CINEMA E TV

NAS TERRAS DE LORDE GRANTHAM

Comecei a assistir Downton Abbey em meados de junho, sem saber que, em pouco menos de um mês, estaria completamente obcecada pela trama & o drama da família Crawley, bastiões da honra e propriedade de Downton Abbey, e seus empregados. O momento não podia ser mais inapropriado: era fim de semestre, eu estava atolada até o pescoço de trabalho, textos e artigos para escrever, prazos a cumprir, pepinos para resolver, etc etc, mas de repente fui levada para o interior da Inglaterra e de lá não pude mais sair; eu não queria mais sair. Parecia improvável que naquele momento eu pudesse me envolver tanto com uma série, mas foi entre a correria diária e a sensação de estar sempre tão sobrecarregada que descobri novamente o prazer de passar horas na frente da televisão sem tratar a atividade como trabalho ou fazê-lo com culpa, algo que não sentia propriamente desde que terminei a sexta temporada de Call The Midwife, ainda no início do ano. O que eu mais precisava naquele momento era de uma história, qualquer história, que me abraçasse com carinho e me oferecesse uma xícara de chá quentinho e doce, me levando de volta para aquele lugar de prazer e entretenimento genuíno que parecia inacessível há tanto tempo.

Downton Abbey faz exatamente isso, mas existe algo mais sobre aquelas pessoas, sobre aquelas histórias, que não são sempre um conto de fadas, mas ainda nos dão algum conforto. Sempre me sinto meio idiota quando falo que a série salvou minha vida, num momento em que o que eu mais precisava era ser salva, porque parece meio retardado levar as coisas a sério desse jeito, mas é verdade; e quando penso em tudo que estava vivendo naquele momento, nas coisas que estava fazendo e nos fantasmas que inevitavelmente estava enfrentando, nada disso me parece idiota ou retardado. Assisti a série duas vezes e emendei uma terceira – que em breve se transformará numa quarta – e não acho que seja por acaso que em todas elas eu tenha sentido as mesmas coisas, tenha rido e chorado exatamente nas mesmas cenas, e amado com um pouco mais de intensidade os mesmos episódios, me identificado profundamente com os mesmos personagens. Mais de um século me separam daquelas pessoas – e a língua, a cultura, o dinheiro, o título -, mas continuamos sendo apenas humanos, nos identificando uns com os outros mesmo nos cenários mais improváveis. O que mais gosto sobre Downton Abbey é justamente essa capacidade de nos transportar para uma realidade completamente deslocada da nossa própria, mas como dramas muito atuais continuam a fazer sentido numa via de mão dupla – o que às vezes é deprimente, é verdade, mas às vezes é um alívio também.

Não é difícil entender porque tem sido tão difícil superar a série, ao ponto de já ter assistido a mesma história três vezes, certa de que absolutamente nada ia mudar, e mesmo assim não conseguir parar de pensar em todos os seus personagens, e querer falar sobre eles, e escrever sobre eles, e torcer pelo dia em que eles finalmente vão voltar pra mim em um filme com duas horas de duração – o que vai acontecer, embora ninguém saiba exatamente como ou quando. Minhas amigas definitivamente criaram um monstro, e eu já passei tempo demais pedindo desculpas nessa vida para me desculpar agora por ser um monstro tão bonzinho e empolgado. Tem sido maravilhoso redescobrir esse lado fangirl, abusar da boa vontade e paciência das pessoas, e embora eu saiba que essa fase eventualmente irá acabar, queria poder registrá-la de alguma forma, quase como um lembrete daquilo que um dia significou tanto pra mim. Naturalmente, este texto estará repleto de spoilers (independente do que vocês consideram spoiler, risos).

