COM AMOR

THANK YOU NOTE

Inspirado nesse projeto incrível aqui.

Sou grata por ter passado a última noite em claro, ainda que eu tivesse que estar de pé às 9:00, porque isso não aconteceria se não amasse tanto o que faço, se não me realizasse tão profundamente no meu trabalho. Sou grata por ter o privilégio de trabalhar com o que gosto, de poder escolher meus caminhos, mas principalmente por poder mudá-los sempre que necessário. Sou grata pelas pessoas que encontrei nessa jornada, que me surpreendem todos os dias, que acreditam em mim quando fazê-lo parece impossível e me lembram que, por mais difícil que seja, o impossível, na verdade, não existe. Depois de uma semana difícil, de chegar muito perto de desistir, foram essas pessoas que me seguraram no lugar. Sou grata por todo o suporte do mundo, por ter uma família que não cobra, incentiva; por ter amigos que às vezes não sabem exatamente o que faço, mas confiam no meu potencial; pelo namorado que mesmo quando não sabe a cilada em que está se metendo, ainda assim, mete a mão na massa. Junto comigo, sempre comigo.

Sou grata pelas viagens que fiz, pelas pessoas que conheci, pelas tristezas que dividimos porque só elas nos possibilitaram aproveitar os momentos de felicidade. Sou grata por todas as casas que ganhei ao redor do Brasil, um país tão grande, mas onde eu, inevitavelmente, sempre terei um lugar pra chamar de lar. Sou grata pelas lágrimas de saudade daquilo que é especial demais para ser deixado para trás sem algumas lágrimas pelo caminho, sem o vazio imenso que fica no peito quando a gente se despede. Sou grata pelas pessoas que foram, porque precisavam seguir novos caminhos, porque cumpriram aquilo que precisavam no meu caminho; mas sou, sobretudo, grata àquelas que, mesmo depois de ficar longe, encontraram um caminho para voltar. E quiseram voltar, o que talvez seja mais importante. Sou grata pelas cartas, enviadas ou não, pelos gestos de carinho, pelos telefonemas de duas horas em que mesmo o silêncio se torna um quentinho no coração. Pelas músicas que gritamos, pelas mágoas que dividimos, pelas confidências que fizemos, pelos segredos que hoje guardo comigo e também são parte de mim.

Sou grata pela minha família, que mesmo tão diferente de mim, sempre permitiu que eu fosse quem eu desejasse, que me ensinou a pensar por conta própria, que me permitiu sonhar e sonhar grande, mesmo que todas as pessoas fossem rir de mim. Eu não era idiota, eles me disseram, e eu acreditei. Sou grata pela minha mãe, que de todas as pessoas maravilhosas que estão na minha vida, é a maior e mais importante delas. A mulher que me ensinou tudo, me deu tudo e que sempre vai ser minha maior inspiração e referência. Por ser a minha única certeza; meu início, meu meio e, inevitavelmente, meu fim. Sou grata pela sorte de ser filha de quem sou, por dividir e pra sempre carregar uma parte dessa mulher em mim. Sou grata por ter um teto sobre a minha cabeça. Sou grata por todas as oportunidades. Sou grata por todos os “nãos” que fizeram os “sims” terem um gosto infinitamente mais doce. Pelas coisas boas e pelas ruins. Pela vida. Pelo o agora. Pelo passado, pelas raízes, por tudo aquilo que aconteceu e me permitiu estar aqui hoje. Sou grata por continuar a encontrar motivos para ser grata, mesmo em uma semana bosta. Que continue sendo assim, sempre.

 

MEMES

31 QUESTÕES ALEATÓRIAS

Esse não era o texto que eu tinha programado para hoje. Esse sequer é um texto, o que já faz cair por terra qualquer possibilidade de termos algo realmente programado, agendado, conforme deveria acontecer, mas não acontece. Estou exausta, descabelada, uma visão bastante perturbadora de mim mesma, de modo que responder um meme me pareceu a única solução para não deixar a peteca cair de vez. Eu estou tentando. Tenham paciência comigo.

O meme de hoje é um oferecimento da Natália, que agora tem o seu nome registrado no meu coração, no espaço reservado ao seleto grupo de pessoas que salvaram minha vida em meio à ciladas blogueiras, risos.

1. Você gosta de coentro ou acha que tem gosto de sabonete?
Em um teste do BuzzFeed para saber quão fresco você é pra comer, eu sou a pessoa que marcou apenas um item, que era tofu, e mesmo assim na dúvida, porque na verdade eu nunca comi tofu e não me oporia a experimentar qualquer hora dessas. Eu comeria tofu da mesma forma que como coentro e adoro, e não tenho qualquer problema com isso; na realidade, acho engraçado quem tem e acha que ele tem gosto de… sabonete? Vocês realmente sabem como é o gosto de sabonete? Eu sei. Não tem nada a ver com coentro.

