PESSOAL

Formas de voltar para casa

De Brasília até Correntina percorre-se pouco mais de 530km; mais ou menos cinco horas se você estiver de carro, um pouco mais se estiver de ônibus. Não é uma viagem longa, tampouco cansativa, e não exige muito mais do que vontade e alguns trocados para ir até lá. Quando era pequena, qualquer feriado era motivo para sair de Brasília rumo à Correntina, e eu sempre gostei como, mesmo muito nova e impaciente, as coisas se moviam do lado de fora. De dia, o céu muito azul se desloca, acompanha, faz desenhos com suas nuvens brancas como algodão, enquanto a estrada, o cerrado e as imensas plantações que até hoje não sei bem do que é, são as únicas coisas no chão. Minha mãe sempre dizia para não olhar as árvores por muito tempo, nem tão fixamente; do contrário, eu poderia passar mal; mas eu desobedecia todas as vezes porque parecia injusto deixar aquela paisagem tão bonita passar batido. Eu imaginava quem morava ali, quem cuidava de tudo aquilo, se existiam pessoas, casas, vida depois daquelas pequenas estradas de chão feitas no meio do nada, e gostava de imaginar como seria morar ali, como seria estar tão distante de tudo. Na época, internet ainda era algo muito restrito, uma mordomia limitada aos moradores das grandes capitais, mas nem mesmo o telefone, uma coisa tão básica, parecia funcionar naquela terra de ninguém.

À noite, são as estrelas que acompanham tudo isso e iluminam a paisagem que, do contrário, desapareceria em meio à escuridão. O céu do interior é sempre mais bonito, mais limpo, é muito fácil enxergar as estrelas ali. Da última vez que viajamos, eu e Guilherme procuramos estrelas, constelações, satélites, e era possível ver tudo ali de baixo. Ao mesmo tempo, eu pensava em filmes de terror; espantalhos que acordavam no meio da noite em uma plantação qualquer e se alimentavam de viajantes desavisados, zumbis que passeavam sozinhos como aquele da abertura de The Walking Dead. Como seria viver em um mundo destruído pela praga? Como seria caminhar por aquelas estradas rumo a lugar nenhum? Como seria viver no meio de um apocalipse zumbi? Sempre lembro do Hershel, que morava no meio do nada e, por muito tempo, conseguiu manter a família afastada da realidade, mais ou menos alheia ao que acontecia fora da fazenda. Mas a que preço? Nunca disse que não tinha uma imaginação fértil, mas são esses pensamentos e essas histórias cabeludas que me confortam enquanto, pouco a pouco, me entrego ao sono.

Estar na estrada é diferente de chegar ao destino. Em Correntina não existem zumbis, não existem espantalhos assassinos, não existem celeiros lotados de monstros que comeriam meu cérebro na primeira oportunidade. Mas existem histórias. Boa parte dessas histórias são o que me motivam a voltar pra lá sempre que possível, a entrar em contato com minhas memórias, mas principalmente com um passado que não é diretamente meu. Eu sei que estou em casa muito antes de ver as luzes da cidade, muito antes de sequer entrar na rua Coronel Flores ou na casa dos meus avós, mas quando desço a ladeira de paralelepípedo e ouço o barulho do rio, é quando me lembro que boa parte da minha história começa ali. Mais de um século atrás, meu avô nascia naquela mesma cidade, e antes disso sua família – que eventualmente se tornaria minha – já habitava aquelas ruas, construíam suas próprias narrativas. Estamos em todos os lugares. Quando viajo de ônibus, só o fato de estar parada na rodoviária me lembra que tudo está carregado de história: antes de ser a rodoviária da cidade, aquele terreno pertenceu ao meu avô, e foi ele que o vendeu para a prefeitura da cidade muito, muito tempo atrás construir um lugar onde as pessoas pudessem embarcar e desembarcar de forma apropriada, e os ônibus não precisassem parar em lugares aleatórios no meio da cidade. Guilherme sempre brinca que meu avô era dono da cidade, porque nas histórias ele sempre conhece todo mundo e é dono de todos os lugares, mas isso não é verdade, muito embora ele de fato conhecesse muitas pessoas e fosse dono de muitos lugares.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que teve início a Primeira Guerra Mundial; dois acontecimentos que parecem muito, muito distantes, mas não tão distantes assim. Ele nasceu e cresceu na cidade, assim como seus irmãos e seus filhos depois dele, e não é difícil entender por quê ele sempre esteve tão presente, como ele conhecia tantas pessoas, como praticamente todos os moradores daquela pequena cidade no interior da Bahia dividiam algum tipo de parentesco com ele e, consequentemente, com todo o resto da família. Minha prima Renata costumava dizer que sempre que íamos pra Correntina, a gente descobria a existência de um novo parente, e é verdade. Se não fossem parentes legítimos, eram amigos suficientemente próximos para serem considerados parte da família; amigos dos meus avós que viram seus filhos crescerem e se tornarem amigos, brincarem nas mesmas ruas e das mesmas coisas até o dia que começaram a sair da cidade em busca de uma vida melhor e ter os próprios filhos. A minha geração não é tão próxima justamente porque somos fruto de outros lugares – Brasília, Salvador, Goiânia -; mesmo nas férias, era difícil forçar uma amizade que durava no máximo algumas semanas. Foi um laço que, inevitavelmente, se perdeu com o tempo, ainda que, daqui alguns anos, as únicas pessoas que vão se lembrar dessas histórias e dessas pessoas seremos nós. Eu tenho medo do esquecimento, eu tenho medo de pensar que meus filhos jamais vão conhecer meu avô, que tudo que eles vão saber sobre ele será a partir de memórias minhas e da minha mãe, e essas jamais terão o mesmo significado, porque não fazem parte daquilo que eles viveram. Mas tudo vai continuar ali, na cidade.

