DRAMAS REAIS

NO JOY

Uma das minhas partes favoritas do revival de Gilmore Girls é quando a Lorelai chega na casa de seus pais e encontra a mãe lá dentro, de camiseta e calça jeans, se desfazendo de tudo ao seu redor que não traz mais nenhuma satisfação enquanto compartilha os ensinamentos de Marie Kondo. Nunca li o livro da Marie Kondo – e, aqui entre nós, confesso que não tenho a menor vontade -, mas gosto especialmente dessa parte porque ela mostra um lado da Emily que, até então, a gente não conhecia. Sozinha pela primeira vez depois de viver tantos anos ao lado do marido, Emily precisa encontrar uma nova forma de viver e é natural que atitudes drásticas sejam tomadas no meio do caminho antes que ela encontre a luz que precisa pra continuar seguindo em frente. No final das contas, ela tira toda a situação de letra, e termina a temporada completamente plena, com uma taça de vinho na mão e o céu estrelado sobre sua cabeça – uma cena que vira e mexe ainda surge na minha cabeça e me faz abrir um sorriso na hora.

Eu tenho pensado um bocado na minha relação com as coisas que tenho. Sobre como eu gasto meu dinheiro, é claro, mas principalmente sobre o significado que minhas posses assumem na minha vida, nesse momento. Vira e mexe me pego pensando no dia em que inevitavelmente farei as malas pra sair de Brasília, e é com um tristeza bem genuína – embora também um tanto ridícula – que eu me dou conta de não vou poder levar tudo comigo de uma vez e só de imaginar sair do meu canto sem minhas roupas, meus sapatos, meus livrinhos, já é um tormento. É até meio ridículo falar sobre isso porque, enquanto eu me preocupo demais em levar livros e roupas pra onde quer que eu vá, eu não dou tanta importância assim pro meu carro – um bem que, financeiramente, é muito mais valioso que todos os outros e que também me pode ser muito mais útil do que, sei lá, um vestido de festa ou um livro de autoajuda. Só que eu sou totalmente incapaz de pensar nessas coisas de forma racional e aí, quando menos imagino, lá estou eu de novo, pensando no dia que sairei de casa sem todas as minhas roupas e sem todos os meus livros, chorando de desgosto e com um nó enorme na garganta porque that’s how we roll.

Conversando sobre isso com a Yuu, ouvi (ouvi é modo de dizer, já que nossas conversas são sempre escritas) que bater as asinhas com todas as coisas debaixo do braço é algo muito drástico a se fazer, e que não tem nada de errado em deixar algumas coisas pra trás. Afinal, são essas coisas que vão me dar a sensação de voltar no tempo cada vez que eu colocar os pés na minha antiga casa – pelo menos até que eu me sinta confortável o suficiente para me desfazer daquilo que já não me representa mais. Ela também me disse que esse é o tempo que minha mãe vai precisar para se acostumar com o ninho vazio e se acostumar com a ideia de não ter mais sua filha sempre em casa. Aos poucos, no entanto, eu sempre posso ir levando mais coisas, até que só reste aquilo que eu consiga passar pra frente sem ter vontade de olhar pra trás. É mais ou menos por aí que eu me instalo de vez em um novo lugar, assumo completamente uma nova vida, e minha mãe se sente livre e confortável o suficiente para transformar meu quarto numa academia.

É algo que eu acredito um bocado, até porque, a própria ideia de mudança envolve uma boa dose de desapego. A gente precisa colocar na balança e avaliar aquilo que realmente merece ser levado pra um novo lugar e aquilo que só vai ocupar um espaço precioso. A ideia de que outra pessoa vai fazer melhor uso do que quer que eu esteja doando é muito sedutora, mas ao mesmo tempo, meu apego desenfreado não deixa que isso pese tanto quanto a minha tristeza de ter que abandonar algo que por algum tempo me fez muito feliz – ou que, de um jeito nada saudável, continua fazendo, só que ali, parado, no canto do armário. Por mais que eu valorize demais as coisas que tenho hoje e reconheça o esforço que eu e minha mãe fizemos ao longo dos anos para que eu tivesse todas essas coisas, existe um limite muito claro entre ter algo simplesmente por ter, e ter porque eu realmente preciso daquilo, uso aquilo ou qualquer coisa assim, e talvez eu esteja ultrapassando esse limite muito além da conta.

Ainda falta um bocado até eu ir pra algum lugar, mas enquanto isso não acontece, espero que pelo menos nesse meio tempo eu possa praticar com mais frequência o desapego – ou então, quando chegar a hora, que eu faça como a Rory e enfie tudo em caixas e só parta depois que tudo já estiver a caminho do meu destino, risos.

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1 Comment

  • Reply Yuu 6 de dezembro de 2016 at 11:54 PM

    Amiga! <3 Fico tão feliz que as nossas conversas estejam te trazendo inspiração para o Blogmas! Sempre que eu vejo meu nominho aqui fico toda ASDFGHJKLÇ. O jeito como você transcreve as coisas que eu digo até me faz parecer inteligente, risos. Mas, enfim, como conversamos, é isso aí! Por mais que o método de organização da Marie Kondo extrapole os limites, fico feliz por ela ter inspirado uma das melhores cenas do revival (Emily de brusinha, jamais superaremos) e uma reflexão que na medida certa faz a gente perceber que pouco a pouco a gente pode, sim, desapegar das nossas coisas pra quando a nossa mudança acontecer, a gente ter um pedacinho do nosso antigo "eu" guardado até nos sentirmos prontas pra abrir mão de uma vez. Siga em frente, bichinha. Te amo infinitos. *insira o sticker do Pusheen mandando beixos aqui*

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