2. O que você acha de áudios do WhatsApp?
Maravilhosos na maior parte do tempo. Inconvenientes em todo o resto.

3. Você também comia o chocolate da Turma da Mônica pelas bordinhas?
De jeito nenhum.

4. Qual é a melhor consoante do alfabeto?
Boa pergunta.  

5. Qual é a primeira rede social que você vê de manhã?
Instagram, porque é a única que tenho no meu celular. Depois checo meus e-mails, o WhatsApp e o chat do Facebook, e só depois que tomo café da manhã é que pulo pro computador e confiro todo o resto.

6. Você acha que existe alguma bala melhor que 7 Belo?
Provavelmente, só não vou lembrar qual agora.

7. Que cor você acha menos confiável?
Laranja, porque é a cor favorita dos publicitários ambiciosos.

8. Qual foi o último filme que você viu e odiou?
Acho que no início desse ano, quando assisti Aliados e foi uma morte horrível. Confesso que esperava bastante de um filme com Marion Cotillard, Brad Pitt e Jared Harris no elenco, ambientado no pós-Segunda Guerra Mundial e que trazia uma mulher como a grande suspeita de espionagem, mas eu me senti desconfortável em toda a sessão, o que foi coroado por aquele final tenebroso, que só faz sentido quando pensamos que a história não faz nenhum sentido at all.

9. Qual animal parece mais simpático, um pato ou um golfinho?
Os dois, não me façam escolher.

10. Toddy ou Nescau?
Nenhum.

11. Você acha que bebês conversam uns com os outros?
Conversar, conversar mesmo, de forma consciente, como naqueles filmes sobre bebês falantes do século passado, não. Mas eu acredito que eles tenham uma forma muito própria de se comunicar entre si, do mesmo modo que se comunicam com a gente – com choro, grunhidos, esse tipo de coisa.

12. Sabia que todo mundo é feito de poeira de estrelas?
Sabia. Acho poético pra caramba.

13. Ouro Branco ou Sonho de Valsa?
Sonho de Valsa, mas só porque não tem outra opção.

14. Qual era seu desenho favorito na infância?
Pokémon, acho, embora tenha tido fases distintas ao longo toda infância. Mas Pokémon foi realmente uma febre na minha vida, então acho que ele acabou sendo meu favorito.

15. Que série você jamais reveria?
Land Girls. A ideia da série, na realidade, é muito boa: contar a história de mulheres que cuidavam das fazendas e do trabalho anteriormente feitos por homens, enquanto seus maridos, irmãos, pais, etc, estavam lutando na guerra. Seria uma série maravilhosa, mas o ritmo dela é péssimo, os dramas são realmente desnecessários, e a trama é realmente cheia de pequenos problemas que, no todo, se tornam quase insuportáveis.

16. Qual personagem do Harry Potter você menos gosta?
Crabbe. Goyle. Tanto faz.

17. Qual é sua opinião sobre barrinhas de cereal?
Na época do colégio, sempre tinha uma dessas barrinhas na bolsa e gostava bastante, mas o costume me fez enjoar da maioria delas, de modo que hoje só como as de banana e olhe lá.

18. Com quem você dividiria um Bis?
Com meu namorado ou alguma amiga, provavelmente.

19. O que você faria se achasse R$ 50 na rua?
Gente, kkk, a vida anda tão ridícula que acho que se achasse cinquenta golpinhos na rua eu realmente ia parar por um minuto e, depois de constatar que era realidade, ia começar a chorar compulsivamente e agradecer o universo pela graça alcançada. Depois, provavelmente gastaria o dinheiro em comida, pois that’s how we roll.

20. Quanto tempo uma comida precisa estar na geladeira para você considerar ela velha?
Depende. Algumas coisas duram mais que outras, então normalmente levo em consideração a aparência, o cheiro e, por fim, o gosto pra decidir se a comida está velha ou não.

21. Qual é seu número preferido?
Já tive vários, mas atualmente é o seis.

22. Qual é o aplicativo mais inútil do seu celular?
O Boomerang, porque não uso essa bosta nunca, seguido pelo VSCO, que só tenho por costume, mas raramente uso.

23. Quem você tiraria do elenco de “Friends” se fosse obrigado?
A maioria das pessoas que responderam essa pergunta responderam o Ross, e eu entendo, mas eu dificilmente o tiraria, porque acho que toda a narrativa dele com a Rachel, embora problemática, precisava acontecer de algum modo. Assim sendo, eu provavelmente tiraria algum personagem secundário, de preferência algum que não fizesse muita falta.

24. Você é contra ou a favor de comer macarrão com arroz?
Nem contra, nem a favor, cada um come do jeito que quiser #pas.

25. Qual foi a última vez que você precisou usar a Fórmula de Bhaskara?
No ensino médio (já faz 84 anos, etc).

26. Você acha que dá para morrer de overdose de rúcula?
Não mesmo.

27. Quanto tempo você levou para entender como funciona o Snapchat?
Pouquíssimo, e realmente queria entender qual era a dificuldade das pessoas em assimilarem o aplicativo. Acho  o insta stories bem mais difícil e bem menos instintivo, mas paciência, tem outros troféu.

28. Qual é sua opção favorita no restaurante por quilo?
Depende muito. Se for um restaurante por quilo com opção de massas, então elas provavelmente serão minhas opções favoritas. Quando não é o caso, acho que palmito e batata frita são as opções que nunca passam batido.

