CINEMA E TV

MARATONA OSCAR 2017: PARTE I

Desde o ano passado, eu tenho sentido uma preguiça muito particular com o Oscar. Embora ele continue sendo minha premiação favorita, cada ano que passa os filmes me empolgam menos, a premiação em si me empolga menos, e fica difícil levar os resultados realmente a sério quando os bastidores provam que quem ganha e quem perde é muito mais uma questão de contatos e referências do que, necessariamente, uma recompensa por trabalho duro e um atestado de qualidade. Sad but fucking true.

Ao contrário de 2016 – o ano dos caras brancos de óculos, como todos os outros -, 2017 trouxe algumas novidades que deveriam, em tese, me animar um bocado: muitos filmes protagonizados por mulheres, vários desses protagonizados por mulheres negras, e uma diversidade de indicados que, embora ainda não seja suficiente, foi bastante significativo se comparado aos anos anteriores. Mas mesmo assim eu continuei desanimada, continuei a ter uma dificuldade ridícula de sentar a bunda na cadeira e assistir algum indicado, e principalmente escrever sobre ele depois. Não por acaso, todos que eu assisti até o momento foram os filmes que precisei assistir para escrever sobre depois e que envolviam prazos que eu precisa, na medida do possível, cumprir – o que diz muito sobre minha boa vontade (ou falta de) para com o cinema no momento, de modo geral.

A maratona desse ano é uma tentativa possivelmente frustrada de tentar dar conta dos principais indicados e enfrentar toda a preguiça do mundo – que é o que toma conta do meu corpo cada vez que penso no assunto – e dar minha opinião não requisitada sobre cada um deles, mantendo a tradição deste maravilhoso blog. Assim como no ano passado, resolvi usar o formato que a Anna Vitória usou em 2015 – o mesmo que usei em 2016 e foi sucesso. Apertem os cintos e vamos lá.

A CHEGADA (Denis Villeneuve)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Denis Villeneuve), Melhor Roteiro Adaptado (Eric Heisserer), Melhor Fotografia (Bradford Young), Melhor Mixagem de Som (Bernard Gariépy Strobl e Claude La Haye), Melhor Edição de Som (Sylvain Bellemare), Design de Produção (Patrice Vermette e Paul Hotte) e Melhor Edição (Joe Walker).

Sobre o que é? Baseado no conto de Ted Chiang, o filme conta a história de Louise Banks, uma doutora em linguística que passa a trabalhar em conjunto com o governo norte-americano para descobrir uma forma de se comunicar com alienígenas que chegaram na Terra sabe-se lá vindos de onde, mas aparentemente não estão interessados em começar uma guerra ou qualquer coisa assim.

Prestou? DEMAIS! A princípio, ele parece só mais um filme de ficção científica, mas ele é muito, muito mais, o tipo de filme que capaz de construir uma experiência verdadeiramente única, que te faz refletir sobre a nossa própria histórica e arranca lágrimas sinceras, sem nunca se tornar piegas – o tipo de filme que eu adoraria fazer se algum dia fosse trabalhar com direção. Amy Adams traz à tona uma Louise Banks assustadoramente real, que é corajosa, determinada e de uma força inestimável, mas que também sente medo e também se sente insegura. Sua história nos atinge em um nível muito profundo, mas com a mesma delicadeza com que sua relação com os extraterrestres é construída. Não foi por acaso que ele se tornou um dos meus filmes favoritos da vida inteira, que possui um significado enorme pra mim e do qual eu jamais vou ser capaz de esquecer.

Sinceramente? Acho um absurdo que Amy Adams não esteja concorrendo à Melhor Atriz porque o que aquela mulher faz em cena é um troço absurdo (!) de tão bom e eu queria de verdade vê-la pelo menos concorrendo ao prêmio. Além das categorias técnicas, que acho que o filme tem chances reais de levar a maioria, não imagino que leve nenhum outro prêmio – fora o de roteiro que, embora a briga esteja acirrada, acho que ainda tem chances reais de levar.

