CINEMA E TV

MARATONA OSCAR 2017 – PARTE II

É possível que eu tenha jurado de pé junto que nenhuma temporada de premiações da vida dessa que vos escreve tinha sido tão preguiçosa, mas aí, depois de finalmente começar a assistir aos filmes, me arrependi por não ter começado antes. Porque é uma verdade universalmente conhecida que embora os indicados muitas vezes não pareçam promissores, quase sempre a gente acaba se apaixonando por um ou outro – e a segunda parte da minha maratona está aí pra provar que, por mais que a gente esbarre com alguns filmes bem mais ou menos no meio do caminho, alguns são tão incríveis quanto a gente torce pra ser.

Antes que alguém venha falar alguma coisa (ou a quem interessar possa): a terceira parte da maratona e as minhas apostas (!) entram mais tarde, assim que eu terminar de assistir os filmes que ainda faltam, risos. Ia postar tudo junto dessa vez, mas preferi não abusar da paciência de ninguém e dividir em três posts ao invés de dois pra não ficar grande demais. Por favor, não desistam de mim.

UM LIMITE ENTRE NÓS (Denzel Washington)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Denzel Washington), Melhor Atriz Coadjuvante (Viola Davis) e Melhor Roteiro Adaptado (August Wilson)

Sobre o que é? Um homem negro de meia-idade, pobre e frustrado com a carreira como jogador de beisebol que não decolou, que passa por uma crise no casamento e vive um momento particularmente conturbado de sua vida, que começa a estabelecer limites nas relações que, pouco a pouco, vão se desfazendo – daí o nome do filme. Baseado na peça homônima (que é interpretada pelos mesmos atores do filme), a história se passa no norte dos Estados Unidos e mostra que mesmo num estado onde o racismo era tido como uma questão superada, a realidade ainda estava muito distante disso. Ele não é Um Filme Sobre Racismo™, mas deixa muito claro como essas questões pautavam a vida de seus personagens, colocando um milhão de obstáculos em seus caminhos.

Prestou? São questões. É uma história densa sobre pessoas, relacionamentos, racismo e raiva, principalmente sobre raiva. Existe muita raiva – às vezes contida, às vezes nem tanto – em praticamente todas as relações que o personagem principal estabelece com as pessoas ao seu redor, e quase todas as atitudes dele são pautadas por esse sentimento: seja a fuga de sua própria realidade quando trai a mulher; a frustração, a agressividade, a forma como trata os filhos e a esposa. Gosto particularmente que praticamente todas as cenas mais relevantes se passem no quintal, especialmente quando a câmera nos lembra da própria experiência teatral, quase como se realmente estivéssemos sentados em uma poltrona e tudo aquilo se desenrolasse num palco à nossa frente; e talvez por isso o filme erre tanto ao tentar fazer algo diferente. Além disso, embora a analogia com a cerca construída pelo personagem seja muito boa, ela nunca recebe atenção suficiente pra que a gente realmente entenda aquilo como uma parte que diz muito mais sobre a história do que aquilo que é dito em cena.

Sinceramente? Queria matar o personagem do Denzel Washington de cinco em cinco minutos – e isso não é exagero, considerando que todas as minhas amigas que assistiram ao filme tiveram a mesma reação. É muito difícil gostar de um cara que agride tanto as pessoas ao seu redor, que afasta aqueles que o amam por ser incapaz de superar a própria frustração. A relação que ele tem com Rose, sua mulher, interpretada belamente por Viola Davis, é problemática demais, demais, demais, ao ponto de eu dar graças quando ela finalmente se viu livre daquela sombra horrorosa do marido, sozinha com sua filha – porque sim, Raynell se tornou sua filha também. É uma história que eu realmente tive bastante dificuldade de engolir e, não por acaso, foi um dos filmes que menos gostei de toda a maratona. Viola merece demais o Oscar e acho que esse prêmio dela ninguém tira, mas provavelmente vai ser só isso mesmo.

FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER? (Stephen Frears)

Indicações: Melhor Atriz (Meryl Streep) e Melhor Figurino (Consolata Boyle).

