DRAMAS REAIS

I’M JUST A KID AND LIFE IS NIGHTMARE

No ano passado, fiz um teste do Buzzfeed que prometia me dizer quão preparada para viver esse Mundo dos Adultos™ eu estava, a partir de uma porcentagem calculada com base nas minhas respostas. Era um teste até bem simples – como todos são – em que, basicamente, a gente tinha que responder quais seriam nossas reações em algumas situações banais do dia-a-dia, tipo uma lâmpada queimada ou ficar doente e ter que decidir se prefere morrer em casa ou se vai ao médico por conta própria. Eu me escangalhava de tanto rir porque algumas respostas eram tão absurdas que não parecia possível que alguém fizesse aquilo na vida real, enquanto escolhia minhas próprias alternativas, imaginando qual seria a porcentagem no final – naturalmente, baixa, bem baixa.

Eu só não esperava que fosse tão baixa.

Querido leitor, caso você tenha chegado nesse cantinho agora (por favor, sente-se aqui, vamos tomar um café, risos eternos), saiba desde já que a única certeza que eu tenho na vida desde que passei a ser vista – e tratada – como adulta, é o fato de que eu não tenho certeza de nada – o que, pra uma pessoa ironicamente tão controladora quanto eu, é absolutamente assustador. Mas o fato de não ser uma adulta ideal, uma pessoa totalmente independente, que sabe com perfeição executar tarefas triviais do dia-a-dia – tipo trocar uma lâmpada ou ir ao médico por conta própria -, nunca foi uma questão muito grande na minha vida. Eu nunca tive a necessidade de fazer nenhuma dessas coisas, porque minha mãe sempre se dispôs a fazer cada uma delas pra mim. Foi só quando a gente se mudou pra uma casa nova e muito maior do que o apartamento em que morávamos antes, que eu passei a assumir algumas tarefas que não eram minhas até então, tipo arrumar a cama, tirar o lixo do banheiro e fazer uma faxina no meu quarto de tempos em tempos. Não é que eu goste de fazer essas coisas, vejam bem, tanto é que de vez em quando me permito não fazer nenhuma delas só porque sim: porque eu não tenho saco, não sou obrigada, fuck the police. Mas eu faço na maior parte do tempo, e quando faço, faço sem reclamar. De um jeito ou de outro, eu sei que são coisas que precisam ser feitas: ninguém vai morrer se deixar o lixo um dia a mais no banheiro, se passar um dia sem arrumar a cama, se deixar o quarto por alguns dias mais bagunçado do que o normal; mas eventualmente é preciso que alguém faça essas coisas porque, do contrário, a casa vira um caos. E se eu não gosto de viver no caos, o mínimo que eu posso fazer é ajudar a manter as coisas mais ou menos sob controle.

Todas essas tarefas são coisas que eu faço porque preciso fazê-las; foi por isso que as aprendi. É muito diferente, por exemplo, de como eu aprendi a cozinhar: eu não tinha nenhuma obrigação ou necessidade de fazê-lo, até o dia que comecei a me interessar por gastronomia e ter vontade de testar comidas diferentes das que minha mãe fazia pra gente em casa. Assim, nós duas acabamos aprendendo juntas: ela, pratos mais elaborados, com ingredientes diferentes; eu, a fazer o básico feijão com arroz de cada dia. Da mesma forma, eu só aprendi a usar de verdade a máquina de lavar algumas semanas atrás, quando senti a necessidade de começar a lavar minhas roupas por conta própria ao invés de esperar a boa vontade da minha mãe, e tem sido uma experiência maravilhosa, de dupla satisfação: por ter aprendido algo novo e pela independência conquistada. Mas o fato de saber fazer essas coisas não me torna necessariamente mais adulta do que alguém que não sabe, da mesma forma que uma pessoa que sabe fazer mais do que eu pode não ser exatamente a mais adulta do mundo, só uma pessoa que sabe fazer mais tarefas domésticas do que eu.

E era meio isso que o resultado do teste avaliava. Todas as perguntas se baseavam em coisas que no fundo, no fundo, não eram capazes de determinar quem era adulto e quem deixava de ser: ele apenas dizia quem era mais preparado ou não pra lidar com certas situações e manter o controle, mas ser adulto não é isso – ao menos, não só isso.

