WALK OF SHAME

PAGANDO MICO ADOIDADO

Ou: Imagina no Oscar.

Recentemente descobri que uma das coisas que mais gosto na vida é contar histórias. Parece besta falar isso quando eu tenho um blog onde, basicamente, conto os causos da minha novela mexicana particular. Mas não é disso que eu tô falando. Falo de histórias que em algum momento surgiram na cabeça de alguém (ou de uma porção de alguéns), e que por algum motivo me fazem acreditar que precisam ser contadas. Que por mais loucas e improváveis que pareçam, precisam tomar forma e ganhar vida, custe o que custar. Foi mais ou menos isso que aconteceu com Tombé, um filme curta-metragem que nasceu como um trabalho de Oficina Básica de Audiovisual, e tinha tudo pra ser só isso mesmo, mas no final acabou indo bem mais além e se tornou uma espécie de filho pra todo mundo (ou quase) que se envolveu no projeto.

É claro que eu amar esse filme e me orgulhar pacas não significa, necessariamente, que ele seja bom. Porque né, vamos combinar, a gente até tenta, mas sempre rola aquela cota básica de limitações, que impedem a gente de fazer a coisa acontecer exatamente como a gente sonha. Ao contrário de ~certos filmes~ que tiveram um pa(i)trocínio pesado, vários efeitos especiais, superprodução, ui ui ui, o nosso foi uma parada bem mais instintiva, vamos ver o que dá certo, vamos rezar pra essa merda dar certo, meu deus alguém sabe como travar esse tripé? Éramos jovens universitárias sem nenhuma experiência, quase sem dinheiro, sofrendo assédio adoidado enquanto a gente fazia um filme sobre isso, vejam só que coisa, mas com muita muita vontade de fazer a coisa toda sair do papel e dar certo. Então sei lá? Ele não é impecável, nem de longe uma superprodução, mas isso não quer dizer também que ele seja ruim. Ou talvez até seja, vida que segue, mas me deixem ser feliz aqui no meu canto e amar esse troço em paz. Todo mundo ama um filme ruim. Talvez um dia ele passe na Sessão da Tarde.

A questão é que, bom ou não, a gente acreditou tanto em Tombé que não bastasse exibir nosso pequeno filho para o professor e nossos coleguinhas, nós achamos que seria uma ótima ideia jogar ele na roda e participar do Fecuca, festival que rola todo semestre na UnB e premia os curtas feitos pelos calouros lindos, esses bebês chorões insuportáveis que todos fomos no passado. A gente não esperava ganhar, mas tudo bem, porque a folia seria boa e a gente não tinha nada melhor pra fazer mesmo.

E o que aconteceu foi o seguinte: De um grupo de cinco pessoas, só eu e a Mari abraçamos a cilada e fomos no evento. É claro que a Mari levou o namorado. É claro que eu levei minha melhor amiga, que levou o namorado de brinde, e é claro que Guilherme estava comigo em espírito (transmissão por WhatsApp, teve de monte). Porque a gente faz merda, mas não faz sozinha, tem que arrastas os migos juntos. Mas do grupo mesmo, era eu e ela, ela e eu. Então, numa quarta-feira qualquer de abril, lá estávamos nós esperando na fila a nossa vez de entrar no anfiteatro enorme, pensando se conseguiríamos um lugar bom ou se seríamos obrigadas a sentar naquele lugar constrangedor reservado para os ~concorrentes~, inventando discursos que jamais seriam ditos se tivéssemos um microfone de verdade na nossa frente – o que realmente não teríamos, porque a gente não ia ganhar nada, claro.

Risos. Risos eternos.

E aí o festival começou. As luzes se apagam, o palco de repente fica super iluminado, apresentadores chatos fingem ser engraçados e falam merda enquanto as pessoas fingem achar graça, meio em solidariedade, meio odiando aquelas pessoas horríveis. Começam os filmes, uma coisa meio aleatória assim, mais piadas sem graça que todo mundo finge achar hilárias. Ou não. Mais filmes, mais piadas, caroços de pipoca ameaçam quebrar os dentes de alguém. Namorado da Mari faz um comentário realmente engraçado que todo mundo escuta e todo o anfiteatro começa a rir. Tudo normal e maravilhoso como tinha que ser. Então começa a premiação. Direção de Arte. E aí num momento eu estou esperando anunciarem um nome e no instante seguinte dou um pulo porque, meu deus, será que ele disse o nome do nosso filme mesmo?

Tinha dito.

Era muito óbvio que a gente devia levantar, buscar o prêmio, dizer umas duas palavras e sair do palco, mas fazer era tão mais difícil. Eu tinha fantasiado mil vezes aquilo, tinha imaginado uma ou duas coisinhas que eu podia dizer pra agradecer e depois ir embora, mas foi só chamarem nosso nome que eu esqueci até quem eu era, quanto mais o que eu devia fazer. Até que eu tive um estalo, e ainda sem saber direito o que eu estava fazendo eu levantei, peguei a mão da Mariana, e fui descendo até o palco sem olhar pra trás, rumo ao que agora chamo carinhosamente de suicídio social.

