COM AMOR

NÃO UM HERÓI, MAS É O MEU PAI

Eu quase nunca falo do meu pai. Meus amigos percebem isso. As pessoas que convivem comigo, de um modo geral, também. Ninguém fica me questionando, ninguém pergunta por quê é assim, mas eu também não me importo de falar sobre isso, porque a verdade é que nunca aconteceu nada. A vida, talvez, mas nada do que vocês podem estar imaginando. A gente não tem nenhum problema. A gente nunca brigou. Nunca discutimos, nem mesmo quando eu era uma pré-adolescente insuportável e ameaçava fugir de casa. Meu pai nunca encostou a mão em mim (não que eu tivesse dado motivo na frente dele, mas ainda assim). Nós sempre tivemos uma relação boa, ainda que distante.

O que acontece, na verdade, é que ele não participou tanto assim da minha vida. Ele ainda estava ali, ele ainda liga periodicamente pra saber como eu estou, como estão as coisas, como está a vida. E eu pergunto também, mais por educação do que por interesse na maioria das vezes, mas pergunto, porque no fundo eu também quero saber como ele está, como anda a vida, como estão meus irmãos (eu tenho irmãos!!!1!11), se tá tudo bem com minha vó (que vejo pouco, mas amo de paixão), essas coisas. De vez em quando a gente se encontra, e eu fico abraçada com ele o tempo inteiro, porque é um abraço quentinho, desses que a gente entra e se sente acolhida e não quer ir embora nunca mais. A gente conversa, a gente coloca o papo em dia e divide um café, mas no fundo sinto como se ele não me conhecesse de verdade – e acho que eu não conheço ele também.

Meus pais se separaram quando eu ainda era muito novinha, então não ter o meu pai ali do lado não foi tão difícil quanto é pra algumas pessoas. Quer dizer, minha mãe disse que eu sentia muita falta dele no início e por isso, na época, ele me via com muita frequência. Aliás, minha mãe sempre fez questão de frisar que meu pai já foi muito presente, pelo menos no início. Eu não lembro, mas ela faz questão de me lembrar. E eu acredito, porque ela não tem motivo nenhum pra mentir pra mim. Só que eu também sei que, em algum momento, a vida começou a acontecer. Não só pra mim, mas pra ele também. E eu já não estava mais em casa o tempo inteiro, e ele tinha uma nova família, tinha outros filhos pra criar, eu sinceramente não sentia tanta falta assim, porque tinha tudo o que precisava, minha mãe sempre supriu muito bem qualquer possível carência, obrigada, e tudo bem.

Lembro de uma vez que ele foi me buscar pra passear na base aérea. Eu já amava voar nessa época, mas por algum motivo recusei o convite. Ele não ficou chateado, ele não fez chantagem. Meu pai só me abraçou, disse que tudo bem, ficou um pouquinho comigo e foi embora. E eu fiquei muito mal. Não porque me arrependi (óbvio que me arrependi), mas porque ali eu percebi que nosso tempo era limitado, que às vezes é muito melhor dizer “sim” do que “não”, que é muito melhor se arrepender ter feito do que do contrário. Eu não tinha mais que sete anos nessa época e mesmo assim nunca esqueci desse episódio.  

Meu pai não estava sempre pro perto, mas me ensinou uma porção de coisas; ele quase nunca vem me ver, mas me confortou de uma forma que poucos conseguiram quando meu avô por parte de mãe faleceu, ainda que por telefone, mas também foi o primeiro a bater na minha casa no dia seguinte, de manhã bem cedo, antes da gente viajar pro interior. Meu pai não estava do meu lado sempre, não comemorou todas as minhas conquistas comigo fisicamente, mas sempre comemorou. Poucas pessoas acreditaram tanto em mim como meu pai.

Digo tudo isso porque a primeira coisa que as pessoas pintam quando a gente fala de um pai ausente é uma pessoa horrível que simplesmente não se importa. Meu pai não é assim. Ele se importa, ele cuida de mim mesmo de longe, e eu sei que se ele não fez coisas básicas como pagar pensão, foi só porque ele não podia, porque a vida não foi gentil com ele tanto quanto foi comigo, e que ele fez o que podia. Meu pai nunca me deixou na mão, ele sempre ia nas festinhas de escola e nunca esqueceu de me ligar no meu aniversário. Ele conversa sobre bandas de rock antigas que eu tanto amo e me dá DVDs de todas elas, mesmo os mais difíceis de achar. Ele sonhava em me ver formada em medicina, mas comemorou quando eu consegui passar pra comunicação, aquilo que eu sempre sonhei pra mim. Ele não é um herói. Ele não seria nem se tivesse cumprido toda a cota de obrigações. Ele é um ser humano, que erra e acerta também, e ele é meu pai, e eu o amo independente de qualquer coisa.

