JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

NÃO ERA PRETO E BRANCO

Cada Um Com Seu Cinema é um filme de 2007 que reúne curta-metragens de diretores renomados do mundo inteiro, onde cada um tem a oportunidade de contar pequenas anedotas de amor ao cinema; histórias minúsculas que, pouco a pouco, constroem uma obra que, ao mesmo tempo, critica, celebra e lamenta o futuro da sétima arte. Na aula de direção dessa semana, tiramos o tempo para assistir e analisar alguns desses curtas, um exercício de crítica e compreensão de linguagem, estética e técnicas tão distintas; uma experiência que seria maravilhosa, não estivesse eu mais preocupada em fingir que estava tudo bem.

Fingir que está tudo bem é, aparentemente, o que mais tenho feito nos últimos meses; uma tentativa ridícula e desesperada de provar pra mim mesma que as coisas não estão tão ruins assim, mesmo que elas de fato estejam. Como disse para uma amiga esses dias, é como se o tempo inteiro eu tentasse equilibrar uma porção de pratos que precisam de cuidado e atenção, mas que ao mesmo tempo exigem uma agilidade constante no trato: o tempo que dedico a um prato pode ser fatal para outro, e é preciso me desdobrar em muitas para dar conta de tudo. Mas tudo isso é feito com um sorriso no rosto porque, do contrário, eu não estaria fingindo tão bem, ninguém compraria o que minha boca diz, quase sem pensar: está tudo bem, eu respondo quando alguém se mostra preocupado demais com a situação; mas não está. É exaustivo tentar dar conta de tanto, sabendo que, no momento, sequer sou capaz de dar conta de mim mesma, mas não dá simplesmente para deixar que todos os pratos caíam no chão porque as consequências seriam muitas, imensas, desastrosas, e eu não consigo pensar numa forma razoável de lidar com cada uma delas. Existe uma vida acontecendo; existem responsabilidades, problemas, pessoas. Não é como se eu pudesse sair correndo cada vez que um dos meus fantasmas escapassem pela porta e começassem a me assombrar, mas não é, também, como se eu pudesse segurar essa onda por muito mais tempo.

Ontem, em determinado momento da aula, comecei a chorar em silêncio, sozinha no escuro – ainda que não estivesse sozinha de verdade. Na tela, a história de uma mulher cega que ia ao cinema com o namorado ganhava forma e traduzia de forma sensível e muito delicada uma porção de sensações e sentimentos – as mãos que se entrelaçam, os movimentos que se alteram de forma sutil à medida que o filme avança, a revelação de que a protagonista é cega, uma mulher que ouve e sente profundamente aquilo que é projetado na tela, mas não enxerga absolutamente nada, a câmera que não nos permite enxergar com clareza nada além da própria personagem também -, detalhes que pouco a pouco constroem uma narrativa curta e objetiva cujo o grande mote não é o cinema em si, mas todas as sensações que ele provoca; sensações essas que estão muito além da visão ou da compreensão humana. Ironicamente, o filme se chama Anna, e foi dirigido por ninguém mais, ninguém menos, que Alejandro González Iñárritu, um diretor que gosto bem pouco na maior parte do tempo, para não dizer coisa pior, mas que naquele pequeno momento conseguiu dizer muito mais (pra mim, ao menos) do que seus longa-metragens de três horas de duração.

Um momento particularmente tocante é quando, após sair da sala de cinema, visivelmente abalada, Anna pergunta ao namorado se o filme era preto e branco. Não era. Então ela chora, certa de que, ainda que seja capaz de ouvir e sentir, física e emocionalmente, cada uma daquelas histórias, jamais será capaz de viver aquela experiência de forma plena; e é assim que o filme chega ao fim. Tenho pensado muito sobre ele desde então, sobre Anna e também sobre mim, e quase sempre chego à conclusão de que, embora existamos em realidades muito distintas, existe algo terrivelmente familiar em sua narrativa. Eu me sinto um pouco como essa mulher: como se estivesse sentada na poltrona de um grande cinema, enquanto minha vida é projetada na tela; uma experiência que jamais sou capaz de experienciar em sua totalidade. Existe o choro e o carinho, existem as palavras trocadas no escuro, as mãos que se movimentam de forma sutil, expressando tudo aquilo que é grande demais para ser posto num intervalo de palavras; mas ainda é preciso que alguém me diga que as cores estão ali e sussurrar no meu ouvido o que está acontecendo. Existe essa regra – que às vezes é quebrada, às vezes não – clássica, tão velha quanto o mundo é mundo, de que no cinema nada se conta, tudo se mostra. Mas o que fazer quando a visão, esse sentido tão básico e fundamental, é arrancado – literal ou metaforicamente – de nós?

