DRAMAS REAIS

I GUESS IT’S UP TO ME

Ou: Uma pequena reflexão sobre músicas ruins que fazem todo sentido do mundo.

Então eu desenterrei um cd cheio de músicas que eu ouvia quando era mais nova. Tipo, bem mais nova. Tipo coisa de 10 anos atrás (nossa, como eu tô velha), quando o futuro ainda era muito mais promissor e bem menos assustador do que é agora. Ou seja: muito tempo. Eu não fiz isso porque de repente bateu uma saudade das músicas duvidosas que eu ouvia quando tinha 12 anos. Foi, na verdade, muito mais uma questão de necessidade, de estar enjoada de passear em looping pelo 1989 e não ter paciência pras rádios que passam uma propaganda atrás da outra ao invés de música, do que saudade da minha pré-adolescência – que não foi ruim ruim, mas que não foi muito fácil também -, mas ainda assim, eu desenterrei um cd cheio de músicas que eu ouvia quando era bem mais nova do que sou agora e meu deus, que momento maravilhoso, que momento desesperador.    

Maravilhoso porque, apesar de tosco, foi o momento em que eu pude ser honesta de verdade com a Ana de quase 10 anos atrás, que sonhava em ouvir essas mesmas músicas enquanto dirigia seu próprio carro, com os vidros abertos e o cabelo voando junto com o vento, quase gritando aquelas letras que faziam tanto sentido pra ela e sua realidade de adolescente meio deslocada. Desesperador porque, depois de tanto tempo, perceber que aquelas músicas ainda fazem todo o sentido do mundo, ainda que sua realidade agora seja muito diferente, e que ela continua conversando com você de uma forma tão única e significativa é, no mínimo, desesperador pra cacete.   

O tal cd não é um álbum propriamente dito, mas uma coletânea daquilo que eu mais ouvia na época. Tem umas coisas bem bizarras, tipo Fake Number e Jonas Brothers, que não fazem o menor sentido, mas que são divertidas mesmo assim (pelo menos no caso dos Jonas Brothers); e outras que, no caso, são as músicas que continuam fazendo sentido, ainda que elas não façam sentido at all. Porque por mais que eu continue amando Simple Plan, por exemplo, eu reconheço que eles não são lá o primor da música contemporânea, mas não consigo ignorar quando Pierre abre a boca e canta naquela sua voz meio anasalada (?) que eu amo demais, que estamos todos seguindo caminhos de um destino prescrito e que every wasted day becomes a wasted chance.   

E aí eu olho pra minha vidinha de classe-média, que não é boa mas não é ruim também, cheia de privilégios e com um caminho praticamente traçado, e só consigo pensar que eu devia estar fazendo muito mais do que ir pra faculdade e estagiar 4 horas por dia, que a gente não tem 20 e poucos anos pra sempre e que só se vive uma vez, e que eu devia fazer muito mais do que só aceitar a vida que foi jogada na minha frente por pura inércia ou talvez por medo de arriscar ser aquela pessoa que eu sonhei quase 10 anos atrás.

Uma vez eu disse que ser quem a gente quer dá medo pra caramba e eu continuo achando que dá mesmo. Porque isso exige que a gente saia da nossa zona de conforto e arrisque coisas que nem sempre estamos dispostos a colocar em jogo. Porque mudar dói e dói muito, e é por isso que é tão difícil escolher fazer isso por conta própria. Mas cada vez que eu penso que poderia estar fazendo qualquer outra coisa que não passando o dia inteiro na frente de um computador editando planilhas, ou quando eu ouço uma música que joga na minha cara que a vida não vai esperar e que eu vou acordar todo dia me sentindo culpada por não ter corrido atrás do que eu queria, me dá uma coragem que eu certamente não tenho o tempo inteiro e que também não me ajuda a pensar com mais clareza (e a prova disso é esse texto), mas de alguma forma faz com que eu interrompa esse ciclo e pare de me deixar levar por um plano que pode ser bom pra muita gente, mas que não necessariamente vai funcionar pra mim. 

