COM AMOR

FORMAS DE VOLTAR PARA CASA

De Brasília até Correntina percorre-se pouco mais de 530km; mais ou menos cinco horas se você estiver de carro, um pouco mais se estiver de ônibus. Não é uma viagem longa, tampouco cansativa, e não exige muito mais do que vontade e alguns trocados para ir até lá. Quando era pequena, qualquer feriado era motivo para sair de Brasília rumo à Correntina, e eu sempre gostei como, mesmo muito nova e impaciente, as coisas se moviam do lado de fora. De dia, o céu muito azul se desloca, acompanha, faz desenhos com suas nuvens brancas como algodão, enquanto a estrada, o cerrado e as imensas plantações que até hoje não sei bem do que é, são as únicas coisas no chão. Minha mãe sempre dizia para não olhar as árvores por muito tempo, nem tão fixamente; do contrário, eu poderia passar mal; mas eu desobedecia todas as vezes porque parecia injusto deixar aquela paisagem tão bonita passar batido. Eu imaginava quem morava ali, quem cuidava de tudo aquilo, se existiam pessoas, casas, vida depois daquelas pequenas estradas de chão feitas no meio do nada, e gostava de imaginar como seria morar ali, como seria estar tão distante de tudo. Na época, internet ainda era algo muito restrito, uma mordomia limitada aos moradores das grandes capitais, mas nem mesmo o telefone, uma coisa tão básica, parecia funcionar naquela terra de ninguém.

À noite, são as estrelas que acompanham tudo isso e iluminam a paisagem que, do contrário, desapareceria em meio à escuridão. O céu do interior é sempre mais bonito, mais limpo, é muito fácil enxergar as estrelas ali. Da última vez que viajamos, eu e Guilherme procuramos estrelas, constelações, satélites, e era possível ver tudo ali de baixo. Ao mesmo tempo, eu pensava em filmes de terror; espantalhos que acordavam no meio da noite em uma plantação qualquer e se alimentavam de viajantes desavisados, zumbis que passeavam sozinhos como aquele da abertura de The Walking Dead. Como seria viver em um mundo destruído pela praga? Como seria caminhar por aquelas estradas rumo a lugar nenhum? Como seria viver no meio de um apocalipse zumbi? Sempre lembro do Hershel, que morava no meio do nada e, por muito tempo, conseguiu manter a família afastada da realidade, mais ou menos alheia ao que acontecia fora da fazenda. Mas a que preço? Nunca disse que não tinha uma imaginação fértil, mas são esses pensamentos e essas histórias cabeludas que me confortam enquanto, pouco a pouco, me entrego ao sono.