Meus avós se casaram na mesma igreja branca com detalhes azuis que fica em frente à praça, ao lado da antiga delegacia e do Hotel de Vivi, que há muito já não hospeda ninguém. Minha avó se casou de preto, porque esse era o único vestido de festa no seu armário, já com quase 30 anos, numa época em que mulheres da idade dela já eram consideradas velhas demais para o casamento. Tudo foi feito às pressas, no dia do aniversário dela; meu avô também já não era nenhum menino e os dois se conheceram de maneira inesperada, quando minha avó ainda não morava em Correntina e estava noiva de outro rapaz. Ela rompeu o noivado para se casar com meu avô e, cinquenta anos depois, os dois celebrariam bodas de ouro naquela mesma igreja – dessa vez, com minha vó usando um belo conjunto nude e dourado. Foi uma noite linda, que se estendeu madrugada adentro, numa imensa festa no hotel, e eu percebi o quanto minha família era importante e amada na cidade. Eu não conhecia aquelas pessoas, muitas delas também não me conheciam, mas todos estavam ali pelo mesmo motivo: celebrar o amor de duas pessoas que eles amavam profundamente. Ao longo da festa, muitas dessas pessoas subiram no palco e homenagearam meus avós – com músicas, poesia, discursos e histórias – e a cada uma delas eu sentia mais e mais orgulho de pertencer a essa família, de ser fruto dessas narrativas.

A última vez que entrei naquela igreja foi em 2009, na missa de corpo presente do meu avô. Tudo aconteceu muito rápido e de repente; nós fomos todos pegos de surpresa. Ele não estava doente, na verdade ele não poderia estar melhor, até que, de repente, não estava mais. Eu nunca chorei tanto em toda a minha vida, ou sofri tanto e quis tanto poder voltar no tempo. Mas foi no meio da tristeza que, mais uma vez, senti orgulho por fazer parte dessa família, por não apenas ter conhecido um homem tão especial quanto o meu avô, mas por tê-lo chamado de avô e ouvido de volta ele me chamar de passarinho. Todas as pessoas que o amavam estavam ali mais uma vez, e elas relembraram histórias, choraram, disseram palavras lindas e nos encheram de… amor. Eu nunca me senti tão triste em toda a minha vida e, ainda assim, poucas vezes me senti tão amada e confortada. Nunca mais entrei naquela igreja – menos por uma decisão consciente, mais porque as oportunidades se tornaram cada vez mais escassas -, mas quando penso em casar no religioso, penso em fazê-lo lá, numa tentativa ambiciosa e meio ridícula de continuar a escrever essa história e ligar o passado a um presente que parece se importar cada vez menos com aqueles que vieram antes dele.

Enterrei meu avô no mesmo lugar em que meus bisavós estão enterrados, e acho que foi naquele momento que me dei conta da quantidade de histórias que moravam ali. Eu podia ou não assumir aquelas histórias como minhas, podia ou não dar continuidade à elas, mas elas continuariam existindo naquele lugar – nas ruas de paralelepípedo, nas casinhas coloridas com piso cimentado, nas ladeiras, tantas ladeiras, no rio que corta a cidade ao meio, nas pessoas, principalmente nas pessoas. São muitas histórias, e ainda que a vida tenha me ensinado que o tempo é capaz de apagar muitas coisas, talvez o esquecimento não seja a regra. Talvez exista uma maneira de preservar esse passado, talvez eu não seja a única preocupada em resgatar e registrar essas lembranças.

Faz muito tempo que não coloco meus pés em Correntina, mas cada vez que estou lá, é como estar novamente em casa. Gosto, especialmente, quando viajo à noite e de ônibus porque sempre chegamos de madrugada, num horário cedo demais para alguém estar acordado, mas tarde o suficiente para ninguém perambular pelas ruas, e é enquanto caminhamos no escuro e em silêncio até a casa da minha avó, que eu sinto a vida que existe ali e, inevitavelmente, me sinto muito viva também. Viva de um jeito idiota. Viva de um jeito que só a ideia de herança e passado e todas essas bobagens que ninguém se importa, mas eu me importo demais, te dá. Então eu penso no meu avô, e penso na minha mãe brincando com filhotes de ratos naquelas ruas, dando os primeiros beijos, indo às primeiras festas. Na minha avó brigando com minha tia avó que esse ano completou cem (!) anos e a cidade inteira comemorou junto com ela. Penso no rato que caiu do telhado em cima da cama quando minha avó estava grávida do seu primeiro filho e meu avô, que disse que aquilo obviamente não ia acontecer, ficou desesperado. Nos quartos que hoje têm vídeo game e computador, mas que um dia tiveram posteres do Roberto Carlos cobrindo as paredes. Na minha mãe correndo apavorada de uma vaca. Do meu avô distribuindo leite, cuidando com carinho do gado, admirando o canto do sabiá. Tudo isso é também uma parte de mim – indireta e distante, mas ainda assim. Eu, que brinquei naquelas ruas, que chorei olhando aquelas estrelas, que corri com galinhas, nadei naquele rio; que vivi coisas realmente horríveis, mas outras incríveis, especiais.

Quando era mais nova, me ressentia por não ter origens mais interessantes, por minha vida começar numa cidadezinha no interior da Bahia, pelo meu sobrenome não ser tão único e diferente. Hoje, no entanto, só posso dizer que estar ali é como estar de volta ao lar – e eu nunca senti tantas saudades desse lar.

THE ROAD SO FAR

Self image 2017

Tenho as sobrancelhas da minha mãe e o nariz do meu pai, mas todo o resto é só meu. Nasci em 1993, mas minha história começa quase um século antes, numa cidade pequenininha no interior da Bahia. Sou obcecada por memórias e raízes, e desde então tenho tentado entender esse passado. Sou filha de pais separados, um clichê ambulante com uma porção de daddy issues. Cresci numa casa – e numa família – onde mulheres sempre foram maioria. Sou leitora em uma família de gente que não lê. A mulher mais alta, mas há algum tempo já não sou a neta mais nova. Alguém que quer viajar o mundo, mas precisa de um lugar para onde voltar.

Ainda tenho dificuldades em encarar meu reflexo no espelho. Ainda quero perder 10kg. Ainda quero ter as pernas finas e o quadril estreito que sei que nunca terei. Ainda tenho a autoestima baixa e choro todas as vezes que a realidade bate como um martelo, mas não tenho mais vontade de ser outra pessoa. Faço careta em quase todas as fotos que tiro numa tentativa de driblar a autocrítica. Estou tentando ser mais gentil comigo mesma. Sou uma pessoa que chora muito, mas que tem chorado cada vez menos. Por outro lado, continuo sentindo demais o tempo inteiro, talvez mais do que nunca. Continuo sonhando alto e sonhando grande, mas hoje já não sinto vergonha da minha ambição. Acredito em Deus, no Universo, no poder de boas energias, no ser humano. Acredito no cinema, na arte, no poder de boas histórias. Acredito que o amor vence a guerra, embora nem mesmo ele seja capaz de vencer todas as batalhas.