29. Você gosta de “Sorry” do Justin Bieber?
Demais, até hoje.

30. Você prefere passar muito frio ou muito calor?
Prefiro o frio ao calor, mas entre passar muito frio ou muito calor, prefiro passar muito calor.

31. Você está dormindo e sobe uma barata na sua cara. Você prefere continuar dormindo e nunca saber ou acordar e fazer alguma coisa?
Continuar dormindo e nunca saber. Se acordar, a única coisa que vou fazer é gritar, acordar a casa inteira e não dormir nunca mais, então é melhor manter a tranquilidade e não saber o que aconteceu. O que os olhos não veem, o coração não sente, risos.

COM AMOR

FORMAS DE VOLTAR PARA CASA

De Brasília até Correntina percorre-se pouco mais de 530km; mais ou menos cinco horas se você estiver de carro, um pouco mais se estiver de ônibus. Não é uma viagem longa, tampouco cansativa, e não exige muito mais do que vontade e alguns trocados para ir até lá. Quando era pequena, qualquer feriado era motivo para sair de Brasília rumo à Correntina, e eu sempre gostei como, mesmo muito nova e impaciente, as coisas se moviam do lado de fora. De dia, o céu muito azul se desloca, acompanha, faz desenhos com suas nuvens brancas como algodão, enquanto a estrada, o cerrado e as imensas plantações que até hoje não sei bem do que é, são as únicas coisas no chão. Minha mãe sempre dizia para não olhar as árvores por muito tempo, nem tão fixamente; do contrário, eu poderia passar mal; mas eu desobedecia todas as vezes porque parecia injusto deixar aquela paisagem tão bonita passar batido. Eu imaginava quem morava ali, quem cuidava de tudo aquilo, se existiam pessoas, casas, vida depois daquelas pequenas estradas de chão feitas no meio do nada, e gostava de imaginar como seria morar ali, como seria estar tão distante de tudo. Na época, internet ainda era algo muito restrito, uma mordomia limitada aos moradores das grandes capitais, mas nem mesmo o telefone, uma coisa tão básica, parecia funcionar naquela terra de ninguém.

À noite, são as estrelas que acompanham tudo isso e iluminam a paisagem que, do contrário, desapareceria em meio à escuridão. O céu do interior é sempre mais bonito, mais limpo, é muito fácil enxergar as estrelas ali. Da última vez que viajamos, eu e Guilherme procuramos estrelas, constelações, satélites, e era possível ver tudo ali de baixo. Ao mesmo tempo, eu pensava em filmes de terror; espantalhos que acordavam no meio da noite em uma plantação qualquer e se alimentavam de viajantes desavisados, zumbis que passeavam sozinhos como aquele da abertura de The Walking Dead. Como seria viver em um mundo destruído pela praga? Como seria caminhar por aquelas estradas rumo a lugar nenhum? Como seria viver no meio de um apocalipse zumbi? Sempre lembro do Hershel, que morava no meio do nada e, por muito tempo, conseguiu manter a família afastada da realidade, mais ou menos alheia ao que acontecia fora da fazenda. Mas a que preço? Nunca disse que não tinha uma imaginação fértil, mas são esses pensamentos e essas histórias cabeludas que me confortam enquanto, pouco a pouco, me entrego ao sono.

Estar na estrada é diferente de chegar ao destino. Em Correntina não existem zumbis, não existem espantalhos assassinos, não existem celeiros lotados de monstros que comeriam meu cérebro na primeira oportunidade. Mas existem histórias. Boa parte dessas histórias são o que me motivam a voltar pra lá sempre que possível, a entrar em contato com minhas memórias, mas principalmente com um passado que não é diretamente meu. Eu sei que estou em casa muito antes de ver as luzes da cidade, muito antes de sequer entrar na rua Coronel Flores ou na casa dos meus avós, mas quando desço a ladeira de paralelepípedo e ouço o barulho do rio, é quando me lembro que boa parte da minha história começa ali. Mais de um século atrás, meu avô nascia naquela mesma cidade, e antes disso sua família – que eventualmente se tornaria minha – já habitava aquelas ruas, construíam suas próprias narrativas. Estamos em todos os lugares. Quando viajo de ônibus, só o fato de estar parada na rodoviária me lembra que tudo está carregado de história: antes de ser a rodoviária da cidade, aquele terreno pertenceu ao meu avô, e foi ele que o vendeu para a prefeitura da cidade muito, muito tempo atrás construir um lugar onde as pessoas pudessem embarcar e desembarcar de forma apropriada, e os ônibus não precisassem parar em lugares aleatórios no meio da cidade. Guilherme sempre brinca que meu avô era dono da cidade, porque nas histórias ele sempre conhece todo mundo e é dono de todos os lugares, mas isso não é verdade, muito embora ele de fato conhecesse muitas pessoas e fosse dono de muitos lugares.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que teve início a Primeira Guerra Mundial; dois acontecimentos que parecem muito, muito distantes, mas não tão distantes assim. Ele nasceu e cresceu na cidade, assim como seus irmãos e seus filhos depois dele, e não é difícil entender por quê ele sempre esteve tão presente, como ele conhecia tantas pessoas, como praticamente todos os moradores daquela pequena cidade no interior da Bahia dividiam algum tipo de parentesco com ele e, consequentemente, com todo o resto da família. Minha prima Renata costumava dizer que sempre que íamos pra Correntina, a gente descobria a existência de um novo parente, e é verdade. Se não fossem parentes legítimos, eram amigos suficientemente próximos para serem considerados parte da família; amigos dos meus avós que viram seus filhos crescerem e se tornarem amigos, brincarem nas mesmas ruas e das mesmas coisas até o dia que começaram a sair da cidade em busca de uma vida melhor e ter os próprios filhos. A minha geração não é tão próxima justamente porque somos fruto de outros lugares – Brasília, Salvador, Goiânia -; mesmo nas férias, era difícil forçar uma amizade que durava no máximo algumas semanas. Foi um laço que, inevitavelmente, se perdeu com o tempo, ainda que, daqui alguns anos, as únicas pessoas que vão se lembrar dessas histórias e dessas pessoas seremos nós. Eu tenho medo do esquecimento, eu tenho medo de pensar que meus filhos jamais vão conhecer meu avô, que tudo que eles vão saber sobre ele será a partir de memórias minhas e da minha mãe, e essas jamais terão o mesmo significado, porque não fazem parte daquilo que eles viveram. Mas tudo vai continuar ali, na cidade.

