COM AMOR

NOSSO PEQUENO INFINITO

Ou: Acontecem coisas.

Segundas-feiras nunca são fáceis. Segundas-feiras pós feriado são ainda mais complicadas. Segundas-feiras pós feriado prolongado no Rio de Janeiro, com as melhores pessoas do mundo, são quase impossíveis de sustentar.

Quando eu acordei no dia 4 de maio de 2015, a sensação era mais ou menos como ter sido atropelada por um caminhão – físico e de emoções. Meus olhos ainda estavam inchados por causa do chororô do dia anterior, meu corpo todo doía como se eu estivesse prestes a ficar doente, e o dia por si só já parecia tão errado que eu só queria ter um papinho com o universo e falar “olha, muito obrigada pelos últimos dias, mas será que a gente pode cancelar essa segunda-feira particularmente desagradável?”. Claro que não podia, mas eu me dei de presente a manhã de folga mesmo assim, e mais tarde também recebi de presente um tempo extra pra não fazer nada, porque minha aula tinha sido cancelada de última hora e eu ia poder ir pra casa, rolar na minha cama de pijama, com um prato de comida gostosa e quentinha nas mãos, e talvez algum filme ou um episódio de Grey’s pra acompanhar. Eu achei que era disso que eu precisava, eu acreditei que ia ficar tudo bem se eu tivesse uma noite livre em casa. Mas quando eu coloquei o pijama e deitei, não era como se eu estivesse realmente curtindo aquilo, porque de repente minha cama era grande demais só pra mim e eu já não sabia mais o que era dormir sem ter a Analu segurando minha mão.

Foi só então que eu me dei conta que talvez, e só talvez, a Ana que entrou naquele avião rumo ao Rio de Janeiro naquela quinta-feira, véspera de feriado, não fosse a mesma que tinha voltado de lá, mesmo que as roupas, o cabelo e o rosto continuassem os mesmos. A Ana que tinha decidido ir pro Rio, encontrar as ~amigas da internet~ jamais imaginaria que aquela viagem não era só sua primeira viagem sozinha, ou que o destino era só um feriado com as amigas em terras cariocas, porque a real é que aquele bilhete de avião me levou pra um universo paralelo onde eu vivi uma eternidade que parecia grande demais pra caber nos nossos poucos dias numerados, onde eu me senti tão infinita e tive tanta fé na vida que não conseguia sequer pensar em voltar.

No nosso pequeno universo paralelo, a gente tinha um apartamento só pra gente, onde nunca se fazia silêncio e as camas estavam sempre cheias. A gente podia usar coroa na balada, dançar ao som de Sandy & Junior sem nenhuma vergonha na cara e cantar Lua de Cristal como um hino, mesmo que nossa trilha sonora oficial continue sendo Taylor Swift. A gente também podia deitar no chão da livraria, se apaixonar por caras gatos no metrô e fazer folia com um bolo e algumas garrafas de champagne. Nesse nosso universo paralelo, os canudos têm um formato peculiar, e a gente pode casar ou jogar do penhasco quem a gente quiser, a hora que quiser. A gente tem a Urca, a gente tem o mar, a gente tem um cara seminu pendurado na parede. Acima de tudo, no nosso pequeno universo paralelo, a gente tem A Gente, e é por isso que de repente coisas que podiam ser triviais nas mãos de qualquer pessoa se transformam em algo precioso nas nossas.

Quando a Analu me disse, em algum momento depois de eu entrar na Máfia (que pode ser bem no comecinho ou bem depois), que a ressaca dos encontrões eram sempre terríveis, eu devo ter dito que entendia, e pra legitimar devo até ter imaginado estar com aquelas meninas num instante e no momento seguinte ter aquilo arrancado de mim. Doeu, óbvio, mas isso nem de longe me preparou para o que estava por vir. E meu Deus, como ela estava certa.