As pessoas sempre pensam que eu perdi uma parte importante da vida, mas não consigo pensar que saí perdendo quando eu nem ganhei de verdade. Eu não tive um pai assim, como todo mundo. Mas eu tenho um pai – e ele é ótimo do jeitinho dele. Quero que meus filhos tenham um pouquinho mais de sorte nesse sentido, mas acho que eu também tive sorte também. Meu pai não esteve presente o tempo inteiro, mas eu tenho um padrasto maravilhoso também, que é como um pai pra mim. Eu tenho uma relação ímpar com minha mãe, um companheirismo que só passo atribuir ao fato de, desde que eu era muito pequena, sempre ter sido eu e ela, ela e eu. Tenho amigas com pais maravilhosos que eu realmente admiro e que às vezes me deixam com um pouquinho de inveja, mas então eu me lembro de tudo o que eu tenho, e acho que isso é o suficiente. Talvez não pra todo mundo, mas é o que eu tenho e como eu aprendi a ser feliz.

♥   

 

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9 Comments

  • Reply Analu 11 de agosto de 2015 at 11:07 AM

    Amiga, que post lindo e sincero! Lembrei de uma frase que usava no nick do msn quando era adolescente (HAHAHAHA) que dizia assim: “as pessoas que mais amamos são as que mais nos magoam, pois queremos que sejam perfeitas e esquecemos que são apenas humanas”, e eu acho que ela cabe bem pra esse tipo de coisa. Seu pai não foi um herói, mas ele foi seu pai e, do jeito que podia, cumpriu e cumpre com a cota dele na sua vida, né? E se você consegue perceber isso e faz um texto tão bonito e maduro a respeito, é sinal de que as coisas foram construídas da forma que deveriam mesmo.

    Te amo! <3

  • Reply Ana Flávia 11 de agosto de 2015 at 3:27 PM

    Ei Ana! Não consegui ler o texto todo sem me emocionar. Se tem alguma coisa que eu amo ler sobre, são pais e mães.
    Tão bonito tudo isso que você disse, a maneira como reconhece as dificuldades mas valoriza as coisas boas. Deu até vontade de escrever sobre o meu, mas com certeza rolará um ciúme da mãe. hehe

    Coisas lindas e momentos bons pra vocês, sempre.
    Beijão! <3

  • Reply Passarinha 11 de agosto de 2015 at 5:57 PM

    Amiga, que texto lindo, de verdade. Sempre fiquei um pouco confusa sobre seu pai e confesso que fiz bem essa imagem que você falou aí (ausente e bla bla bla). Bom saber que não é assim, mesmo que não seja “o ideal”. Acho que cada um dá o que tem, mesmo que não seja o que a gente quer. E no fim das contas, pelo menos você sabe que ele vai estar aí quando você precisar.

    Te amo <3

  • Reply Gab 11 de agosto de 2015 at 7:14 PM

    Que post lindo, amiga! <3
    É muito bonito (e muito raro) reconhecer que as pessoas são só pessoas, que erram e acertam quase na mesma proporção. Achei muito legal o relacionamento que tu tem com teu pai, que mesmo ausente, é um pai muito bom, né? :)
    Te amo <3

  • Reply Alessandra Rocha 12 de agosto de 2015 at 12:55 AM

    Perai, tcho pegar um lencinho que cai um balde de areia no meu olho.

    Que texto lindo, miga! HIper sincero e hiper lindo e muitos feels <3 não consigo imaginar minha vida sem meu pai, literalmente, e fico muito feliz que você saiba dar valor ao seu, nem todo pai ausente é um crápula insensível, mas as vezes nem os próprios filhos enxergam isso ;~

    enfim, me tocou la no fundico esse texto! De verdade, to até sem palavras <3

    beijos!

  • Reply Gabriela 12 de agosto de 2015 at 1:01 AM

    Ana! Confesso que em cada palavrinha, eu me encontrava em relação ao meu pai. Meus pais se separaram quando eu tinha sete e eu cresci o vendo duas ou três vezes por semana. Mas sabe, é o meu pai! Não somos suuuuuuuuuuuuuuper próximos, mas nele eu encontro o abraço, o carinho e a fé que eu sempre preciso. Amei o texto e você roubou as palavras da minha mente.

  • Reply Ana 12 de agosto de 2015 at 12:17 PM

    Aff, fiquei toda emocionada. Eu não sei porque mas eu não consigo ler, assistir ou escutar história de mães e pais e não ficar emocionada. Do tipo que tranca a garganta e eu facilmente choraria, sabe? E não foi diferente lendo o teu post. Aff, Ana, praq isso. Hahahah. Achei ele tão sincero e verdadeiro, e fico feliz de saber que mesmo de longe e com a vida acontecendo você não se sente menos importante pra ele.

    Texto lindo. ♥

    Beijos!

  • Reply Anna 12 de agosto de 2015 at 9:03 PM

    Amiga, estou te dando um abraço mental muito apertado agora. Seu texto é lindo e sensível, e de uma maturidade, que olha. Lembrei do post que a Noelle escreveu sobre o pai dela, meio na linha do seu, e me marcou muito ela escrever que agora está aprendendo a amar um ser falho, e que pais não são heróis, mas são gente. Acho que pra ser um bom pai a primeira coisa é tentar fazer o melhor que pode, e acho que o seu consegue, né?

    *outro abraço*
    amo você <3

  • Reply Bela 26 de setembro de 2015 at 3:37 PM

    As pessoas me veem falando mais do meu pai do que de tudo mas nos ultimos tempos, ele vem se tornando ausente. Te entendo totalmente e dou ctrl c + ctrl v : meu heroi!

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