Anna lamenta pela cegueira, que pode ter surgido em seu caminho ou já nascido junto com ela; eu choro pela minha própria, que não nasceu junto comigo, mas apareceu no meio do meu caminho e ali ficou, sem nunca ir embora. Nós não pedimos por isso, nem eu nem ela, e seria muito mais fácil se fosse diferente, mas não é. “Você vai lidar com isso de uma forma boa ou ruim?”, pergunta uma voz no meu ouvido. Não sei, eu penso em resposta, por mais óbvia que a escolha pareça – entre o certo e o errado existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia, afinal. O filme não era preto e branco; era em cores vivas, bonitas e cheias de tons de cinza, que se entrelaçavam aos tons luminosos e vibrantes, formando algo único e complexo, assim como a vida. Talvez em algum momento, sejamos capazes de enxergá-las de novo.

(Esse texto não faz o menor sentido, mas bear with me; nada na minha vida faz o menor sentido no momento.)

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4 Comments

  • Reply Larie 10 de maio de 2017 at 1:28 AM

    Amiga, eu tô confusa e no final do texto achei que você estivesse ficando cega de verdade (eu tenho problemas? é uma questão). SOS.
    Faz muito tempo que a gente não para pra conversar e contar as piras e sinto que tem um hiato bem grande entre a gente pra tentar entender o que você tá passando, mas pelos seus sharings no twitter de vez em quando dá pra sacar que as coisas estão complicadas.
    Lembrei que perto do casamento da Couth você estava vivendo um inferno bizarro, com todas as coisas do mundo dando errado e lembro também de você dizer que aquele ano tinha sido horrível. Não vou negar nada, afinal, não estava na sua pele, mas queria lembrar um pouco desse momento da sua vida pra te recordar que, graças à Deus, os problemas são temporários e por mais que esteja dolorido e difícil, você vai conseguir sair de onde está muito mais forte. Mais cansada e desgastada? Com certeza. Mas, digo e repito, muito mais forte.

    A gente já sabe bem que não tem controle da própria vida e que parece que nunca estamos chegando a lugar nenhum, mas SLOW DOWN YOU CRAZY CHILD. Tenha um pouco de fé e procura uma ajuda que faça a diferença de verdade na sua vida. <3

    Melhoras!

    Beijos <3

  • Reply Marina Matos 10 de maio de 2017 at 5:46 PM

    Como assim não faz sentido? Faz todo sentido, sim, pelo menos pra mim, que tenho uma sensação muito semelhante de estar observando minha vida do alto. O que a gente precisa se lembrar é que a qualquer momento podemos levantar e ir mudar a cena, porque bem, é a nossa vida. Se isso vai ser bom ou ruim, só saberemos se fizermos, não é? Estou tentando me lembrar disso hoje (todo dia)

    Abraço apertado!
    Marina

  • Reply Natália Oliveira 17 de maio de 2017 at 3:36 PM

    Eu já desisti de encontrar sentido na vida. Acho que esse será o grande plot twist: você passou a vida inteira tentando fazer sentido, mas não era necessário. A grande questão é a falta de sentido.
    Acho que sei um pouco do que você está sentindo, apesar de termos sentimentos diferentes. Eu sinto como se, mesmo rodando todos esses pratos, eu continuasse como expectadora da minha vida. Nada de ser agende ativo, só expectadora. É incrível quanta energia a vida demanda da gente, mesmo pra manter as coisas mais insignificantes do lugar.
    Vou fazer uma metáfora que talvez não faça sentido nenhum, mas Anna, apesar de cega e incapaz de apreciar a obra como um todo, aprecia a arte. No fundo, nenhum de nós é capaz de ver e sentir tudo, sempre tem aquela parte que deixamos passar. A parte que ela deixa só é um pouco diferente da maioria das pessoas e, olha, acho que isso é meio que o que faz a gente ser único. Uma forma diferente de ver.
    Sei que, mesmo sendo bonita, a metáfora não resolve os problemas práticos e que os pratos tem que continuar girando e inteiros, então te desejo muita força pra lidar com tudo isso, independente da sua escolha sobre o bom e o ruim.

  • Reply Ramina 24 de maio de 2017 at 11:00 AM

    Chega uma hora que a gente está tão sufocada que não aguenta mais segurar pratos que não nos “alimentam” em nada. Esse momento chegou pra mim na sexta passada. Algumas coisas estão se quebrando, mas sinto que isso faz parte do processo.
    Espero que esse momento chegue pra você. Vai ser um pouco dolorido, dependendo do que se trata em sua vida, mas vai te levar a um lugar melhor.
    Pela primeira vez eu li um texto sobre não ser a protagonista da própria vida e (por incrível que pareça) eu não me identifiquei com ele. Desejo que daqui um tempo você não se identifique mais também.

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