DRAMAS REAIS

LIMPEZA DE FINAL DE ANO OU QUALQUER COISA ASSIM

Eu preciso fazer uma limpeza no meu quarto. Essa foi a primeira coisa que eu pensei enquanto tentava, pela milésima vez, encontrar o carregador do meu celular. Não era a primeira vez e certamente não seria a última: a diferença é que dessa vez eu tinha sentido a real necessidade de organizar a minha bagunça para além da lixeira esvaziada e das roupas largadas em cima da cadeira, algo que nunca tinha acontecido antes. Minha mãe já cansou de me pedir para colocar um pouco de ordem no lugar, mas era exatamente o tipo de coisa que entra num ouvido para sair no outro logo em seguida, e eu nunca fiz a menor questão de colocar ordem numa bagunça que eu já conhecia tão bem. De certa forma, era como se cada roupa em cima da cadeira, cada maquiagem fora da gaveta ou a bagunça da cama desfeita, colocassem um pouco de vida entre minhas quatro paredes e servissem como um reflexo de mim mesma. Se eu sempre fui uma pessoa imperfeita tentando a todo custo ser perfeita aos olhos dos outros, meu quarto era meu refúgio, onde eu podia ser a bagunça de pessoa que sempre fui sem pedir desculpas pra ninguém.

É estranho, então, que essa bagunça tenha se tornado um incômodo também pra mim. Olho as toalhas (três, sem nenhuma necessidade) jogadas em cima do móvel, o edredom limpo todo embolado em cima da cama esperando a hora de ser gentilmente guardado, os lencinhos demaquilantes largados em cima da penteadeira na noite anterior, e tudo me parece uma bagunça horrorosa. Não existe nada de atrativo ali, não existe nada que me faça pensar “opa, estou em casa”. É só um monte de tralha jogada de forma descompromissada e que acaba ficando ali até que alguém – nunca eu – decida tomar uma atitude. Vejo minhas amigas com seus quartos belamente arrumados, fazendo suas faxinas de fim de semana, e me pergunto que diabos deu errado comigo no meio do caminho porque agora, que eu realmente sinto necessidade de dar uma geral no meu quarto, eu não faço a menor ideia de por onde começar. Jogo as tralhas fora? Limpo o chão do quarto? Tiro todas as roupas do guarda-roupa? Dá pra fazer tudo num dia só? São questões.

A Dani falou recentemente sobre o destralhamento de fim de ano, que nada mais é do que uma grande limpeza que ela faz antes de iniciar um novo ciclo em sua vida, algo que pra ela já se tornou uma tradição. Aquele texto conversou tão diretamente comigo que me inspirou a escrever um texto que, embora ele fale mais da minha relação com as coisas que eu tenho do que da minha necessidade em deixar várias dessas coisas irem embora, essa história só começou porque eu me deparei com o texto da Dani no Bloglovin e não sosseguei enquanto não abri uma aba pra ler. Naquela época, a ideia de eventualmente ter que sair de Brasília era o que me assustava porque eu não queria deixar minhas coisas para trás. Eu sofria só de imaginar abandonar meus sapatos ou então todos os meus livros – o tipo de coisa que não faz o menor sentido. Só que hoje, enquanto penso em tudo isso e escrevo pra quem quer que esteja lendo aí do outro lado, a sensação de ter tanto é muito diferente, quase como se eu estivesse trilhando meu caminho rumo ao acumuladores e logo, logo estivesse soterrada por todas essas coisas que não me deixam em paz. Fora isso, tem essa sensação absurda (mas muito real) de que quanto mais eu tenho, menos chances eu tenho de bater asas e voar pra onde quer que seja.

Por mais que eu me importe com as coisas que tenho e reconheça que nenhuma delas caiu do céu, de repente elas não parecem mais tão sedutoras assim, ou uma vantagem, mas só uma representação da pessoa que eu fui há muito tempo, mas que felizmente já não sou mais. E talvez a necessidade de mudanças resida justamente aí. Minha psicóloga sempre diz que, antes de demolir uma casa e começar do zero, é muito melhor ver se uma reforma já não é suficiente para resolver os problemas e que eu devo pensar dessa forma quando analisar a ~maquete~ da minha vida. Então eu não vou fazer como a Emily Gilmore, eu não vou seguir os ensinamentos da Marie Kondo. Mas talvez eu precise parar um minuto e organizar o meu quarto – de todos os lugares, aquele que é mais meu nesse mundo inteiro – e deixar aquilo que já não possui mais significado nenhum ir embora. Por mais difícil que seja, me prender ao passado não vai me trazer nada de bom, da mesma forma que acumular tantas coisas inúteis que remetam à ele só vai fazer com que eu continue esperando por um barco que já partiu faz muito tempo.

Isso não quer dizer que lembranças não sejam importantes, muito pelo contrário. Mas se tanta coisa deixou de fazer sentido na minha vida faz tempo, então talvez seja hora de deixar pra lá todas as coisas que, de certa forma, me prendem a um passado onde eu não quero estar. Além do mais, ninguém precisa guardar o papel de bala que comeu com fulano ou o tubo vazio de gloss que comprou naquela ida ao shopping com ciclana, e eu não preciso guardar o sapato que beltrana me deu sendo que eu nem uso mais só porque foi um presente. No final do dia, as fotos continuarão lá, assim como todas as coisas que realmente importam – só o suficiente para que eu possa relembrar aquilo que foi bom e especial enquanto durou. Da mesma forma, eu não preciso guardar todas as sombras que jamais vou usar e as roupas que já não dizem muito sobre mim, embora sejam poucas (e eu me orgulho de ter um guarda-roupa 100% com a minha cara, embora ele ainda seja exagerado para minhas necessidades), podem abrir lugar para coisas novas, ou então dão espaço suficiente para visualizar bem cada peça contida ali dentro. Os papéis da gaveta precisam ser jogados fora, as fotos do mural precisam ser trocadas, a penteadeira merece uma limpeza. Uma limpeza geral, é isso que eu preciso.

Talvez tudo isso não passe de uma vontade besta com hora certa para acabar. Por outro lado, pode ser que finalmente eu esteja assumindo as rédeas da minha vida e reconhecendo que, embora eu não possa ter controle sobre tudo nessa vida, pelo menos eu sou capaz de manter as coisas minimamente organizadas. O caos sempre foi onde eu me senti mais confortável, mas pela primeira vez em muito tempo ele deixou de ser acolhedor para se tornar um monstrinho – a sorte é que eu sei muito bem como eliminá-lo. Não é como se uma faxina geral fosse mudar minha vida inteira, mas talvez a gente realmente só precise mudar os móveis antes de decidir se precisa mesmo quebrar uma parede inteira.

Desde já, aceito toda a ajuda disponível, risos.

Previous Post Next Post

No Comments

Leave a Reply