Continuo achando difícil acreditar no meu trabalho, mas cada vez me sinto mais segura em relação ao que faço, independente de quanto dinheiro ganho ou deixo de ganhar com isso. Mas ainda preciso que vez ou outra alguém me lembre de valorizá-lo. Escrevo há muito tempo, mas só esse ano passei a me reconhecer como escritora. Faço filmes, mas ainda acho difícil me reconhecer como cineasta. Ainda me importo demais com a validação externa. Tenho um site sobre cultura pop que nasceu da minha cabeça, e embora só tenha tomado forma com a união de outras tantas pessoas, não deixo de me encantar com a possibilidade de sonhos e projetos abstratos se transformarem em realidade. Não tenho mais medo de falar com professores ou pessoas mais velhas que eu, mas ainda preciso aprender me impor quando necessário. Continuo sendo overachiever, mas já entendi que é preciso traçar uma linha entre aquilo que eu realmente preciso fazer e aquilo que eu só quero demais.

Tenho mais amigos do que imaginei que fosse ter um dia e todos eles são preciosos, lindos, as melhores pessoas do mundo. Ganhei lembranças, fotos, risadas, registros, conexões, laços. Ganhei vários tetos diferentes em todos os cantos possíveis desse país. Construí histórias lindas, mas descobri que não é preciso ter alguém ao seu lado por uma vida inteira para torná-la especial. Há quase dez anos descobri o amor, que continua firme e forte como nunca, e foi com ele que aprendi que nem só de sorrisos e declarações é feita uma história de amor, mas que os pequenos gestos cotidianos são mais significativos do que todas as palavras do mundo. Descobri que a paixão é fundamental e continuo me apaixonando todos os dias, mas é o amor que tem cheiro de lar.

Eu tenho 24 anos. Não terminei a faculdade. Gosto de jaquetas de couro, calça jeans e camiseta GG. Tenho depressão e ansiedade, mas não acredito que essas coisas me definam. Faço terapia há quase um ano e é a melhor coisa do mundo. Gosto de dançar, mas tenho vergonha de fazê-lo em público, então danço sozinha no meu quarto. Ainda falo muito baixo, sou muito tímida e meio antissocial, mas aos poucos tenho tentado sair da minha concha. Me disseram uma vez que escolhi o jeito mais traumático de fazer isso e eu ri de nervoso, mas se não fosse assim, talvez eu já tivesse mudado de ideia. Sou pisciana. Feminista. Contraditória demais para o meu próprio bem. Tento ser uma pessoa melhor a cada dia, mas já parei de pedir desculpas por ser quem eu sou. Meu filme favorito continua sendo A Noviça Rebelde. Gasto tempo demais com obsessões irrelevantes. Ainda tenho morro de tirar sangue. Algumas coisas realmente não mudam.

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A menina mais bonita da faculdade

Existem pessoas e pessoas no mundo – eu, certamente, sou uma pessoa de camiseta e calça jeans. Quem disse isso fui eu mesma, em uma conversa com algumas colegas da faculdade, alguns semestre atrás. Recentemente, lembrei dessa conversa, enquanto conversava com a Michas sobre nossa necessidade cada vez menor de investir em peças mirabolantes de roupas e gastar nosso dinheiro naquilo que realmente usamos e que tem a nossa cara. A princípio, esse não foi um movimento consciente, mas algo que surgiu com o tempo, e depois de tentar ser Blair Waldorf com tanta força – quando vestidos infinitos e tiaras e sapatos de salto foram minha realidade -, voltar para minha calça jeans, minhas camisetas e minhas jaquetas de couro e botinhas de todos os dias parece estranhamente reconfortante.

Na conversa, eu e a Michas chegamos à conclusão de que muito disso acontece porque, inevitavelmente, a gente cresce, aprende do que realmente gosta e paramos de tentar ser alguma coisa além de nós mesmos. Não que eu não goste de usar coisas diferentes, pelo contrário: meu armário é uma salada de referências, mas ainda existe uma linha que liga todas elas ao todo, porque a essa altura já conheço meu estilo e meus gostos o suficiente para saber a diferença entre o que acho bonito e aquilo que realmente cabe no meu dia-a-dia e conversa com o resto do meu guarda-roupa. Hoje, quando olho pro meu guarda-roupa, consigo me enxergar inteira ali, e é com um orgulho meio besta que digo isso; foi um longo processo até chegar aqui, que vem acontecendo desde 2009, quando comecei a me interessar de verdade por moda, e foram anos de compras, doações, erros e acertos até que eu finalmente tivesse um acervo inteiro que gritasse meu nome.

Nada disso, no entanto, me impede de admirar outras pessoas e seus estilos tão peculiares de longe, num exercício quase antropológico de observação. Na faculdade, especialmente, isso acontece com demasiada frequência, porque as pessoas são muito estilosas e levam esse negócio de se vestir muito a sério. A gente percebe quando alguém acordou atrasado e pegou a primeira roupa que viu na frente; ou então quando se esforçou um pouco mais, quando tem algum compromisso depois da aula, quando começa a trabalhar, fora todas as camisetas que dizem mais do que muitas palavras vão ser capazes de expressar. São coisas bestas, é claro, mas que são facilmente percebidas quando você passa algumas semanas analisando a roupa de alguém, o que é interessante de um jeito meio tosco, mas ainda bastante honesto. O bom de ser uma pessoa que observa antes de qualquer outra coisa é justamente perceber essas nuances, o suficiente para alimentar uma admiração inusitada que cresce a cada novo lukinho inspirador, o que às vezes me faz, literalmente, ter uma queda por pessoas que nem conheço, me apaixonar e desejar ser amiga delas de um jeito bem bobo e retardado.

