MEMES

TRÊS É BOM, TRÊS É BOM DEMAIS

Se alguns dias atrás alguém me dissesse que, depois de reclamar por não conseguir postar todos os dias, eu simplesmente iria sumir do mapa e passar vários dias sem dar as caras, eu não só acreditaria, como riria alto, porque a vida, afinal de contas, é uma grande piada de mau gosto. Eu não gosto dessa situação, muito pelo contrário. Mas muito mais honesto do que fingir que esse sumiço nunca existiu, é vir aqui e admitir que ele existiu, não sem um motivo, e que o fracasso como consequência de uma tentativa ainda é melhor do que aquele que existe porque era infinitamente mais fácil simplesmente deixar pra lá. Eu queria postar todos os dias, eu queria escrever textos filosóficos e cheio de reflexões em uma sentada e passar o dia discutindo o universo, a vida e tudo mais com vocês, mas eu não posso, pelo menos não agora, e admitir a derrota ainda é melhor do que ficar chorando o leite derramado eternamente.

Então, como naturalmente acontece na vida de qualquer blog, hoje responderei um meme (um oferecimento da Manu adolescente, que retornou especialmente do passado para salvar as migas do futuro), torcendo pra que da próxima vez que eu der as caras por aqui, seja com um textão reflexivo sobre a vida, o universo e tudo mais. Não desistam de mim.

Três nomes pelos quais você atende:
> Sharon;
> Xú (risos);
> Ana Lee.

Três nomes de “tela” (usernames, nicknames, e afins):
> alvesqueen;
> imnotyourqueen;
> analuizaxx.

Três coisas que você gosta em você:
> Minha capacidade de me encantar, emocionar e me importar com as coisas (situações, pessoas, animais, etc etc), mesmo quando elas não tem uma relação direta comigo;
> A cor dos meus olhos (!), um castanho que não é o mais escuro, mas que também passa longe de ser claro;
> Minha vontade de fazer as coisas darem certo e acreditar que sonhos são possíveis de serem realizados, mesmo que todas as pessoas me digam o contrário.

Três coisas que você odeia/não gosta em você:
> A procrastinação;
> Minha autoestima, tão baixa que me pergunto se não é inexistente;
> Meu peso, risos (o estímulo é forte, a carne é fraca, etc etc).

Três coisas que você gosta nos outros:
> Sorrisos bonitos;
> Abraços apertados;
> A sensibilidade.

Três coisas que você odeia/não gosta nos outros:
> Odiar tudo o tempo inteiro just because;
> Falta de empatia;
> Mentir ou aumentar histórias pra parecer legal demais.

Três partes da sua herança:
?????????

Três coisas que assustam você:
> Aranhas;
> A morte;
> O futuro.

Três coisas essenciais no seu dia:
> Café;
> Uma boa noite de sono;
> Carinho.

Três coisas à toa que te deixam feliz:
> Sorrisos;
> Abraços;
> Pequenas quebras de rotina.

Três coisas que você está vestindo agora:
> Uma camiseta velha que roubei de Guilherme e que gosto de usar pra dormir;
> O short do pijama;
> Calcinha, dã.

Três dos seus artistas/bandas favoritos (neste momento):
> Taylor Swift;
> Haim;
> Sia.

Três das suas canções favoritas (neste momento):
> “Waves”, do Dean Lewis;
> “Shine a Light”, do Banners;
> “We Don’t Believe What’s On TV”, Twenty One Pilots.

Três frases que você diz muito:
> “Meu deeuuusssssssssssss”;
> “Não aguento mais”;
> “Tô com fome”.

Três novas coisas que você quer tentar nos próximos 12 meses:
> Uma atividade física que nunca fiz, tipo pilates ou alguma luta;
> Fotografar mais;
> Gravar pelo menos um curta.

Duas verdades e uma mentira: qual é a mentira?
> No ano passado eu fiz oito anos de namoro;
> Meu primeiro curta foi um trabalho da faculdade sobre assédio;
> Se eu fosse homem, meu nome provavelmente seria Alexandre.

(Agora adivinhem qual é a mentira, risos.)

Três nomes de filhos:
> Linda;
> Helena;
> Noah.

Três coisas que simplesmente você não consegue fazer:
> Atuar sem me sentir idiota;
> Não me importar;
> Agir naturalmente numa situação desconfortável (q).

Três coisas que você deveria fazer:
> Exercícios físicos;
> Uma dieta;
> Comprar menos roupas.

Três dos seus hobbies favoritos:
> Jogar vídeo game;
> Ir ao cinema;
> Dançar.

Três coisas que você quer fazer antes de morrer:
> Viajar, muito (!);
> Ter um filho;
> Trabalhar com algo que eu ame profundamente.

 

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

AOS TREZE

Quando assisti Aos Treze pela primeira vez eu tinha vinte e três anos. Isso mesmo: depois de passar aproximadamente 19023890183 bilhões de anos fantasiando sobre a histórias das meninas com piercing na língua na capa do dvd, minha adolescência inteira pautada pelas irrealidades provocadas pela expectativa, finalmente, no ano passado, tomei vergonha na cara e assisti o filme – e odiei.

Odiei, na realidade, é o jeito exagerado de dizer que eu não gostei tanto assim, que ele não chegou perto de suprir minhas expectativas adolescentes; eu esperava um filme sobre jovens adoravelmente lindas e loucas, curtindo seus treze anos como se não houvesse amanhã e se enfiando em algumas furadas de um jeito limpinho e destemido que não incomoda ninguém. Aos treze anos, meu sonho era ser uma jovem destemida e adoravelmente louca, além de linda, de um jeito que não incomoda justamente porque tem o efeito oposto: causa admiração. Eu cruzei com essas meninas um milhão de vezes durante minha adolescência, na escola, no shopping, lugares que naquela época eram o ponto de encontro de todos os adolescentes de Brasília; sempre sonhando em ser um pouco como elas, sem considerar que, por trás das roupas bonitas e da atitude blasé, existiam garotas com uma porção de questões mal resolvidas – que eu também tinha, ou talvez não -, que não viviam vidas tão divertidas assim, muito menos eram tão limpinhas quanto nosso olhar idealizado e os jeans rasgados de butique nos faziam enxergar.

