BEDA, JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

I DON’T EVEN KNOW

Ou: O terror e as maravilhas dos vinte e poucos anos.

Pra ler ouvindo:

Não sei muito bem como começar esse texto. Tentei montar duas mil introduções diferentes pra ele na minha cabeça, organizar minhas ideias pra só então colocar tudo na tela, falhando miseravelmente em todas elas. Mas eu precisava escrever. Não porque não tinha nada programado pra hoje (não tinha), não porque tinha alguma espécie de obrigação comigo mesma (tinha), mas porque eu precisava. Talvez, pela primeira vez durante todo o BEDA, eu senti a real necessidade de sentar e escrever alguma coisa (mas não qualquer coisa), do jeito mais puro e difícil da coisa: sentando e literalmente escrevendo. 

Eu tive uma semana bem ruim. Quando eu digo bem ruim não tenho a mínima pretensão de soar mexicana, é só que ela foi ruim mesmo. Não num sentido trágico, só ruim. Sabe aquelas semanas que a gente acorda na segunda-feira querendo morrer e, a cada dia que passa, quer morrer com um pouquinho mais de intensidade? Uma semana onde tudo parece meio errado, uma semana em que seu cabelo não fica bom, a roupa nunca parece adequada, o mau humor não vai embora e você não tem a menor disposição de encarar o mundo lá fora? Pois é. Meio sem perceber, eu fui afundando, deixando que as bad vibes me consumissem até que se tornou um exercício de tempo integral quase insuportável estar no meu próprio corpo. Então, quando as coisas começaram a se transformar em coisas de verdade, tipo eu ficar doente ou quando um maluco passou e achou de bom tom levar meu retrovisor junto, eu quase pude acreditar que era meu inferno astral de volta, não porque eu acredito 100% nesse tipo de coisa (80% talvez?), mas porque é um conceito que me parece ideal pra traduzir esses períodos em que tudo parece dar tão errado, ainda que não tenha um motivo certo pra isso, só nossa visão pessimista de sempre e uma dose de mau humor pra completar.   

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Me dá um pouco de aflição quando vejo a vida com essas lentes do pessimismo porque, de alguma forma, elas me endurecem e eu não quero me tornar uma pessoa dura, sabe? Aliás, meu maior medo enquanto adulta em formação é me tornar uma pessoa endurecida pelo tempo, que não consegue se encantar com os pequenos milagres da vida, que perde um pouco a própria doçura nesse processo maluco que é se tornar gente grande. When you grow up, your heart dies, diria Allison, em Breakfast Club, um filme que gosto de assistir sempre que a vida não parece muito gentil (ou seja, quase o tempo inteiro), ao mesmo tempo que tenho Lelaina Pierce me dizendo do outro lado que o universo não me deve favor algum, o que não deixa de ser verdade, então talvez eu só devesse continuar seguindo em frente. Mas será que a gente não pode pegar mais leve de vez em quando? Será que não dá pra esperar um período menos conturbado pras coisas começarem a desabar na minha cabeça? Sei lá, acho que não custa pedir.

Não faço a menor ideia do que estou fazendo com minha vida já é quase um clichê entre as pessoas mais ou menos da mesma idade que eu, que repito pra mim mesma o tempo inteiro de uma forma quase exaustiva, da hora que acordo até a hora que vou dormir. No entanto, entre o choro no banheiro do trabalho e os momentos de puro desespero onde tudo o que eu mais queria era poder fugir da minha própria vida e dessa fraude que em algum momento me tornei, eu também estou vivendo coisas importantes, me encantando com essa loucura de alguma forma, tendo as melhores pessoas do mundo segurando minha mão e dançando com os braços pra cima sozinha no meu quarto no fim do dia. Ontem, depois de um dia que não foi bom mas não foi ruim também, eu sentei na frente do computador só pra adiantar um pouquinho a minha vida, até que começou a tocar uma música e não mais que de repente eu me vi parando tudo só pra rodopiar um pouquinho pelo quarto, ainda que a música em questão fosse meio triste e me desse vontade de chorar na mesma medida que me fazia querer dançar. I don’t even know, repetia o refrão e eu, que não sei de nada mesmo, cantava junto e chorava também, naquele momento meio tosco que podia ser a cena de um filme, mas era só mais um capítulo da minha novela mexicana particular.

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Being grown up isn’t half as fun as growing up, diz uma outra música que desenterrei das profundezas da minha pré-adolescência, um presente da Ana de dez (!) anos atrás pra Ana de hoje, e imediatamente me senti abraçada e pensei: é isso. Assim como Taylor, que está sempre pronta pra nos dizer que life was never worse but never better (outra frase que, aliás, é repetida à exaustão nas páginas deste blog), o The Ataris já estava poetizando essa loucura que é ter 20 e poucos anos, meio uma adolescência tardia com um pouco mais de liberdade do que aos 15 e mais responsabilidades do que a gente acha que consegue lidar, dez anos atrás. Aos 12, cantar sobre noites que passei acordada conversando com minhas amigas, citando nossas quotes favoritas de todos os filmes que vimos, parecia fazer todo o sentido do mundo, é claro, mas só agora eu percebo que nada disso fez tanto sentido ou foi tão meu quanto é agora. 

Entre o pessimismo do dia-a-dia, a certeza de que estou bem longe de ser aquilo que imaginei um dia e papos sobre dragões que parecem frangos verdes num prato, ter alguém me dizendo que these are the best days of our lives é um alívio, a trégua que eu preciso de mim mesma pra enxergar a vida com um pouquinho mais de gentileza, sem me cobrar demais por coisas que nem estão ao meu alcance. Seria ótimo se eu já estivesse formada e morando sozinha com meus bichos e namorado, mas deixa eu dançar aqui só mais um pouquinho, rapidão, antes de pensar nisso tudo de novo e cantar sobre that unspoken feeling of knowing that right now is all that matter.