Foi mais ou menos assim que conheci a menina mais bonita da faculdade, ou melhor dizendo, comecei a prestar atenção nela. Era o primeiro semestre de 2016 (não confirmo nem nego que abri meu histórico para conferir a data, risos) e uma das disciplinas que peguei naquele período – que agora parece tão distante – era estética. Era um horário duplo de quase quatro horas, com um intervalo de vinte minutos no meio, nas manhãs de segunda-feira, um dia que, por si só, evoca preguiça e má vontade na hora de se vestir. A maioria das pessoas se vestia de um jeito meio preguiçoso, com variações de moletons e jeans, que era mais ou menos o que eu costumava – e costumo até hoje – usar também. A menina mais bonita da faculdade não. Diferente de todos nós, meros estudantes e nossas roupas que mais pareciam pijamas, ela sempre parecia ter saído diretamente de um mangá com garotas estilosas ou de alguma série como Gossip Girl, onde todas as pessoas se vestem incrivelmente bem, mas nem sempre de um jeito óbvio de quem segue tendências à risca. Suas composições sempre mesclavam peças muito comuns com outras que pareceriam estranhas em qualquer outra pessoa; mas não nela, que era estilosa o suficiente para segurar cada uma com louvor. Laços imensos e vermelhos ganhavam espaço em meio ao jeans e camiseta de todos os dias, tiaras de gatinho eram combinadas com vestidos e meias coloridas, enquanto botinhas e saias midi davam as mãos e rodopiavam de um jeito inesperado e incrivelmente certos, quase como se tivessem nascido para viver ao lado um do outro para sempre. Tenho certeza que se fosse eu usando uma combinação daquelas, qualquer uma delas, o fracasso seria certo, mas isso não me impedia de todas as manhãs de segunda-feira – e às terças, quando pegávamos história do cinema juntas; e depois cinema brasileiro, todas as sextas no semestre seguinte – admirar aquela pessoa e suas roupas sempre tão bonitas e curiosamente despretensiosas, quase como se fosse a coisa mais óbvia do mundo amarrar o cabelo com um laço vermelho gigantesco. Como não pensei nisso antes?

Logo descobri que não era a única que admirava o estilo pouco convencional – para o padrão já pouco convencional das pessoas de humanas – da menina mais bonita da faculdade: conversando com a Nayara, minha parceira de ideias cabeludas e entusiasta de crushes esquisitos, descobri que ela também a observava de longe e admirava seu estilo, e queria ser amiga dela, e queria ser como ela. Longe de ser uma pessoa de camiseta e calça jeans (ao menos, não o tempo inteiro) ou de moletom, mas alguém cujo estilo me inspira profundamente, ela também estava encantada pela beleza daquela garota, pelas suas roupas bonitas demais e tão fora da nossa curva de gente de humanas. Ela realmente parecia ter saído das páginas de um mangá ou de uma série cheia de jovens ricos e estilosos, e era incrível poder assisti-la acontecer na nossa frente. Somos tão idiotas que chegamos ao ponto de realmente soltar gritinhos de admiração todas as manhãs de um jeito bem retardado. Pegamos outras matérias juntas e quase sempre era um repeteco do dia anterior: nós literalmente soltávamos gritinhos de empolgação a cada novo lukinho e confidenciávamos o quanto era incrível que, naquele antro de gente maluca e descolada, era incrível que ainda existissem pessoas capazes de se vestirem de um jeito tão original e lindo de morrer.

Dividi todas essas impressões com a Yuu, minha guru de estilo e de todas as outras coisas importantes da vida, e foi maravilhoso ter alguém que, mesmo à distância, entendia essa obsessão idiota por roupas bonitas e estilos tão diferentes do meu, ainda que na prática eu não fosse efetivamente usar nada daquilo. A Yuu é uma pessoa que também tem um estilo muito diferente do meu, mas é incrível como a gente se entende e muitas vezes gosta das mesmas coisas, muito embora as usemos de formas completamente distintas. Mesmo sem ver, ela também se encantou pela menina mais bonita da faculdade e dividiu aquele momento comigo sem nem pensar duas vezes. Eventualmente, ela me perguntou se eu não tinha uma foto ou o link de uma rede social que pudesse dar um rosto à pessoa e ilustrar melhor os lukinhos que ela só conhecia de tanto me ouvir falar. Como pessoas da internet que somos, parecia meio óbvio que pessoas bonitas e descoladas ostentassem redes sociais à altura, mas a verdade é que isso nem sempre acontece, não é? Porque as pessoas nem sempre estão interessadas em manter um feed bonito ou dirigir artisticamente suas vidas e só mostrar aquilo que é impecavelmente bonito e agradável, como num filme do Wes Anderson. Eu sou essa pessoa – de moletom e pijama, mas bear with me – e a maioria das pessoas que conheço também são; mas essa é só a bolha que eu vivo, e não necessariamente a mesma que vivem todas as pessoas que cruzam meu caminho.

Não há nada de errado em viver nessa bolha – exceto, talvez, pela limitação meio tosca que a gente se impõe em nome da estética -, em pensar no look do dia já mirando na foto pro instagram, em pensar numa paleta de cores para o próprio feed, etc etc, mas não deixa de ser meio engraçado (de um jeito mais ou menos curioso) que existam pessoas por aí que não dão a mínima pra nada disso, que estão muito bem e felizes vivendo suas vidinhas sem a necessidade de um registro artístico que capte esses momentos de um jeito ou de outro, ainda que de uma forma pouco genuína ou natural; que, na realidade, não poderiam se importar menos. Eu me importo um bocado com esse tipo de coisa, de um jeito que às vezes beira o inconveniente. Minha psicóloga riu alto quando comentei o desgosto que era ver uma menina tão bonita e estilosa desperdiçar sua existência na internet com tantas fotos ruins e mal ajambradas, umas iluminações cagadas e uns filtros toscos que qualquer pessoa em sã consciência preferiria fingir que nunca existiu, mas conversando com ela naquela mesma sessão, cheguei à conclusão que esse outro lado também podia ser bacana e interessante, ainda que não fosse o meu tipo de bacana e interessante. Continuava frustrada por não ter o registro daquelas combinações inusitadas e maravilhosas de roupas, assim como me irrito sempre que vejo uma pessoa linda demais para o seu próprio bem que não mantém um perfil decente nas redes sociais ou então uma celebridade que se preocupa tanto com essa coisa de, hm, internet, que nem sequer se dá ao trabalho de abrir uma conta no instagram (Eva Green, estou olhando pra você). Mas será que isso realmente importa?