A amizade entre Tracy e Evie começa num misto de admiração e curiosidade que a primeira dispensa à segunda, os mesmos sentimentos que eu tinha em relação às meninas mais velhas que eram minha referência na época. Evie é a garota mais popular do colégio, estilosa, destemida, admirada pelos garotos, linda e louca de um jeito adoravelmente inconsequente que não parece suficiente para machucar ninguém, e Tracy enxerga tudo isso de longe, querendo fazer parte daquele mundo de alguma forma, mas ao mesmo tempo muito distante dele. As duas se tornam amigas de um jeito absolutamente ridículo, com a primeira descaradamente tentando se enturmar; mas elas são jovens e ser jovem também significa ser ridículo e cara de pau de um jeito que adultos às vezes deveriam ser, mas não são. Assim, as duas se tornam amigas; dividem roupas, cigarros, namorados, dramas, a casa e a vida, uma relação que a princípio não parece tão diferente do padrão, até as duas entrarem juntas numa montanha-russa que só vai pra baixo. A amizade das duas se torna cada vez mais problemática e auto-destrutiva à medida que a história avança, e elas passam a ter contato com universos que idealmente deveriam passar longe da realidade de qualquer adolescente. Ambas constroem uma relação que não é exatamente de autodescoberta, sobre pertencimento, sobre ser jovem e descobrir qual o seu lugar no mundo – embora, em algum nível, seja sobre essas coisas também -, mas sobre drogas, sexo, roubo e automutilação; uma sucessão irrealística de fatos a não ser que você tenha vivido coisas muito parecidas… aos treze anos. O roteiro é baseado nas experiências reais da própria Nikki Reed – que além de interpretar Evie no longa, também ajudou a escrever o roteiro -, alguém que viu e viveu algo muito similar enquanto era pré-adolescente, e decidiu que precisava contar essa história.

Em 2003, quando o filme foi lançado, eu tinha dez anos e era a mesma criança certinha ao ponto de ser idiota que eu ia me esforçar para subverter não muito tempo depois. Eu tirava boas notas, era educada, usava roupas fofas e muito cor-de-rosa, brincava de Barbie e tinha um fã-clube de Sandy & Júnior, minhas maiores preocupações na vida. Mas era uma realidade muito frágil, construída sobre uma perfeição que não existe, e bastou que minha tia caísse de cama em depressão para que todas as minhas certezas caíssem junto com ela. 2004 é um ano que não tenho muitas recordações, um grande vácuo na minha linha cronológica, composta por pequenos flashes de um ou outro momento mais marcante; mas aos doze anos eu já começava a nutrir uma certa revolta interna, já começava a me questionar o por quê da minha vida não ser mais aquele mundo cor-de-rosa no qual eu tinha sido criada. Para quem via de fora, eu ainda era a menina doce e delicada de sempre, mas dentro de casa a narrativa era outra. No filme, Tracy também é uma garota doce, talvez não exatamente delicada, mas meiga e bondosa o suficiente para fazer o que tem que ser feito, para fingir que aceita a situação em que vive e não incomodar ninguém. Ela não aceita o padrasto, se incomoda com a falta de dinheiro da mãe e com a ausência do pai, mas finge que está tudo bem. Fingir que está tudo bem foi algo que eu aprendi a fazer desde muito cedo e que ainda tenho dificuldades em não fazer, algo que, aos poucos, minha psicóloga tenta me ensinar que é possível. Mas é uma situação extremamente complicada, nociva, e também delicada, algo que te corrói por dentro, mas que continua impossível de ser exorcizado.

A postura de Tracy muda quando ela conhece Evie, que é quem mostra pra ela um outro lado da vida – mais sujo e cruel, é verdade, mas onde ela ainda pode ser quem quiser. Ela abandona a imagem de garota certinha para assumir uma versão de si mesma que é admirada e idealizada por quem vê de fora, que não aceita a realidade que lhe é concedida e se sente no direito de questionar e quebrar tudo se necessário, e apontar o dedo na cara de quem se colocar em seu caminho como se isso fosse algo natural. É uma garota muito mais destemida do que a que conhecemos no início e muito mais livre também, mas ironicamente, é essa mesma liberdade aparente que a permite sucumbir de vez. Quem a atenta inicialmente para esse fato é sua mãe (não curiosamente, a primeira pessoa a quem Tracy vira as costas), mas mesmo que seu irmão e seu pai (que despenca sabe-se lá de onde só para entender que diabos está acontecendo com sua filha perfeita que ele nunca se preocupou em amar e dar a devida atenção) conversem com ela posteriormente, é só quando realmente vê a situação sair completamente do controle que Tracy percebe que é só uma adolescente que precisa desesperadamente de amor e proteção. A grande mensagem do filme é justamente a que nossos pais ainda vão ser as pessoas a segurar cada uma das pontas das nossas vidas quando tudo ameaçar desabar – um clichê tão grande que parece deslocado num filme que se esforça tanto para construir uma imagem tão subversiva de jovens de treze anos -, mas o que existe no meio me parece muito mais importante, fundamental.

