VIDA DE FANGIRL

UM PEQUENO REGISTRO DE SONHOS

Há coisas nessa vida que podemos tomar como certas – uma delas é que piscianos sonham demais. Quando digo que piscianos sonham demais, estou dizendo isso de forma literal e também metafórica; nós sonhamos o tempo inteiro, de um jeito que desconhece limites e sem qualquer compromisso com a realidade (pois lógico), mas que muitas vezes se parece tanto com ela que difícil é aceitar que aquilo jamais aconteceu. Me parece o tipo de coisa com chances altíssimas de se tornar problemática, principalmente porque sonhos são perfeitos de um jeito que a realidade jamais vai ser, e é muito fácil se deixar levar por esse infinito de possibilidades. Um dos meus filmes favoritas conta, não por acaso, a história de um casal – na verdade é a história do cara, mas o relacionamento entre os dois é o ponto central da coisa toda – que tem seu casamento e a vida que conhecia destruído por… sonhos. No filme, Don é um ladrão que invade os sonhos das pessoas para roubar segredos ou implantar ideias, em um universo onde muita gente literalmente pagava pra sonhar. A história é complexa pra caramba, com direito a um milhão de dimensões de sonhos e sonhos e mais sonhos, mas a grande questão paralela da vida de Don é que aquele mesmo trabalho tirou a vida de sua mulher, e ele se culpa, não sem alguma razão, por tê-la jogado naquele mundo, ao ponto dela já não ser mais capaz de distinguir fantasia e realidade.

Gosto de como o Nolan (se não ele, quem?) constrói esse universo de um jeito meio cínico, que não enxerga sonhos como algo necessariamente bom ou ruim, mas um híbrido entre as duas coisas. A gente passa muito tempo dizendo que sonhos são importantes, preciosos, que a gente precisa sonhar acima de qualquer coisa, e eu acredito muito nisso na maior parte do tempo. Mas e se não? E se eles também forem perigosos pra caralho? Eu, por exemplo, acredito muito em todas essas coisas – sobre a importância dos sonhos, etc etc – e ainda assim tive momentos de me entregar ao mundo que era criado na minha cabeça, ao ponto de literalmente querer fechar os olhos e dormir o tempo inteiro porque tudo na minha mente parecia tão melhor. É assustador, mas ainda é um ponto que a gente deixa passar quando romantiza a coisa toda; ninguém te diz que isso existe de verdade, ninguém diz como nossa mente é perigosa até que ela saia de controle. O que não significa que sonhos não sejam importantes – apenas que existe mais sobre eles do que normalmente nos dispomos a ver. Nossa mente não produz nada por acaso, eis aí um fato, e é bacana prestar atenção naquilo que ela diz; às vezes pode ser simplesmente que você tem uma crush pelo Harry Styles, mas também pode comunicar coisas mais importantes, como medos que a gente tem e nem sempre entende, ou qualquer coisa assim. Não entendo tanto de sonhos quanto gostaria, mas tenho uma memória muito boa e um apego especial por alguns deles, de modo que o post de hoje nada mais é do que um registro daquilo que se passa na minha cabeça quando estou dormindo.

