravilhoso assim mesmo, mas que nunca foi tão dele quanto foi da banda, quanto foi do público, quanto foi de nós, meros espectadores que não se contentam em ficar em casa sentados no sofá e assistiram tudo se envolvendo demais.

Eu cheguei da aula naquela noite de sexta-feira com a única pretensão de colocar meu pijama, deitar no sofá e assistir o show do Queen; e fui dormir com o coração leve e uma alegria que não sei explicar, só sentir. Eu diria que senti inveja das pessoas que estavam lá naquele gramado, vendo tudo acontecer ao vivo de verdade, mas talvez eu ainda esteja muito feliz pra me preocupar com minha parcela tão pequena nessa equação.

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3 Comments

  • Reply Beatriz 21 de setembro de 2015 at 8:43 PM

    Ana, que texto maravilhoso!! Você escreveu tudo que tava entalado aqui. Não sou fã da banda, conheço pouquíssimas músicas, confesso, mas conhecia o Freddie né e sua voz incrível – afinal vivo na Terra. Então quando vi toda aquela comoção e um monte de gente reclamando do Adam, fiquei com uma preguiça tão grande; daí me dei o trabalho de assistir uns pedacinhos do show e nossssssa, Adam arrasou, me arrepiei as músicas inteiras e tanto amei que assisti todas as músicas e nem percebi o tempo passar. É claro que ele não é Freddie, nem é comparável, mas o que se pode fazer? Simplesmente odiar tudo? (Infelizmente, não podemos trazer as pessoas de volta) Ele foi incrível sendo ele mesmo e amei tanto; só queria que as pessoas tirassem um pouco do peso do coração e levassem esse gif da Elizabeth pra vida. Tão melhor amar as coisas!
    Beijosss

  • Reply Manu 22 de setembro de 2015 at 4:00 PM

    Gente, esse show!!!!! Achei lindo seu post porque eu mesma ainda não encontrei as palavras pra descrever como foi ver uma partezinha do Queen lá, em cima do palco, arrasando ao lado do Adam, que simplesmente LACROU. ABSURDOS. Fiquei tao feliz de ver que todo mundo ali entendia o quanto Freddie Mercury é insubstituível e em nenhum momento o Adam tentou ser uma cópia, o que só deixou o show mais bonito. Brian cantando Love of My Life pra plateia e Freddie aparecendo no telão?????? Adam divando em cima da plataforma e depois aparecendo com aquela coroa maravilhosa??? Ver Somebody to Love ao vivo?? Tenho certeza de que se eu estivesse ali no meio eu teria me debulhado em lágrimas, mas assistir do meu sofá com a plateia do twitter de companhia foi tão bom quanto poderia ser. VOLTEM DE NOVO ANO QUE VEM PLS
    :** <3

  • Reply BA MORETTI 29 de setembro de 2015 at 12:43 PM

    eu não acompanhei nenhum dos shows do RiR mas como cresci ouvindo Queen com o meu pai eu meio que conhece esse feeling todo. e porra, que feeling ♥ e esse gif define tanto o meu twitter que eu sempre me pergunto why diabos eu tô fazendo aqui. porque esse povo que vê erro em TUDO me dá uma preguiça absurda. é tão melhor curtir as coisas ou simplesmente só ficar de bouas. curtir novas vibes, novas versões, novos shows. eu como ex baterista sei a merda que é ter o mínimo de conhecimento na área e sentir sem querer toda vez que alguém erra uma música. mas isso não me dá a obrigação de esperar que alguém seja perfeito por ser músico porque ~ai tou pagando ou porque o cara tá ali por um papel importante e blablabla. até porque se você quiser ouvir a mesma música com todos os detalhes exatamente iguais cê volta pra casa e procura no youtube. mais barato eu acho e menos enxissão (putz essa palavra existe? socorro) de saco na minha timeline.

    e desculpa se ficou confuso o textão aqui mas eu amei o seu textão e fiquei emocionada HAHAHA ♥

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