JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

I JUST WANNA TELL MY FRIENDS NO MATTER WHERE I GO

I’ll see them down the road. 

Antes do ano começar, naqueles minutos que antecedem a virada, prometi três coisas pra mim mesma: a primeira que não criaria expectativas e nem faria resoluções mirabolantes; a segunda que não ficaria com a bunda no sofá esperando coisas acontecerem; e a terceira, que não reclamaria tanto quando as coisas não saíssem como o esperado, reconhecendo que minha história não é imutável, que a vida é uma caixinha de surpresas e que existe beleza até no fracasso. Não sei se vocês acreditam nesse tipo de coisa (o poder das palavras!, o pensamento positivo!, etc etc), mas desde que o ano começou muita coisa tem de fato acontecido, e eu não posso deixar de pensar que, por mais idiota que pareça, muito disso tem a ver com aquela Ana meio rabugenta que prometeu pra si mesma que não dependeria mais da própria sorte. Não sei muito bem como chegamos aqui, mas parece que funcionou – ainda bem.

Maio foi um mês que durou aproximadamente 1475 anos. Começou com uma novidade incrível que eu gostaria de ter compartilhado com vocês de um jeito mais apropriado, mas como acontece demais na minha vida, infelizmente não deu. A essa altura vocês já sabem do que estou falando, mas se o blog é um registro daquilo que acontece na minha vida, nada mais justo do que registrar aquele que seria meu primeiro projeto pessoal de verdade: o Valkirias, um site sobre cultura pop feito por mulheres e para mulheres, que busca justamente levantar questões que muitas vezes são ignoradas em páginas mais abrangentes. O projeto é uma cria minha e de mais seis amigas (Ana, Anna Vitória, Fernanda, Paloma, Thay e Yuu), pessoas incríveis que a vida me deu de presente e que agora dividem uma filha comigo, que fizeram (e continuam fazendo) esse projeto acontecer, que celebram cada nova conquista e choram comigo pelas coisas ruins que inevitavelmente surgem no caminho – só pra depois levantar a cabeça e superar cada uma delas, todas juntas, de mãos dadas.

É uma experiência completamente nova essa, que me empolga e assusta na mesma medida, mas que tem me ensinado muito e sido incrível na maior parte do tempo. Disse aqui uma vez que precisava me apaixonar pelas coisas que faço e é verdade. Eu preciso me sentir realizada com aquilo que me proponho a fazer – seja um trabalho da faculdade, um almoço de domingo ou um site com minhas amigas -, preciso acreditar que meu esforço vale à pena e, principalmente, preciso me importar com cada uma delas – do contrário, eu realmente não vou esquentar minha cabeça com algo que não me interessa. O Valkirias é exatamente isso – algo que eu amo, que acredito e que realmente acho que vale à pena me esforçar pra dar certo.

O negócio é que, muitas vezes, me esforçar pra dar certo significa ir além dos meus próprios limites. Porque essa sou eu e amar e me sentir realizada com alguma coisa também envolve uma certa dose de obsessão – às vezes boa, às vezes ruim. Nos últimos dias, me vi numa onda de querer abraçar o mundo e achar que eu podia dar conta de tudo, mesmo quando eu claramente não tinha a menor estrutura pra isso. Podem ter certeza que, se eu não estava fazendo planos com minhas amigas, discutindo pautas e tomando decisões, eu estava trabalhando o tempo todo, escrevendo feito louca e tendo ideias sem parar, num nível de começar a perder o sono (!) e não conseguir fazer coisas básicas, tipo comer (!) ou lavar o cabelo (!).  No meio disso tudo ainda tinha (tem?) a faculdade – que também é algo que amo profundamente, num nível meio obsessivo (apesar de todas as crises que surgem no meio do caminho) – e a vida, que não para nunca, como vocês já estão carecas de saber.