As pessoas viveram anos, séculos, se vestindo muito bem e sendo muito maravilhosas sem a menor preocupação em manter um registro disso, e por mais que esses registros existam, quase nunca se trata de mostrar para outras pessoas o que se está usando, mas guardar para si aquilo que importa: o momento; e os sorrisos, e as lágrimas, e as coisas bonitas demais para serem colocadas em palavras. Sem saber, a menina mais bonita da faculdade me ensinou que a gente deve se vestir primeiro pra si e só depois pros outros – se é que devemos mesmo nos vestir pros outros – e que muito melhor do que manter registros das nossas roupas propositalmente descoladas é lembrar dos momentos em que elas foram usadas. O vestido comprado especialmente para ver sua amiga casar. A blusa que você estava usando quando beijou seu namorado pela primeira vez. O tênis que voltou para casa todo sujo depois do show da sua banda favorita. Ainda sou a pessoa que se importa demais com fotos bonitas, que registra os próprios lukinhos na frente do espelho (e gosta disso), e que apaga sem dó uma foto que não combina com o resto do feed; mas cada vez menos tenho me importado no que mostrar para os outros e sim naquilo que aquelas fotos – aqueles registros – significam pra mim.

Hoje, a menina mais bonita da faculdade já não é mais uma mera desconhecida que admiro à distância: não somos exatamente amigas, mas já não somos distantes também e até dividimos alguns trabalhos juntas e conversas banais, o que é mais do que posso dizer de muita gente que estuda comigo. No final do semestre passado, dei um abraço apertado nela quando, depois da minha apresentação, ela disse que votaria no meu filme e pediu para ser diretora de arte nele, caso fosse o vencedor. O filme não ganhou, mas a confiança dela no meu roteiro foi uma das coisas mais preciosas que podia receber naquele momento e significou muito, muito mesmo – daí o abraço. A essa altura, já sei que ela também tem seus dias de moletom e calça jeans, que nasceu no Japão e é um ano mais velha do que eu, e que não é exatamente a pessoa mais fofa do mundo como seu visual e sua voz doce às vezes entrega, mas pra mim ela ainda é a menina mais bonita da faculdade, e vai continuar sendo até o dia que vestirmos uma beca para pegar nossos diplomas, e ela inevitavelmente se destacar no meio de todo mundo, mesmo usando uma roupa bizarra e cafona. Mal posso esperar.

 

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Abraçando o overshare

Vira e mexe alguém me pergunta se não é incômodo ou meio esquisito esse negócio de compartilhar a vida na internet. Sempre fico sem saber o que responder, especialmente porque, na maioria das vezes, quem pergunta não está realmente interessado numa resposta, mas em dar sua opinião. Eu jamais aguentaria expor minha vida desse jeito, é o que eles normalmente dizem, enquanto eu sorrio e aceno de um jeito mais ou menos simpático. Escrever sobre a própria vida e permitir que outras pessoas tenham acesso é, como qualquer outra coisa na vida, bom e ruim. Na maior parte do tempo, o bom pesa muito mais, e é por isso que continuo fazendo isso – ainda que o ruim também exista. É esquisito e às vezes incômodo, mas é incrível pra caramba na maior parte do tempo.

Na semana passada, conversando sobre isso com Guilherme, descobri que ele também acha meio desconfortável esse negócio de namorar alguém que não apenas escreve, mas que expõe, em alguma medida, a própria vida na internet, e eu entendo, da mesma forma que ele me entende e respeita de volta; que é o que importa, no final das contas. Muita gente diz que minha escrita é, ao mesmo tempo, muito pessoal e muito sentimental, e eu concordo. Ainda existem barreiras, é claro, mas elas são muito tênues e são muito mais uma orientação do que, necessariamente, um muro intransponível. Me expor um pouco além da conta é o preço. Tenho certeza que, depois de descobrir e ficar horrorizado com a existência do Gato Curioso (Deus tenha misericórdia da alma inocente do meu homem) (me sigam), ele certamente teria um ataque com a ideia de um post que não serve pra nada – absolutamente nada – além de expor fatos aleatórios sobre a minha pessoa e minha vidinha sem graça, mas ainda bem que a Pessoa Que Escreve™ nessa relação ainda sou eu, risos.

1. Embora não me importe com o fato de ter cabelos brancos, me incomoda profundamente a necessidade que as pessoas têm de me lembrar que eles estão ali. Eu já sei, disso. Eu me olho no espelho todo santo dia, pelo menos duas vezes ao dia. Eu realmente não preciso que ninguém me lembre da existência deles o tempo inteiro.

2. Quando era mais nova, as pessoas costumavam dizer que eu era parecidíssima com meu pai. Hoje, elas costumam me achar mais parecida com minha mãe.

3. Pijama é um dos meus presentes favoritos da vida, ainda que eu dificilmente vá usá-los. A verdade é que, em casa prefiro dormir com camisetas imensas e meio velhas, quase sempre roubadas do guarda-roupa de Guilherme, e um shortinho xexelento de mil anos atrás já até ganhou pernas e passeia sozinho pela casa, como minha mãe costuma dizer. Pijamas só são usados quando durmo fora de casa ou quando viajo com pessoas que não estão acostumadas com meus trajes pouco convencionais.

4. Entre as coisas que mais odeio sobre a megalomania da Marvel, a principal é a nova abertura dos filmes, que sintetiza muito bem o conceito de: farofa. Kevin Feige claramente perdeu completamente a noção do ridícula e agora só nos resta sentir saudade das páginas passando que eram suficientes para fazer nossos corações sofredores baterem mais forte.

5. Já dormir falando no telefone, risos.

6. Um dos incisivos (?) centrais (???) precisou de ajuda para nascer. A verdade é que meus dentes são relativamente grandes e, quando os dentes de leite começaram a cair, o incisivo – qual é realmente uma questão – decidiu que não daria conta de nascer sozinho. Foi preciso que minha mãe me levasse ao dentista para resolver a situação, mas hoje todos os envolvidos passam bem e, embora meus dentes estejam longe de serem perfeitos (dois anos de aparelho pra nada, etc etc), eu gosto bastante de todos eles.