Então eu lembrei da hora que cheguei em Brasília e da primeira coisa que o Gui me perguntou, ainda no aeroporto: “e aí, gostou?”. Eu sorri amarelo e disse que sim, lutando com o choro que ainda queria sair mesmo depois de eu ter chorado a alma pelos olhos dentro do avião. Eu queria contar pra ele o quanto tinha sido incrível, como eu me sentia, mas não conseguia ir além das respostas monossilábicas. A cena se repetiu quando eu cheguei em casa e abracei minha mãe. Nessa hora eu realmente achei que fosse chorar, mas tudo ficou meio estranho quando ela disse “que saudade, me conta, como foi?” e eu respondi que não queria voltar nunca mais, o que acabou deixando ela meio chateada. Eu esperava que minha mãe, antes de qualquer pessoa, fosse entender o meu sentimento e o quanto aquilo tudo tinha sido importante pra mim, e que também entendesse minha saudade. Só depois eu fui perceber que o que a gente tinha vivido era tão nosso, tão único, que eu precisava preservar de alguma forma e não deixar que ninguém estragasse minhas lembranças. E no fundo, eu sabia, eles iam fazer isso. Não por mal, nunca por mal, mas porque eles jamais iriam entender.

Escrever esse texto é mais ou menos a mesma coisa. Porque não dá pra falar do meu 4 de maio sem falar do que aconteceu antes. Do que fez esse dia não ser só mais um 4 de maio, mas o 4 de maio em que eu senti, pela primeira vez, aquilo que a Analu sentiu muito antes e um dia me contou como era. E eu tenho medo, lá no fundo, que escrever sobre isso estrague um pouquinho essas lembranças.

É um inferno que, quando eu volto pra Brasília, eu não tenha uma irmã mais velha. Que eu não possa ser adotada pela Mimi, que eu não tenha a Giu segurando minha mão na balada sempre que eu ficar com vontade de beber alguma coisa, e que não tenha Lili mandando a gente falar baixo. Que eu não veja todo dia a Palo se acabando de rir no chão do apê, que eu não tenha a Iralinha botando os idiotas da balada pra correr, que não ande sempre de braços dados com a Tary, que não veja a Rafinha tirando um monte de selfies o tempo todo. Que eu não possa dormir todos os dias de mãos dadas com a Analu, ou receber os abraços maravilhosos dela sempre que der vontade, ou então que eu não possa ouvir a Anna Vitória rir e automaticamente querer rir junto, só porque é a coisa mais fofa aquele sorriso acontecendo #hetera. É uma pena que a gente não possa simplesmente se espremer no sofá mais próximo e jogar conversa fora até cansar, todo santo dia, como se não tivéssemos nada melhor pra fazer, porque a verdade é que quando estamos juntas, a gente não tem mesmo.

Meu 4 de maio foi difícil e muito vazio porque eu fui obrigada a engolir uma realidade que eu não queria, mas que era necessária. Mas ao mesmo tempo ele também era meio doce, e entre um soluço de choro e outro, eu conseguia sorrir quando lembrava que eu só estava sentindo tudo aquilo porque acontecem coisas, vejam só, e eu só estava triste porque muita coisa de fato tinha acontecido entre a noite do dia 30 e o dia 3. É por isso que talvez a Ana que desembarcou em Brasília na noite do dia 3 e pegou as malas chorando, e depois acordou com os olhos inchados numa cama que pela primeira vez parecia vazia demais no dia 4, não seja a mesma que começou essa jornada.

Eu já sei viajar sozinha e entendo como funcionam as conexões, e me sinto um pouquinho mais adulta por isso. Também sei que distância é um problema, mas aprendi que ficar em casa choramingando não resolve absolutamente nada e que se a gente acreditar, a gente consegue. Nem sempre, mas quase sempre. A vida não é fácil pra ninguém, problemas existem, são reais e tudo, mas eu enfrentaria todos os problemas do mundo se soubesse que o que me espera no final são esses pequenos infinitos que fazem a vida valer a pena de verdade. We found Wonderland. Esses quatro dias ao lado das melhores pessoas do mundo me ensinaram que amizade é, e sempre vai ser, a coisa mais linda que já foi inventada. Por mais que nós estejamos fisicamente distantes, a gente sempre vai estar ali, uma pra outra, unidas por essa amizade tão bonita e pelas lembranças desses momentos mágicos que vivemos juntas e que só a gente entende, e ninguém mais pode tocar. Mas foi quando alguém compartilhou uma foto com cara triste e todas começamos a mandar nossas próprias fotos com cara de choro, todas unidas na nossa fossa particular, que eu soube que o que realmente me fazia diferente daquela Ana de alguns dias atrás era que a de agora, finalmente, tinha encontrado um lar. Não físico, mas ainda assim um lar.