Se tem uma coisa que 2015 me ensinou é que na vida (pelo menos na minha vida), as coisas nunca acontecem uma de cada vez. Elas sempre acontecem juntas, de uma vez só, se atropelam e não pedem licença, e eu que aprenda a lidar com tudo. Já passei tempo demais chorando porque me sentia incapaz, porque não acreditava que conseguia, que podia chegar lá, até aprender na marra que podia sim, e que quanto mais a gente faz, mais a gente descobre que é capaz de fazer. É por isso que, mesmo que às vezes não seja saudável, eu me permito correr atrás daquilo que eu quero. De uns tempos pra cá ficou meio cafona ser a pessoa que tenta demais, mas eu sou essa pessoa que tenta – às vezes demais – e tudo bem. O mundo não me deve favor algum e eu realmente acredito que é dando nosso melhor e tentando de verdade que, cedo ou tarde, a gente chega lá. Nem sempre dá certo, mas isso não significa também que tenha dado errado – e aí entra toda aquela filosofia de que também existe beleza no fracasso. Às vezes a gente precisa que as coisas não saiam como o planejado pra ter uma mudança de perspectiva e aí sim fazer dar certo. Ou então desistir de uma vez e colocar os esforços em algo que realmente valha à pena.

Maio foi um mês estranho, intenso, que pesou a mão pro bem e pro mal. Passei todos esses dias sem saber se eu deveria estar comemorando, se eu deveria estar chorando, se eu não deveria fazer nenhuma das duas coisas e só continuar trabalhando feito louca, até que eu fiquei doente e só queria saber de reclamar e chorar sem parar. Foram dias terríveis de febre, dor de garganta, de cabeça, muito choro e a sensação de ser absolutamente incapaz de fazer coisas triviais. Me obriguei a parar por uma semana e não fazer ou pensar em nada – porque eu não conseguia mesmo, mas principalmente porque percebi na doença uma forma do meu corpo pedir, pelo amor de Deus, que eu diminuísse um pouco o ritmo, respirasse fundo e voltasse a ser uma pessoa de verdade.

Eu já não ficava doente há bastante tempo, então ficar desse jeito foi um lembrete realmente necessário de que eu sou humana, que meu corpo tem limitações e necessidades, e que é preciso cuidar de mim antes de pensar em cuidar de qualquer outra coisa. Isso me fez refletir muito sobre muitas questões que inevitavelmente surgem quando eu me sinto vulnerável e me fez desenterrar algo que sempre me assustou muito e que eu vinha tentando esconder de qualquer jeito: o medo. Medo de escrever, medo de não ser suficiente, medo de criar, medo de ser uma fraude, medo de descobrirem que eu sou uma fraude, medo de falhar, medo de decepcionar minhas amigas, medo de correr atrás de alguma coisa que claramente não mereço conquistar, medo do desconhecido, medo dos meus sonhos – que são enorme, gigantes e desconhecem limites -, medo do próprio medo. Medo, medo, medo.

Conversando com algumas amigas, percebi que o medo é algo natural, que todo mundo sofre com ele em maior ou menor intensidade, e que isso não é de todo ruim, muito pelo contrário – a gente só não pode parar de vez e achar que vai ficar tudo bem por medo de tentar. Pela primeira vez eu estou realmente caminhando em busca daquilo que eu quero, que faz o meu olho brilhar, dos meus sonhos grandes – imensos, gigantes, enormes – que me assustam na mesma medida que me empolgam, e é natural que eu sinta medo, que me questione se realmente sou capaz – só pra descobrir, mais uma vez, que sou capaz sim. E aí, depois que a gente dá o primeiro passo, já não dá mais pra voltar atrás. Eu posso até estar apavorada, mas a vontade de descobrir o que me espera é muito maior e de repente eu estou enfrentando meus monstros, provando pra mim, de novo e de novo, que eu sou capaz. Como me disse uma amiga muito querida esses dias: dá um medo do caralho, mas quando a gente dá o primeiro passo, a gente sabe que é capaz simMais uma vez: é isso.