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Não é difícil que eu me esqueça, no meio de um dia (ou de uma semana) ruim, que as coisas não são assim o tempo inteiro. Ao contrário dos 21, os 22 têm sido uma provação constante e às vezes é difícil assistir as coisas saírem do nosso controle e deixarem de fazer sentido, ou simplesmente não serem como a gente quer. Eu choro enquanto danço com os braços pra cima sozinha no meu quarto porque ser adulta em tempo integral é mais puxado do que contam e infelizmente ninguém ensina o que a gente deve ou não fazer em cada enrascada que se mete. É preciso quebrar a cara pra amadurecer, já diria alguém, sei lá, e quem sou eu pra discordar? Ao mesmo tempo, as coisas não estão tão ruins que não possam ser rapidamente melhoradas e então, de um jeito meio esquizofrênico mas bastante honesto (juro), eu estou rindo entre as lágrimas e curtindo cada minuto dessa loucura.

Eu preciso que meu mundo desabe um pouquinho pra perceber que as coisas são boas sim, mais até do que eu consigo ver. Eu posso não ter o emprego dos sonhos, mas ganho o suficiente pra viajar com minhas amigas num feriado qualquer; eu ainda não moro sozinha, mas vivo numa casa legal com pessoas que amo e sempre posso fazer festa com meus amigos sem ter ninguém enchendo o saco; morro de medo de fazer alguma merda (aliás, vergonha infinita de fazer merdas de um modo geral), tomar uma decisão precipitada ou fazer uma escolha errada, mas veja só que coisa, eu estou fazendo minhas próprias escolhas, tomando minhas próprias decisões – e quando dá errado, eu sempre posso fazer piada com isso. Não é maravilhoso ser o dono do próprio nariz? 

Quando olho pra mim mesma, a primeira certeza é a de que não sou quem eu imaginei que seria, com tudo no devido lugar, mas se tem uma coisa que a vida me ensinou é que ninguém tem the shit totally together. Essa mesma vida que é muito boa, mas não o tempo inteiro, porque nada é mesmo tão belo quantos os filtros do instagram nos fazem crer. No fim do dia eu continuo nesse deck de cilada, sendo a Ana que não faz a menor ideia do que está fazendo com a própria vida, que ainda navega meio perdida por esse oceano de incertezas, e que não sabe muito bem qual é o seu lugar no mundo, achando que tudo parece muito errado, mas não errado o suficiente que um pote de Nutella e umas boas horas de sono não resolvam. Isso ou o maravilhoso vídeo de um cavalinho.

plmdds vejam esse vídeo

Ou seja, talvez eu nunca tenha tido tantas questões na minha vida, mas talvez eu nunca tenha sido tão feliz também.

♥     

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4 Comments

  • Reply Plan 29 de agosto de 2015 at 6:27 PM

    Amiga, acho que é normal esse momento de desespero, de não saber direito qual caminho estamos seguindo, mas é importante também ver as coisas boas. E geralmente elas não são tão grandes no momento, mas são nelas que a gente tem que prestar atenção. Já cansei de dizer que é bom olhar para as pequenas alegrias DO DIA, porque daí no fim da semana ou no fim do mês tu ve que não foi tão ruim assim.
    A verdade é que ta todo mundo mal, e assustadoramente o pessimismo ta tomando conta, mas a gente não pode deixar, sabe?
    Então vou adicionar aqui pra ti mais uma quote de música, que talvez resuma todo meu comentário.

    “THIS IS GOING TO BE THE BEST DAY OF MY LIFE” American Authors.

    Te amo <3

  • Reply Anna 29 de agosto de 2015 at 11:09 PM

    Amiga, essa vida é muito louca, né? Porque eu entendo completamente esse sentimento de estar meio mal, mas ao mesmo tempo reconhecer que está mais feliz do que nunca. Eu vivo nessa vibe em tipo 90% do tempo. Acho que somos a primeira geração a ter o futuro em aberto, e isso é incrível e horrível na mesma medida, estamos aprendendo ainda a conviver com isso, é difícil andar na areia movediça. Acho que o importante ao sair dessa é mentalizar que sim, life was never worst but never better, it’s a bad day not a bad life e que tá todo mundo mal. Se até a Jout Jout tá mal, o que sobra pra nós? Vamos nos abraçar!
    beijos
    amo você!

  • Reply Analu 30 de agosto de 2015 at 7:24 PM

    Acho que nem preciso comentar mais uma vez que “life was never worse but never better” é uma das quotes que regem meu (nosso) momento de vida, né?
    Esse negócio de ser adulto é tão complicado, e parece que quanto mais a gente insiste em filosofar sobre o assunto, mais complicado fica. Essa foto do cachorrinho segurando a própria coleira meu de um mindfuck desgraçado porque MEU DEUS É ISSO.
    Que bom que temos o vídeo do cavalinho para anuviar quando precisamos. E temos A Gente também.

    Te amo! <3

  • Reply Passarinha 31 de agosto de 2015 at 3:00 PM

    Amiga, estou tendo um dia muito ruim que não acaba nunca (nem quando vira a noite), e seu texto traduz muito bem o que é esse trem de cilada que é ter vinte e poucos anos e está vida. Parece que tudo acontece ao mesmo tempo e é muito difícil de lidar.

    Então quinze minutos atrás eu saí do banheiro enxugando os olhos e achando que sobreviveria mais uma hora sem passar vergonha na mesa, e agora já estou aqui de novo.

    Te amo.

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