Sobre o que é? Florence Foster Jenkins, uma cantora e socialite norte-americana, apaixonada por música, que ficou famosa na década de 40 pelo seu talento peculiar como cantora, risos. Florence cantava mal, muito mal. Mas isso não a impedia de se apresentar e fazer aquilo que mais amava. Muito além da música, no entanto, a história de Florence é a trajetória emocionante – e por vezes triste – de uma mulher que sofreu demais em vida e ainda assim encontrou um jeito de continuar seguindo seu caminho; que amou, foi amada, e encontrou em meio à dor uma forma de continuar sorrindo.

Prestou? Demais! Meryl Streep dá vida a uma Florence adorável e muito apaixonada – pela música, pelo seu marido e pela vida -, às vezes um tanto inocente, mas também muito determinada. Mesmo lutando contra a sífilis, uma doença que a limitava de várias formas – ela precisou deixar de tocar piano quando a doença atacou os nervos da sua mão, não podia manter relações sexuais com o próprio marido, além da perda dos cabelos e do mal estar físico que sentia por vezes -, Florence não se permitia abater e nem entristecer. Ela se torna luz na vida daqueles que a conhecem e não é difícil que, do outro lado, a gente se sinta tocado da mesma forma. É inevitável não se apaixonar, chorar e se inspirar com essa mulher.

Sinceramente? Amei demais. Embora não seja um filme inovador, a história é muito delicada, sensível, mas cheia de luz e boas energias, assim como a própria Florence. Ao mesmo tempo que chorei horrores com a sua história, Florence me fez rir como nenhum filme dessa temporada de premiações fez e deixou meu coração verdadeiramente aquecido num momento em que tudo que eu mais precisava era justamente disso. Infelizmente, não imagino que ele ganhe alguma coisa. Embora Meryl Streep esteja adorável, só uma zebra muito grande vai tirar a estatueta da mão de Isabelle Huppert – e mesmo que isso aconteça, duvido que Meryl seja a pessoa a fazer isso. Melhor figurino é uma questão, mas sempre há esperança.

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Mel Gibson)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Mel Gibson), Melhor Ator (Andrew Garfield), Melhor Mixagem de Som (Kevin O’Connel, Andy Wright, Robert Mackenzie e Peter Grace), Melhor Edição de Som (Robert Mackenzie e Andy Wright) e Melhor Edição (John Gilbert).

Sobre o que é? A história real do médico Desmond Doss, o homem que se alistou no exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, mas que se recusou a pegar numa arma e não só sobreviveu para contar sua história, como ajudou muitas pessoas a sobreviverem também, mesmo no meio do caos que era o front de batalha.

Prestou? Com força. A história de Doss é realmente incrível, cativante, uma dessas histórias que me fazem crer que, embora a gente ainda fale muito sobre guerra – especialmente sobre a Segunda Guerra – ainda existem muitas histórias por aí que podem e devem ser contadas. Ao mesmo tempo, eu, que não conhecia o trabalho do Mel Gibson como diretor, fiquei realmente sem chão por gostar TANTO de algo feito por um homem que eu não tenho nenhum motivo pra gostar. Seu trabalho é realmente impecável, as cenas de batalha são muito viscerais, sem medo de mostrar a verdadeira face da guerra, e eu admirei o suficiente pra pensar que se algum dia fizesse um filme sobre guerra, queria fazer algo no mesmo estilo, com a mesma força e o mesmo cuidado. Bem triste, mas não deixa de ser verdade.

Sinceramente? É uma verdade universalmente conhecida que Damien Chazelle possivelmente vai levar o prêmio de direção pra casa, mas eu realmente me questiono se Mel Gibson não tem chances reais também. Se ganhar, vai ser aquele prêmio com gosto de derrota: amei o trabalho, mas realmente não vou bater palma pra um maluco desses dançar. Andrew Garfield, por outro lado, é uma figura tão adorável que eu me vi torcendo genuinamente pra ele arrancar o prêmio das mãos do babaca do Cassey Affleck de uma vez e levar essa estatueta pra casa. Ademais, tem chances em edição e mixagem de som, mas acredito que só.

A QUALQUER CUSTO (David Mackenzie) 

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Jeff Bridges), Melhor Roteiro Original (Taylor Sheridan) e Melhor Edição (Jake Roberts).

Sobre o que é? Dois irmãos que, depois da morte da mãe, decidem assaltar uns bancos pra alguma coisa que até agora eu não entendi direito enquanto dois policiais tentam encontrar esses bandidos que roubavam por algum motivo que ninguém conseguiu entender também.