Minha postura também mudou radicalmente aos treze anos – foi a época em que eu comecei a usar roupas pretas, ouvir rock e passar lápis preto no olho; mas foi também quando eu comecei a pensar na morte, a me revoltar contra minha realidade, a ter problemas com minha mãe, tirar notas baixas no colégio e escrever desabafos na parede do meu quarto -, mas não foi preciso que uma garota popular e prafrentex entrasse na minha vida pra virar meu mundo de cabeça pra baixo. Eu conheci alguém, é verdade, uma pessoa que me apresentou a um mundo com o qual eu não estava acostumada, que eu nem sabia direito que existia mesmo que, racionalmente, eu soubesse que existia em algum lugar; mas nós o exploramos juntas, não separadas.

A B., que é como vou chamá-la aqui, era uma garota muito parecida comigo: nós duas vinhamos de famílias imperfeitas, não éramos exatamente populares, mas andávamos com esse grupo de meninas que eram populares e perfeitas, exatamente o oposto de nós duas. Eram meninas legais até, gente boa e de bom coração, mas que ainda eram as mesmas meninas lindas e populares de sempre, o lembrete de tudo que eu e B. poderíamos ser, mas não éramos. Ninguém precisava nos dizer o contrário, ninguém precisava sequer dizer alguma coisa; nós tínhamos plena consciência de aquele não era nosso lugar, não exatamente, e isso já era o suficiente. Quando nos afastamos – com uma briga que explodiu do nada, como naturalmente acontece entre pessoas que tentam com força demais manter uma relação que já não existe -, nós assumimos que jamais seríamos como aquelas garotas; não de um jeito arrogante de quem se acha superior, mas com a certeza confortadora de que não precisávamos mais usar aquelas máscaras. Nós tínhamos caído da corda bamba, é verdade, mas a cama elástica que nos esperava no final era incrivelmente mais divertida.

Meio sem querer, nós nos tornamos exatamente as pessoas que queríamos ser: garotas misteriosas e destemidas que pareciam viver numa dimensão paralela onde nada, nem ninguém, era capaz de nos atingir – que as pessoas estivessem falando não era o problema, desde que continuassem falando sobre a gente.

Em Aos Treze, a amizade de Tracy e Evie eventualmente entra numa espiral de problemas, auto-destruição e pequenos crimes que são descobertos e terminam por colocar um ponto final no relacionamento das duas. É algo que acontece aos poucos, até assumir proporções incontroláveis, ao ponto de respingar em todas as pessoas que não deveriam estar sabendo de nada, e enquanto uma acusa a outra de ser a culpada por tudo o que está acontecendo, as responsáveis se desentendem sem saber em quem acreditar. É um desfecho ridículo, mas muito verossímil também, justamente porque mostra o quando ambas são apenas garotas, vulneráveis e machucadas até dizer chega, que só precisavam de amor, carinho e um pouco de atenção. O fim da amizade das duas é exatamente o que teria acontecido comigo e B. se as coisas tivessem saído do nosso controle: existiram pequenos delitos, existiram drogas (que nunca usamos, é verdade, mas ainda assim), existiram momentos estranhos em que tivemos absoluta certeza de que tudo ia dar errado e nós íamos morrer, existiram nomes pichados nos muros de Brasília quase como uma declaração de amor de devoção, existiu um presidiário que tirou a própria vida na cadeia e, numa sucessão estranha de fatos, seu corpo surgiu no nosso caminho, existiram festas, álcool, brigas, e mentiras, uma porção de mentiras; fora todos os problemas que estavam em casa, ou muito perto de casa, dos quais a gente nunca podia fugir.

Não é preciso falar sobre cada uma dessas coisas porque mencioná-las já é suficiente, qualquer pessoa entende que nenhuma adolescente deveria estar lidando com elas; não é preciso de detalhes para entender que elas são absurdas, irrealistas demais, não fossem exatamente o contrário. E curiosamente, ninguém percebeu. Assim como os pais de Tracy demoraram a descobrir que algo estava errado, e a responsável por Evie jamais percebeu, sequer se perguntou quando todos os problemas vieram à tona, ninguém nunca se perguntou o que estava acontecendo comigo ou com B. As pessoas falavam sobre nossas notas, sobre nosso mau comportamento, sobre as fugas da escola, sobre um possível relacionamento que nunca tivemos; mas elas nunca se perguntaram o que realmente estavam acontecendo. Ninguém queria saber sobre a tia maníaco-depressiva, não queria ouvir sobre o pai ausente; sobre uma mãe igualmente ausente e alcoólatra, e sobre um outro pai que passava o dia inteiro fora porque precisava trabalhar, mas também porque não fazia a menor ideia de como lidar com uma filha adolescente.

Tenho pensado muito em todas essas coisas ultimamente, revirando meu passado como se de repente despejasse uma imensa caixa cheia de papéis no chão em busca de alguma resposta, mas só consigo pensar que, embora as pessoas ainda pareçam muito preocupadas, elas nunca se importam o suficiente. É um assunto que me deixa muito sensível, que me faz olhar de frente para fantasmas dos quais até hoje não consegui me livrar, esqueletos que deveriam ter sido queimados com sal grosso há muito tempo, mas que continuam trancados no meu armário a sete chaves, e eu tenho certeza que muito disso teria sido evitado se as pessoas tivessem feito as perguntas certas, se tivessem olhado para dentro, e não só para o que estava fora.

Aos Treze continua não sendo o filme que eu achei que seria, mas talvez sua grande sacada não seja mostrar como pais são pessoas importantes na vida de um adolescente e sim como adolescentes são pessoas complexas e com problemas muito, muito reais.