“Seria uma maravilha se ser adulto significasse ter controla da ordem da sua casa, do seu estoque de lâmpadas e de um faqueiro extra para ocasiões especiais. Na minha concepção, isso são só aparatos. A pessoa pode tê-los e ainda não saber o que fazer da vida. Ser adulto não depende da hora que você acorda aos fins de semana, pois se você acorda cedo de segunda à sexta, e não tem motivos para o fazer o mesmo aos fins de semana, qual é o problema em só levantar da cama lá pelas 15h? E por que trocar os lençóis a cada duas semanas me faz menos adulta do que uma pessoa que os troca toda semana? ada família tem seu hábito de acordo com as necessidades, então para mim isso não faz muito sentido. Outra coisa que me deixou meio assim foram as questões que te induzem a determinadas respostas. Porque exemplo: eu moro com meus pais, portanto cozinho quase nunca e não pago a maioria das contas. Porém, se eu moro com meus pais é porque não tenho meios financeiros de me sustentar sozinha e decidi não arriscar minha qualidade de vida para conquistar a so-called independência, se isso significasse morar num buraco qualquer e comer miojo sete dias por semana. Fora que meus pais precisam de mim tanto eu deles. E eu pago as contas que me dizem respeito, compro a ração dos meus gatos, os livros e as roupas que eu quero. Mas ser adulta, para mim, vai ainda além disso. Ser adulta é a capacidade de tomar decisões, assumir responsabilidades, saber cuidar de você e de alguém quando as circunstâncias te jogarem para isso.” (YOGI, Yuriko, também conhecida como a pessoa mais sábia do universo)

Quando eu escrevi sobre isso em uma newsletter, a maior parte das pessoas se identificou profundamente porque todas, de um jeito ou de outro, se encontravam numa situação muito parecida. Eram pessoas que também se sentiam muito desconfortáveis em se assumir como adultas e se enxergar como uma, porque se julgavam despreparadas demais para assumir essa posição. É por isso que eu acho a resposta que a Yuu me deu naquele dia – e que compartilho um pedaço com vocês agora – tão fundamental: a gente não se torna adulto quando aprende a trocar uma lâmpada, a cozinhar, a ir no médico por conta própria, sem pedir ajuda à ninguém. A gente se torna adulto nas pequenas situações diárias, quando passamos a assumir mais responsabilidades, a tomar decisões e abraçar as consequências, a ser a pessoa responsável numa situação “x”, “y” ou “z”. Eu, por exemplo, me sinto incrivelmente adulta quando almoço a pizza que sobrou da noite anterior, ou então quando preciso buscar o meu primo mais novo em algum lugar e sou a responsável por levar seus amigos em casa, quando sou em quem minha mãe ou minhas tias chamam quando precisam de companhia para ir numa consulta ou fazer algum exame, quando algum dos meus bichinhos ficam doentes e sou eu quem conversa com o veterinário, quando eu viajo sozinha; fora todas as coisas que já aconteceram na minha vida e que me obrigaram a amadurecer muito mais rápido do que muita gente. Situações simples, quase banais, mas que me fazem sentir muito mais adulta do que passar o dia limpando a casa ou enfrentar a fila de um banco.

A gente precisa parar com essa mania de achar que só é adulto quem sabe fazer isso ou aquilo, quando existe uma infinidade de possibilidades e caminhos que nos tornam tão adultos quanto nossas referências. É até ilógico achar que existe um jeito certo de ser tornar essa tal pessoa adulta idealizada, com um salário de quatro dígitos, que viaja para o exterior uma vez por ano, que planeja filhos e paga todas as contas da casa, porque se nossas realidades são tão distintas, se nossas vidas são tão diferentes, nada mais natural que cada um percorra seu caminho de forma gradual e aprenda o que tiver que aprender de acordo com suas necessidades e vontades. E isso não te torna mais adulto ou menos adulto do que ninguém. Então, no final das contas, acho que o que importa na realidade não é o que a gente sabe fazer, mas aquilo que a gente está fazendo, e como isso contribui para nossas vidas, para nossas realidades, como isso nos torna pessoas melhores. No final das contas, estamos todos no mesmo barco, tentando dar o nosso melhor – e isso, às vezes, já é o suficiente.

Já faz uns dois anos que eu não tenho nenhum problema em me perceber como adulta e principalmente me assumir como adulta, embora ainda dê um monte de tropeços no meio do caminho. Ou seja, como quase tudo nessa vida, tornar-se adulto também é um aprendizado: algumas pessoas só demoram mais do que outras para concluí-lo, risos.

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2 Comments

  • Reply Mia 7 de fevereiro de 2017 at 10:12 AM

    Miga, estamos num FEDA e eu não estou sabendo? Porque ontem tava pensando em “tenho de lembrar de ir lá comentar o texto da ansiedade”, aí hoje apareço e tem um outro?! NÃO É RECLAMAÇÃO, inclusive pode continuar!!!! o/ Mas achei bem legal e me surpreendi, porque o blog tava meio parado, né? ENFIM.

    Assim como Nick Miller, I’m not a successful adult e estamos vivendo com isso sem grandes problemas. Mas acho que é isso mesmo, ser adulto não é uma magicazinha instantânea, e sim a noção de que há responsabilidades com as quais você precisará lidar. E tá tudo bem se não der, também. Um dia de cada vez. Baby steps. Sem deixar o surto de ansiedade pegar.

  • Reply Aline Amorim 10 de fevereiro de 2017 at 1:06 PM

    Gostei da reflexão sobre o que realmente é ser adulto. Esses testes servem apenas pra gente fazer e depois dar risada do resultado.
    Eu já sou casada há três anos, e ainda não me considero adulta em algumas situações.
    Beijos

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