Prestou? Infelizmente, não. O cenário é maravilhoso, a trilha sonora é um primor para quem gosta de música country, fora que Jeff Bridges e Chris Pine são bem ótimos; mas isso não é suficiente pra segurar por quase duas horas uma história que não faz sentido nenhum. O filme nunca engrena de verdade, os personagens não são exatamente interessantes e a história não chega a ser o tipo de coisa que você vai ter vontade de passar quase duas horas da sua vida assistindo. Foi o filme mais fraco dessa temporada de premiações que assisti e, não por acaso, o mais esquecível também.

Sinceramente? Eu queria gostar muito desse filme, de verdade. Eu amo o Jeff Bridges, amo que a trilha sonora seja cheia de pérolas da música country e até consigo ir com a cara do Chris Pine, mas não deu. Fora a última cena e as tomadas no meio da estrada, que mostram as paisagens lindíssimas das estradas americanas ao som da melhor country music que você respeita, não tem nada ali que valha a pena. Não duvido nada que ele termine sendo o Grande Desaplaudido da Noite™, e infelizmente não vai ser uma surpresa quando isso acontecer. Triste, mas tem outros troféu.

LA LA LAND – CANTANDO ESTAÇÕES (Damien Chazelle)

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Damien Chazelle), Melhor Atriz (Emma Stone), Melhor Ator (Ryan Gosling), Melhor Roteiro Original (Damien Chazelle), Melhor Canção Original (“Audition (The Fools Who Dream)” e “City Of Stars”), Melhor Fotografia (Linus Sandgren), Melhor Figurino (Mary Zophres), Melhor Mixagem de Som (Andy Nelson, Ai-Ling e Steve A. Morrow), Melhor Edição de Som (Ai-Ling e Mildred Iatrou Morgan), Melhor Design de Produção (David Wasco e Sandy Reynolds-Wasco), Melhor Edição (Tom Cross) e Melhor Trilha Sonora (Justin Hurwitz).

Sobre o que é? Mia e Sebastian são dois jovens sonhadores que vão para Hollywood atrás daquilo que desejam pra si: ela, se tornar uma grande atriz de cinema; ele, apaixonado por jazz, um respeitado músico. No meio do caminho os dois se conhecem, se odeiam, depois se apaixonam, tudo isso enquanto correm atrás dos seus sonhos e dançam e cantam por uma Los Angeles ensolarada que brilha como as estrelas de uma noite sem nuvens. É um filme lindo, completamente deslocado da realidade, cheio de referências, que celebra não só o jazz, mas principalmente Hollywood, o cinema clássico e os sonhos que sempre foram a força motriz dessa indústria imensa.

Prestou? Demais! Embora ele não seja tudo isso que as pessoas estão dizendo, fico feliz que ele exista pra nos lembrar que ainda existem pessoas nesse mundo que acreditam em sonhos, que são apaixonadas por aquilo que fazem, que acreditam demais numa ideia tão ambiciosa quanto essa, mas principalmente que existam pessoas dispostas a fazer esse sonho – que é o que o filme é, no final das contas – acontecer. É por isso que eu realmente fico desgraçada da cabeça quando as pessoas começam a falar mal do filme e traçar paralelos com a situação atual dos Estados Unidos e a presidência do Trump. La La Land é uma ode ao cinema clássico, à Hollywood, ao sonhos, e também ao american dream, é claro, mas isso não quer dizer perigoso como muita gente se cansou de escrever por aí. Nenhum filme existe no vácuo, eles sempre vão ter uma mensagem além, mas dizer que o filme é o pavor dos nossos tempos é demais pra mim.

Sinceramente? É uma verdade universalmente conhecida que La La Land vai levar todos os prêmios e não sou eu que vou dizer que não. Embora ele não seja tão inovador, é um filme ambicioso, que se arrisca, e que tem a coragem de entregar algo que já não acontecia há bastante tempo. Mesmo que minha torcida não esteja com ele em todas as categorias – existem filmes mais importantes, melhores e que merecem mais levar o prêmio pra casa -, não vou ficar descontente caso ele leve, porque às vezes a gente só precisa lembrar que o cinema é essa fábrica de sonhos linda, imensa e incrível, e que num mundo tão difícil quanto o que vivemos, às vezes é importante ter alguém (ou algo) pra nos lembrar que é possível continuar a sonhar.

Previous Post Next Post

No Comments

Leave a Reply