ERA UMA VEZ?

EXT – TARDE – PONTÃO

Rafael e Alice estão sentados no píer. Ele observa o Lago, as pernas cruzadas, a coluna ligeiramente curvada para a frente. Alice também está com as pernas cruzadas, mas mantém os braços como apoio para se inclinar para trás. Inclina um pouco o rosto para pegar o máximo de sol.

RAFAEL
Eu vinha muito aqui quando era pequeno.

ALICE
Hum — por que não vem mais?

RAFAEL
Um dia meu pai decidiu que a gente não ia vir mais, só isso.

Alice levanta um pouco o corpo e observa Rafael com interesse. Ele continua a falar, sem olhar para a moça.

RAFAEL
Eu meio que — eu meio que fui criado numa família de gente que nunca se importou com quem eu queria ser ou o quê. Eles nunca me deram muita opção, pra falar a verdade.

Rafael passa a mão no cabelo e olha pro céu em seguida, o rosto franzido e os olhos quase fechados por causa da claridade.

RAFAEL
As coisas meio que saíram do controle quando eu decidi que não queria viver mais desse jeito.

ALICE
Por isso você estava na ponte.

RAFAEL
Por isso eu estava na ponte.

Silêncio.

ALICE
Se servir de consolo, acho que eu não descobri até hoje quem eu quero ser, assim, tipo de verdade?

Rafael olha pra Alice e sorri. Ela retribui.

ALICE
Quando eu desisti da faculdade pela terceira vez, minha mãe quase teve um infarto (os dois começam a rir). Não era exatamente essa vida que ela queria pra mim. Acho que alguém aqui está fazendo tudo errado.

RAFAEL
Ou muito certo.

Silêncio. Os dois olham para o Lago por alguns instantes.

RAFAEL
Como é? Largar tudo assim?

ALICE
Libertador — e terrível ao mesmo tempo.

Rafael olha para Alice, que continua a observar o Lago iluminado apenas pelos raios do sol.

ALICE
Libertador porque, sei lá, é um peso que você tira das costas e tal. Você tem certeza que não vai fazer uma coisa que não quer e tudo bem, é melhor assim. Mas é desesperador também porque depois de um tempo você percebe que fez a escolha errada de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e que pode continuar fazendo uma escolha errada atrás da outra pelo resto da vida.

Silêncio.

RAFAEL
O que a gente faz agora?

ALICE
Já te mostro.

> Pra quem não entendeu nada, esse texto é, na realidade, uma cena de um roteiro que eu escrevi no ano passado e que, inclusive, já compartilhei outra cena com vocês bem aqui. É um roteiro bem ruinzinho, pra falar a verdade, mas que eu tenho um carinho enorme e que espero poder transformar em filme algum dia. Por favor, não gonguem muito porque meu coraçãozinho não aguenta, risos. Maturidade, claramente não trabalhamos. 

>> As duas cenas não são uma sequência, tá? Só pra esclarecer.

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1 Comment

  • Reply shad 8 de dezembro de 2016 at 2:49 PM

    tem uma lágrima escorrendo no meu rosto nesse momento. eu n sou de chorar moça, o que é que tu fez? eu devo tá muito desgraçada mentalmente mesmo.
    não me entenda a mal, teu texto é lindo, lindo mesmo. muito delicado. imaginei, respirei essa cena. mas é pq eu não choro mesmo. não choro mesmo. é difícil.
    e chorar lendo um texto me faz perceber o quanto tô mal mesmo. talvez perceber seja um coisa boa. ou não. poxa vida.
    obrigada.

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