1) PRIMEIRA TEMPORADA

A história começa em 1912, no interior da Inglaterra, mais especificamente no condado de Yorkshire, onde está localizada Downton Abbey, propriedade que dá título à série e cujo direito pertence aos Crawley, uma tradicional família da aristocracia inglesa. É ali que conhecemos Robert, detentor do título de conde de Grantham, herdado após a morte de seu pai; sua esposa, Cora, e suas três belas filhas – Mary, Edith e Sybil. Mas é também onde conhecemos a criadagem, as pessoas que mantém a propriedade em pleno funcionamento e que contribuem para que aquele modo de vida continue existindo. Somos apresentados primeiro a eles, e só depois à família, o que faz bastante sentido, sobretudo quando pensamos que Downton jamais existiria sem aquelas pessoas. É um universo paralelo e são eles que explicam o funcionamento e costumes da casa e da família. Já no primeiro episódio, descobrimos porque os jornais são passados à ferro antes de serem entregues à família, que cada um possui uma leitura de preferência, e que mulheres casadas ou viúvas tomam café da manhã ainda na cama, enquanto as solteiras fazem a refeição à mesa. São pequenos hábitos e detalhes que pouco a pouco constroem essa realidade tão distante da nossa, e nos convida a permanecer naquele lugar, mesmo que, do outro lado, o mundo nos convide a fazer qualquer outra coisa. O primeiro episódio tem a ambiciosa duração de uma hora, mas não é preciso que se passe nem quinze minutos para que o tempo pareça suspenso e a história seja a única coisa que importa.

Além de ser um episódio introdutório, onde somos apresentados aos personagens, costumes e tradições tipicamente inglesas à época, o piloto de Downton Abbey é, também, o primeiro contato que temos com o conflito central daquela temporada: sem um filho homem para herdar a propriedade, o título e o dinheiro de Cora, o clã vê seus planos caírem por terra quando Patrick, filho do futuro herdeiro de Downton, e seu pai morrem no naufrágio do Titanic. Assim, a fortuna, outrora reservada às mãos de parentes próximos – e de sua filha mais velha, Mary, noiva de Patrick à época – passariam a ser direito de Matthew, um parente distante e desconhecido que ganhava a vida como advogado. Ainda no primeiro episódio, Matthew recebe uma carta de Lorde Grantham e, quando questionado pela sua mãe sobre o que se trata, ele diz que Robert vai mudar suas vidas; e é verdade. Algo bastante curioso sobre assistir os mesmos episódios várias vezes é que situações que parecem acontecer de forma lenta e gradual num primeiro momento, se desenvolvem e são resolvidas rapidamente, às vezes num mesmo episódio, quando vistas novamente. Em Downton Abbey, isso jamais significa que elas sejam mal desenvolvidas, mas que muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, e é incrível pensar que todas elas coexistam em harmonia. Grande parte da primeira temporada se dedica ao desenrolar do relacionamento de Mary e Matthew, mas não se restringe a ele: é ali que vemos nascer o romance de Anna e Bates, que acompanhamos Gwen buscar um futuro melhor e Sybil se interessar por política e questionar o status quo.

Gosto especialmente da primeira temporada porque ela traça de forma brilhante um estilo de vida que se torna cada vez mais antiquado e que pouco a pouco se transforma em algo impraticável num mundo que muda com tamanha velocidade. No início, parece quase natural como as coisas funcionam, mas o que Downton Abbey faz é justamente questionar se ainda existe espaço para esse tipo vida e segurança, e mostra que mesmo os Crawley não estão livres das mudanças que surgem com o tempo. É um questionamento que ganha força no futuro, mas que, pra mim, é anunciado ao fim dessa temporada, quando Robert recebe um telegrama informando que a Inglaterra acabara de entrar na Primeira Guerra Mundial; um evento que muda absolutamente tudo.