Estar na estrada é diferente de chegar ao destino. Em Correntina não existem zumbis, não existem espantalhos assassinos, não existem celeiros lotados de monstros que comeriam meu cérebro na primeira oportunidade. Mas existem histórias. Boa parte dessas histórias são o que me motivam a voltar pra lá sempre que possível, a entrar em contato com minhas memórias, mas principalmente com um passado que não é diretamente meu. Eu sei que estou em casa muito antes de ver as luzes da cidade, muito antes de sequer entrar na rua Coronel Flores ou na casa dos meus avós, mas quando desço a ladeira de paralelepípedo e ouço o barulho do rio, é quando me lembro que boa parte da minha história começa ali. Mais de um século atrás, meu avô nascia naquela mesma cidade, e antes disso sua família – que eventualmente se tornaria minha – já habitava aquelas ruas, construíam suas próprias narrativas. Estamos em todos os lugares. Quando viajo de ônibus, só o fato de estar parada na rodoviária me lembra que tudo está carregado de história: antes de ser a rodoviária da cidade, aquele terreno pertenceu ao meu avô, e foi ele que o vendeu para a prefeitura da cidade muito, muito tempo atrás construir um lugar onde as pessoas pudessem embarcar e desembarcar de forma apropriada, e os ônibus não precisassem parar em lugares aleatórios no meio da cidade. Guilherme sempre brinca que meu avô era dono da cidade, porque nas histórias ele sempre conhece todo mundo e é dono de todos os lugares, mas isso não é verdade, muito embora ele de fato conhecesse muitas pessoas e fosse dono de muitos lugares.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que teve início a Primeira Guerra Mundial; dois acontecimentos que parecem muito, muito distantes, mas não tão distantes assim. Ele nasceu e cresceu na cidade, assim como seus irmãos e seus filhos depois dele, e não é difícil entender por quê ele sempre esteve tão presente, como ele conhecia tantas pessoas, como praticamente todos os moradores daquela pequena cidade no interior da Bahia dividiam algum tipo de parentesco com ele e, consequentemente, com todo o resto da família. Minha prima Renata costumava dizer que sempre que íamos pra Correntina, a gente descobria a existência de um novo parente, e é verdade. Se não fossem parentes legítimos, eram amigos suficientemente próximos para serem considerados parte da família; amigos dos meus avós que viram seus filhos crescerem e se tornarem amigos, brincarem nas mesmas ruas e das mesmas coisas até o dia que começaram a sair da cidade em busca de uma vida melhor e ter os próprios filhos. A minha geração não é tão próxima justamente porque somos fruto de outros lugares – Brasília, Salvador, Goiânia -; mesmo nas férias, era difícil forçar uma amizade que durava no máximo algumas semanas. Foi um laço que, inevitavelmente, se perdeu com o tempo, ainda que, daqui alguns anos, as únicas pessoas que vão se lembrar dessas histórias e dessas pessoas seremos nós. Eu tenho medo do esquecimento, eu tenho medo de pensar que meus filhos jamais vão conhecer meu avô, que tudo que eles vão saber sobre ele será a partir de memórias minhas e da minha mãe, e essas jamais terão o mesmo significado, porque não fazem parte daquilo que eles viveram. Mas tudo vai continuar ali, na cidade.

Meus avós se casaram na mesma igreja branca com detalhes azuis que fica em frente à praça, ao lado da antiga delegacia e do Hotel de Vivi, que há muito já não hospeda ninguém. Minha avó se casou de preto, porque esse era o único vestido de festa no seu armário, já com quase 30 anos, numa época em que mulheres da idade dela já eram consideradas velhas demais para o casamento. Tudo foi feito às pressas, no dia do aniversário dela; meu avô também já não era nenhum menino e os dois se conheceram de maneira inesperada, quando minha avó ainda não morava em Correntina e estava noiva de outro rapaz. Ela rompeu o noivado para se casar com meu avô e, cinquenta anos depois, os dois celebrariam bodas de ouro naquela mesma igreja – dessa vez, com minha vó usando um belo conjunto nude e dourado. Foi uma noite linda, que se estendeu madrugada adentro, numa imensa festa no hotel, e eu percebi o quanto minha família era importante e amada na cidade. Eu não conhecia aquelas pessoas, muitas delas também não me conheciam, mas todos estavam ali pelo mesmo motivo: celebrar o amor de duas pessoas que eles amavam profundamente. Ao longo da festa, muitas dessas pessoas subiram no palco e homenagearam meus avós – com músicas, poesia, discursos e histórias – e a cada uma delas eu sentia mais e mais orgulho de pertencer a essa família, de ser fruto dessas narrativas.

A última vez que entrei naquela igreja foi em 2009, na missa de corpo presente do meu avô. Tudo aconteceu muito rápido e de repente; nós fomos todos pegos de surpresa. Ele não estava doente, na verdade ele não poderia estar melhor, até que, de repente, não estava mais. Eu nunca chorei tanto em toda a minha vida, ou sofri tanto e quis tanto poder voltar no tempo. Mas foi no meio da tristeza que, mais uma vez, senti orgulho por fazer parte dessa família, por não apenas ter conhecido um homem tão especial quanto o meu avô, mas por tê-lo chamado de avô e ouvido de volta ele me chamar de passarinho. Todas as pessoas que o amavam estavam ali mais uma vez, e elas relembraram histórias, choraram, disseram palavras lindas e nos encheram de… amor. Eu nunca me senti tão triste em toda a minha vida e, ainda assim, poucas vezes me senti tão amada e confortada. Nunca mais entrei naquela igreja – menos por uma decisão consciente, mais porque as oportunidades se tornaram cada vez mais escassas -, mas quando penso em casar no religioso, penso em fazê-lo lá, numa tentativa ambiciosa e meio ridícula de continuar a escrever essa história e ligar o passado a um presente que parece se importar cada vez menos com aqueles que vieram antes dele.