Meus avós se casaram na mesma igreja branca com detalhes azuis que fica em frente à praça, ao lado da antiga delegacia e do Hotel de Vivi, que há muito já não hospeda ninguém. Minha avó se casou de preto, porque esse era o único vestido de festa no seu armário, já com quase 30 anos, numa época em que mulheres da idade dela já eram consideradas velhas demais para o casamento. Tudo foi feito às pressas, no dia do aniversário dela; meu avô também já não era nenhum menino e os dois se conheceram de maneira inesperada, quando minha avó ainda não morava em Correntina e estava noiva de outro rapaz. Ela rompeu o noivado para se casar com meu avô e, cinquenta anos depois, os dois celebrariam bodas de ouro naquela mesma igreja – dessa vez, com minha vó usando um belo conjunto nude e dourado. Foi uma noite linda, que se estendeu madrugada adentro, numa imensa festa no hotel, e eu percebi o quanto minha família era importante e amada na cidade. Eu não conhecia aquelas pessoas, muitas delas também não me conheciam, mas todos estavam ali pelo mesmo motivo: celebrar o amor de duas pessoas que eles amavam profundamente. Ao longo da festa, muitas dessas pessoas subiram no palco e homenagearam meus avós – com músicas, poesia, discursos e histórias – e a cada uma delas eu sentia mais e mais orgulho de pertencer a essa família, de ser fruto dessas narrativas.

A última vez que entrei naquela igreja foi em 2009, na missa de corpo presente do meu avô. Tudo aconteceu muito rápido e de repente; nós fomos todos pegos de surpresa. Ele não estava doente, na verdade ele não poderia estar melhor, até que, de repente, não estava mais. Eu nunca chorei tanto em toda a minha vida, ou sofri tanto e quis tanto poder voltar no tempo. Mas foi no meio da tristeza que, mais uma vez, senti orgulho por fazer parte dessa família, por não apenas ter conhecido um homem tão especial quanto o meu avô, mas por tê-lo chamado de avô e ouvido de volta ele me chamar de passarinho. Todas as pessoas que o amavam estavam ali mais uma vez, e elas relembraram histórias, choraram, disseram palavras lindas e nos encheram de… amor. Eu nunca me senti tão triste em toda a minha vida e, ainda assim, poucas vezes me senti tão amada e confortada. Nunca mais entrei naquela igreja – menos por uma decisão consciente, mais porque as oportunidades se tornaram cada vez mais escassas -, mas quando penso em casar no religioso, penso em fazê-lo lá, numa tentativa ambiciosa e meio ridícula de continuar a escrever essa história e ligar o passado a um presente que parece se importar cada vez menos com aqueles que vieram antes dele.

Enterrei meu avô no mesmo lugar em que meus bisavós estão enterrados, e acho que foi naquele momento que me dei conta da quantidade de histórias que moravam ali. Eu podia ou não assumir aquelas histórias como minhas, podia ou não dar continuidade à elas, mas elas continuariam existindo naquele lugar – nas ruas de paralelepípedo, nas casinhas coloridas com piso cimentado, nas ladeiras, tantas ladeiras, no rio que corta a cidade ao meio, nas pessoas, principalmente nas pessoas. São muitas histórias, e ainda que a vida tenha me ensinado que o tempo é capaz de apagar muitas coisas, talvez o esquecimento não seja a regra. Talvez exista uma maneira de preservar esse passado, talvez eu não seja a única preocupada em resgatar e registrar essas lembranças.