MEMES

UM MEME SOBRE CINEMA

A promessa que eu fiz quando decidi que participaria do BEDA em abril – de um jeito meio torto e descompromissado, mas ainda assim – é que eu não me esforçaria para só escrever textos reflexivos, que exigissem muito de mim, e que não permitiria que essa brincadeira se tornasse uma obrigação. Mas eu sou essa pessoa ridícula que espera muito mais de si mesma do que admite em voz alta, e foi com essa mesma pretensão sem sentido que eu sonhei um sonho lindo e absolutamente impraticável de já chegar no segundo dia de desafio com o pé na porta e um textão™ à tiracolo. Não rolou, fica pra próxima. No lugar disso, decidi responder esse adorável meme sobre cinema que encontrei anotado em um caderno (!) do milênio passado, mas que por algum motivo nunca chegou a ser respondido. Ainda não é o post sobre a faculdade de cinema que vocês tanto me pedem, mas enquanto ele não sai (prometo que esse dia vai chegar), acho que essa é uma boa oportunidade pra trocarmos figurinhas e compartilhar dicas, etc etc. Sigam-me os bons.

1. Qual foi o último filme que você assistiu?
Power Rangers. Tenho assistido pouquíssimos filmes desde o começo do ano, uma consequência real da minha total perda de controle e minha absoluta incapacidade de manter o equilíbrio nessa vida, de modo que nas raras vezes que assisti alguma coisa, foi preciso me tirar de casa e sentar a bunda na cadeira do cinema e esquecer, por duas horinhas, o caos que me esperava em casa. Power Rangers não foi uma escolha aleatória, é claro: eu queria escrever sobre o filme, falar sobre ele de uma maneira crítica e entender o quê, afinal de contas, ele representava em 2017. Mas acabou sendo muito, muito mais. Power Rangers é um filme adorável, que consegue se adaptar ao momento que vivemos sem cair em clichês e reinterpretações vazias, mas ao mesmo tempo celebra a essência de uma história que marcou uma geração inteira de crianças nascidas e criadas nos anos 90. Saí do cinema com a alma lavada, o coração batendo com força e a sensação impagável de ter acabado de receber um abraço bem quentinho que vem de dentro.

2. Um filme que você quer muito ver?
São tantos! No momento, acho que Capitão Fantástico, que foi um filme do qual ouvi muito bem a respeito durante a temporada de premiações deste ano e que, curiosamente, parece ser 100% meu tipo de filme, mas que não consegui dar a devida atenção quando deveria. No mais, preciso urgentemente assistir Elizabethtown, porque sinto que minha formação cinematográfica nunca estará completa sem ele.

3. Um filme para chorar?
A Chegada. Ele não é exatamente um filme de chorar, mas foi um filme que me fez chorar muito e sem esforço, que é minha forma favorita de chorar no cinema. Embora eu chore com bastante facilidade, existe uma diferença ímpar entre filmes que fazem isso só porque sim, porque querem que você chore de qualquer jeito, e aqueles que fazem de forma sutil, quando o choro é uma emoção que vem de dentro, genuinamente. A Chegada foi um dos últimos filmes que fez isso comigo, de uma forma muito honesta e sincera, como poucos são capazes de fazer. Além disso, mesmo que você não chore, o filme em si é uma incrível experiência cinematográfica, então recomendo com força.

4. Um filme pra rir?
Eu sou uma pessoa ridícula e sem graça que raramente assiste filmes pra rir, e que quando assiste, odeia cada minuto. Então serei obrigada a passar essa. Por favor, não desistam de mim.

5. Um suspense?
O Bebê de Rosemary. Eu não sou uma pessoa que investe muito tempo assistindo suspense e terror, preferindo, ironicamente, usar esse tempo para assistir séries do mesmo gênero. Não é que eu não goste desse tipo de filme, muito pelo contrário; a mitologia por trás dessas produções é algo que me encanta profundamente, e sendo eu o tipo de pessoa que passa horas em sites obscuros da internet sobre assombração e coisas mórbidas em geral, não podia me sentir mais contemplada por essas histórias. Por outro lado, eu sou uma pessoa muito medrosa, do tipo que vira e mexe precisa dormir com a luz acesa e que só muito recentemente passou a conseguir pegar no sono sem a televisão ligada, de modo que o terror e o suspense que eu procuro precisam ser coisas justificáveis, bem construídas, não só um festival de clichês que vão me fazer ter uma péssima noite de sono. O Bebê de Rosemary é exatamente isso: um filme de terror e suspense de verdade, bem construído até dizer chega, que pode ou não te deixar com medo, mas que vai te dar a certeza de ter assistido um puta filme. Infelizmente, ele ainda é um puta filme feito por um estuprador, então né. Podem passar sem.

6. Um filme para ver com a família?
A Noviça Rebelde. Minha mãe e meu padrasto são absolutamente apaixonados por cinema antigo – não de um jeito pretensioso, mas como o espectador padrão que assiste e gosta daquilo que vê. Eles não precisam saber quem dirigiu aquilo, não precisam saber qual o papel daqueles filmes na história do cinema, muito menos o que fazem aquele um filme tão bom: eles simplesmente sentem e isso é suficiente. É algo que admiro profundamente e que gosto de ver acontecer. Assim, sempre que escolhemos algo para assistir juntos, normalmente apostamos em títulos da era de ouro de Hollywood. As chances de erro são mínimas, pra não dizer inexistentes. A Noviça Rebelde entra nesse grupo, mas existe ainda o adicional dele ser o meu filme favorito, um favoritismo que é também compartilhado pela minha mãe, além de ser um musical, de modo que a diversão é certeira para todos nós.