Quando eu me vejo completando cada fase desse ~sonho brasileiro~, não porque é isso que eu quero, mas porque as circunstâncias me levaram pra esse lugar/porque era mais fácil/foi o que deu, paciência, eu me desespero sim, porque é como se um pedacinho de mim e um pedacinho do meu sonho original morresse. Passar pra uma das melhores universidades do país foi maravilhoso e me deu uma vivência e um amadurecimento que eu sem dúvida não teria em outro lugar, mas foi só o esperado. Conseguir um estágio num órgão público também e, posteriormente, o esperado é que eu passe num concurso e tenha uma vida bacana, ou então trabalhe num lugar que me dê visibilidade e de alguma forma pareça certo, mesmo que não seja certo pra mim. Quando eu disse pro meu pai que tinha passado pra Comunicação, a primeira coisa que ele me perguntou foi se eu trabalharia na Globo, porque esse é o ideal comum, porque é isso que as pessoas esperam que você faça e olha, tá tudo bem se seu sonho for ser âncora do Jornal Nacional, mas isso definitivamente não é o que eu quero pra mim.  

Ninguém pergunta o que eu quero, o que eu espero de mim mesma ou quem eu quero ser porque isso simplesmente não importa muito quando a vida começa a acontecer na nossa frente e a gente percebe que ser adulto é muito mais difícil e chato do que cansamos pensar quando éramos jovens e cheios de tempo livre, mas eu nunca esperei que fosse fácil anyway. Só que eu já me permiti ser esmagada por sonhos que não eram meus e vontades que não eram minhas só porque era mais fácil ser passiva ao invés de ir lá e tentar fazer alguma coisa a respeito. Eu tenho amigas que sonham em ser cineastas, eu tenho amigas que sonham em escrever pra revistas, lançar os próprios livros, ser atriz ou fazer um intercâmbio. Algumas também querem passar num concurso, porque não tem nada de errado com isso, enquanto outras só querem mesmo ser mães em tempo integral. Eu tenho amigas cheias de sonhos que nem sempre são realizados, porque a vida é assim mesmo, paciência. Ou seja, eu não estou sozinha. Mas será que a gente não devia se esforçar mais um pouquinho?     

Escutar uma música que eu ouvia aos 12, quando tinha muitos sonhos e nenhuma maturidade (não que eu tenha muita hoje), e sentir exatamente as mesmas coisas que eu sentia quando era mais nova me dá, de certa forma, esperança de que talvez, lá no fundo, eu continue sendo a pessoa que eu era. Que aquela menina sonhadora de sempre ainda existe e, afinal de contas, sendo a pisciana melosa que eu sou, eu não estou mesmo em posição de negar minhas origens. Que meu coração não morreu. Só que também não é como se amanhã eu fosse jogar tudo pro alto e de repente fosse viver a vida que eu sempre quis, agindo como a adolescente inconsequente que eu fui um dia, e que às vezes eu ainda sou, mas só quando é mais ou menos seguro me permitir ser.

Em determinado momento a música diz que life is what happens while you’re busy making your excuses e nessa hora eu tenho certeza que ela pode ter sido escrita pra qualquer pessoa, mas com certeza foi escrita pra mim também, porque nunca, em toda minha vida, eu inventei tantas desculpas. É claro que eu ainda saio da minha zona de conforto de vez em quando, mas não é a mesma coisa quando eu paro e penso que poderia, sei lá, estar morando em outro país ou vivendo algum tempo em outro estado, ou correndo atrás de qualquer coisa que exija um pouco mais de esforço da minha parte.

O que eu quero com esse texto sem sentido não é dizer que nossa vou ali pegar minha mala e partir em busca do sonho, façam o mesmo, fim. Talvez eu até faça isso algum dia, quem sabe, mas esse não é o ponto. Porque o que eu quero é muito mais deixar registrado, de alguma forma, essa coisa meio maluca e sem sentido de acreditar que eu posso fazer as coisas se assim eu quiser. Que a gente muda sim com o tempo, que alguns sonhos deixam de fazer sentido, que a vida não acontece exatamente como a gente planeja, mas que a gente precisa acreditar que vai ficar tudo bem, que a gente consegue. Que eu posso não acreditar em mim por um minuto sequer, mas daí eu vou ouvir uma música e lembrar quem eu sou e quem eu quero ser, e aí vai ficar tudo bem.

If life won’t wait, I guess it’s up to me.

♥            

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5 Comments

  • Reply Larie 25 de julho de 2015 at 1:08 PM

    Oi, amiga!
    Antes de começar esse comentário queria dizer que acho que a gente é a mesma pessoas às vezes e que andaria de mãos dadas na praia com seu texto se eu pudesse HAHAHA.