1) SONHO 01: Rolando na grama com Sam Winchester
É uma verdade universalmente conhecida que a melhor forma de confirmar uma crush é… sonhando com ela. Não tem erro: você acha a pessoa bonita, tem uma quedinha por ela, mas então, e só então, sonha com ela e aquilo que antes era uma atração meio besta se transforma na crush do milênio – ou da semana. Dizem que nosso cérebro não é capaz de criar rostos, de modo que as pessoas com as quais sonhamos possuem características já conhecidas, que podem passar despercebidos para nós, mas não pra nossa mente. Eu sonho bastante com celebridades, o que significa que muito tempo da minha vida é gasto olhando foto dessas pessoas; é parte do meu trabalho e também da diversão. Meu sonho com o Sam Winchester foi assim: a descoberta de uma crush que eu nem sabia que existia. Jared Padalecki é lindo. Jared Padalecki é tão lindo que meu estômago dá cambalhotas só de pensar naquele homem enorme e maravilhoso. Mas Sam Winchester sempre foi aquela pessoa cuja minha admiração e atenção estavam muito mais voltadas para o fato de parecer uma pessoa muito gente boa do que, necessariamente, para o fato de ser lindo de morrer. Até, claro, o dia que sonhei com ele. No sonho, a versão do Sam ainda era a mesma das primeiras temporadas de Supernatural, o jovem de vinte e poucos anos com cabelo bonito e sorriso encantador, que queria ir para uma boa faculdade e viver uma vida normal. Era uma versão que eu odiava, sobretudo por ser tão distante da família, por negar o family business e querer ter uma vida diferente. O que é um desejo muito genuíno, é claro, mas que me parecia idiota pra alguém que vinha de uma família tão maneira apesar de todos os pesares. Então o sonho mudou tudo. Nele, eu e Sam estávamos deitados em um gramado imenso, longe de tudo e todos, e ele sorria pra mim e me olhava de um jeito que imagino que seja a mesma forma como o Jared olha pra Gwen. Eu me senti profundamente amada, de um jeito lindo e meio idiota, e tentava devolver esse mesmo amor em forma de sorrisos sinceros e olhares apaixonados. E só. Não teve confusão, não teve romance proibido, não teve demônio querendo estragar tudo; só nós dois num gramado nos amando demais.

2) SONHO 02: Casando com Dean Winchester
Eu me apaixonei pelo Dean, nas palavras de Hazel Grace, do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora pra outra. E, ainda assim, foi só depois de anos, literalmente anos, que sonhei com ele pela primeira vez. No sonho, eu chegava na porta de uma igreja abandonada, vestindo moletom, jeans e um tênis, o cabelo preso meio de qualquer jeito, e quando finalmente entrava na igreja, o Dean estava lá, me esperando, com seu combo de camiseta/camisa/parka e o sorriso mais lindo do mundo estampado no rosto. “Você estava me esperando?”, eu me perguntava enquanto um sorriso começava a surgir no meu rosto; e ele respondia de volta, apenas com o olhar, como quem diz “sim, sim, sim”. Então o tempo pareceu suspenso, e mesmo que na minha cabeça uma voz repetisse que aquilo não poderia ser verdade, que aquilo jamais aconteceria sob qualquer circunstância, eu não me importei. Eu não me importei e fiquei ali, pelo o que pareceu um pequeno infinito, sorrindo feito idiota, quase sem conseguir me conter de tanta felicidade. O sonho acabou antes mesmo que eu tivesse a chance de walk down the aisle e ter uma aliança colocada no meu dedo, mas naquele pequeno espaço de tempo, eu acreditei estar vivendo aquela cena, e foi eterno enquanto durou – um eterno precioso e pequenino, que guardei com carinho no meu coração, quase como se a vida toda tivesse esperado por esse momento; e esperei de fato.

3) SONHO 03: Fugindo de alguma coisa com o Jared Leto
Um dos meus maiores medos nessa vida é ser perseguida – pelo menos, é isso que meus sonhos dizem. Desde pequena, tenho pesadelos horrorosos com pessoas estranhas que me perseguem, e quando tento gritar por socorro, minha voz jamais sai; ou então com situação mais dramáticas em que literalmente alguém quer me matar e eu preciso tentar sobreviver. Já perdi as contas de quantas vezes sonhei que Lord Voldermort queria me pegar ou que fugia de regimes totalitários que queriam me ver morta e enterrada. Às vezes, dou a sorte de encontrar nesses cenários pessoas que me ajudam ou simplesmente decidem percorrer essa jornada macabra junto comigo, exatamente o que o Jared Leto fez. Sem saber como ou por quê, ele estava ao meu lado, me ajudando enquanto fugíamos, os dois, de algo que a essa altura já não me lembro mais (um bruxo das trevas? um ditador maluco? um assassino de aluguel? são questões). O medo era um sentimento real e constante, e nós fugíamos, pulávamos telhados, nos escondíamos em lugares improváveis e escuros, numa aventura com hora certa para acabar. Como num filme B, eventualmente nós acabávamos nos apaixonando, e foi lindo e intenso enquanto durou, mas como todo sonho, chegou ao fim – tal qual minha crush, que foi perdendo força à medida que eu descobria que o Jared da vida real não era um cara tão bacana assim.

