NOVELA MEXICANA

O DIA QUE EU PENSEI QUE FOSSE MORRER

Não sei até que ponto acredito em signos e toda essa viagem do zodíaco, mas admito que algumas coisas são certeiras demais para simplesmente ignorar. Eu, por exemplo, sou pisciana, nascida no dia 18 de março, e tal qual reza a lenda, sou um exemplo de pessoa sentimental e incompreendida, sensível até o último fio de cabelo e dramática até o dedão do pé. Já vi casos bem mais graves que me fazem agradecer pelo meu ascendente em touro (até que se prove o contrário), mas não posso negar minhas origens e é por isso que abraço o drama com vontade, porque se sou rainha de alguma coisa nessa vida, só posso ser uma autêntica drama queen.

O problema é que transformar situações triviais em grandes dramalhões mexicanos acaba fazendo com que ninguém leve a sério questões realmente importantes que pipocam de vez em quando. Eu mesma tenho a maravilhosa mania de fazer piada com certas situações que me meto porque rir é o melhor remédio, quando deveria tratá-las com o mínimo de seriedade. Meu drama é desses que parecem piada de tão trash, mas que ainda são a melhor representação dos desesperos e angústias diárias, mesmo que quando a tempestade passe e a razão bata na porta, eu acabe com a barriga doendo de tanto rir.

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Sábado dei um pulo na Forever 21 com a desculpa de encontrar, no meio de tanta roupa linda, uma que pudesse fazer as vezes de fantasia improvisada. Tenho uma festa pra ir daqui algumas semanas e como alugar uma fantasia anda o olho da cara, preferi investir a grana em algo que eu não fosse usar só uma vez. Acabei com o braço cheio de peças incríveis, que iam desde uma saia verde que mais Guerreiras Mágicas de Rayearth não podia ser, até uma hot pant super versátil que eu morri de amores assim que bati o olho. Normalmente eu passo reto pelo provador porque a) as filas são sempre imensas e b) por incrível que pareça, dá pra acertar o tamanho pelo olhômetro, sem correr o risco de ter uma surpresa desagradável depois. Mas como eu não tinha nada melhor pra fazer, resolvi me jogar naquela morte horrível e esperar minha vez de entrar num cubículo cor-de-rosa, e experimentar minhas possíveis novas aquisições.

Eu já disse que filas não são nenhum big deal pra mim, então esperar foi bem tranquilo. Fiquei jogando papo fora com o Gui e a Juli (no WhatsApp), e quando começou a tocar HAIM, quase dei pulinhos de alegria e comecei a dançar ali no meio de todo mundo, mesmo com a cólica chata que insistia em não ir embora – e que eu fiz o favor de ignorar. E esse foi meu erro, pequenos gafanhotos. Porque, vejam bem, por mais acostumada que eu esteja com essas cólicas que me atormentam a vida, não dá pra ficar banalizando os protestos e sinais SOS!1!!!11 do meu corpo.

Tinham umas quatro pessoas na minha frente quando eu comecei a passar mal de verdade. Primeiro foi o calor, que de uma hora pra outra ficou insuportável. Depois foi a dor e aí eu já não sabia se era tontura, falta de ar, enjoo ou tudo junto e misturado. Devo ter parecido uma retardada de chegar tão perto e morrer na praia, mas juro que se eu ficasse ali mais dez minutos (e eu ficaria, certamente) ia acabar desmaiando, mesmo sem saber qual era sensação pré-desmaio porque eu, de fato, nunca desmaiei.

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Na hora só consegui lembrar de uma vez quando, aos 15 anos, eu saí com o pessoal do colégio e bebi além da conta, numa dessas ciladas que todo mundo já se meteu pelo menos uma vez na vida. Andar sem trocar as pernas era uma missão impossível, mas eu tentei bravamente enganar todo mundo. A única enganada, claro, fui eu, de forma que acabei pagando o maior mico de qualquer jeito. Na Forever eu não tinha bebido nada além da conta (nem água), mas me senti a mesma mocinha de 15 anos, tentando enganar todo mundo e falhando miseravelmente. A situação foi tão feia que eu mal saí daquela morte horrível e já me joguei num cantinho qualquer pra tentar recuperar o fôlego. Ficar sentada era terrível, levantar era ainda pior e eu não sabia se tentava ligar pra alguém ou se deitava em posição fetal e começava a chorar. Acabei decidindo levantar porque só de pensar em ter um monte de gente aleatória me rodeando já foi suficiente pra me fazer tirar forças sei lá de onde e sair correndo para as colinas.

Esbarrei com minha mãe no meio do meu caminho para a colina (numa seção deveras duvidosa, preciso dizer), e foi ótimo, porque pude largar minhas coisas tudo com ela. Dona Márcia ficou ligeiramente assustada com minha abordagem brusca e sem dúvida mal educada (“segura aí que eu tô passando mal”), mas enfim, né, momentos. Saí da loja correndo e, depois de dois minutos de descanso num banquinho ali perto, voei pro banheiro. O que eu ia fazer lá, só Deus sabe, mas foi o melhor lugar que consegui pensar em ir. Cheguei primeiro num corredor que só tinha banheiros masculinos (sim), mas depois de um momento de pura tensão (não), acabei encontrando um banheiro pra chamar de meu. Me tranquei numa cabine, abaixei a tampa do vaso, sentei e fiquei olhando pro chão por sei lá quanto tempo, mas pelo o que me pareceu uma eternidade.