7. Um romance?
Like Crazy. É um romance triste e sofrido de dois jovens que se conhecem durante o intercâmbio de um e são separados pelas fronteiras de seus países – ela, impedida de retornar aos Estados Unidos por ter continuado no país mesmo após seu visto ter expirado; ele, que não pode jogar tudo pro alto de repente e correr para construir uma vida do zero na Europa. É um filme muito triste porque, ao longo dele, percebemos que a distância é um problema muito pior do que a gente imagina, e que mesmo que os dois se amem profundamente, o amor que eles sentem, de pouco em pouco, se torna algo idealizado, que não encontra espaço na realidade de cada um. Eles se amam, brigam, desbrigam, e se amam mais um pouco, mas ao final, aquele romance não é possível de acontecer, não da forma como eles gostariam e sonharam ao longo do tempo. É um filme especialmente triste por ser muito real, uma história cheia de silêncios e cenas que provam que a ficção, afinal de contas, é uma grande imitação da realidade.

8. Um filme lindo?
Orgulho e Preconceito. Um filme adorável, com gente adorável, paisagens adoráveis e que conta uma história absolutamente adorável. Não tem como dar errado.

9. Um filme para morrer de medo?
It. Nem lançou ainda é já estou apavorada, salve-se quem puder.

10. Um filme de ação?
Qualquer um de super-herói porque eu sou óbvia desse tanto mesmo, me deixem.

11. Um filme que não vale à pena?
Aliados. A premissa do filme é maravilhosa: casal de espiões se conhecem durante a Segunda Guerra e enquanto fingem ser um casal, acabam se apaixonando de verdade e construindo uma vida após a guerra. Contudo, alguns anos depois, o passado de um deles volta para assombrar a doce e apaixonada vidinha de classe média européia que eles vivem. O filme se constrói em torno de uma única questão: seria a esposa do personagem principal uma espiã inimiga que se fez passar por aliada, ou tudo não passa de um grande mal entendido?; uma questão forte o suficiente para instigar o espectador a passar quase duas horas acompanhando o drama daquelas pessoas. No entanto, toda a história é tão mal construída que, de repente, você simplesmente não se importa – e aí, inevitavelmente, começa a contar os minutos para o filme acabar. Uma chance desperdiçada, infelizmente.

12. Um filme para o feriado?
La La Land. Tenho a impressão de que tudo que poderia ser dito sobre La La Land já foi dito, inclusive neste blog, de modo que não faz o menor sentido continuar batendo nessa tecla. Mas eu sou uma defensora ferrenha dos musicais, dos sonhos e dos filmes que fazem nossos corações baterem com força, e La La Land é exatamente um desses casos. Ele pode não ser o filme mais perfeito do mundo, pode ignorar uma porção de problemas estruturais da nossa sociedade ao celebrar um modelo cinematográfico repleto de figuras brancas e privilegiadas, mas eu ainda acho que, às vezes, nós precisamos deixar a problematização um pouco de lado e simplesmente admirar o que está na tela: os cenários, os números musicais, os atores tão belos que chega a doer; e é exatamente esse tipo de momento que o filme proporciona. Ele não é ciência de foguetes, não é uma produção demais, mas ainda é o filme perfeito pra quando o que a gente mais precisa é um coração quentinho e pessoas lindas sendo lindas só porque sim.

13. Uma animação?
A Pequena Sereia. Sendo bem sincera, essa não é nem a minha animação favorita, mas ultimamente eu tenho pensado um bocado sobre o filme e, principalmente, sobre a Ariel, e como ela é uma personagem mal interpretada pelas pessoas de modo geral. Ainda quero falar mais sobre essas reflexões que tenho feito sobre ela, quem sabe escrever um texto sobre em algum momento, mas tudo isso tem me feito voltar minha atenção para a animação e relembrar essa história que é, sim, muito maravilhosa (embora continue não sendo uma favorita). É também um excelente momento pra gente se perguntar QUE PALHA ASSADA É ESSE QUE MUDARAM A LETRA DE PRATICAMENTE TODAS AS MÚSICAS DA VERSÃO ORIGINAL, EM PORTUGUÊS. Baby Sharon (aka euzinha) está revoltadíssima, com toda a razão do mundo.

14. Um filme que todo mundo tem que ver?
Os clássicos do cinema, de um modo geral, não só do cinema norte-americano, mas de outros países também. Odeio falar sobre isso porque me sinto extremamente pedante, uh lá vem a estudante de cinema falar sobre clássicos, mas eu acho que todos esses filmes realmente têm um bocado a nos dizer e ensinar, não só sobre cinema, mas sobre a vida, sobre uma época, sobre pessoas. E é lindo ver isso acontecer. Então assistam filmes antigos e, principalmente, não tenham medo de filmes antigos. Eles são incríveis, de verdade.

15. Um filme que você assistiu três vezes ou mais?
O Demônio das Onze Horas, que é um filme que eu já amava antes mesmo de assistir. Não é meu favorito do Godard, mas por algum motivo foi o que assisti mais vezes, e o que continuo assistindo sempre que possível. É uma história que já conheço de cor e salteado, mas que nunca deixa de me emocionar em algum nível, que sempre me encanta em outros níveis, e que conversa muito de perto comigo. Espero que esse sentimento nunca vá embora.

JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

ALERTA DE CILADA

Minha mãe vive dizendo que eu preciso aprender a dizer “não”. Normalmente, ela diz isso quando eu estou exausta, descabelada e chorando de raiva e ansiedade, porque eu ainda sou o tipo de pessoa que não se contém diante de ideias legais demais para não serem postas em prática, o que, cedo ou tarde, se transforma num punhado de prazos e tarefas que eu nem sempre tenho tempo suficiente para cumprir. A vida não é fácil pra ninguém, mas é especialmente difícil com pessoas que não sabem dizer “não” e de repente se veem soterradas por todas as coisas que precisam ser feitas, mesmo que já não exista mais tempo para, de fato, fazê-las. É uma conta que não fecha, e minha mãe sabe disso muito melhor do que eu.