Faz muito tempo que não coloco meus pés em Correntina, mas cada vez que estou lá, é como estar novamente em casa. Gosto, especialmente, quando viajo à noite e de ônibus porque sempre chegamos de madrugada, num horário cedo demais para alguém estar acordado, mas tarde o suficiente para ninguém perambular pelas ruas, e é enquanto caminhamos no escuro e em silêncio até a casa da minha avó, que eu sinto a vida que existe ali e, inevitavelmente, me sinto muito viva também. Viva de um jeito idiota. Viva de um jeito que só a ideia de herança e passado e todas essas bobagens que ninguém se importa, mas eu me importo demais, te dá. Então eu penso no meu avô, e penso na minha mãe brincando com filhotes de ratos naquelas ruas, dando os primeiros beijos, indo às primeiras festas. Na minha avó brigando com minha tia avó que esse ano completou cem (!) anos e a cidade inteira comemorou junto com ela. Penso no rato que caiu do telhado em cima da cama quando minha avó estava grávida do seu primeiro filho e meu avô, que disse que aquilo obviamente não ia acontecer, ficou desesperado. Nos quartos que hoje têm vídeo game e computador, mas que um dia tiveram posteres do Roberto Carlos cobrindo as paredes. Na minha mãe correndo apavorada de uma vaca. Do meu avô distribuindo leite, cuidando com carinho do gado, admirando o canto do sabiá. Tudo isso é também uma parte de mim – indireta e distante, mas ainda assim. Eu, que brinquei naquelas ruas, que chorei olhando aquelas estrelas, que corri com galinhas, nadei naquele rio; que vivi coisas realmente horríveis, mas outras incríveis, especiais.

Quando era mais nova, me ressentia por não ter origens mais interessantes, por minha vida começar numa cidadezinha no interior da Bahia, pelo meu sobrenome não ser tão único e diferente. Hoje, no entanto, só posso dizer que estar ali é como estar de volta ao lar – e eu nunca senti tantas saudades desse lar.

MEMES

UM MEME PARA FALAR DE DOWNTON ABBEY

Eu comecei a assistir Downton Abbey depois de terminar Call The Midwife, num momento em que a única coisa que eu precisava na vida era uma série que me desse um prazer genuíno de passar horas na frente na televisão, que aquecesse meu coração e me encantasse de um jeito confortável e gostoso como um abraço e um carinho na cabeça, e não necessariamente pela sua complexidade ou viradas cabeludas de roteiro. Downton Abbey faz tudo isso, e quase como um barquinho no meio do oceano, me salvou quando me afogar em incertezas parecia o único jeito de lidar com a vida naquele momento – algo que, ao seu próprio modo e tempo, Call The Midwife também fez; e não é exagero dizer nenhuma dessas coisas. Brinco com minhas amigas que elas criaram um monstro porque, desde então, tenho achado particularmente difícil assistir outras coisas ou falar sobre qualquer outra coisa, ao ponto de ter assistido a série inteira por duas vezes consecutivas e ter iniciado uma terceira na sequência. Nunca disse que sabia lidar com limites.

Hoje foi um daqueles dias em que tudo que eu queria era um abraço gostoso, um carinho na cabeça, ser cuidada e amada de um jeito que precisamos sempre, mas que precisamos em alguns dias mais do que em outros; eu estou de tpm, ansiosa e exausta, e faz pelo menos dois dias que não consigo escrever. Quando a Michas sugeriu que eu adaptasse um meme que ela respondeu no ano passado e falasse sobre Downton Abbey, me perguntei como não tinha pensado nisso antes. Downton Abbey: definitivamente a única solução possível.

1. Seu personagem favorito.
Todos, mas com um pouco mais de força a condessa viúva Violet Crawley. É muito fácil amar Maggie Smith sem que ela precise se esforçar para isso; é muito fácil dizer que ela é um monstro (e ela é!) e nutrir um carinho especial por aquela que sempre será Minerva Mcgonagall em nossas lembranças infantis. Mas existe mais. Violet Crawley é, antes de mais nada, a antiga Lady Grantham, muito antes de Mary, Edith e Sybil sequer pensarem em existir, e Cora sonhar em um dia habitar a propriedade da família ou Downton estar sob o comando de Robert; o que significa que o compromisso de Violet para com Downton e o pequeno vilarejo que cerca a propriedade é imenso. Longe de ser uma figura afável, Violet possui uma compreensão gigantesca sobre o papel e dever de sua família, e não deixa de agir quando acredita que é a coisa certa a se fazer – ainda que esteja profundamente errada. Às vezes, isso significa recorrer a discursos conservadores, mas é incrível como, à medida que a série avança, ela pouco a pouco se torna mais flexível, compreensiva e humana, uma faceta reservada à poucos, é verdade, mas que ainda faz parte de sua personalidade. Uma de minhas cenas favoritas é quando Violet vai ao quarto de Mary e diz que a ama, porque expor-se daquela forma não parece algo do seu feitio, mas elas ainda são uma família, e embora todos sejam muito bons em esconder os próprios sentimentos, ainda se amam profundamente. Entre todas as mulheres Crawley, Violet se sobressai como uma figura complexa, engraçada e extremamente inteligente, que não tem medo de dizer o que pensa ou manipular aqueles ao seu redor para conseguir o que deseja, sobretudo quando precisa defender a honra de sua família.