2) SEGUNDA TEMPORADA

Não estamos mais em Downton, mas sim no front. Bombas, gritos e corações que batem com força são os únicos sons que ouvimos, o que faz bastante sentido. Embora não goste tanto assim dessas cenas, são elas que dão o tom da temporada e traçam uma linha muito bem definida entre passado e presente. O futuro já não é exatamente uma questão; ninguém sabe se ele vai existir ou não, de modo que a única coisa que resta é tentar sobreviver aos tempos difíceis. Em determinado momento, Matthew comenta que o que viveu em Downton parece ter acontecido em outra vida se comparado ao que ele via e vivia tão de perto no front; uma verdade dura, mas ainda uma verdade, muito embora não seja a única. Na propriedade, as coisas também se transformam radicalmente: criados são convocados para lutarem pelo país, mulheres passam a assumir funções antes reservadas aos homens e todos começam a ajudar como podem. Até mesmo a propriedade se transforma em uma casa de repouso para soldados que receberam alta do hospital quando, após o suicídio de um ex-combatente, fica claro que mesmo que seus corpos já não precisem mais de cuidados, aqueles homens não estão prontos para ter uma vida normal.

Todos precisam, então, encontrar uma nova forma de lidar com essas mudanças – o que significa extrapolar a própria zona de conforto, desconhecer limites e permitir-se adaptar às novas mudanças. Alguns enfrentam a situação com mais dificuldade, mas outros encontram a si mesmos justamente nas novas funções que passam a assumir. Cora passa a administrar a casa de repouso, Edith cuida do bem-estar dos pacientes e Sybil, que estudou enfermagem, é quem assume a responsabilidade pelo cuidado médico dessas pessoas, e todas se satisfazem profundamente nessas atividades. O funcionamento da casa muda completamente e a privacidade de outrora deixa de existir. Contudo, quando Sybil diz que quer ser útil, que não quer voltar àquele mundo que vivia antes, ela não está dizendo que deseja estar em guerra para sempre, mas que experimentou uma vida, teve uma oportunidade, e não quer limitar-se novamente a uma realidade de jantares e romances arranjados, algo que também reverbera nos arcos de sua mãe e de Edith. Faz sentido: Sybil, assim como Edith e, em partes, a própria Lady Crawley, descobriu uma nova versão de si mesma e sua capacidade de ocupar espaços que, até então, lhe haviam sido negados. Quando foge com Tom, o motorista, Sybil não está tentando confrontar a própria família, não está sendo uma garota rebelde que deseja tão somente chamar atenção e negar as próprias origens, muito pelo contrário. A união dos dois marca, também, a ruptura de Sybil com o mundo que conhecera antes do conflito – ela deixa de ser Lady Sybil para tornar-se Mrs. Branson, como confidencia à Mary no ano seguinte, algo que a enche de orgulho e satisfação, e abre um mundo de novas possibilidades.

Mas ela não é a única. Para o bem ou para o mal, todos os personagens são afetados pela guerra, de maneira direta ou indireta. Existe a morte, a perda, o luto e o medo, mas muitas das histórias se desenvolvem de modo a nos lembrar que ainda existem questões puramente humanas naquele cenário, como o relacionamento de Matthew e Mary, que já não é mais uma realidade, visto que ambos estão noivos de outras pessoas, ainda que o sentimento continue tão forte quando antigamente. São questões complexas, ambíguas e que não são tão facilmente resolvidas, embora muitos tentem enxergar assim. Além disso, é nessa temporada que conhecemos Ethel, uma criada ambiciosa e petulante, que deseja uma vida melhor para si até o dia que todos os seus sonhos caem por terra. A antes criada de uma respeitada família é demitida sem ter direito a uma carta de referência após se envolver com um major que estava hospedado na casa, de quem, conforme descobrimos mais tarde, Ethel engravida. Ela, então, sofre as consequência por ser uma mãe solteira, se prostitui e vive na miséria, enquanto ao major nada acontece. Em uma temporada onde tantas coisas tristes acontecem – são muitas mortes, muitos (muitos!) dramas -, a história de Ethel recorda, sobretudo, o que significa ser mulher numa sociedade patriarcal.