JACKIE (Pablo Larraín)

Indicações: Melhor Atriz (Natalie Portman), Melhor Figurino (Madeline Fontaine) e Melhor Trilha Sonora (Mica Levi).

Sobre o que é? O assassinato do presidente John F. Kennedy, em 1963, e o que aconteceu no período entre sua morte e o velório, tudo pela perspectiva da ex-primeira dama, Jacqueline Kennedy. Ele vai e volta a partir das memórias de Jackie, como ela era conhecida em seu círculo mais íntimo de pessoas, ao mesmo tempo que, no presente, ela conversa sobre os eventos com o jornalista da revista Life, responsável pela primeira entrevista da primeira-dama após o assassinato do marido.

Prestou? São questões. Assisti ao filme duas vezes e ainda não consegui identificar o que me incomoda particularmente. Na teoria, Jackie é um filme incrível: ele realmente mostra como é feita a construção do mito, como a mídia manipula fatos, histórias e principalmente a imagem das pessoas, e como por trás das figuras imortalizadas de celebridades e pessoas públicas, existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia. Jackie era uma mulher inteligentíssima, que tinha plena consciência disso, e mesmo após a morte do marido, cuidou para que seu legado nunca fosse destruído. Mas na prática, ele não é tão incrível assim. De todas as coisas que me incomodaram, no entanto, acho que a trilha sonora é a pior: eficiente em construir o clima do filme, mas ao mesmo tempo precisa em destruí-la. Vai entender.

Sinceramente? Provavelmente leva figurino, talvez leve trilha sonora, mas só uma zebra muito grande faz Natalie Portman levar essa estatueta pra casa.

ELLE (Paul Verhoeven)

Indicações: Melhor Atriz (Isabelle Huppert).

Sobre o que é? Um thriller protagonizado por uma mulher que, após ser estuprada dentro da própria casa, passa a receber ameaças do seu abusador enquanto tenta lidar com o trauma que sofreu e descobrir quem é o criminoso por trás do abuso.

Prestou? Elle é um filme intenso, controverso, polêmico, e que joga algumas ideias que eu não sei se são realmente boas ou se são um desserviço completo, mas eu gostei demais. Ainda que seja a história de uma mulher contada por um homem, ele desconstrói radicalmente o estereótipo do estuprador em um beco escuro, e mostra que, na maioria dos casos, quem comete o crime é uma pessoa próxima à vítima. Ao mesmo tempo, ele constrói uma protagonista que não se deixa definir pelo trauma, e que embora possua sentimentos conflituosos em relação ao que sofreu, alguns dos quais eu questionei o tempo inteiro, se torna muito humana justamente por isso. Foi uma representação completamente nova pra mim, que me surpreendeu horrores e que, por mais que não seja um filme fácil de assistir, eu recomendo com força pra todo mundo.

Sinceramente? Isabelle Huppert é rainha e só não leva essa estatueta pra casa se um repeteco de 2013 acontecer. Minha torcida é dela e eu realmente vou tacar uma bomba nessa Academia fajuta se ela não for a vencedora. Ao mesmo tempo, queria muito que o filme concorresse nas demais categorias, por ser um filme fora do eixo norte-americano, mas principalmente por dar visibilidade – e uma nova interpretação – para uma questão tão importante. Infelizmente, não vai ser dessa vez, mas tem outros troféu.

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO  (Theodore Melfi)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) e Melhor Roteiro Adaptado (Allison Schroeder e Theodore Melfi).

Sobre o que é? A trajetória de Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson, três cientistas negras da NASA que foram absolutamente fundamentais na corrida espacial travada entre Estados Unidos e União Soviética, durante a Guerra Fria. O filme é um retrato do privilégio branco, que oprime e silencia inúmeras pessoas até hoje, mas que é amplamente ignorado por quem dele usufrui; pessoas que fizeram com que essas mulheres – assim como muitas outras – se tornassem figuras até então desconhecidas pelo grande público, mesmo exercendo papéis tão fundamentais na história norte-americana.

