CINEMA E TV

OS CINCO FILMES DA MINHA VIDA

Bom, acho justo começar dizendo que a essa altura já está claro que a cilada BEDA em abril 2k17 foi um verdadeiro flop, que só não foi pior porque eu tive a decência de pelo menos tentar fazer com que ele acontecesse. Não aconteceu, mas não foi de todo um desperdício de tempo: longe de render todos os textos que eu esperava, pelo menos foi uma bagunça divertida, ao lado de gente A+, o que por si só já faz essa zona valer à pena. Mas a verdade é que o mês só acaba quando termina, de modo que eu ainda tenho alguns poucos dias para brincar e rir na cara do perigo, exatamente o que devia ter feito nas semanas anteriores e não fiz. Não tem textão (não ainda), mas tem blogagem coletiva – uma ideia da Mia, que gentilmente salvou o dia – e tem euzinha falando sobre os meus filmes da vida.

A principal diferença entre filmes da vida e favoritos é que, enquanto os favoritos podem ser, literalmente, qualquer coisa, os filmes da vida têm aquele apelo especial, aquele detalhe que parece conversar diretamente com a gente, de uma maneira profunda e especial que só a ficção é capaz de fazer. Não dá pra explicar, apenas sentir, etc etc. Tenho certeza absoluta que a maior parte dos filmes que vão me dizer coisas profundas e especiais ainda nem foram assistidos, mas tudo bem. Por enquanto, essa é a minha lista (que era pra eu ter postado ontem, mas tudo bem porque não se pode ter tudo mesmo).

1. REALITY BITES


Reality Bites é um filme dirigido pelo Ben Stiller, que ainda era um jovem ambicioso em início de carreira, e que em português ganhou o nome absolutamente ridículo de Caindo na Real (pois é) – que é um título que até faz sentido, mas que soa bem ridículo se você parar pra pensar. Acontece que, contrariando todas as expectativas, a história que ele conta é realmente muito, muito ótima, e reúne numa só narrativa questões que abordam, ao mesmo tempo, carreira, romances, amizade, relações familiares, crises existenciais, doenças mentais e aids. Lelaina, Vickie, Sammy e Troy são jovens de vinte e poucos anos que se veem naquele limbo do fim da faculdade – todos os sonhos tão perto e tão longe – e se apoiam num discurso bastante idealizado sobre a vida adulta; que negam o tempo todo suas origens e tentam se afastar o mais radicalmente possível dos próprios pais até que, numa sucessão óbvia de fatos, são confrontados pela realidade que não é assim tão interessante quanto eles imaginaram. Um dos meus momentos favoritos do filme é quando, frustrada com a própria vida e a dificuldade em conseguir um emprego na área que sempre sonhou em trabalhar – cinema ou televisão, ironicamente, risos -, Lelaina diz que imaginava que seria algo mais aos vinte e três anos, ao que Troy responde que a única coisa que ela deveria ser aos vinte e três é ela mesma; o que não deixa de ser uma verdade. Embora a história termine sendo mais sobre o romance entre Troy e Lelaina no final das contas, eu ainda consigo me enxergar em cada plano, em cada cena – às vezes de um jeito besta e idealizado, mas é pra isso mesmo que serve a ficção.

2. CLUBE DOS CINCO

Lembro exatamente da primeira vez que assisti esse filme: eu tinha acabado de voltar do shopping com minha então melhor amiga, passando mal adoidado, e nós decidimos assistir esse filme pra matar o resto de tempo que a gente ainda tinha – eu, com a cabeça no colo dela, enquanto ela mexia no meu cabelo em silêncio. De lá pra cá, já assisti Clube dos Cinco aproximadamente 192873891273 vezes, e todas elas foram exatamente como a primeira: um festival de reflexões e amor verdadeiro e eterno. Embora ele não converse diretamente com minha faixa etária – os personagens, afinal, estão no ensino médio e já faz bastante tempo que eu saí do ensino médio, risos -, é curioso como os conflitos e questões que eles têm continuam muito próximos e atuais, ao ponto de conversar não só com adolescentes, mas com faixas etárias mais abrangentes. Embora os filmes do John Hughes sejam problemáticos em muitos níveis, amo a forma como ele não trata adolescentes como jovens rebeldes e insatisfeitos sem causa ou motivo algum, mas como os seres humanos complexos que verdadeiramente são, algo que eu gostaria muito de conseguir imprimir na tela também. Me perguntaram algum tempo atrás no curious cat (favor, me sigam) qual filme eu gostaria de ter feito, e não foi preciso pensar muito para dar uma resposta: Clube dos Cinco it is!