Contudo, nem só de desgraças é feito o segundo ano da série, que após virar a vida de seus personagens de cabeça para baixo, nos presenteia com um episódio especial de Natal que é, muito provavelmente, o melhor episódio de toda a série. É nesse episódio que Mary e Matthew finalmente se entendem e decidem se casar, num dos meus pedidos favoritos da ficção; com direito à neve e duas pessoas belíssimas se amando demais. É minha temporada favorita, aquela que realmente me prendeu e foi uma divisora de águas entre a Ana que simplesmente gostava de Downton Abbey e o monstro que virei depois, risos.

3) TERCEIRA TEMPORADA

Muito provavelmente a mais polêmica das temporadas, o terceiro ano de Downton Abbey é marcado por uma série de mudanças e tragédias que, mais uma vez, mudam radicalmente os rumos da série. Tudo parece bem até que, numa sucessão terrível de fatos, não está mais. É triste como as coisas mudam de uma hora para outra e presenças que acreditávamos certas se tornam apenas uma lembrança de tempos distantes. Contudo, é em meio à tristeza que muitas das cenas mais bonitas acontecem – e, talvez por isso, goste tanto dessa temporada. Assim como na vida, as alegrias coexistem com a tragédia, formando um grande balaio de coisas boas e ruins que transformam os personagens em novas versões de si mesmos.

O casamento de Mary e Matthew é um dos grandes acontecimentos da temporada, mas não é o único. Bates está na prisão, acusado de assassinar a ex-mulher; Edith é abandonada no altar; Sybil e Tom retornam à Downton; e Robert precisa lidar com a perspectiva de perder a propriedade e o trabalho de sua vida após um investimento que lhe custou toda a fortuna. É aqui que os Crawley finalmente entendem que o mundo está mudando, e que, talvez, eles devam mudar junto com ele. Resistir não parece uma saída, pelo contrário. Assim, quando Matthew salva a propriedade com a herança deixada pelo pai de sua antiga noiva, ele se torna não apenas o herdeiro de Downton, mas passa a dividir a administração da propriedade com Robert que, por sua vez, precisa aprender a lidar com as ideias inovadoras do genro – que são, no final das contas, as grandes responsáveis por salvar Downton da possível ruína. Tom, que até então acreditava não ter um lugar para ocupar ali, passa a desempenhar o papel de mediador entre os dois, e pouco a pouco se aproxima da família, mas principalmente de Matthew, que se torna um verdadeiro amigo e suporte. Da mesma forma, o relacionamento com Matthew traz à tona um lado de Mary que não conhecemos: da mulher que ri, é generosa, e expõe os próprios sentimentos com mais facilidade. As picuinhas com Edith, outrora regra no casarão, se tornam cada vez mais raras. Elas não gostam uma da outra, uma verdade que jamais irá mudar, mas elas aprender a lidar com a presença uma da outra e, pouco a pouco, se desvinculam do inveja e frustração geradas pela relação conturbada e de constante disputa. Mary está feliz com o casamento, ama profundamente o marido e sua maior preocupação passa a ser a vontade de ter um filho e, finalmente, gerar o herdeiro que Downton precisa. Edith, por sua vez, não utiliza o abandono como desculpa para se tornar a vítima da própria história, mas encontra formas assumir as rédeas da sua vida e voltar a ter um espaço todo seu. Ela passa a escrever para um jornal, se envolve com o editor do jornal e pouco a pouco passa a vislumbrar um futuro cada vez mais promissor para si mesma.