Prestou? Prestou tanto que dizer que ele é, muito provavelmente, o melhor filme dessa temporada de premiações não é exagero. É absolutamente impossível não se emocionar com a história de Katherine, Dorothy e Mary, e se identificar com elas, torcer por elas, querer ser como elas, chorar suas derrotas e celebrar suas vitórias. É um filme construído com um cuidado e delicadeza impressionantes, que não desumaniza suas personagens, mas apresenta mulher complexas e multifacetadas, cheias de nuances, com personalidades muito distintas e que traçam trajetórias muito diferentes, enfrentando cada uma a sua própria batalha. É lindo, lindo, lindo demais, mas acima de tudo um filme importante, que todo mundo deveria parar para assistir.

Sinceramente? É quando filmes como Estrelas Além do Tempo não recebem todas as indicações que merecia, que eu perco totalmente a minha fé no Oscar. Acho um abuso muito grande que Octavia Spencer tenha sido a única indicada, quando tanto Taraji P. Henson quanto Janelle Monáe fizeram trabalhos tão sensíveis e excelentes. Além disso, o fato de concorrer apenas em três categorias continua dizendo muito mais sobre o Oscar e seus critérios que ninguém entende, do que sobre a qualidade de um filme – ou, no caso, de uma preciosidade como Estrelas Além do Tempo. Espero de verdade que Octavia Spender leve a estatueta pra casa, mas já me preparo psicologicamente para decepções futuras.  

MANCHESTER À BEIRA-MAR (Kenneth Lonergan)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Direção (Kenneth Lonergan), Melhor Ator (Casey Affleck), Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams), Melhor Roteiro Original (Kenneth Lonergan) e Melhor Fotografia (James Laxton).

Sobre o que é? Um cara que, após perder o irmão, é obrigado a voltar para sua cidade natal e desenterrar vários fantasmas do passado, ao mesmo tempo que luta com o próprio luto – pela morte do irmão, mas também por tragédias anteriores que se passaram naquele mesmo cenário. É um filme sobre a dor de perder alguém, as diferentes formas de lidar com o luto, e a morte, de um modo geral.

Prestou? Depende muito do que você avalia. Enquanto produção, Manchester à Beira-Mar é sim um bom filme. Ele trata o luto com uma delicadeza surpreendente, mas ao mesmo tempo o constrói de uma forma muito crua, que se aproxima de uma forma assustadora da realidade: a vida segue, a dor continua, mas precisamos continuar dando um passo depois do outro, esse tipo de coisa. Mas ele é ainda um filme sobre homens brancos, contados sob a perspectiva de um outro homem branco, o que pra mim já é suficiente pra não colocá-lo no pedestal que todas as pessoas do mundo parecem colocar. Além disso, pra mim é impossível ignorar que esse é um filme protagonizado por um casa acusado de tantas coisas absurdas, e isso automaticamente me faz gostar bem menos dele.

Sinceramente? Queria enfiar um murro nas fuças de quem ainda acha que caras como o Cassey Affleck devem ser julgados pelo seu trabalho e que tudo bem ignorar seu comportamento repulsivo na vida pessoal. Entretanto, esse é bem o tipo de mentalidade retrógrada dos caras que compõe a Academia, fora que o filme, por si só, é o tipo de coisa que a Academia ama de paixão premiar, então sim, as chances de que Manchester à Beira-Mar e Cassey Affleck saiam vitoriosos são maiores do que eu gostaria de  admitir. Sad, but true.

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1 Comment

  • Reply BA MORETTI 21 de fevereiro de 2017 at 1:13 AM

    assisti A CHEGADA e foi muuuito além das minhas expectativas. amei forte mesmo ♥
    agora só tô esperando a oportunidade de assistir ESTRELAS ALÉM DO TEMPO mesmo :)

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