7. Adoro conversar sozinha na frente do espelho e dar entrevistas na hora do banho ou quando estou dirigindo sozinha. A maioria dessas conversas são feitas em inglês, risos.

8. Foi só no ano passado que comecei a tomar café de verdade, num misto de desespero para me manter acordada e vontade. Hoje não consigo viver sem, ao ponto de sentir falta quando fico muito tempo sem beber um cafézinho sequer. Além disso, uma das minhas horas favoritas do dia é, justamente, quando paro para tomar café – seja de manhã, após o almoço ou no final da tarde.

9. Passei a maior parte da minha vida morando em apartamento, o que significa que toda a minha infância foi vivida embaixo do prédio e boa parte das minhas primeiras amizades e memórias foram construídas ali. Uma das minhas brincadeiras preferias nessa época era tocar campainhas aleatórias e sair correndo depois. Em uma dessas vezes, no entanto, eu toquei a campainha e, em algum momento entre tocar e sair correndo, acabei fazendo xixi no corredor. Não foi a primeira vez que fiz xixi na roupa e fora de casa, porque achei mais fácil prender do que correr de volta pra casa ou pedir para ir ao banheiro. Aos seis anos, na escola, fiz xixi no meio da aula e me molhei inteira na frente de todos os meus colegas porque fiquei com vergonha de pedir para a professora para usar o banheiro. Lembro como se fosse ontem de ser levada pra casa mais cedo pela minha mãe, que teve que sair correndo para me buscar e trocar minha roupa, e da minha professora dizendo que eu não precisava ter vergonha, que era só pedir da próxima vez e tudo bem. Curiosamente, tive bem menos vergonha de estar mijada do que de pedir permissão – o que diz muito sobre a pessoa que eu sou até hoje -, e mesmo que meus colegas nunca tenham esquecido essa história, nunca me incomodei quando ela era desenterrada – pelo contrário.

10. A primeira vez que fui ao cinema sozinha foi no mês passado, numa cabine para imprensa do novo filme do Selton Mello. Foi uma experiência realmente incrível – eu e a tela, completamente sozinhos, embora existissem outras pessoas na sala – e o tempo todo me perguntei por que diabos não tinha feito aquilo antes; uma pergunta pra qual eu sei exatamente a resposta, mas que não vem ao caso agora.

11. Minha primeira grande festa de aniversário aconteceu quando eu fui fazer três anos. O tema foi Branca de Neve e Os Sete Anões e eu me vesti de Branca de Neve, com direito a diadema e vestido de baile, e dancei a noite inteira, literalmente. Aos quatro e aos cinco anos eu me vesti de Cinderela e Bela, respectivamente. A partir daí minha mãe cansou, o dinheiro acabou, e minhas festas de aniversário deixaram de ter temas definidos.

12. Sinto cheio de sangue com MUITA facilidade – o que normalmente me faz parecer muito esquisita aos olhos da maioria das pessoas. Nada como dizer “mas que cheiro de sangue é esse?” para as pessoas começarem a te olhar torto e trocarem de calçada, risos.

13. Ainda sobre cheiros, álcool e água sanitária são dois que me incomodam profundamente; me lembram hospitais e, consequentemente, todas as injeções que já tomei nessa vida.

14. Um dos meus sonhos megalomaníacos é dirigir um filme de super-herói. Sempre me sinto meio idiota quando falo isso porque as pessoas normalmente encaram como um sonho distante e impossível, mas ainda que seja, de fato, distante e semi-impossível, a dificuldade não me faz abrir mão de… sonhar. No mais, sonho em conseguir ganhar dinheiro suficiente para me sustentar produzindo/dirigindo filmes independentes e de orçamento mais modesto, escrever um livro, ter um filho, e fazer um mestrado (e, posteriormente, um doutorado).

15. Nunca trabalhei em set de longa-metragem. Todos os filmes que fiz até hoje foram curtas e quase sempre fiquei em funções como direção de arte, fotografia ou assistente de direção.

16. Se em Hogwarts estivesse, eu veria testrálios; cavalos alados de corpo esquelético que são invisíveis para a maioria das pessoas. Não é preciso que eu diga o que vê-los significa: quem é fã ou simplesmente assistiu aos filmes certamente sabe o que separa as pessoas que veem essas criaturas das que não os veem ou simplesmente supõe que as carruagens que levam os alunos de Hogwarts até o castelo são puxadas por… nada.

17. Downton Abbey foi a única série que consegui assistir do início ao fim mais de uma vez. Além dela, também recomecei Penny Dreadful e Call The Midwife, mas não cheguei a terminar nenhuma. Friends, Supernatural e Gilmore Girls são outras duas séries que já assisti episódios repetidos, mas só no modo aleatório.

18. Antes de ter um blog pessoal e dividir um site sobre cultura pop com minhas amigas, já tive outros dois blogs de moda e dividi um blog – também de moda – com uma outra amiga. Hoje não me importo com moda tanto quanto antigamente, mas ainda é um assunto que me interessa em algum nível, especialmente enquanto forma de expressão e identidade, e como elemento capaz de contar histórias inteiras por conta própria.

19. Quando era criança, pensei algumas vezes em me tornar freira, quase sempre inspirada pelas novelas mexicanas ou pelos filmes água com açúcar que eu assistia na época. Nessas histórias, as freiras sempre eram mocinhas lindas e adoráveis, que se apaixonavam por homens lindos e igualmente adoráveis, que se apaixonavam por elas de volta, mas não podiam viver esse amor por motivos óbvios. A ideia de viver um amor proibido sempre me pareceu muito atraente e até hoje essas são histórias que me fascinam, ainda que na prática eu não deseje de modo algum viver algo parecido.

20. Não costumo assistir muitos filmes de terror com frequência – em partes, porque me impressiono muito fácil e odeio sentir medo -, mas tenho um interesse muito particular pelo terror enquanto gênero e pela mitologia por trás dessas histórias. É um interesse muito particular e meio esquisito, porque me aproxima e repele ao mesmo tempo, mas bastante real.