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I was enchanted to meet you.

 

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5 Comments

  • Reply Analu 14 de maio de 2015 at 12:34 PM

    Retornos de encontrão são essa saga: cada dia é uma que acorda com o coração transbordando e resolve escrever sobre o assunto e cada post que eu encontro de surpresa eu fico com o coração apertado de saudade e amor. Amiga, “Lua de Cristal” é nosso hino oficial antes de Taytay! No primeiro encontrão todos os álbuns de foto tinham trechos dessa música. Nossa paixão por Tay se desenvolveu depois e ela virou nossa musa, nos presenteou com vários hinos incríveis, mas o oficial é o Lua, porque, veja bem, “nós somos invencíveis, pode crer” e outras frases do gênero que têm absolutamente tudo a ver, sabe?
    Amei demais seu texto, amei que você amou porque passei muitos momentos preocupadas com você sem falar nada: você é das que contemplam, eu queria aprender a ser assim ao invés de gritar o tempo todo e dar canseira em todo mundo, mas é a vida, cada um brinca como pode. HAHAHA
    Te amo, amei que você foi, I was enchanted to meet you too e partiu próximo encontro, que é deles que a vida é feita! <3

  • Reply Larie 15 de maio de 2015 at 12:11 PM

    Ainda sonho com o dia que vou estar escrevendo esse texto, xará. </3 Fico pirada de saber que já rolaram uns 5 encontrões desde que eu entrei na Máfia e ainda não pude ir em nenhum. T_T
    Muito lindo, inclusive, esse infinito visto de perto que a gente sabe que tem. Na internet não é a mesma coisa, eu sei, mas dá pra sentir que tudo vale a pena quando olho as fotos. A Gente é incrível. <3333333
    Fico até imaginando minha volta me acabando de chorar. Preciso me planejar melhor pra tornar isso realidade. <3

    Beijosss

  • Reply Palo 15 de maio de 2015 at 1:21 PM

    Ai, xará. Achei que finalmente estava começando a superar (na medida do possível) a saudade e a conseguir segurar essa barra que é ter vocês aqui um dia e no outro não, e você me vem com essa.
    Incrível que acabei de postar o meu quatro de maio também e usei uma frase quase igual a “a sensação era mais ou menos como ter sido atropelada por um caminhão – físico e de emoções”. Acho que falta definição melhor.
    Por favor, voltem. Não sei viver sem ter vocês por aqui.
    E amei que você entrou no nosso jogo de um dia.
    Amo você <3

  • Reply Lilica 23 de maio de 2015 at 2:45 PM

    Eu ia dizer algo que a Analu já disse lá em cima: que Lua de Cristal é nosso hino desde o primeiro Encontrão, afinal “nós somos invencíveis pode crer!” Ai Sharon tão difícil essa saudade né? Mas foi tão incrível nosso feriado não foi? Pra mim também foi uma experiência nova pois foi a primeira vez que eu viajei para um Encontrão, os outros em que estive foram aqui na minha terrinha! E nossa, quanta saudade do nosso apê, do Rio, das farras, da festa, dA Gente! Já quero outro!!!

    e viu…dá pra vocês cantarem Taylor um pouco mais baixo? Pobre velhinho do andar de baixo!!! Ahahahaha! <3

    Te amo!

  • Reply Anna 23 de maio de 2015 at 5:20 PM

    Sharoneide, que post mais lindo! Fiquei emocionada e cheia de (mais) saudades ainda! Fico muito muito muito feliz de verdade que você tenha amado estar lá com a gente, que você tenha se sentido em casa também, porque eu também fiquei o tempo todo pensando “Meu Deus, a Xará vai sair correndo daqui a qualquer momento, somos completamente malucas”. Não sei se já disse isso, mas we accept you, one of us. Agora não tem mais volta.
    I was enchanted to meet you too!
    Amo você <3
    (14 DIAAASSS)

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