BEDA, JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

O DIA QUE DISSERAM QUE EU IA PRO INFERNO

Semana passada ouvi de um cara que eu ia pro inferno só porque estava de short.

Foi mais ou menos assim: estávamos eu, minha mãe, minha tia e minha vó passeando por uma comercial aqui de Brasília, pagando contas e resolvendo assuntos de gente adulta, parando vez ou outra pra olhar as vitrines, olha que sapato incrível, socorro, ou seja, um dia absolutamente normal pra família Alves Silva. Em determinado momento entramos numa banca porque minha vó precisava muito comprar uma revistinha de palavras cruzadas e minha mãe queria dar uma olhada nas revistas de crochê, então eu fiquei ali, chupando meu picolé de chocolate branco e me distraindo com a seção de livros, pensando se devia ou não comprar aquele exemplar d’A Seleção que estava na promoção, até que minha mãe se cansou de olhar revistas e minha vó achou o que procurava e nós decidimos que já era hora de voltar pra casa.

Saímos da banca direto pro carro quando de repente surge um senhor, de uns 70 anos no máximo, e no meio do caminho tinha um homem, tinha um homem no meio do caminho, e esse homem segurava uma Bíblia e pregava no meio da rua dizendo uma porção de coisas que sinceramente nem fiz muita questão de ouvir, até que ele me viu. E naqueles dois segundos que se seguiram, eu soube que ele ia fazer alguma coisa, porque de repente eu era a única menina de short ali e ele precisava provar seu ponto ou qualquer coisa assim, então ele correu pro meu lado e gritou perto o suficiente pra eu saber que era comigo mesmo que ele estava falando; alto o suficiente pra que todo mundo ali pudesse ouvir também, sobre como era horrível uma mulher se expor daquela forma e que, basicamente, eu ia pro inferno por causa daquele short.

Eu. Ana Luíza. Vou pro inferno. Porque. estava. usando. um. short. No calor. CALOR!

please stick a fork in my neck

Olhei pra minha mãe, meio sem reação (sempre fico sem reação nessas horas) e vi que ela estava rindo, não pra ridicularizar ninguém, mas como quem não leva nada do que está sendo dito a sério, e aí eu comecei a rir também, tentando mostrar que eu também não estava levando aquilo a sério, ora veja só, ainda que o senhor continuasse dizendo que eu ia arder no mármore do inferno. Eu realmente não levo esse tipo de coisa a sério porque, cá com meus botões, acho que Deus tem coisa muito mais importante pra se preocupar do que castigar mulheres que saem com as pernas de fora por aí (porque é claro que ninguém condena o cara que usa bermuda, né, risos eternos). Mas sei lá? Se tratava de um senhor muito religioso, com idade mais ou menos avançada e com grandes chances de ter dois ou três parafusos a menos na cabeça, ou seja, relevar foi minha primeira opção, paciência, segue o baile. Mas eu não estaria sendo honesta com vocês se dissesse que eu não me senti mal, que não fiquei pensando demais sobre o assunto mesmo quando ele já tinha ficado velho, e que não senti que estavam violando meu espaço e meu direito de usar o. que. eu. quiser. Ou seja, eu não fiquei brava com o senhor, mas sim com essa sociedade machista que a gente vive e com esse pensamento errado que em pleno 2015 ainda domina a cabeça da maioria das pessoas.

Já é a segunda ou terceira vez que isso acontece comigo, sempre de um jeito diferente, mas ainda assim seguindo os passos da mesma opressão muitas vezes velada, e também acontece com as mulheres que eu conheço, minha mãe, tias, amigas, colegas de faculdade. Aliás, isso tudo é tão óbvio nas nossas vidas que de vez em quando acontecem essas desagradáveis coincidências, e sua amiga tem que ouvir, na mesma semana que você ouviu que vai pro inferno, de um cara totalmente aleatório que opa, acho que sua saia é curta demais. Migo, mina nenhuma é obrigada. Vai achar alguma coisa em outra esquina que é melhor.

Eu demorei muito pra conseguir construir na minha cabeça essa ideia de que sim, eu podia usar o que eu quisesse, quando quisesse, e que ninguém tinha o direito de se meter na minha vida (ou no meu guarda-roupa), muito menos homenzinho de merda que se acha no direito de dar pitaco numa vida que definitivamente não lhe diz respeito. Pensar dessa forma me deu uma liberdade que eu não tinha aos 13 anos, quando não usava short nem saia nem vestido porque morria de vergonha das minhas pernas grossas e meio moles, que continuam assim até hoje, e tudo bem (pelo menos na maior parte do tempo). Eu deixei que as pessoas dissessem que eu precisava malhar e só então mostrar minhas pernas, que eu precisava tonificar (?) meus músculos e acabar com as celulites, até que eu percebi que eu podia usar short sim, mesmo com as pernas moles e um tanto de celulite na coxa, e ninguém tem nada a ver com isso. Pois é, ninguém.