21. Minha personagem favorita de Orgulho e Preconceito é Jane Bennet; em partes, porque me identifico muito com ela, mas principalmente por ser um exemplo de como não é preciso que uma personagem feminina tenha uma língua ferina ou chutar bundas – metafórica ou literalmente falando – para ser considerada incrível. Jane é doce, delicada e carinhosa, uma mulher que enfrenta os problemas que surgem em seu caminho com muita calma, mas ainda com a cabeça erguida, mesmo que esteja profundamente machucada, e que sempre busca ver o melhor nas pessoas – muito mais do que muita gente consegue fazer. Elizabeth é uma mulher igualmente incrível, ao seu próprio modo, e muitas vezes fiquei chateada quando meus testes para saber quem eu seria num romance de Jane Austen sempre davam a Jane Bennet, Jane Bennet, Jane Bennet. Hoje, no entanto, sei que se numa história escrita por Jane Austen eu vivesse, Jane Bennet seria com muito orgulho e amor.

22. Ultimamente, tenho tido o sonho dourado de fazer um a dois filmes por ano e me sustentar com o dinheiro deles, vivendo em uma casinha no meio do mato, com piso de taco, um monte de livros e lareiras para esquentar. Também queria ter uma criação de bichos, uma horta e me alimentar das coisas que a natureza… dá. Parece meio idiota quando a gente fala assim – e talvez até seja -, mas diferente de quando eu era mais nova e sonhava em viver na Cidade Grande, cada vez mais esse ritmo insano e essa obsessão pelo consumo tem me deixado esgotada, e eu não quero, de modo algum, viver essa vida. Ao mesmo tempo, não quero criar meus filhos dentro dessa bolha em que o celular que você tem é mais importante do que a pessoa que você é. Deus me livre viver sem internet, ou Netflix, ou meus filmes, minhas séries, minha câmera e um vídeo game, mas tudo nessa vida tem limite e eu realmente gostaria de ensinar pros meus filhos o que realmente importa, antes de soltar meus passarinhos para voarem por aí. (Contei essas coisas pra minha mãe e ela me olhou com horror, certa de que sua filha, seu bebê, estava fumando alguma coisa nas horas vagas, risos.)

23. Eu sou uma pessoa bastante contraditória, que acredita em várias coisas ao mesmo tempo, e que muda de opinião com certa facilidade. Não é algo que me incomode particularmente, mas às vezes tenho medo de que isso me faça parecer fraca. Ou influenciável. Ou sem personalidade, falsa e mentirosa.

24. Meu primeiro show sem a presença de um adulto responsável foi do Nx Zero, em 2007. O show foi organizado por alguns amigos da minha prima – que na época tinha 22 anos, mas estava longe de ser responsável – e me deixou livre, leve e solta para curtir o show com meus amigos na época. Eu estava doente, com a garganta inflamada e febre, mas foi um dia memorável, que eu curti como se fosse estar morta no dia seguinte. Ironicamente, foi mais ou menos isso que aconteceu e na segunda-feira, lá estava eu no hospital, com a bunda dolorida depois de tomar injeção. Bons tempos, risos.

25. Sempre gostei muito de história, mas tenho estado particularmente obcecada por ela desde que passei a consumir mais produções de épocas mais recentes – mas nem tão recentes assim – e adquirir a consciência de que muitos dos fatos históricos apresentados na tela foram vividos, de algum modo, por pessoas que fazem parte da minha história pessoal. Adoro assistir Downton Abbey e pensar que a série se passa mais ou menos na época em que meu avô nasceu, e termina dois anos antes do nascimento da minha vó; ou Call The Midwife, em que a última temporada foi ambientada mais ou menos no ano do nascimento da minha mãe. Ao mesmo tempo, gosto de pensar que minha história começou ali, com aquelas pessoas, e que se não fossem elas, não seria eu, e acho bonito como a vida simplesmente acontece e vai se desenrolando, como um novelo, construindo histórias e mais histórias em diferentes épocas e contextos. Desculpa ser tão brega.

 

PESSOAL

You jump, i jump

“It’ll be fun, it’ll be a thrill. Something stupid, something bad for you. Just something different.”

Já disse isso uma ou duas vezes por aqui, mas uma coisa que minha mãe – e meu namorado, e minhas amigas, e aparentemente todas as pessoas do mundo – repete desde que me entendo por gente é que eu preciso aprender a dizer “não” com mais frequência. Na maioria das vezes, ela diz isso depois de um longo suspiro, enquanto me observa arrancar os cabelos e correr desesperada pela casa, chorando por algum prazo ou trabalho não cumprido que pareceu uma ótima ideia, mas que até aquele momento era só uma fonte inesgotável de desgosto e frustração, como quem já não aguenta mais repetir as mesmas coisas em vão, mas continua assim mesmo pois: mãe. Ela conhece a filha que tem bem demais e tem total consciência de que essa é uma cena que vai se repetir até o fim dos tempos; dizer “não”, afinal de contas, nunca foi mesmo o meu forte.

Mas o que pouca gente sabe – e minha mãe sabe melhor do que ninguém – é que, no meio de todo o desgosto e frustração do mundo, existe algo que me preenche e me completa de um jeito totalmente equivocado. Eu gosto disso. Longe de ser uma pessoa corajosa (embora minha psicóloga sempre diga o contrário), projetos, ciladas e ideias malucas demais para serem levadas a sério são o que me mantém em movimento e fazem com que minha vidinha efêmera e sem graça tenha um pouquinho mais de sentido. Por mais esgotada que eu esteja, mesmo com todas as lágrimas e a vontade constante de arrancar os cabelos e amaldiçoar todos os projetos que aceitei e todas as ideias que topei fazer acontecer porque pareciam a coisa mais legal do mundo até que não era mais, eu gosto de participar e me meter em todas as merdas possíveis, especialmente quando elas dão certo ou rendem uma boa história para contar no final. Muitas das coisas mais legais que já vivi nessa vida só aconteceram porque eu disse “sim” e me dei de presente a chance de vivê-las, e é bom que seja assim – e continue sempre sendo assim; não porque é sempre bom, mas porque ainda é melhor desse jeito.

