JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

O ABISMO NO MEIO DO CAMINHO

Não lembro exatamente quando, tampouco por quê, mas em algum ponto em meados de setembro, comecei a assistir Gilmore Girls pela segunda vez. Era pra ser um rewatch banal e descompromissado, minha companhia em dias difíceis, noites insones e horas de almoço – às vezes, meu único momento de paz e sossego real ao longo do dia -, mas de repente as coisas começaram a ficar meio estranhas e já não fazia mais sentido assistir qualquer outra coisa ou fazer qualquer outra coisa quando eu simplesmente poderia fugir para Stars Hollow e me deliciar com a existência daquelas pessoas, me solidarizar com seus conflitos, erros e mágoas, e viver uma realidade que parecia tão melhor.

Assim como Downton Abbey, Gilmore Girls se transformou num bote salva-vidas, cujo maior objetivo era me manter sã; o barquinho que impedia meu coração de se afogar. A grande diferença entre as duas, no entanto, é que enquanto em Downton tudo parecia pertencer a uma realidade tão, tão distante – estamos, afinal, falando de uma história que gira em torno uma família aristocrata inglesa e seus empregados, tudo isso ambientado no século passado, um mundo que definitivamente não existe mais -, Gilmore Girls sempre me forneceu um conforto muito mais próximo, como o abraço apertado de alguém que sabe exatamente o que você está passando e entende o quanto pode ser difícil, doloroso e traumático, mas que também reconhece que vai ficar tudo bem. Rory Gilmore, sobretudo na faculdade, sou eu em todos os níveis possíveis, sejam eles bons ou ruins (principalmente os ruins), e existe algo de muito confortável – num nível totalmente pessoal – em ver outra pessoa que não uma amiga, colega ou conhecida viver coisas tão parecidas e ainda encontrar uma saída em meio ao caos.

Não é por acaso que tantas amigas, colegas e conhecidas se identificam com a Rory – e se inspiram nela, e querem ser como ela, e sentem-se profundamente incomodadas pelos erros dela. Ainda que a experiência esteja longe de ser universal, porque contempla uma bolha muito específica de mulheres brancas e privilegiadas, com acesso à educação de qualidade, que nunca tiveram que se preocupar com muito além de serem boas alunas, boas filhas e entrar numa faculdade de prestígio, a trajetória da Rory representa muito dos nossos conflitos internos, que derivam em grande parte por esse estigma de perfeição (a filha perfeita, a aluna perfeita, a namorada perfeita, a neta perfeita, etc etc) que não corresponde à realidade. Crescer significa ser constantemente confrontada pela perspectiva de que ser um floquinho de neve especial é uma missão fadada ao fracasso, que por mais perfeitas que sejamos, jamais vamos chegar lá. É por isso que gosto tanto da quarta temporada em diante, quando Rory finalmente vai para Yale e começa a caminhar por conta própria. Sem a presença constante da Lorelai – que, talvez pela primeira vez, também já não tem mais todas as respostas – Rory precisa descobrir sozinha por que e como resolver aquilo que acontece em sua vida, e mesmo que nem sempre tome as decisões certas, ela ao menos está tentando. Muita gente odeia essa nova versão da personagem, que é intensificada no revival, mas eu adoro justamente porque é quando ela se permite ser mais humana. Nos acostumamos a ter esse referencial de perfeição e é por isso que vê-la errar chega a ser tão incômodo, mas é, ao mesmo tempo – e ironicamente, e contraditoriamente – tão libertador.

As coisas dão errado. Elas dão tão errado que às vezes a gente se pergunta se algum dia elas já deram certo, porque não pode ser possível que algo dê tão errado sem que exista um histórico de erros cabeludos por trás. E ainda assim elas dão, porque, bom, essa é a vida. Um dos grandes motivos que me levaram à terapia foi minha incapacidade de lidar com o futuro e o fato de não poder ter uma vida inteira planejada, perfeita, estável, com todos os movimentos calculados previamente. Desde muito nova, eu sabia exatamente o que fazer, como fazer, e mesmo que não soubesse com precisão a carreira que gostaria de seguir – tinha um fraco por algumas áreas -, a certeza de que dali alguns anos eu estaria na faculdade já era suficiente. Estar na faculdade transformou tudo, no entanto: de repente, o próximo passo já não parecia tão óbvio – eu estava num penhasco, à frente havia apenas uma neblina densa e horrível -, me desestruturando por completo. O que vai acontecer depois? se tornou uma das minhas perguntas favoritas – e também a mais desesperadora delas – e ninguém te conta o quanto pode ser angustiante pensar num futuro que, embora repleto de opções, sempre parece tão abstrato.

“Pra onde eu vou agora?”, ela perguntou, sentou na estrada e começou a chorar sozinha.