 

 

 

 

A gente cresce aprendendo que tem que se dar o respeito. Que não pode falar alto, nem andar com roupa curta, que não pode sair de casa sozinha à noite porque nossa, que perigo. É perigoso sim e vai continuar sendo sempre, mas o problema não é meu, nem da minha roupa, nem do meu gênero. Não é porque eu saí de saia curta que eu tô pedindo pra ser assediada e, pior, pra ser estuprada. Todo dia eu vou pra faculdade, à noite, morrendo de medo de ser mais uma vítima, porque o medo existe e o estupro é uma realidade. No entanto, nunca deixei de usar short por causa disso, e mesmo assim o que mais ouço quando uma mulher é atacada no estacionamento, uma mulher que só estava ali pra estudar, conseguir um diploma e tentar vencer na vida, é que poxa, isso é péssimo, mas ela tava de short/saia/decote, então pediu, né? Não, não pediu. E olha, eu até sei que o buraco pode ser mais embaixo, mas pelo menos por hoje, abaixa essa bola aí e não vem com esse papo errado pra cima de mim não.

É absurdo que em pleno 2015 a gente ainda tenha que se justificar pelas roupas que escolhe. Tipo eu, lá em cima, dizendo que estava de short no calor, no calor, no calor, quando eu podia estar de short em qualquer lugar se assim eu quisesse, em qualquer época do ano. Eu podia rolar na neve de shortinho, com a polpa da bunda de fora, pagando calcinha se fosse o caso e ainda assim seria só uma moça de short e fim – e ninguém ia poder falar nada a respeito ou fazer nada comigo. Me desgraça a cabeça essa história do povo ficar caçando chifre em cabeça de cavalo, colocando lenha numa fogueira que sequer existe. Se eu uso short é só porque eu estou afim de usar, porque acordei e tive vontade, não porque de repente pensei nossa, que belo dia pra seduzir uns machos por aí. Eu não estou pedindo pra ser assediada, eu não estou querendo provocar ninguém. Por favor, aprenda a lidar com isso. 

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Essa não é a primeira vez que escrevo sobre isso e provavelmente não será a última, não porque quero dar palco pra maluco dançar, mas porque a gente precisa falar sobre isso e a gente sabe que sim, vai continuar acontecendo. No fundo, esse post é muito mais pra que eu, e vocês aí do outro lado também, saibamos que isso acontece com a gente o tempo inteiro sim, mas o problema definitivamente não é nosso. O inferno, queridas leitoras, são os outros, não nós. Ninguém tem o direito de se meter na sua vida e dizer o que você deve ou não usar. Tudo bem se o outro não gosta, se não acha certo, mas é por isso que cada um ganhou uma vida pra cuidar, então sossega aí e cuida do que é seu. Não sei deixem levar por esse papo errado, não deixem que te digam o que é certo e o que não é. Como disse minha amiga Anna Vitória num post incrível que vocês sinceramente deviam ler, eles é que são os loucos. Não tira o batom vermelho, não desiste da minissaia, obrigue o mundo a lidar com isso e bola pra frente. E é isso aí.

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8 Comments

  • Reply Raúla Yasmin 20 de agosto de 2015 at 8:43 PM

    Isso me irrita profundamente, sabe? Escrevi recentemente sobre o fato de um dia ter resolvido ir trabalhar de vestido e o quanto tal simples atitude me deixou intrigada e ainda mais revoltada. Refleti por todo o tempo que eu deixei de usar short porque tinha medo dos olhares, por viver de camiseta GG pra não chamar atenção. Fiquei chateada e sempre fico pelo fato de ter que repensar o que vou usar, por às vezes deixar de usar algo pelo simples fato de existir ômi tosco por aí. Mas a nossa luta continua, nosso batom vermelho persiste e a gente não vai desistir. Força!
    E ah: se tu for para o inferno por causa de teu short, iremos todas juntas!
    Beijos!

  • Reply Ana Flávia 21 de agosto de 2015 at 2:23 AM

    Oi Ana! Que semana, hein?
    Eu fiquei muito de cara lendo o post da Anna Vitória esses dias e estou novamente agora.
    É tão triste as vezes viver nesse mundo machista que nem sei, perco a paciência e respiro vinte e cinco vezes pra não responder e pagar de louca, mas não tá dando.
    O pior nem é a possibilidade de ir pro inferno usando short ou minisaia, o problema todo é a gente usar qualquer roupa que chame atenção e DAR O DIREITO do outro nos julgar e nos assediar, porque sim, é a vida, aceitem. NÃO. Tá errado isso.
    O problema não é o tamanho da roupa, é o tamanho do machismo dessa sociedade doente.