Talvez por isso, faça todo o sentido do mundo que 2017 tenha sido o ano em que elevei esse negócio de dizer “sim” aos extremos; menos por medo de magoar os outros, mais por uma vontade intrínseca de arriscar – o que exige uma confiança extrema nas Forças do Universo™ e na minha própria capacidade de fazer as coisas darem certo. Sempre que converso sobre isso com a Yuu, chegamos à conclusão que isso é, de alguma forma, um reflexo da ansiedade e da depressão, numa espécie de euforia que antecipa a queda; mas também uma consequência do momento que estou vivendo, que é sim, um prato cheio para novas experiências. Não sou uma pessoa corajosa – pelo menos, não de um jeito óbvio -, muito menos destemida, mas talvez o segredo sobre fazer as coisas acontecerem não seja sair por aí sem medo algum, mas caminhar apesar do medo. Ao mesmo tempo, li em algum lugar que, depois de todas as coisas horríveis que aconteceram nos dois últimos anos, 2017 finalmente seria o ano em que trabalharíamos duro e faríamos coisas importantes acontecerem. Não sei até que ponto vocês acreditam nesse tipo de coisa, mas como alguém que crê fortemente que a culpa quase sempre é das estrelas, todas essas coisas têm se provado incrivelmente reais.

Às vezes é incômodo pra caralho, porque significa dar passos imensos e fazer várias coisas ao mesmo tempo, ainda que todas elas sejam assustadoras, e continuar seguindo em frente assim mesmo, mas, mais uma vez, é no meio dessa loucura que eu encontro algum conforto e significado. Estou de férias desde o dia sete de julho e acho que a coisa que mais repeti nesse meio tempo foi que minhas férias tinham sido uma mentira e eu não tinha parado um minuto sequer, o que não deixa de ser verdade. Desde que me vi livre dos trabalhos da faculdade, minha sensação é a de que continuo sempre tendo um texto para escrever, um e-mail para responder, um formulário para preencher, uma consulta ou evento inadiável para ir; mas entre todos os compromissos, todas as noites em claro na frente do computador, as crises de choro no banheiro e a vontade constante de passar dias só olhando pro teto, dançando sozinha no meu quarto, assistindo episódios de Downton Abbey em looping como se nada mais importasse na vida e lendo todos os livros do mundo, também existe a satisfação de saber que todo o esforço, dedicação e tempo aparentemente perdido estão alimentando sonhos e ambições maiores até do que eu mesma. Já disse mais de uma vez que preciso me apaixonar por qualquer coisa que eu faça, e minha maior sorte é que, no momento, todas as coisas que tenho feito e que têm ocupado meu tempo me fascinam e enchem de orgulho de um jeito que parece bobo – e talvez até seja -, mas que ainda é justamente o que me faz colocar um pé na frente do outro dia após dia.

As pessoas percebem o quanto esses projetos, ambições e sonhos – que podem ou não ter começado como algo meu, mas que a essa altura já se tornaram tão meus quanto de quem as idealizou – têm um significado imenso só de me ouvirem falar sobre elas; algo tão incrível, único e especial que às vezes preciso parar e me perguntar se realmente está acontecendo ou se simplesmente não vou acordar em algum momento e descobrir que tudo não passava de um sonho meio maluco. Sempre existe essa possibilidade, mas acho que dificilmente seria o caso.

Naturalmente, muitas dessas coisas envolvem enfrentar medos imensos e confrontar fantasmas que ficariam no meu armário por muitos anos, não fosse a necessidade imediata de tirá-los de lá. Recentemente, ouvi de uma pessoa que nem me conhece muito bem, que eu tinha escolhido um jeito bastante traumático de sair da minha concha, e foi engraçado ouvir isso dessa forma, como uma verdade que não precisava de um pano de fundo complicado para se tornar real. Ele não precisava saber de toda a minha história para reconhecer o tamanho dos desafios que tenho pela frente; eis aí uma verdade incontestável. No entanto, ao invés de correr para o banheiro e chorar na frente do espelho, só para perguntar para o meu reflexo onde diabos eu estava com a cabeça quando aceitei todas aquelas propostas e querer jogar tudo pro alto, isso só me fez ter ainda mais certeza do que eu quero. Uma das minhas cenas favoritas de Gilmore Girls é justamente quando a Rory topa pular de mãos dadas com o Logan, segurando um guarda-chuva e usando um lindo vestido de princesa, daquela enorme estrutura que não sei como chama, mas vocês sabem exatamente qual é. Ela só estava ali para escrever uma matéria, mas então o Logan diz pra ela que as pessoas podem viver cem anos sem terem vivido por um minuto sequer, e de repente, não mais que de repente, os dois estão lá em cima, apavorados e de mãos dadas. Minha sensação, em todos esses desafios, é exatamente a de estar em cima dessa imensa estrutura, esperando para pular – e a euforia da Rory pós-salto é exatamente como eu me sinto quando as coisas finalmente acontecem.

Apavorada é como tenho me sentido desde que decidi participar do BEDA, mesmo já tendo tanto pra fazer (site? newsletter? filmes? vida pessoal? HÁ!), mesmo com tanto para me preocupar. No sábado, passei quase duas horas no telefone com dona Yuriko Yogi, e quando ela me perguntou se eu iria participar e eu respondi que sim, é óbvio, nós rimos horrores – eu, de nervoso; ela, provavelmente porque sabe a amiga maluca que tem. Lógico. Quais as chances disso não acontecer? Que eu sou completamente maluca não é nenhuma novidade, mas talvez seja a hora de abraçar de vez meu lado overachiever e pular de uma vez nesse barco. As chances de que dê tudo muito, muito errado são imensas, mas já tenho alguns posts programados e um calendário mais ou menos organizado para me orientar – que não vai servir pra absolutamente nada quando a coisa ficar feia, mas essa é outra história. No entanto, como dizem por aí, o que importa não é realmente o destino, mas a jornada, e essa talvez seja a oportunidade perfeita para provar que a máxima nunca foi tão real.

Quem vamos?

>> Como sou maluca, mas raramente estou sozinha, não esqueçam de acompanhar meus amores Manu, Tati, Michas e Mia que estão de mãos dadas nessa cilada comigo e também participarão do famigerado BEDA. Partiu, é nóis. <3