Um dos meus momentos favoritos de Gilmore Girls é quando Rory vai para Stars Hollow com Lucy e Olivia, suas novas amigas da faculdade, e elas jogam conversa fora, riem, pintam os cabelos de rosa, roxo e verde, vasculham álbuns de fotos, fazem doces de flocos de arroz, e se divertem de verdade. Mas é ali, em meio a uma banal girl’s night out, que Rory tem seu momento e despenca, confessa que não sabe o que fazer em seguida, chora o fim da faculdade que se aproxima mais e mais, lamenta sua saída da editoria do Yale Daily News, se entrega à todas as dúvidas que a destroem por dentro. Ela sente muito, naturalmente e intensamente, e chora no chão do banheiro com os cabelos pintados de rosa, numa dicotomia que faz todo o sentido do mundo; tão, tão adulta e, ainda assim, tão ridiculamente vulnerável. Ela não é uma pessoa de verdade, não ainda, assim como a personagem principal de Frances Ha, e há algo de reconfortante ali – não somos também, afinal. Quando permite que suas angústias se transformem em palavras, ganhando forma e tamanhos reais, Rory é um pouco (muito) como nós. Em qualquer outra circunstância, ela permitiria que esses monstros a consumissem por dentro, tornando-os uma ilusão menos real, ainda que tão maléfica quanto; mas quando os expõe, ela os confronta realmente – e encontra de volta amor, apoio, carinho e uma compreensão que parte, principalmente do entendimento de que não é a única naquele barco. Lucy e Olivia também se sentem assim; e eu, e vocês aí do outro lado, e todas as garotas do mundo que foram criadas para serem lindos floquinhos de neve especiais, até descobrirem que o mundo era um lugar grande demais para nos limitarmos  a uma caixa. Rory Gilmore não está sozinha justamente porque nós também não estamos.

As últimas semanas foram um processo doloroso de ser muito adulta, o que significa que na maior parte do tempo eu só queria me esconder embaixo das minhas cobertas, fingir que jamais tinha existido e que todas as merdas que já havia feito não eram problemas meus, tampouco minha responsabilidade. Foram tombos atrás de tombos, atrás de outros tantos tombos, até que eu não quisesse mais me levantar, mas ser adulto é levantar uma, duas, três vezes – e levantar rápido -, só para cair de novo, dessa vez por um motivo completamente diferente. Foi preciso me lembrar constantemente que falhar não era o fim do mundo – nem da minha carreira ou da minha vida -, que errar era humano e que não fazia o menor sentido chorar por erros que chegaram muito perto de acontecer, mas não aconteceram de verdade. Tive a sorte de contar com pessoas nesse meio tempo que tinham a paciência e firmeza necessárias para lembrarem que nem tudo estava perdido e me mandar engolir o choro e voltar ao trabalho, mas que também me abraçaram e confortaram, que me lembraram que todos os êxitos pesavam mais do que as falhas que sempre pareciam monstros tão maiores e assustadores com os quais lidar na minha cabeça.

Ao mesmo tempo, quando tudo acabou, foi preciso lidar com o fim de algo que vinha me consumindo por inteiro, pro bem e pro mal, e ao qual me apeguei profundamente; chegar ao fim foi como me sentir órfã e descobrir que, embora o cansaço e o desgraçamento fossem reais, e não sobrasse uma roupa limpa no meu armário, eu não queria que aquilo terminasse. Eu sentia falta da rotina, das pessoas, dos problemas que pareciam impossíveis de serem resolvidos, até acontecerem como num passe de mágica, porque a magia do cinema existe também – e principalmente – nos bastidores. No último dia, nós nos abraçamos longa e fortemente, trocamos mensagens fofas, celebramos o quanto aquela experiência havia sido incrível, mas dois dias depois, sozinha e de pijamas no meu quarto, eu só conseguia me sentir terrivelmente perdida, como se um pedaço grande e importante de mim tivesse ido embora. Eu tinha mergulhado em um oceano inteiro de emoções, conflitos, altos e baixos, sem que tivesse tempo de respirar antes de enfiar cabeça e corpo inteiros na água – o que poderia ter sido traumático, é verdade, mas foi uma das melhores experiências que eu podia ter tido, mas principalmente vivido; e eu vivi, cada segundo. Eu coloquei não apenas os pés na água, mas me joguei inteira, sem saber direito o que me esperava, e foi incrível. Estar de volta no meu quarto escuro foi como me sentir presa depois de experienciar a imensidão azul incontrolável, totalmente sem limites do mar, e depois sequer poder sentir o vento na cara.

Em “French Twist”, é a saída do Yale Daily News que faz a Rory ter essa percepção de que as coisas estão acabando; ela saíra do jornal, em breve saíra da faculdade e, de repente, não tem nenhum emprego para ir, nenhuma pós-graduação para começar. Pra mim, o fim das gravações é o que marca esse momento. Porque tudo está acabando. Ainda faltam alguns semestres para o fim da faculdade, mas ela já está em sua reta final – o fim parece mais próximo do que o início, afinal – e muito embora exista uma porção de coisas a serem feitas, projetos a serem produzidos, experiências a serem vividas, toda a perspectiva do fim já começa a fazer seu estrago. E ainda assim, ela não deixa de ser natural – terrivelmente, mas ainda assim. Minhas crises de ansiedade voltaram com força total; meu cabelo jaz no chão do meu quarto enquanto, pouco a pouco, um buraco começa a ser aberto na minha cabeça; e uma atrás da outra, embalagens de comida chinesa começam a ser empilhadas no lixo da minha cozinha, e ainda assim, a única certeza é que tudo isso passa – só para começar de novo e de novo em outro lugar. Eu sou Rory Gilmore de cabelos cor-de-rosa, chorando no chão do banheiro, apavorada demais com o que me reserva o futuro – mas isso também vai passar.

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