Mas há, ainda, as verdadeiras tragédias; aquelas para as quais não há nenhuma solução. Mesmo tendo começado a série já sabendo o que viria a acontecer, existe algo de muito único em ver essas coisas, de fato, acontecerem, sobretudo quando a relação entre espectador e personagens é construída de forma tão íntima e delicada, como é o caso aqui. Existe o apego, existe o carinho, existe o profundo desejo de aquelas pessoas sejam felizes. Matthew e Sybil partem, ironicamente, em momentos de muita alegria; mais uma vez, a alegria que coexiste com a tristeza e a tragédia. A morte de Matthew é a que pega todos de surpresa; não é por acaso que, à época em que o episódio foi ao ar pela primeira vez, muita gente se revoltou, se questionou o que aconteceria depois. É uma morte que muda absolutamente tudo e essas mudanças são palpáveis. Mas a morte de Sybil é mais dramática, mais carregada de tristeza. Ela não causa tantas mudanças na série de forma prática, mas ainda é a morte que, todas as vezes, me faz chorar como se estivesse assistindo pela primeira vez. E que faz todos os personagens chorarem juntos. Ao contrário de Matthew, que não temos acesso ao que aconteceu em sequência à notícia de sua morte, no caso de Sybil, acompanhamos todo o processo de luto. Toda dor, todos os momentos de carinho que surgiam em meio à tristeza, mas também a mágoa. Algumas cenas são tão fortes que jamais saíram da minha cabeça, como quando Mary corre para acordar os pais de madrugada; quando Lady Crawley pede para ficar sozinha com Sybil para se despedir do seu bebê; quando Thomas chora copiosamente ao receber a notícia e é consolado por Anna; quando Mrs. Hughes, ao ver os dois, diz que o espírito mais doce da casa partiu; quando Violet diz a Carson que eles viveram muitas coisas juntos, mas nada tão triste quanto aquilo, e então sai andando sozinha, com dificuldade. É uma tristeza imensa, que extrapola a tela e chega do outro lado, tornando-se um dos momentos mais marcantes de toda a série.

4) QUARTA TEMPORADA

Seis meses se passaram desde a morte de Matthew quando a temporada tem início, com a saída furtiva de O’Brien na madrugada, que abandona a propriedade para viajar pela Índia ao lado da marquesa de Flintshire. Rose, filha da marquesa, está passando um tempo em Downton, a pedido de seu pai, e toda uma torta de climão é servida quando O’Brien vai embora; roubar criados de outra pessoa, afinal, era um negócio muito sério à época. Logo fica claro que Rose não tinha qualquer conhecimento prévio sobre a atitude da mãe, que a pegou de surpresa tanto quanto à família. Numa tentativa de consertar o erro da mãe, Rose sai em busca de uma nova dama de companhia para Lady Crawley, o que eventualmente se torna um problema: a candidata escolhida é Edna Braithwaite (também conhecida como a personagem mais odiosa da série), que fora despedida justamente por forçar uma aproximação problemática com Tom – algo que apenas ele e Mrs. Hughes possuíam conhecimento. Motivada a tirar algum proveito da situação, Edna e Tom acabam se envolvendo, o que dá margem para que ela forje uma gravidez falsa, até a mentira ser descoberta e ela ser mandada novamente embora.

Contudo, nem só de damas de companhia mala é feita a temporada. A grande questão sobre a temporada, tanto para os personagens, quanto para quem assiste do outro lado é: o que vai acontecer agora? As mudanças geradas a partir da morte de Matthew são palpáveis, a começar pela própria Mary, que se recusa a voltar a viver e se torna uma pessoa cada vez mais difícil de lidar, enfiada num buraco do qual ninguém consegue tirá-la. É só após ter contato com uma carta de Matthew, escrita pouco antes da sua morte, onde ele expressa o desejo de deixar toda a herança para Mary, que as coisas mudam e ela volta a ter… vida. Mary assume seu lugar como proprietária majoritária de Downton, passa a exercer funções administrativas ao lado do seu pai e de Tom. Embora pretendentes apareçam nesse meio tempo, Mary os dispensa, porque não se sente pronta para tal, de modo que o momento se torna ótimo para termos contato com uma nova faceta da personagem, tão incrível quanto a mulher sedutora e determinada que apresentara no passado. Uma das minhas cenas favoritas, aliás, é quando Mary se suja inteira de lama para salvar seus porcos ao lado de Charles Blake (também conhecido como o melhor ship que nunca aconteceu); uma prova de que ela está de volta, e nunca esteve em tão boa forma. Ao mesmo tempo, Edith começa a viver seu drama pessoal ao lado do editor, Michael Gregson, que desaparece após ir para a Alemanha numa tentativa de conseguir um divórcio para casar-se com Edith. Ela, por sua vez, descobre-se grávida pouco tempo após a partida de Michael, e muito embora sua realidade a impeça de ter o mesmo destino de Ethel (um ponto que a Michas levantou em uma de nossas conversas sobre a série e achei super pertinente), até mesmo para uma mulher rica e de nome, tonar-se mãe solteira é um problema.