Enterrei meu avô no mesmo lugar em que meus bisavós estão enterrados, e acho que foi naquele momento que me dei conta da quantidade de histórias que moravam ali. Eu podia ou não assumir aquelas histórias como minhas, podia ou não dar continuidade à elas, mas elas continuariam existindo naquele lugar – nas ruas de paralelepípedo, nas casinhas coloridas com piso cimentado, nas ladeiras, tantas ladeiras, no rio que corta a cidade ao meio, nas pessoas, principalmente nas pessoas. São muitas histórias, e ainda que a vida tenha me ensinado que o tempo é capaz de apagar muitas coisas, talvez o esquecimento não seja a regra. Talvez exista uma maneira de preservar esse passado, talvez eu não seja a única preocupada em resgatar e registrar essas lembranças.

Faz muito tempo que não coloco meus pés em Correntina, mas cada vez que estou lá, é como estar novamente em casa. Gosto, especialmente, quando viajo à noite e de ônibus porque sempre chegamos de madrugada, num horário cedo demais para alguém estar acordado, mas tarde o suficiente para ninguém perambular pelas ruas, e é enquanto caminhamos no escuro e em silêncio até a casa da minha avó, que eu sinto a vida que existe ali e, inevitavelmente, me sinto muito viva também. Viva de um jeito idiota. Viva de um jeito que só a ideia de herança e passado e todas essas bobagens que ninguém se importa, mas eu me importo demais, te dá. Então eu penso no meu avô, e penso na minha mãe brincando com filhotes de ratos naquelas ruas, dando os primeiros beijos, indo às primeiras festas. Na minha avó brigando com minha tia avó que esse ano completou cem (!) anos e a cidade inteira comemorou junto com ela. Penso no rato que caiu do telhado em cima da cama quando minha avó estava grávida do seu primeiro filho e meu avô, que disse que aquilo obviamente não ia acontecer, ficou desesperado. Nos quartos que hoje têm vídeo game e computador, mas que um dia tiveram posteres do Roberto Carlos cobrindo as paredes. Na minha mãe correndo apavorada de uma vaca. Do meu avô distribuindo leite, cuidando com carinho do gado, admirando o canto do sabiá. Tudo isso é também uma parte de mim – indireta e distante, mas ainda assim. Eu, que brinquei naquelas ruas, que chorei olhando aquelas estrelas, que corri com galinhas, nadei naquele rio; que vivi coisas realmente horríveis, mas outras incríveis, especiais.

Quando era mais nova, me ressentia por não ter origens mais interessantes, por minha vida começar numa cidadezinha no interior da Bahia, pelo meu sobrenome não ser tão único e diferente. Hoje, no entanto, só posso dizer que estar ali é como estar de volta ao lar – e eu nunca senti tantas saudades desse lar.

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1 Comment

  • Reply Manu 13 de agosto de 2017 at 6:41 PM

    AHHHHHH ANAAAAAAAAAAA
    QUE POST MAIS LINDO
    Se eu fosse um pouco mais coração mole estaria chorando, juro. Você, contando a sua história, sem querer também conseguiu explicar pra mim um pouco da minha e dos meus sentimentos. Nosso senso de casa vai muito além das quatro paredes e do telhado, e reconhecer a riqueza das pessoas e coisas que nos levaram a ser quem a gente é é muito importante. Eu fico feliz quando te vejo falar assim da sua família, que mesmo só conhecendo pela internet é muito maravilhosa <3 <3

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