2. O personagem de que você menos gosta.
Edna Braithwaite. É preciso resistir para não falar sobre O’Brien: embora seja uma mulher odiosa em muitos momentos, acredito que existe mais sobre O’Brien do que acredita nossa vã filosofia; seria muito fácil classificá-la como uma personagem simplesmente horrível, embora ela o seja em 90% do tempo. É mais ou menos o que acontece com Thomas, que faz muita merda ao longo das seis temporadas da série, mas nenhuma dessas merdas existem no vácuo. O que nos leva à Edna – a empregada dos Crawley que começa a dar em cima de Tom, só para depois fingir uma gravidez que nunca existiu. Odeio a forma como ela é petulante, como desrespeita tudo e todos, como é cínica e tenta manipular as pessoas de um jeito completamente horrível e sem escrúpulos. Mas odeio, especialmente, como sua narrativa reforça a ideia da mulher que se utiliza de uma gravidez falsa para se dar bem. Por sorte, as coisas acabam indo de mal a pior, e sua farsa é descoberta. Edna vai embora de Downton com o rabinho entre as pernas para nunca mais voltar, amém.

3. Sua temporada favorita.
Todas, mas em especial a segunda. Ainda que eu goste muito da primeira e da terceira, a segunda é quando as coisas verdadeiramente começam a acontecer, quando a vida de todos é virada de cabeça pra baixo por causa da guerra e quando patrões, criados e todas as pessoas em Downton são obrigadas a mudar seu modo de vida. O casarão se transforma numa casa de apoio onde soldados vão passar um tempo para se recuperar após receberem alta do hospital, e toda a rotina da casa, bem como o mundo em que vivem os Crawley, muda drasticamente. Não é por acaso que, mesmo após o fim do conflito, as coisas jamais voltem a ser as mesmas: eles conheceram um outro modo de vida, conheceram os horrores da guerra, e é impossível voltar a ter a vida como conheciam novamente, como se nada tivesse acontecido.

4. Temporada de que menos gosta.
Nenhuma. Acho que as coisas mudam muito a partir da quarta temporada e, talvez por isso, ela se torne uma temporada mais fraca, quase como uma readaptação: novos personagens passam a ter mais espaço, outros vão embora de forma definitiva, e tudo isso, de um jeito ou de outro, interfere no ritmo da série. Eventualmente, ela volta ao seu curto natural, mas ainda assim, não há como dizer que seja uma temporada ruim: sentimos falta de Matthew, amaldiçoamos os novos pretendentes de Mary; mas ainda é quando Edith começa a finalmente ganhar o espaço que lhe é negado ao longo das outras temporadas e sair da sombra da irmã mais velha, quando acontece o estupro dentro do casarão, e tantos outros acontecimentos que mudam drasticamente os rumos da série e acontecem nesse período.

5. Episódio favorito.
O Especial de Natal da segunda temporada!

6. Episódio de que menos gosta.
Possivelmente o que Patrick – ou, assim ele diz – retorna à Downton, numa tentativa de recuperar aquilo que lhe era de direito: a propriedade, o casamento, o título de nobreza. Amo que essa é uma questão nunca resolvida e Patrick vai embora antes mesmo que fique provado que ele era o falecido herdeiro de Downton.

7. Sua frase favorita.
São tantas! Amo, especialmente, as ditas por lady Violet, talvez a personagem com maior acervo de frases incríveis da ficção, de modo que escolher apenas uma é uma missão quase impossível. Entre minhas favoritas, no entanto, estão: “I’m a woman, Mary. I can be as contrary as I choose”, “never complain, never explain”, “I’m not a romantic but even I concede that the heart does not exist solely for the purpose of pumping heart”, “life is a game where the player must appear ridiculous”, “no life appears rewarding if you thing too much about it” – e chega, risos.

8. Música favorita.
“Did I Make the Most of Loving You?”, dã.

9. Personagem secundário favorito
É difícil falar sobre personagens secundários quando todos os personagens de Downton Abbey são tratados com tanto cuidado e carinho, e possuem jornadas construídas com o mesmo esmero daqueles que seriam, em um primeiro momento, os protagonistas. Gosto muito de como a série não se restringe ao universo da alta sociedade inglesa, mas também utiliza a criadagem como uma parte essencial da narrativa e não personagens secundários como meros assessórios dentro da história. Amo, particularmente, a trajetória de Daisy, que começa como uma jovem inocente e sem família, e pouco a pouco ganha mais autonomia, se torna assistente de cozinha, começa a estudar e se torna uma mulher esclarecida, o que é lindo, lindo de ver.