Chega a ser ridícula a frequência com que isso acontece, mesmo – e principalmente – que eu saiba como cada uma dessas bolas de neve surgem; mas ainda sou eu, e ainda é minha mãe, e nós sabemos exatamente qual papel estamos interpretando – graças a Deus. Então, sempre que possível, ela faz questão de me lembrar que eu preciso aprender a falar “não”, caso queira manter minha sanidade, enquanto eu, por outro lado, sigo determinada a fazer o contrário, mesmo que sempre prometa fazer diferente da próxima vez.

A última semana foi um ótimo exemplo disso; o ápice da minha tragédia particular que vem se desenrolando desde o final de fevereiro ou início de março, quando eu perdi completamente o controle da minha vida. A sensação que eu tenho é a de que soltei momentaneamente as rédeas do cavalo e desde então tento equilibrar minha carroça cheia de tralhas com dificuldade, enquanto ele corre desgovernado por aí, com alguns momentos de calmaria no meio do caminho em que eu juro que vai ficar tudo bem, mas não fica tudo tão bem assim. Seria cômico se não fosse trágico; mas ao mesmo tempo, acho meio injusto olhar tudo isso só por esse cenário ridículo, sem levar em consideração que todas essas furadas me movem em algum nível. Eu não inventei de estudar cinema só porque era minha única opção, ninguém me obrigou a criar um site com minhas amigas ou manter um blog pessoal, e eu nunca topei entrar em um projeto (ou dois, ou três, ou quatro) que eu não acreditasse e amasse profundamente desde o início. Existe um critério quando eu digo “sim”, que não é o melhor critério do mundo, mas ainda é alguma coisa; não é algo completamente aleatório. Ainda sou eu quem fica louca e descabelada no final, jurando de pé junto que da próxima vez não vou fazer isso, aceitando que talvez eu devesse mesmo ir com mais calma e aprender a dizer “não”, mas é essa mesma louca descabelada que sustenta um sorriso de orelha à orelha quando as coisas dão certo no final – e modéstia à parte, aos trancos e barrancos, quase sempre elas dão.

Tenho pensado muito em como é importante a gente acreditar que pode fazer as coisas antes de realmente fazê-las, por mais impossíveis que sejam, porque, do contrário, não existe motivo para sair do lugar. É verdade que querer não é sinônimo de poder, mas a mesma mãe que me disse que eu preciso aprender a dizer “não” é a mesma mulher que me ensinou que nossos pensamentos têm poder, e que a gente precisa pensar positivo e acreditar que podemos fazer qualquer coisa, mesmo que não agora. Ela, assim como eu, acredita que a gente é capaz de construir um meio termo entre o querer e o poder, e que ninguém é obrigado a nascer e morrer no mesmo lugar – a diferença básica entre nós duas é que, enquanto eu sou uma pisciana sonhadora, sem nenhum senso prático; ela é uma canceriana com os dois pés fincados no chão, que sabe reconhecer seus limites e a hora certa de dizer “não”. Mas nós acreditamos, algo tão fundamental para nós quanto respirar e ter o coração no lugar.

Curiosamente, foi nisso também que eu pensei enquanto assistia Punho de Ferro e, mais tarde, enquanto escrevia sobre a primeira temporada da série para o Valkirias. Como qualquer outra série de super-herói, os pilares de Punho de Ferro se estabelecem naquele mesmo contexto do qual já estamos saturados (vamos lá: homem branco dado como morto volta do além em busca de vingança, etc etc), mas ela apresenta um protagonista com uma visão radicalmente diferente de mundo, mais esperançosa e menos sofrida, o que acho absolutamente sensacional. É verdade que Danny Rand não é a melhor pessoa do mundo – como nenhum de nós o é -, mas ele possui uma certa ingenuidade e uma credulidade quase infantis que nos fazem muita falta. Muito se falou sobre suas certezas partirem de uma certa arrogância, mas não acho que seja esse o caso: quando questionado sobre sua certeza de que vai vencer determinado desafio, que vai vencer determinado vilão, que vai conseguir provar sua identidade, ele diz que acredita em tudo isso porque se não acreditar, então isso jamais vai acontecer. Antes que os outros acreditem em nós, é preciso que a gente se dê esse crédito, do contrário, é muito mais fácil ficar com o computador no colo assistindo alguma coisa do que sair em busca do que quer que seja.

Quando eu me proponho a fazer alguma coisa, eu estou dizendo pra mim mesma que eu consigo, mesmo que seja difícil demais, mesmo que eu não tenha tanto tempo assim, mesmo que as chances de dar tudo errado sejam imensas. Pode ser que dê, pode ser que não, mas eu jamais vou saber se não tentar e, principalmente, acreditar que pode dar certo. As coisas mais sensacionais que já fiz nessa vida foram consequências desse acreditar meio inconsequente, situações que eu tinha medo, absoluto medo, mas que eu precisava acreditar que podiam dar certo. Qualquer pessoa teria me dito pra não fazer, mas eu fui lá e fiz assim mesmo: porque sim, porque eu queria, porque foda-se, a vida é minha e eu ainda faço o que quiser – e foi exatamente assim que, no mês passado, eu me topando entrar em mais uma cilada, que dessa vez consiste em postar todos os dias de abril, ou quase isso.