Pensei que eu fosse a única a achar aquela situação terrível demais pra ser encarada, mas então estávamos eu e a Mari no palco, e eu peguei o prêmio e empurrei ela pra falar algumas coisas, e aí eu descobri que eu não estava sozinha e que ela também estava odiando demais estar ali, na frente daquele monte de gente, então ficamos as duas mudas, totalmente sem reação, olhando aquelas pessoas que esperavam que a gente dissesse uma ou duas palavras quando a gente nem sabia mais qual era nosso nome. Momentos. Um dos apresentadores chatos resolveu dar um empurrãozinho e perguntou se a gente não queria agradecer, ou qualquer coisa assim, e de forma automática a Mari agradeceu todo mundo. Assim mesmo. E aí de repente as pessoas estavam achando nossa performance engraçadinha, e eu achei que seria legal agradecer aquele povo que participou da nossa festa fake, porque eu tinha ouvido uma menina comentar na plateia que nossa festa tinha sido feita numa boate x de Brasília quando eu sabia que na verdade a gente tinha feito cada parte daquela festa no salão de festas do prédio da Mari e tinha sido um sufoco danado pra uma creiça vir falar que a gente tinha conseguido tudo de bandeja. Então quando o outro apresentador perguntou se era só isso, eu resolvi agradecer as pessoas que participaram da festa fake. AS. PESSOAS. QUE. PARTICIPARAM. DA. FESTA. FAKE. Desculpa, mãe. As pessoas riram, uma ou duas que participaram se manifestaram, e eu respondi com um tchauzinho que me pareceu apropriado, mais pessoas riem, batem palmas, e a gente aproveita a deixa pra sair correndo.

I know places we can hide.

Então, tão rápido quanto começou, acabou. Nós ganhamos um prêmio, pagamos um mico fenomenal, demos uma choradinha de vergonha, rimos horrores, nos revoltamos com alguns resultados, ficamos em terceiro lugar na escolha do público e terminamos a noite no Burger King, o que foi até bastante agradável depois de um mico horrível. Ao nosso favor, só posso dizer que estávamos realmente sem nenhuma esperança de ganhar, mas da próxima vez, por favor, me lembrem de levar um discursinho assim, só por via das dúvidas porque né, nunca se sabe.

E um saco pra colocar na cabeça no dia seguinte também é sempre uma boa pedida.

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6 Comments

  • Reply Analu 21 de maio de 2015 at 1:11 PM

    Amiga, essa coisa de discurso de prêmio é um sarro né? Todo mundo fala que já treinou no chuveiro mas eu nunca nem brinquei disso? Fiquei imaginando, assistindo o BMA, se Taytay tinha preparado todos os discursos que teria que dar pq né, 8 prêmios. Acho LINDO quem faz discurso foda, que te ensina coisas pra vida, mas acho que eu seria mais óbvia: OBRIGADA PELO PRÊMIO AMO VCS VLW FLW e ficaria dias me remoendo. Mas veja só: passa! Você até conseguiu fazer um post bem divertido sobre!
    E: places we can hide, eles sempre existem.
    Te amo! <3

  • Reply Manu 22 de maio de 2015 at 4:42 PM

    Sempre que aparece post do Starships no Feedly eu não consigo segurar e acabo lendo pelo celular mesmo e depois esqueço de vir aqui e comentar… shame on me ¬¬
    MAS MENINA! VOCÊS GANHARAM UM PRÊMIO!
    Eu ri do micozinho de ir receber o prêmio e não saber o que falar, porque sei que com certeza aconteceria comigo também se fosse o caso, mas é possível que a euforia de ganhar o negócio (ainda mais sem esperar mesmo) anulasse totalmente a lembrança ruim… ainda mais quando é um desses trabalhos que a gente acaba se dedicando mesmo sem tempo/orçamento/condições ideais. Então, parabéns pelo prêmio e pelo filme! Quero ver Tombé agora, comofas? hahahahua
    beijos, Ana! :***

  • Reply Lilica 23 de maio de 2015 at 2:38 PM

    Sharon do Céu que vergonha! Olha, sempre que assisto prêmios na TV fico pensando: puxa vida, por que não nasci artista em Hollywood? Mas ao mesmo tempo penso: caracas, que vergonha ter que subir num palco e fazer um discurso de agradecimento! Eu, que sempre odiei fazer apresentações de trabalho no colégio, acho que jamais saberia o que dizer diante de um prêmio recebido! Rir e chorar, talvez, seja a melhor solução mesmo!!! :-)

    Te amo!
    Beijos

  • Reply Pássara 25 de maio de 2015 at 4:44 PM

    Aff, amiga. Pra começo de conversa, que orgulho de você <3

    Pra término de conversa, essa história é super a nossa cara e, você sendo uma de nós, não tem pra onde correr. Esse tipo de história sempre vai nos achar e eu achei incrível. Uma história muito melhor do que se você tivesse chegado lá com um agradecimento enorme e cafona. Queria ter estado lá para assistir.

    Te amo <3

  • Reply Thay 26 de maio de 2015 at 6:13 PM

    Que lindo você ter ganho! OMG, enquanto lia fui ficando nervosa, como assim, vocês tinham que ganhar! E olha que essa sou eu sendo totalmente levada por suas palavras e pela música que estou ouvindo (Arrival of the Birds & Transformation, do The Cinematic Orchestra, caso interesse, haha) já que sequer assisti ao filme para saber alguma coisa.

    AH, e passar vergonha faz parte! Lembro da vergonha que eu passei numa apresentação de iniciação científica, haha, mas acabei me safando quando recebi o espírito de algum comediante muito engraçadinho, fiz uma piada e o povo adorou, haha. Sério, eu não sirvo para esses momentos de subir no palco e tal. Sou introvertida, me deixem! D:

    De resto, super parabéns para você e o grupo por essa vitória! Que esse seja o primeiro de muitos (vá preparando os discursos, vai que). Um beijo!

  • Reply Juju 26 de maio de 2015 at 9:58 PM

    Ah, eu babo de orgulho dessas ~minhas~ meninas!
    Parabéns, amorzinhas! ♥️

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