10. Apresentação favorita de personagem.
Atticus Aldridge. Sua participação na série é bem pequena e restrita, mas acho uma gracinha como ele aparece pela primeira vez, de um jeito completamente aleatório, se oferecendo para carregar as sacolas da Rose num dia de chuva; e os dois riem e conversam e se encantam um pelo outro. A história dos dois é tão linda quanto esse primeiro encontro e fico feliz que eles tenham ficado juntos no final, mesmo que suas famílias fossem tão contra o relacionamento a princípio; a mãe de Rose, por Atticus ser judeu, o pai de Atticus, por Rose não ser judia. As diferenças, contudo, são eventualmente deixadas de lado e os dois vivem felizes, muito felizes, nos Estados Unidos.

11. O personagem que mais se parece com você.
São questões. Gosto de pensar que num mundo perfeito, eu seria a Sybil, com seu jeito revolucionário e doce, absolutamente doce. Parece um jeito totalmente pisciano de encarar o mundo – e de fato, é! -, mas na prática, me enxergo muito mais nas outras duas irmãs Crawley: Mary e Edith. É uma identificação menos óbvia, porque no fundo não sou ipsis litteris nenhuma das duas, mas que ainda existe e vez ou outra bate com força. Contudo, ironicamente, em dois testes que fiz para saber que personagem era, os resultados foram, respectivamente, Carson e Lorde Grantham. Vai entender.

12. Season finale favorita.
A da primeira temporada, quando Lady Grantham perde o bebê, Mary e Matthew desmancham o possível noivado antes mesmo que ele tenha a chance de existir, e a Primeira Guerra Mundial é anunciada – algo que tem um peso gigante pra série. Era o início de tudo, ninguém podia imaginar o que viria a seguir; e eram muitas coisas. Ainda, gosto muito do final da terceira temporada, quando Lorde Grantham, Branson e Matthew celebram os pontos num jogo de críquete. É irônico que, dali pra frente, as coisas descessem tão baixo, mas gosto do contraponto que essa cena faz com todo o resto, numa ironia necessária, ainda que extremamente dolorosa.

CINEMA E TV

ÚLTIMOS FILMES ASSISTIDOS

Já faz algum tempo desde que falei sobre os últimos filmes que assisti aqui, em partes porque não tenho mesmo assistido muita coisa. A última vez aconteceu, muito provavelmente, no ano passado; um termômetro bem fiel da minha vontade de também escrever sobre cinema por aqui. Eu amo falar sobre cinema, amo escrever sobre cinema, e esse parece o grande resumo da minha vida nos últimos anos; mas queria fazer algo diferente aqui. O BEDA, entretanto, é aquele momento em que literalmente qualquer coisa acaba funcionando como pauta, o que me fez abrir uma pequena exceção. Em todo o resto do ano, acessem o Valkirias e leiam minha opinião não-requisitada sobre cinema, televisão e outras coisinhas mais. Obrigada, de nada.

O Filme da Minha Vida (Selton Mello, 2017): Não assisti Mad Men, mas tem uma frase do Don Draper que ele diz o seguinte: “Nostalgia – it’s delicate, but potent. Teddy told me that in Greek, “nostalgia” literally means “the pain from an old wound.” It’s a twinge in your heart far more powerful than memory alone. This device isn’t a spaceship, it’s a time machine. It goes backwards, and forwards… it takes us to a place where we ache to go again. It’s not called the wheel, it’s called the carousel. It let’s us travel the way a child travels – around and around, and back home again, to a place where we know are loved“. Se pudesse descrever O Filme da Minha Vida em uma quote, seria essa. É um filme lindo de morrer, de um jeito quentinho e absolutamente adorável, poético, mas também doloroso, onde a nostalgia move tudo e todos pro bem e pro mal. Virou favorito sem muito esforço; o lembrete de que nem só de piadas sem graça e machismo é feito o cinema brasileiro.

Capitão Fantástico (Matt Ross, 2016): Na correria para cobrir o Oscar, Capitão Fantástico acabou ficando de fora; em partes, porque a história de um pai que literalmente vivia com os filhos no meio do mato não me interessou tanto assim de cara, mas também porque precisava priorizar outros filmes mais relevantes pro tipo de trabalho que eu estava fazendo. Foi só em julho, quando minha vida estava uma verdadeira bagunça, que pude assistir ao filme, e foi uma surpresa gostar tanto de uma história que parecia não ter nada a ver comigo. Eu precisei parar em determinado momento porque não aguentava mais de tanto chorar, não porque ele é um filme triste, mas porque é um filme tão belo, que bateu tão forte e tão gostoso, que eu só conseguia chorar sem parar. Amo, especialmente, o fato dele se aproveitar de temas tão atuais para construir uma história sobre pessoas adoráveis e onde ninguém está exatamente livre de mudar de opinião. Queria eu viver com aquela família e ser feliz demais no meio do mato.

Upstream Colour (Shane Carruth, 2013): O Shane Carruth revolucionou o cinema independente por fazer filmes de ficção científica com um orçamento limitado para os padrões já limitados do cinema independente, e entregar um trabalho tão diferentão e cheio de personalidade. Upstream Color (ou As Cores do Destino, título brega que ganhou na tradução) é seu segundo filme e foi uma dessas produções que caem no gosto de gente que entende de cinema – críticos, estudiosos, etc etc -, mas que nunca se sabe como chegou no público, se é que chegou. Nele, Shane não só dirigiu como atuou, escreveu o roteiro, compôs a trilha sonora e cuidou da fotografia, e talvez de todo o resto. Dá pra entender como ele faz a mágica acontecer com tão pouco dinheiro, e isso é incrível. Eu realmente queria amar esse filme como todas as pessoas que conheço, mas a única coisa que ficou na minha cabeça foi uma grande interrogação e imagens de porquinhos fofinhos e cor-de-rosa.