A última vez que eu inventei de postar todos os dias durante um mês inteiro foi em dezembro, uma empreitada que, superando todas as expectativas, deu muito, muito certo. Não cheguei aos tão sonhados 31 posts, mas cheguei bem perto da marca e foi incrível poder redescobrir esse prazer em escrever qualquer bobagem, em manter um blog pessoal quando ninguém mais parece se importar com isso. Antes disso, ensaiei participar de um BEDA que terminou antes mesmo de começar, já na primeira semana, e de outro, no ano anterior, que deu bastante certo. Foram experiências completamente distintas, algumas deram certo, algumas nem tanto, mas todas foram especiais ao seu próprio modo e me ensinaram uma ou duas coisas sobre acreditar que eu posso fazer alguma coisa – mesmo que seja atualizar o blog (quase) todos os dias do mês. O blog não é uma obrigação na minha vida – e eu nunca quis que fosse -, mas eu gosto de me desafiar de vez em quando, eu gosto de poder tentar fazer alguma coisa que parece impossível até que não é mais, especialmente quando não se está sozinha nesse barco, então tudo bem. Tentar não custa nada.

Obviamente, postar todos os dias – ou quase todos os dias, que é o que eu e minhas parceiras de cilada nos propomos a fazer – durante um mês muda radicalmente todo o meu planejamento (sim, eu tenho planejamentos mensais): tem a faculdade, que mal começou e já está um absoluto terror; tem o site; tem o TCC de uma amiga que eu, sem juízo nenhum, me propus a ajudar – e tenho amado cada segundo da experiência; tem os textos que precisam ser escritos e claramente não vão fazer isso sozinhos; os 1379123 vídeos para serem editados; livros para serem lidos; séries para serem assistidas; projetos paralelos sobre os quais eu talvez comente em algum momento, mas não agora; roteiros para serem escritos; uma viagem no meio do caminho; e não é nem preciso falar sobre a minha vida pessoal inteira, que não precisa do menor incentivo para sumir do mapa de vez. Mas eu ainda quero fazer assim, ainda quero tentar, porque eu acredito que pode dar muito certo, e se não der, pelo menos eu vou ter me divertido um bocado. Ninguém me obrigou, eu só sou maluca assim mesmo.

Não prometo que vamos ter posts novos todos os dias porque tenho trabalhado melhor com a ideia de respeitar o meu tempo e meus limites, mesmo no meio dessa loucura. Mas eu ainda vou tentar dar o meu melhor, que é o que eu faço sempre, mesmo que alguns cabelos fiquem no meio do caminho – pelo menos, eles crescem depois. Não valeria à pena se eu não imaginasse que pudesse dar certo, mas acho que as chances disso acontecer são imensas também, e se não der, pelo menos vai ter sido divertido – e torço pra que vocês se divirtam junto comigo também.

(Eu tenho a força, sou invencível… Não, pera.)

THE ROAD SO FAR

NOBODY LIKES YOU WHEN YOU’RE 23

Eu sempre gostei de fazer aniversário – até, claro, o dia que não gostei mais tanto assim. Desde que eu fiz vinte anos – longe de casa pela primeira vez, sem a minha mãe e a maior parte dos meus amigos, mas de frente pro mar, com meu namorado, com direito a um “parabéns pra você” tocado num imenso piano de cauda – minha relação com essa coisa de fazer aniversário mudou muito. Os dias que antecedem a data são sempre meio estranhos; meio triste, meio alegres, meio já cansei de tentar entender. Mas é também uma época que vem carregadas de uma expectativa que eu não sinto em qualquer outra época do ano, que é meio o que me mantém viva nesse período conturbado.

Eu sempre digo que março é o meu mês num tom de brincadeira, como quem pede pra que nada dê muito errado e que as pessoas pelo amor de Deus façam o favor de não forçarem muito a barra e serem mais gentis comigo do que o normal, mas esse é um mês que eu sinto muito meu justamente porque é quando um novo ciclo na minha vida começa de fato e eu me sinto no direito de pedir o que quiser, mesmo que não receba de volta. Minha mãe sempre me diz que querer não é poder e eu acredito nisso demais, mas foi essa mesma mãe que me disse que a gente precisa querer as coisas e pensar positivo, porque os pensamentos têm poder. Por mais que eu tenha revirado os olhos depois, preocupada demais em não morrer (risos eternos), eu sei exatamente do que ela estava falando porque na maior parte do tempo eu acredito nisso também: querer não é poder, mas é preciso querer antes de saber se é possível tê-las ou não. Então eu me permito desejar muitas coisas, ser mais abusada que o normal e ver no que dá, o máximo que eu posso receber é um “não”. É uma tática maravilhosas, e numa dessas eu já convenci muita gente que me ama a fazer coisas meio absurdas – mas não tão absurdas assim – só porque era o meu mês.

Só que secretamente, março é também um mês que eu costumo me recolher com mais frequência, ficar mais reservada que o normal, e refletir sobre minha vida, minhas escolhas, meus sonhos e como eu quero continuar minha caminhada dali em diante. É um momento que quase sempre envolve muito choro e também algum sofrimento, porque é difícil olhar pra trás e pisar de novo em lugares que já não existem mais no aqui e no agora, lembrar de sonhos que ficaram no meio da estrada e foram pisoteados por quem veio depois, e encarar de perto meus demônios só pra tentar diferenciar aqueles que já me sinto capaz de exorcizar daqueles que ainda precisam passar algum tempo comigo. Então eu choro: pela raiva, pela perda, pela saudade daquilo que já foi e, em algum momento, por tudo que não foi, pelo o que ainda está por vir. Nunca é fácil, mas é algo que faz total sentido na minha cabeça e que é absolutamente necessário – pelo menos, pra mim. Eu fico muito sensível e vulnerável depois, mas ironicamente é justamente assim que eu consigo me levantar mais forte e confiante mais tarde, e aí sim, ter forças pra celebrar mais um ciclo que se inicia.