    Tô passando por uma fase de reflexão semelhante à sua, sabe, no maior estilo “QUE QUE EU TO FAZENDO COM A MINHA VIDA SENHOR” e meio que pirando porque tô paradona aqui em casa sem render em nada na vida.
    Não sou muito dessas que acreditam em ~largar tudo~ pra viver a vida dos sonhos porque rotina existe em qualquer lugar do planeta, mas acredito que a gente tem que ir tentando conquistar nossos sonhos adolescentes sim de alguma forma. Os meus sonhos adolescentes mudaram ou se transformaram em coisas completamente diferentes, mas tem coisa que permanece. Acho que a gente só tem que ter maturidade (e coragem) de traçar metas pra atingir esses objetivos. Nunca fui uma pessoa assim, mas as poucas coisas que eu quis conquistar e consegui, aconteceram dessa forma, então acho que é por aí.

    As músicas da adolescência tem o papel importante de nos relembrar das coisas que gostamos e esquecemos. Recentemente meu pai desenterrou um cd que eu montei também CHEIO DE MUSICAS DO TVZ QUE EU ESCUTAVA COM 16 ANOS. BONS MOMENTOS NO CARRO OUVINDO.
    Acho que só de você ter feito essa reflexão já é importante, porque você tá atenta ao que você quer e o que não quer. Já é um começo.
    Espero que você consigo realizar seus sonhos de guria. <3 E TE DESEJO CORAGEM NESSA EMPREITADA.

    Te amo <333333

  • Reply Manu 27 de julho de 2015 at 6:15 PM

    Vou começar esse comentário com o “ME ABRAÇA, ANA” de sempre porque mais uma vez venho a esse blog pra encontrar outro post que poderia muito bem ser sobre a minha vida. Ter 20 e poucos anos tem sido um período tão cheio de cobranças vindas de mim e dos outros, de olhar em volta e ver que eu não estou escrevendo o livro que eu planejei aos 15 anos e que vai me tirar da miséria e de me comparar com os outros e pensar “senhor jesus cristo, qual a fórmula mágica pra ser jovem e bem sucedida e saber o que eu quero da vida???” enquanto eu tento dar os primeiros passos no mercado de trabalho e pagar as minhas contas. é uma bola de neve de sentimentos e toda vez que você escreve sobre isso sinto que é exatamente o que está acontecendo comigo tbm.
    há algum tempo minha terapeuta tem insistido que eu preciso ter paciencia comigo mesma e o quanto é preciso ter coragem pra gente assumir os nossos desejos, e é assim que eu tenho tentado viver todos os dias. às vezes parece que a gente vai ser engolida pelo desconhecido e pelos nossos ~sonhos~ e planos, mas acho que a melhor coisa a se fazer é se agarrar a essa adolescente dentro da gente, que não tem medo do mundo dos adultos e que dá um sopro de alívio na gente toda vez que toda essa pressão pra ser bem sucedida e séria, usando tailleur e tendo um emprego concursado aparece. uma hora a gente consegue se equilibrar!

    vai ficar tudo bem sim <3
    beijos :***

  • Reply Analu 29 de julho de 2015 at 11:53 AM

    Sharolyne, meu abor. Quando foi que as coisas se inverteram, você virou uma mimadora (?) de categoria e eu virei uma enroladora??
    Morri de vergonha que cê anda me mimando direitinho e tinha 02 séculos que eu não aparecia por aqui. Quero dizer: eu aparecia, lia direitinho, só não mimava porque sou rudícula, mas aqui estou.
    Entendo demais a sensação de nossas músicas da adolescência que ainda fazem sentido – e isso sempre me deixa angustiada porque COMO ASSIM ainda fazem sentido? Eu não deveria rir delas?
    Mas vamos rir juntas. E nos angustiar juntas também.
    Te amo! <3

  • Reply Gab 1 de agosto de 2015 at 8:21 PM

    NÃO VAMOS DESISTIR AMIGA!
    risos

    Se desistirmos, TUDO BEM, porque temos A Gente para nos apoiar.
    Vamooooo!
    Te amo! <3

  • Reply Ana Flávia 2 de agosto de 2015 at 6:14 PM

    O melhor de ler todos os posts de introdução ao BEDA é ver que todos tem certeza de que não vai dar certo e mesmo assim, estarem empolgadíssimos. hahaha

    Sorte pra todos nós! Bjs.

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