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar (Jon Watts, 2017): Eu gosto de filmes de super-heróis. Gosto deles o suficiente para assisti-los na estreia, mesmo com os preços exorbitantes dos cinemas de Brasília; para comprar toda a parafernalha igualmente cara que vendem no cinema e fazer folia com as pessoas que, assim como eu, aguardam ansiosamente esses lançamentos. Com Spider-Man: Homecoming isso não aconteceu: eu ainda não havia superado o fiasco de O Espetacular Homem-Aranha e parecia uma ideia ridícula tentar emplacar outro filme do cabeça de teia com pessoas diferentes. Eu estava exausta, não queria mais saber de super-heróis com pintos, querem contar histórias de adolescente, façam um filme sobre a Kamala Khan, etc etc, mas aí eu assisti ao filme e foi como ver mágica acontecer pela primeira vez. Era lindo. Era especial. Me lembrou porque a gente ainda paga tanto dinheiro pra ver essas merdas. Tom Holland, casa comigo.

The Runaways (Floria Sigismondi, 2010): Adoro o fato de que esse filme seja não só sobre mulheres no rock, numa época em que esse clubinho era tão mais restrito do que é hoje, mas sobretudo que ele seja dirigido por uma mulher. A ideia ao assisti-lo era, justamente, escrever sobre o The Runaways como uma singela homenagem ao rock, mas principalmente às mulheres do rock; contudo, fiquei tão obcecada pela história e por essas mulheres, que foi impossível terminar o trabalho a tempo, de modo que até hoje esse texto não viu a luz do dia. Em partes, a história do filme – e da banda – é triste pra cacete, e reforça alguns estereótipos que tentamos a muito custo subverter; mas isso não é realmente um problema quando sabemos que foi o que de fato aconteceu. Além disso, Floria não tem medo de mostrar o lado sujo que existe nesse universo, ainda que com uma fotografia lindíssima que nos faz querer viver nos anos 70.

O Mínimo Para Viver (Marti Noxon, 2017): Gente, esse filme. Meu Deus do céu, esse filme. Tenho certeza absoluta que quando a Marti Noxon pensou em fazer um Filme Sobre Anorexia™ que subvertesse todas as narrativas que já conhecemos de cor e salteado, não era esse filme que ela queria fazer. Muito já foi discutido sobre ele, ao ponto de eu não ter a menor paciência de fazê-lo agora (inclusive, porque já fiz isso antes), mas fiquei verdadeiramente chateada que um filme com um potencial tão grande e uma importância gigantesca seja tão, tão ruim. Sinto muito pela Noxon, que certamente acreditou nessa história e acreditou que conseguiria fazer o melhor com ela, e também pela Lily Collins, que colocou uma fé imensa no projeto; mas não foi dessa vez. De boas intenções o inferno está cheio – e o cinema, aparentemente, também.

Colossal (Nacho Vigalondo, 2016): Quando ouvi falar sobre Colossal pela primeira vez, eu literalmente revirei os olhos e segui com a vida, porque que porra é essa, que filme esquisito é esse, mas que diabos a Anne Hathaway decidiu fazer com a própria vida, etc etc. Mas eu gostei. Surpreendentemente. Antes disso, já havia lido bastante sobre o filme, o que motivou meu interesse, mas foi uma surpresa constatar que, de fato, ele era tão bom quanto todas as pessoas estavam dizendo, e que sua mensagem principal era importante & relevante; de um jeito que o cinema deveria fazer com mais frequência, mas nem sempre o faz. Parece pouca coisa quando colocamos assim, mas ainda precisamos caminhar muito para estarmos em pé de igualdade em representação e todo o resto, então é realmente revolucionário quando assistimos a história de uma mulher que não precisa ser salva e não termina com nenhum cara no final.

Shangri-La Suite (Eddie O’Keefe, 2016): Sei que vocês amam odiar a Emily Browning, mas eu amo a Emily Browning e vou defendê-la. Dito isso, Shangri-La Suite apareceu por acaso na minha timeline, e de repente eu estava baixando o filme e me apaixonando por uma história completamente maluca e esteticamente impecável, cheio de gente linda e umas cenas realmente tocantes. Ele acabou se tornando uma referência para o roteiro que eu estava escrevendo – menos uma referência narrativa, mais uma referência estética – e se tornou um dos meus favoritos da Emily. Não é um filme pra qualquer pessoa; não é um filme sempre bonitinho, merdas acontecem e o final nem sempre é aquilo que a gente espera, mas ainda é o meu tipo de filme, o tipo de cinema que eu gostaria de fazer e que me encanta ao mesmo tempo, e amo o fato de que a Emily esteja nele – o que só o torna ainda melhor.