ERA UMA VEZ?

EXT – MANHÃ – PONTE JK

RAFAEL corre pela Ponte JK, que está praticamente vazia. O dia está ensolarado. Carros passam fazendo barulho. Rafael continua correndo. Está ofegante, os olhos vermelhos e ligeiramente marejados, a expressão aflita de quem toma uma decisão por impulso. Ele corre por mais alguns instantes, então começa a desacelerar o passo até parar, de frente para o Lago. Se aproxima da grade, as mãos apoiadas sobre ela e se inclina pra frente. Fecha os olhos, sentindo o sol e o vento no rosto.    

INSERT

Vemos Rafael numa BANHEIRA. Ele prende a respiração e submerge na água. Solta algumas bolhas de ar pelo nariz. Quando para de soltar as bolhas, abre os olhos EMBAIXO d’água e observa o teto do banheiro.

VOLTA À CENA

Rafael abre os olhos. Olha pra baixo e observa a água passar por baixo da ponte. Pega uma moeda no bolso e joga no Lago, observando a trajetória que ela percorre até encontrar a água. Fecha os olhos novamente e respira fundo.

Uma moça se aproxima, mas Rafael não percebe. ALICE veste uma camiseta, calça jeans, uma camisa xadrez amarrada na cintura, sapatilha preta e óculos escuros. O cabelo (talvez seja colorido*) está preso num coque mal feito e ela masca um chiclete, fazendo bola com ele de vez em quando.

Alice para ao lado de Rafael, que ainda está com os olhos fechados. Ela se encosta na grade, de costas para o Lago e de frente para o rapaz. Olha para ele por alguns instantes, depois para o Lago, em seguida de novo para o rapaz co uma expressão ligeiramente desconfiada.   

ALICE

Oi, será que você pode me ajudar?

Rafael abre os olhos, assustado. Se afasta da grade subitamente e tropeça, caindo sentado no chão.

Alice se aproxima para tentar ajudar o rapaz. Estende a mão, mas ele se levanta antes. Ela recolhe a mão. Rafael esfrega as mãos na calça, claramente irritado.

RAFAEL

(esfregando as mãos na calça)

Caralho, o que foi?

Alice para de mascar o chiclete, surpresa. Tira o óculos e o coloca em cima da cabeça. Observa Rafael por alguns segundos, então dá um sorriso de deboche, vira as costas e começa a andar para longe do rapaz. Coloca novamente o óculos na cara.

Rafael fica parado, observando a moça partir. Está confuso. Então começa a correr atrás dela.

RAFAEL

(caminhando, quase correndo)

Ei, pera aí!

Alice ergue os braços, ainda de costas para Rafael.

ALICE

(caminhando com os braços levantados)

Tá tudo bem, pode deixar.

RAFAEL

(ainda caminhando na direção de Alice)

Foi mal, eu não quis ser escroto com você!

Alice se vira, os braços já abaixados, e fica de frente para Rafael, mas ainda caminhando.  

ALICE

(caminhando de costas, mascando o chiclete)

Tá tudo bem, cara. 

Alice sorri ao terminar de falar. Volta a andar de costas para Rafael. Vemos ele apressar o passo para chegar mais perto da moça. Quando está perto o suficiente ele segura seu braço de forma GENTIL.  

RAFAEL

(segurando o braço de Alice)

Espera.

Alice para e os dois se encaram por alguns segundos. Então eles começam a rir. Rafael solta o braço de Alice, suspira e passa a mão pelo cabelo.

RAFAEL

Foi mal, tá? Não quis ser grosso com você — mesmo.  

ALICE

Mas você foi, sabe?

Rafael faz uma careta. Alice acha graça. Tira os óculos escuros e o coloca de volta na cabeça.

ALICE

Tá tudo bem.

RAFAEL

Você precisava de ajuda.

Alice olha para Rafael, de forma ligeiramente arrogante. Cruza os braços enquanto masca o chiclete.

ALICE

Você se olha no espelho de vez em quando?

Rafael olha pra baixo, como se analisasse o próprio corpo. Em seguida volta o olhar para Alice, ainda meio curvado, os olhos meio fechados por causa do sol, o cabelo bagunçado.  

Alice está com os braços cruzados, observando o rapaz. 

RAFAEL

(Sorrindo de forma DEBOCHADA)

É o que temos pra hoje.

Alice faz uma bola com o chiclete que estoura logo em seguida. Ela olha pro lado, depois para Rafael. Pausa enquanto Alice avalia o rapaz. Ela ESTENDE uma das mãos na direção do rapaz, cada unha pintada de uma cor, e desce o óculos de volta para o rosto com a outra. 