Troquei um punhado de palavras com o Gui porque me pareceu certo deixar ele saber que eu estava passando mal, sozinha num banheiro público e que caso eu morresse, meu corpo não ficaria perdido por aí, mas depois acabei saindo de lá, meio sem rumo, mas andando com um pouquinho mais de firmeza que antes. Nem sei o que rolou exatamente, mas resumindo, o que aconteceu nesse meio tempo foi que eu consegui ir no banco sacar dinheiro (?), comprei minhas coisas e levei alguns sustos pelo caminho toda vez que esbarrava com um espelho e via minha cara branca e boca roxa refletidas do outro lado. A dor mesmo foi embora tão rápido quanto veio, mas eu ainda fiquei com o corpo meio dolorido por algum tempo, o que me fez pensar que talvez eu devesse agilizar meus exames de rotina e dar um pulo no médico as soon as possible.

Sei que parece bobagem, mas eu fiquei tão assustada com tudo isso que comecei a entrar numa neura meio errada de que eu podia morrer a qualquer momento, do nada. E bom, poder eu posso mesmo, mas não é o tipo de coisa que a gente fica pensando assim, de boa na lagoa. Eu tenho um medo absurdo de morrer, então que me desculpem os adeptos do “live  fast, die young“, mas prefiro a perspectiva de ter aí, chutando, mais uns 70 anos pra viver do que a de que eu posso cair dura do nada, qualquer dia desses. E pensar nisso me deixou numa vibe tão errada que depois de assistir Matrix (que me deixou numa vibe ainda mais errada), eu fiquei com medo de dormir e não acordar mais. Momentos, gente, momentos.

Esse post já tá grande demais, de forma que eu prefiro parar por aqui do que continuar com essas divagações sobre vida e morte, que só Deus sabe onde vão parar. Então, queridas leitoras e possíveis leitores, o que quero dizer com tudo isso é que a gente não deve, de forma alguma, ignorar os sinais do nosso corpo. Pode ser só uma bobagem? Pode. Espero que seja. Mas como diz dona Nena, minha linda e amada vovó, melhor prevenir do que remediar.

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3 Comments

  • Reply Ana Luísa 17 de novembro de 2014 at 12:51 PM

    Curiosamente, xará, estamos na mesma vibe erradíssima. Eu também sempre tive pavor de morrer, mas ultimamente (bote aí uns 3 irritantes meses) eu não consigo passar 2 horas sem pensar no assunto, o que me trouxe na bagagem uma dose de hipocondria (quem nunca) que me fez fazer o que esse moço da tirinha que cê postou lá em cima vez. Num período de 3 semanas eu tive todo e qualquer tipo de doença que poderia existir no mundo. Agora to acalmando um pouco e me obrigando a sair da vibe, porque NINGUÉM merece viver dia após dia pensando que está prestes a morrer. Também só consigo me tranquilizar com a ideia de pelo menos mais uns 70, se Deus quiser. Beijo!

  • Reply Stephanie 20 de novembro de 2014 at 2:03 PM

    Ok, talvez finalmente eu tenha encontrado alguém mais dramática que eu hahahaha

    Sou libriana, e não acredito nem um pouco em astrologia. Mas já li por aí que todo libriano diz não acreditar em astrologia, então, olha o paradoxo.

    Sobre morrer, você tá certa, todo mundo tem um pouco de medo. Mas, por mais bizarro que isso pareça, dia desses eu também pensei sobre o assunto, mais ou menos pela mesma lógica que você. Na verdade, talvez não pela mesma lógica… Well, deixa eu explicar: tem uma página no facebook que chama Humans of New York, e que trás histórias de pessoas anônimas de um jeito muito peculiar; eu super recomendo, aliás. Então, dia desses eu estava ganhando tempo lendo as histórias da página e me deparei com uma onde uma jovem falava sobre o quão maravilhosa a mãe dela era, e como gostava de visitá-la por seu carisma e temperamento. Quando a mãe dela se foi, ela encontrou o diário da mãe com textos que diziam “minha filha só me visita quando precisa de dinheiro” e “minha vida se tornou em cinzas”. So, aquilo me deu um clique: fiquei pensando em como a vida é realmente efêmera, e às vezes as pessoas mais importantes pra gente se vão sem saber o que sentimos por elas. Sim, todo esse blablabla foi pra dizer que também espero morrer velhinha, mas vivo todos os dias do melhor jeito possível, dizendo todas as coisas que sinto pras pessoas, e tentando ser o melhor todos os dias, porque, né, ninguém sabe o dia. E ah! cuido da saúde também, porque é algo essencial. :-)

  • Reply Anna 21 de novembro de 2014 at 3:28 AM

    Gente, que aflição do seu post! Eu já passei mal assim tantas vezes e sei como é horrível, só de ler já me vieram todas as sensações horríveis de quase morte e desamparo. Tenho a pressão muito baixa, então quando minha pressão cai, ela cai MESMO. E eu passo MUITO MAL. A sensação é parecida, as pernas tremem, tudo gira, pontos pretos aparecem no campo de visão e eu não sei se vou vomitar, desmaiar ou sei lá. Já passei por isso em público algumas vezes e, nossa, é apavorante. Ainda bem que sua mãe tava na loja, se fosse eu sozinha numa situação assim tinha definitivamente deitado em posição fetal no provador. A última vez que isso aconteceu comigo foi num dia que eu fechei meu polegar na porta do carro com tanta força que o sangue subiu errado pra cabeça e eu quase desmaiei na fila do cinema. Que morte horrível. Acho que quase morrer (ou desmaiar, ou vomitar, TUDO A MESMA COISA) é pior do que morrer, porque fica aquela expectativa, sabe? Deveras desagradável.

    beijo!

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