    Beijão. :*

  • Reply Anna 21 de agosto de 2015 at 2:55 AM

    Amiga, que merda, né? Bom, você já sabe tudo que eu penso sobre isso, e lendo seu texto fiquei pensando. “Gente, ela tá gastando um parágrafo inteiro pra falar sobre short, socorro!!!” porque né, pensa que mundo louco esse que a gente vive onde rola uma necessidade de se explicar por causa de short e dizer que sim, vamos usar shorts independente das crenças, da vontade, ou da (falta de) respeito alheia. Sei lá, me cansa isso. E o pior nem é os outros pensarem que é errado, é a invasão, sabe? É ele interromper seu sábado, o outro lá interromper o meu pra essa palhaçada. É isso fazer a gente ficar PENSANDO sobre isso quando podia estar pensando em coisa melhor, tipo Verdades Secretas.
    Não dá.
    Mas vai ter short sim, e se reclamar a gente mostra a polpa da bunda (amo falar isso hahaha)
    te amo!

  • Reply Analu 21 de agosto de 2015 at 11:42 AM

    Amiga!! AHHHHHHH! Gritei. Gritei porque essas coisas me dão uma agonia sem tamanho! Gente, as pessoas não tem NENHUM limite, sabe? E também tô com você: não consigo nem garrar birra do idoso religioso, mas sim da sociedade. Meu próprio vovô ficava preocupadíssimo quando estávamos usando “carça curta”, mas nunca ditou regras nem nos encheu o saco, só falava que achava que não ia dar muito certo (mas como ele achava que nada tinha como dar muito certo mesmo, HAHAH). Mas eu acho que a gente educa o mundo fazendo mesmo. Quanto mais os mascu acham errado, MAS A GENTE FAZ e eles que se danem pra aprender a aceitar que dói menos, sabe?

    Te amo! <3

  • Reply Passarinha 21 de agosto de 2015 at 1:19 PM

    Sharon, eu ri dessa história quando você contou, mas na real é triste mesmo. Triste que qualquer um, independente da religião (e do fanatismo) e da idade, achar que pode se meter no que você veste. Sempre achei que deus tinha mais com o que se preocupar do que a minha roupa. Sério mesmo que a quantidade de roupa que eu visto determina se eu sou uma pessoa boa ou ruim? Claro, isso faz todo sentido.

    Beijos, te amo.

  • Reply Alessandra Rocha 23 de agosto de 2015 at 2:45 AM

    nossa miga, que espírito evoluído! Eu já teria chutado o cara e saído andando ou ficado e xinagado ele pelo abuso. E não dou desconto porque é velho não porque tem velho que acha que só porque é velho tem permissão de falar e fazer o que quer sendo que já deveria ter bom senso né? Acho isso um absurdo e fico revoltada quando leio esses causos, fico pensando no que faria, mas acho que ficaria sem reação mediante um absurdo desses

    aff
    aff
    aff

    odeio esse mundo às vezes!

  • Reply Ana 23 de agosto de 2015 at 7:17 PM

    Ana linda maravilhosa, era pra eu ter comentado nesse post há dias porém REALIDADE NÃO ME DEIXOU. E também tive que me preparar psicologicamente porque sabia que ia passar raiva?! Porque porra, que merda. Eu não aguento mais essas coisas. Parece que a mulher sempre tem que tá se justificando. Em qualquer situação. Se ela é boa no trabalho, é porque quer ser homem ou porque deu pro chefe. Se ela é gorda é porque é preguiçosa. Se ela não tem peito poderia colocar um silicone. Se ela gosta de maquiagem é porque ela tá se vendendo como algo que não é. Se ela usa shorts ela tá querendo aparecer, é piriguete que não sente frio.
    Eu tô de saco cheio. Vou balançar minha bunda mole celulitosa e perna mais mole ainda no meu shorts curto e ai de quem reclamar. Vão cagar, na boa. Não somos obrigadas.

    Boa sorte, miga. Força aí pra lidar com esses babacas, porque o mundo tá cheio deles.

    Beijão. ♥♥♥

    Obs.: espero que esteja melhor e longe de se sentir na mesma vibe errada que eu.

  • Reply BA MORETTI 5 de setembro de 2015 at 5:42 PM

    *ABRAÇA O TEXTO*

    o foda é isso tá tão enraizado que até nós mesmas acabamos nos ~desculpando/justificando sem querer. como tu disse ali, que né muito calor. e putamerda, por que os omi não conseguem ficar de boas, sossegados, sem meter o dedo aonde não os diz repeito. e sabe, acho esse tipo de texto absurdamente necessário sempre. vale apertar a mesma tecla até ela afundar e além, até que não se precise mais discutir a respeito.

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