Então, nesse meio tempo que eu desapareci do mapa, saibam que eu estava aqui do outro lado lutando com alguns dragões, tentando de verdade correr atrás dos meus sonhos e fazer as coisas darem certo, acreditando que eu posso chegar lá – e que vocês também podem. Várias vezes quis vir aqui contar o que estava acontecendo, mas me incomodava demais voltar só para chorar algumas pitangas e depois sumir de novo, que é o que invariavelmente aconteceria, sem tirar nenhum aprendizado de tudo isso. Mas eu aprendi e agora me sinto pronta pra voltar a escrever aqui de novo. Foram tempos estranhos, mas superamos e agora acho que posso contar essa história de um jeito mais otimista. Não vou prometer que volto a escrever com a frequência de sempre porque, a não ser que eu tire umas férias de mim mesma, as coisas estão acontecendo numa velocidade absurda e acho que é muito mais honesto admitir que eu nem sempre vou dar conta de tudo mesmo e que é muito melhor eu estar inteira no que quer que eu faça, do que jurar que vou chegar em casa todos os dias e fazer milhões de coisas, e depois ficar frustrada porque não consegui fazer tudo ou porque preferi tomar um banho demorado, um chocolate quente e assistir mais um episódio de Supergirl, e aí ir chorar no meu quarto quando a culpa bater porque a vida é uma bosta e eu sou uma fraude.

Mas essa não é uma despedida, muito pelo contrário. Se o blog é um registro dos últimos anos, nada mais justo do que ele refletir o momento que eu estou vivendo. Mas eu volto, eu sempre volto – e aí vamos poder deitar no tapete da sala, abrir uma garrafa de vinho e colocar o papo em dia como sempre. Enquanto isso, quando vocês perguntarem por onde eu ando, saibam que eu estou aqui do outro lado, tentando fazer o melhor que posso sem pirar de vez, arrancando os cabelos eventualmente, mas me sentindo muito feliz e realizada. As coisas estão acontecendo e acho que finalmente temos um motivo para comemorar.

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Torçam por mim, mais uma vez?

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5 Comments

  • Reply Manu 29 de maio de 2016 at 11:20 PM

    Amigãnnnn, como sempre, torço por você, pra que as coisas continuem acontecendo na sua vida, pra que você continue fazendo coisas, pra que você consiga lidar com os sucessos e com os fracassos que vierem! Espero que você consiga logo voltar aqui e sentar no tapete e bater um papo, porque nosso contato acontece na maior parte pelos blogs, mas enquanto isso fico esperando e mandando good vibes como sempre. You go, girl!
    :*** <3

  • Reply BA MORETTI 2 de junho de 2016 at 4:12 PM

    vontade de colar os últimos parágrafos no meu post de maio, caramba. as vezes a vida nos atropela e a gente nem se dá conta. ou pelo menos só se dá conta quando as frustrações, as crises, viram problemas de saúde (que também é o meu caso).

    força pra gente o/ que a gente não se perca no caminho ♥

  • Reply Nicas 3 de junho de 2016 at 8:48 PM

    Se um dia alguém falar alto com você, te deixar mal, te irritar, diga que você é fundadora do Valkiria, a REALEZA DOS BLOGS BEM ESCRITOS e você vai ver nego virar um ratinho de tão pequeno. Amo os textos de vocês, sigo em todas as redes e só nunca comentei pois não me senti a altura (sério). Só não apoio desviar a atenção daqui, pois sou entusiasta de blogs pessoais e irei defendê-los.

    E na torcida a gente tá sempre (posso estar fazendo pompons se achar que cabe).

  • Reply Thay 5 de junho de 2016 at 12:55 AM

    Miga linda, miga maravilhosa, estou e estarei sempre torcendo por você! <3
    Fui lendo teu post, fui me identificando, fui querendo te mimar, abraçar e proteger do mundo. As coisas não estão fáceis pra ninguém mas nós somos vakírias (com 'k' pois sim) e resistiremos, desbravaremos e triunfaremos. E quem sou pra discutir com a Nicas? Ninguém. HUE.
    AMO SER A MESMA PESSOA QUE VOCÊ, só pra lembrar. <3

  • Reply KARINE 13 de julho de 2016 at 4:42 AM

    sempre que venho aqui ler seus posts eu entendo TANTO tudo que você fala sobre essas coisas loucas que a gente tem na cabeça, que sério, eu não sei nem o que comentar. só vou lendo e pensando que É ISSO, É ISSO TAMBÉM, E ISSO, HAHAHA. espero que as coisas estejam bem por aí e sigam andando, e o valkirias tá uma coisa linda, vocês são incríveis!

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