Além disso, essa é, também, a temporada em que Anna sofre um estupro, o que até hoje me questiono se era realmente necessário. Que Anna & Bates são o casal mais sofrido da ficção não é exatamente uma novidade, mas existe algo de muito incômodo num crime tão bárbaro que serve tão somente para adicionar mais sofrimento a uma história já tão sofrida. É uma cena perturbadora por demais, com direito à ópera, que abafa os gritos de Anna, que é violentada no andar de baixo, e mesmo sem nada ver além de uma porta (graças a Deus), nós sofremos com ela, choramos por ela. Essa, definitivamente, foi uma virada que jamais vi vindo e, quando aconteceu, pareceu demais até pra mim. Um limite é definitivamente ultrapassado, o que fica ainda mais evidente quando Anna é acusada injustamente pelo assassinato do estuprador; mas, mais uma vez, esse é apenas um lembrete do que é ser mulher numa sociedade que ainda nos nega o papel de sujeito. Não é por acaso que, para a maioria das pessoas, a quarta temporada seja a menos favorita – um fato que até mesmo eu, que gosto bastante dela, apesar dos pesares, sou obrigada a reconhecer.

5) QUINTA TEMPORADA

Estou exatamente no primeiro episódio da quinta temporada pela terceira vez, mas por algum motivo, essa é a temporada do qual menos tenho recordações. Ao contrário de suas antecessoras, que permanecem frescas na minha mente, a quinta temporada é aquele momento em que as coisas ficam meio estranhas e, de repente, você já não se lembra de muita coisa, não sabe bem o que aconteceu – que não significa que seja uma temporada ruim, só não tão emocionante quanto as outras. Após uma temporada em Londres, quando Rose é devidamente apresentada à sociedade, os Crawley estão de volta a Yorkshire e, pouco a pouco, as coisas voltam aos seus devidos lugares: Mary vive um momento da sua vida em que já não precisa estar casada, ela apenas quer estar casada, o que faz toda diferença, e permite que ela seja criteriosa em sua escolha, demorando todo o tempo necessário e toda prova possível para garantir um casamento feliz. Edith, por outro lado, passar a tocar a própria vida, dividindo-se entre o jornal deixado para ela por Michael e o drama de estar tão perto e tão longe da própria filha, a pequena Marigold, que passa a ser criada por Mrs. Drewe, mulher de um fazendeiro local, sem saber que se trata da filha de Edith. Naturalmente, é um arranjo fadado ao fracasso e que eventualmente faz suas vítimas, mas adiciona novos contornos à trajetória de Edith, que se vê definitivamente sozinha quando descobre que Michael foi assassinado em um motim liderado por (à época, um tal de) Hitler.