ALICE

Aceito. 

♥  

>> Esse post é um oferecimento de “não consegui pensar em nada pra postar a tempo” e “tenho mil ideias mas não consigo desenvolver nenhuma delas”. Em outras palavras, este é um post de emergência, pra não deixar um dia em braco durante o BEDA.

>> Pra quem não entendeu nada, essa a cena de um roteiro, mais especificamente a primeira versão de uma cena do primeiro roteiro que escrevi de verdade. É um roteiro bem ruim, sério mesmo, então relevem qualquer coisa. Mas por favor, não gonguem muito que meu coração não aguenta, risos.

>>> Tô testando um esquema de cores novo pro blog porque meio que enjoei do rosa. Então não se assustem se numa hora estiver tudo azul e na hora seguinte amarelo.   

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8 Comments

  • Reply Maria Fernanda 27 de agosto de 2015 at 3:54 PM

    Cara, ADOREI. É simplesmente sensacional. As coisas que ficaram por dizer, a mensagem subliminar – seria mesmo uma mensagem? – por trás da narrativa. SENSACIONAL.

    Quero mais desses dois. Já tem muito amor envolvido.
    A descrição da cena foi linda. Deu pra imaginar tudinho ♥

    Beijos

  • Reply Ana 27 de agosto de 2015 at 4:54 PM

    E a continuação?
    Tô com a moça aí em cima, deu pra imaginar tudinho. Eu não tenho dedo ou tato pra essas coisas. Você faz bem. Quando tentei esses dias transformar música em crônica/historinha foi um terror. Acho que tu se sairia melhor em algo assim.

    Beijão! <3

  • Reply Ana Flávia 27 de agosto de 2015 at 5:36 PM

    Oi Ana! <3
    Para com isso, que negócio legal esse roteiro!
    Serião! Adorei. Li como se estivesse assistindo a cena, tim tim por tim tim.
    Beijos. ♥

  • Reply Yuu 27 de agosto de 2015 at 11:29 PM

    Então, Ana, fiquei procurando o roteiro ruim, mas, desculpa aí, não achei. Se você está falando desse roteiro, com “EXT – MANHÃ – PONTE JK” no título, então você é bem modesta, rs. Sério, eu adorei.

    Se tem um gênero (pode chamar assim?) que eu nunca explorei foi o dos roteiros. Uma vez, na 8ª série, meu professor de filosofia quis fazer um teatrinho com um capítulo de O Mundo de Sofia, e como não sou atriz nem nada, fiquei encarregada de adaptar o texto para roteiro. Eu tinha 14 anos, a peça não durou mais que dois ensaios em aula, e eu nem lembro o resultado daquilo. Mas, agora fiquei encantada em como a descrição da cena e dos gestos faz a gente imaginar a cena com tanta clareza. Compartilhe mais!

    Obs: Post tapa-buraco, todos temos um. Logo no quinto dia eu postei um poema antigo, veja só. A gente se vira como pode.

    Beijinhos!

  • Reply Thay 27 de agosto de 2015 at 11:42 PM

    G-E-N-I-A-L!

    Sério, Ana, eu amei, amei teu roteiro! Eu não sei escrever esse tipo de coisa e praticamente morro escrevendo uma simples carta, haha. Deu pra imaginar tão direitinho tudo isso, foi muito bom!

    AH, e sobre o Tiago Iorc (mozão), se não me engano ele vai fazer show aí pro seu lado por final de setembro! Dá uma olhadinha e se joga (e filma a dancinha coreografada no final pra mim, porque fiquei tão em choque que não me lembrei de fazer isso, haha).

    Beijo!

  • Reply Anna 28 de agosto de 2015 at 3:06 AM

    Amiga, AMEI!
    Me manda ele completo pra eu ler, se você não for postar? #curiosine
    Super consegui enxergar as coisas, o movimento, e quero saber mais sobre eles! Não tem nada de ruim aí, viu?
    beijos!

  • Reply Analu 28 de agosto de 2015 at 11:14 AM

    Ei amiga <3
    Eu demoro mas eu sempre chego, veja!
    Achei uma delicinha a trama de Alice e Rafael e JÁ QUERO MAIS. Cê para de graça de ficar falando que é ruim.

    Te amo! <3333

  • Reply Monique Químbely 24 de setembro de 2015 at 1:11 AM

    Que legal isso! Nunca vejo roteiros por aí assim pra gente ler <3 Ficou bacana porque deu a agilidade que eu acho que esse tipo de texto possui e foi escrito de uma maneira que deu pra visualizar mesmo as cenas. E eu amei a Alice. Se puder, faz continuação ;)
    Bjss

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