3. PIERROT LE FOU

Longe de ser o meu Godard favorito, Pierrot le Fou acabou se transformando na minha referência favorita do cineasta porque ainda é o que conversa comigo de forma mais profunda, e para o qual eu sempre retorno quando preciso. A história é muito simples: frustrado com a vida que leva, Ferdinand decide fugir com Marianne, uma jovem adorável, romântica e cheia de frases de efeito que o leva por uma aventura sangrenta (!) e de final trágico para ambos. Antes disso, no entanto, os dois dividem momentos de alegria e frustração, passeiam por paisagens belíssimas, cantam como se vivessem num adorável musical e são perseguidos pela máfia, tudo ao mesmo tempo. Eles se envolvem com tráfico de armas e conspirações políticas, mas ainda são pessoas que sonham em viver sob as próprias regras e ideais, negando a realidade que lhes aprisiona. Lançado em 1965, o filme é tido como um dos grandes marcos da nouvelle vague, movimento artístico do cinema francês que, na contramão do que vinha acontecendo na época, buscava transgredir as regras do cinema clássico comercial; e que para muitos ~estudiosos~, teve fim na cena icônica em que Ferdinand explode a própria cabeça, ao final de… Pierrot le Fou. Independente de importância histórica ou qualquer coisa assim, no entanto, o filme é realmente maravilhoso e eu sempre recomendo sem nem pensar duas vezes, pra quem quer que seja.

4. GOD HELP THE GIRL

God Help The Girl não é apenas um dos filmes da minha vida: ele é, também, o meu filme com a Yuu, minha baby girl, uma das minhas melhores amigas e uma das pessoas mais importantes da minha vida; o que por si só já é suficiente pra transformá-lo, senão no mais importante dessa lista, ao menos em um dos mais relevantes dela. Mas ele também é o filme sobre uma jovem com transtornos alimentares e mentais, que encontra na música uma saída para superar os próprios traumas, e constrói amizades lindas e sinceras a partir daí. Entre músicas adoráveis, cenários belíssimos e lukinhos inspiradores, o que essa história – que nasceu de uma música composta pelo próprio diretor, que também calhou de ser vocalista do Belle & Sebastian, por sua vez criada para a banda mas que, segundo o próprio Stuart Murdoch, parecia pertencer a um universo a parte; daí a ideia de criar um musical em cima dessas canções – faz é construir uma história linda e repleta de significado. Gosto principalmente de como, mesmo tratando de temas tão pesados, a narrativa consegue manter-se leve, mas nunca deixa de ser profundamente honesta. Não há nada de bonito em ser assombrada por transtornos mentais e o filme não se esquiva dessa realidade; mas isso não quer dizer que as pessoas que lidam com essas questões não podem também ter uma vida bonita, amizades sinceras, e músicas deliciosas que servem de trilha sonora para suas jornadas, enquanto dançam em seus quartos – ou no meio da rua – com os braços pra cima. Esse filme – e suas músicas – tem me segurado nos momentos mais difíceis, tornando-se um importante lembrete de que, embora a ansiedade e a depressão sejam coisas muito reais, elas jamais serão capazes de definir quem eu sou.

5. A BELA E A FERA

Porque lógico, né. Peguem uma menina de três anos, completamente obcecada por livros e princesas, e a apresentem a uma princesa que seja não apenas gentil e adorável, mas igualmente obcecada por livros, ao ponto de ler infinitas vezes suas histórias favoritas. Pronto. É assim que nasce a identificação. Bela foi a primeira personagem com o qual eu me identifiquei, muito antes de saber que diabos significava se identificar com alguém que não fosse minha própria mãe, a professora, uma coleguinha da escola ou um parente mais próximo; mas foi também uma das minhas primeiras referências, aquela com quem eu desejava parecer de qualquer jeito e me inspirava em tempo integral. Aos cinco anos, eu me vesti de Bela e ganhei uma festa com balões dourados, num salão que não era tão grande quanto o do castelo da Fera, mas que emulava um salão de baile em cada pedacinho. Ali, eu era a Bela, única possível, e desde então nunca deixei de ser – no meu próprio tempo e espaço, mas ainda assim.

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