O foco é momentaneamente tirado das Crawley mais jovens para se voltarem para personagens a quem, até então, a possibilidade de romance não parecia uma realidade. Isobel, mãe de Matthew, passa a ser cortejada por Lorde Merton, padrinho de Mary, com quem tem um romance conturbado, com direito a filhos que não aceitam o novo relacionamento do pai e servem tortas de climão por onde passam (definitivamente, as piores pessoas do mundo). Também é na quinta temporada que descobrimos o passado pouco convencional da condessa viúva, Violet Crawley, que quando jovem quase fugira com um príncipe russo, mas fora impedida pela princesa, que literalmente a puxou para fora da carruagem e a enviou de volta ao marido. Quando os dois se reencontram, o príncipe Kuragin já não é sequer um príncipe, mas um refugiado, que perdera tudo, absolutamente tudo, após a Revolução Russa. Ele, contudo, ainda deseja viver seus últimos dias ao lado de Violet, que recusa, porque naquele momento, já não acredita que a proposta faça algum sentido. Mas é ao relembrar o passado da condessa viúva que Downton Abbey subverte a imagem da senhora dura, racional e indissociavelmente alinhada aos valores tradicionais para mostrar que, antes de tudo isso, Violet é humana, o que significa que mesmo ela teve a sua cota de agir com impulsividade e coração. Quando compartilha sua história com Isobel, ela fala sobre o incidente de um lugar em que o abandono dos filhos e do título lhe parecem absurdos, mas Violet jamais se condena; ela também fora jovem, muito jovem, e abandonar sua família para viver ao lado do homem que amava parecia fazer todo o sentido do mundo. É essa mesma Violet que, no ano seguinte, diz à Mary que acredita em muitas coisas, mas sobretudo no amor, e é algo que faz muito sentido, ainda que essa seja uma faceta reservada a poucos.

Há, ainda, Cora, que passa a ser cortejada pelo historiador Simon Bricker, amigo de Charles Blake, que passa a frequentar a propriedade da condessa por causa de uma obra de arte. Logo o interesse muda de figura, quando Bricker passa a flertar com Cora. Ela aprecia sua companhia, mas a amizade chega ao fim quando, numa noite, Bricker aparece sem ser convidado em seu quarto, o que termina em uma briga com Robert, que chega de surpresa, porque lógico. Robert e Cora passam algum tempo sem se falar, até que ele seja lembrado de seus erros do passado e volte atrás, mas o mais interessante sobre essa história é que Cora, antes a mulher à sombra do marido, mostra que é muito mais do que uma mulher preocupada com roupas e criadagem, ou o cardápio do jantar. Ela é uma mulher interessante e inteligente; algo que Robert, depois de tantos anos, veio a esquecer. Cora passa a ganhar mais autonomia dentro do próprio casamento; o que às vezes incomoda o marido, mas que lhe dá cada vez mais certeza e segurança sobre seu valor. À medida que se encaminha para o seu final, a série começa a traçar o desfecho de seus personagens; e o de Cora é assim: seguro, confiante, bonito. Ainda que não seja minha favorita, a quinta temporada é um lembrete do por quê gostamos tanto de Downton Abbey e porque somos tão apaixonados por todos aqueles personagens – o que, inevitavelmente, nos faz lamentar o iminente fim. É nessa temporada, ainda, que Rose e Atticus se conhecem, talvez o casal mais adorável da série; que aparecem pouco, muito pouco depois de casados, mas se podemos ter alguma certeza é a de que, independente de onde estejam, Rose e Atticus estarão felizes.

6) SEXTA TEMPORADA

É a última temporada, aquela em que todos os arcos começam a ser concluídos e todos os episódios passam a ter um gostinho de despedida. Por ser a única que tenho baixada – na época que assisti, ela ainda não tinha chegado na Netflix – foi, também, a que assisti mais vezes: qualquer tempinho era motivo para dar um passeio por aquelas histórias, caminhar com aquelas pessoas e relembrar que apesar de todos os pesares, fica tudo bem. E é lindo. A série não se esquiva do que acontece de ruim, daquilo que é difícil, das personalidades complexas demais com as quais está lidando, mas não utiliza isso como uma desculpa para transformar a si mesma numa série séria & sombria; ela, afinal, nunca teve a pretensão de ser séria, menos ainda sombria (Downton Abbey sombria kkk). Assim, mesmo os dramas mais complicados ganham desfechos satisfatórios e são encarados de forma mais natural, quase como se a arte fosse, de fato, um retrato de nossas próprias vidas (exceto que não somos nobres da Inglaterra do século XX, mas bear with me).