O que não aconteceu esse ano – ou aconteceu e eu estava ocupada demais para perceber. Desde o início de março, ou talvez desde o final de fevereiro, minha vida virou uma bagunça tão grande que eu não tive tempo, quiçá vontade, de me acostumar com a ideia de mais um aniversário, refletir sobre a data e tentar entender tantos sentimentos que tomavam conta de mim de uma vez só. Eu passei dias inteiros deitada na cama, olhando pro teto do meu quarto sem a menor vontade de fazer qualquer coisa, porque qualquer coisa exigia uma força que eu não tinha e honestamente não queria ter. Era o meu mês e eu podia chorar se quisesse – mas também podia passar o dia inteiro na cama, e faltar todas as aulas do mundo, me afastar do mundo e fantasiar sobre cenários em que eu invariavelmente morria. Eu, que sempre tive pavor de morrer, de repente encantada com a perspectiva de por um fim em tudo. Foda-se, é o meu mês e eu posso morrer se quiser.

Verdade seja dita, eu achei que fosse morrer de verdade. Enquanto revirava na cama, dessa vez fisicamente doente, sentindo a febre e a dor me consumirem, eu alternava momentos de muito choro e outros em que simplesmente desejava que aquilo acabasse o mais rápido possível. O antibiótico não fez efeito, meu médico não podia me atender, e eu não tinha coragem de sair de casa para ir em qualquer outro. Era óbvio que eu ia acabar morrendo como uma camponesa da Idade Média. Quando disse isso pra minha mãe, ela respondeu que todo mundo ia morrer mesmo, mas que ninguém morre de amigdalite no século XXI. Era questão de tempo até eu melhorar e eu deveria parar de ser tão pessimista; mas ela não entendia que era impossível não ser. De repente, era o meu mês e eu estava fazendo uma porção de coisas, coisas demais para sequer aproveitar a vantagem, consumida pela depressão e pela ansiedade, até cair de cama de vez. Ficar doente foi como um pedido de ajuda do meu corpo, mas me magoava que justamente quando as coisas deveriam estar dando tão certo, elas estavam dando tão errado. O universo não deve nada, nem pra mim nem pra ninguém, mas me parecia injusto demais passar meu aniversário de cama, com um pijama velho e o cabelo sujo, sem nem conseguir ter uma refeição gostosa e especial. Eu queria ter um dia bacana, como qualquer pessoa deve querer em seu aniversário, mas a única coisa na minha frente era a morte lenta e dolorosa de uma camponesa medieval.

Foram necessárias horas e horas de conversas com minhas amigas, pequenos rituais de exorcismo que me ajudaram a manter a cabeça no lugar, superando de pouco em pouco cada um dos obstáculos que apareciam na minha frente: a amigdalite, a ansiedade, a depressão, as questões com o futuro, a falta de ânimo e de apetite, a pouca vontade de viver. Eu chorava muito em todas essas conversas, mas ao fim de cada uma delas eu me sentia incrivelmente renovada, um pouco mais forte e amada, especialmente amada. Foi assim que aprendi, do jeito mais difícil, uma lição que eu já acreditava ser muito verdadeira, mas que foi preciso muito tempo para finalmente colocar em prática: a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços delas. A distância é enganadora porque ela nos dá essa aparente sensação de controle, como se nossos problemas se tornassem mais reais à medida que falamos em voz alta sobre eles. Mas eles estão ali e tentar lidar com tudo sozinha é terrível demais, além de enlouquecedor. Pela primeira vez em anos, talvez em décadas, eu permiti que meus problemas fossem o centro de todas as minhas conversas, permiti que as pessoas me dessem colo e palavras de conforto, e que entendessem o que estava acontecendo comigo. Era uma exposição até então inédita – ironicamente, já que eu me exponho em tempo integral por aqui – e também assustadora, porque foram anos criando barreiras e lidando sozinha com minhas questões. Mas foi assustador justamente por ser tão especial. A sensação foi como estar submersa, mas dessa vez numa enorme onda de amor e carinho, do qual eu não podia e nem queria fugir.

Quando meu aniversário chegou, eu estava incrivelmente em paz. E foi com esse sentimento de paz e profunda gratidão que eu recebi de braços abertos uma nova onda de amor e carinho, vinda dos mais diferentes lugares, de pessoas que eu sequer podia esperar. Eu recebi mensagens lindas, delicadas e carinhosas, mesmo depois da data; assisti minhas amigas fazerem festa e meus amigos escreverem coisas ridículas, mas absolutamente sensacionais sobre mim; tirei fotos ridículas e me senti bela em cada uma delas. Aproveitei cada minuto da minha ceia de Natal fora de época, feita especialmente pro meu aniversário, só porque era meu aniversário e eu queria uma ceia de Natal – um pedido que minha mãe não pensou duas vezes em atender. À noite, fui ao cinema assistir A Bela e a Fera, porque, de novo, era meu aniversário e ninguém me impediria de assistir a um dos meus filmes favoritos ganhar uma versão com gente de verdade. Cada minuto da sessão foi como um pequeno presente, e eu ri, chorei, cantei e me emocionei o tempo inteiro.

Eu não ganhei muitos presentes, mas foi como se cada parte do dia fosse um presente por si só. Diferente do que eu esperava, os vinte e quatro chegaram leves, especiais, coloridos como um arco-íris depois de uma tempestade; um adorável lembrete de como a vida pode ser bela, mesmo que nunca seja fácil. Quando soprei minhas velas – cor de rosa (!), com glitter (!) – no último dia 18, eu pedi um pouco mais de saúde, mas também que a vida se tornasse mais gentil e mais leve do que foi no ano anterior. Os vinte e três me ensinaram demais e foram, de longe, um dos melhores anos da minha vida, mas talvez seja a hora de voltar a respirar fundo e devagar – e que seja assim, então.