Não é por acaso que, embora eu goste muito de muitas coisas nessa temporada, uma das minhas cenas favoritas seja, justamente, uma cena em que personagens são finalmente confrontados pelos seus próprios demônios e tentam se redimir, não pedindo desculpas por ser quem são, mas numa tentativa de se tornarem versões melhores de si mesmos. Mary erra demais. Mary erra tanto que desgraça a vida da própria irmã, que teve literalmente um único momento de felicidade na vida inteira. Que chegou tão, tão perto de ser feliz, e de repente, Mary lhe tirara aquilo, do jeito mais mesquinho possível. É uma cena dolorosa porque a gente vê quanto o ser humano pode ser feio, pequeno e complexo do jeito mais horrível possível, e é exatamente sobre isso que Tom fala pra Mary, naquela que é uma das minhas cenas favoritas da série inteira. Então ela pode ser mesmo uma pessoa horrível, Mary pensa. E não podemos todos? Mary destrói Edith porque ela é, sim, uma pessoa horrível, como a própria Edith foi uma pessoa horrível quando, lá na primeira temporada, expôs o segredo de Mary sobre a morte de Mr. Pamuk para a embaixada Turca, como eu fui uma pessoa horrível quando me ressenti pelas conquistas de pessoas que amo profundamente, mas ainda assim fui incapaz de não pensar “por que ela e não eu?”. Gosto de como Mary não é condenada por ser uma pessoa horrível, mas encontra uma forma de subverter essa narrativa e se tornar uma pessoa melhor, por tentar consertar as coisas, ainda que não se possa desfazer o passado; o que todos deveríamos fazer, mas poucos são realmente capazes de concretizar. Gosto de como Edith, contrariando todas as expectativas, se torna marquesa, é aceita por ser quem é e com Marigold à tiracolo, tem o casamento digno da pessoa maravilhosa que se tornou.

E gosto de como os criados também ganham seus momentos de alegria. Gosto de como Thomas encontra uma luz depois de tanta tristeza. De como Anna finalmente consegue realizar o desejo de ser mãe. De como Gwen aparece de novo e janta com seus antigos patrões, na casa que um dia ela limpou e trocou os lençóis da cama. Como mesmo após se casar, Rose continua sendo a mulher expansiva e sorridente de sempre, e como Atticus continua encantado pela sua luz, rindo como bobo o tempo inteiro. De como Mr. Molesley se realiza como professor. Como Daisy se torna uma mulher iluminada, consciente, com um futuro não mais limitado à cozinha. Como Mrs. Hughes e Mr. Carson se casam, são felizes juntos. Na última cena, todos os personagens se unem e cantam juntos, numa cena linda, linda de morrer, deixando todos os corações aquecidos. É o fim, até que se prove o contrário, e é o fim que sempre sonhamos; como um quentinho no coração e o gosto doce do chocolate. Amém.

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1 Comment

  • Reply Manu 11 de setembro de 2017 at 2:28 AM

    AMIGAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    O FILME DE DOWNTON
    Depois de ler esse post, é só nisso que consigo pensar. Não sou essa doida das séries como você pra reassistir os episódios, mas seu texto me fez rever a série na minha cabeça e relembrar como cabe TANTO AMOR numa produção da tv britânica. Todas as histórias dos personagens, os desfechos felizes depois de tanto drama e sofrimento (Anna e Bates, jesus cristo), a desonra da Mary, a fuga da Sybil, a tragédia com mr. Gregson, Robert falido, o ~divórcio~ dos pais da Rose, as doenças da mrs. Patmore e mrs. Hughes, Matthew na maca de hospital… tudo isso me volta à mente, e me faz pensar em como esses personagens são assustadoramente humanos mesmo só existindo em seis temporadas de tv. Estamos muito próximos desses seres, mesmo não sendo britânicos em 1910, por todos esses benditos sentimentos que perpassam essas histórias e chegam até a gente. ESSE FILME. Por favor, ele precisa existir, quero me reunir com todos esses personagens de novo (e essa foto!!! Carson na cabeceira da mesa, a Mary fazendo beicinho e a Cora #morta HSHAHHAHHA MELHOR SÉRIE DO UNIVERSO)

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