4) SONHO 04: Filha do David Bowie
Uma das maiores falhas da minha formação musical foi nunca ter tido um contato mais profundo com a vida & obra de David Bowie. Em uma família que sempre me apresentou artistas de décadas passadas e me incentivou a curtir essas coisas, independente do que fosse dito fora de casa, é irônico que Bowie nunca tenha aparecido de forma significativa nessa construção de gostos que me acompanham até hoje. Estou cercada de pessoas completamente obcecadas pela obra do artista e pelo seu trabalho em diferentes âmbitos; o fato de nunca ter me aproximado dele não fazia sentido algum. Quando faleceu, eu vi meus amigos e pessoas próximas lamentarem, e eu lamentei também; um sentimento totalmente gratuito que fazia com que eu me sentisse uma mentira perto dos verdadeiros fãs de David Bowie. À época, lembro de ver uma foto lindíssima dele com a Iman e a filha dos dois, o que me fez lamentar profundamente. Não era só o mundo que perdia um grande artista, não eram só os meus amigos que perdiam um ídolo; um pai, um esposo, um amigo também eram perdidos ao mesmo tempo. Na mesma semana, eu tive um sonho muito bonito em que o Bowie era meu pai, e ele era um pai tão, tão legal e amoroso que foi difícil acordar e, de repente, ter a realidade jogada na minha cara: eu não apenas não era filha do David Bowie como ele nem sequer estava vivo. O sonho, entretanto, fez com que minha admiração gratuita por ele crescesse; se ele foi ou não o pai amoroso e dedicado com o qual eu sonhei, é uma coisa que jamais vou saber, mas no fundo, não consigo imaginá-lo de forma diferente.

5) SONHO 05: Stalker do Tiago Iorc
A essa altura, chega a ser meio idiota pensar que um dia eu não apenas sonhei com o Tiago Iorc, como fiz o papel ridículo de stalker, que não parava de seguir o cara por um minuto sequer, quando a única coisa que consigo pensar quando olho aquele belo rosto é que ele deveria voltar a ser um artista menos conhecido e longe da péssima influência da Tatá Werneck, mas divago. No sonho, Tiago era um rapaz muito, muito legal mesmo, mas cujo interesse não estava na minha pessoa – pelo menos, não o tempo inteiro. Nossa relação era um pouco confusa, porque ao mesmo tempo que me lembro de persegui-lo de um jeito que às vezes fazia com que eu me sentisse num papel realmente ridículo, em outros momentos nós éramos apenas colegas de trabalho ou conhecidos, que conversavam de forma amigável quando estavam no mesmo ambiente – a única diferença é que eu não queria ser apenas uma colega de trabalho ou mera conhecida, enquanto ele parecia se satisfazer plenamente nessa perspectiva. Lembro de vê-lo se interessar por outra garota cujo rosto não lembro qual é, e eu me sentir trocada e injustiçada por passar tanto tempo sendo legal quando ser legal não me deu nada em troca; então o sonho acabou e eu voltei a viver feliz minha vida em que o amor é um lugar infinitamente mais seguro e gentil.

6) SONHO 06: Show do Harry Styles
Eu, Anna Vitória, Analu Bussular, Paloma Engelke e Michas Borges invadindo o camarim do Harry Styles e fingindo ser da produção do show, observando tudo meio de longe, com o coração batendo com força e nos enturmando com pessoas que nem imaginavam quem a gente era de verdade. Ainda lembro como foi a primeira vez que vi o Harry de pertinho, só o batente da porta separando nós dois enquanto ele dava uma entrevista, e ele me viu ali e sorriu, do jeito lindo como só ele sorriria, e eu sorri de volta meio sem graça, voltando aos meus afazeres logo em seguida. Por algum motivo que não me lembro mais, acabei perdendo o show, mas foi um sonho delicioso e memorável, e eu gosto como na versão da minha cabeça o Harry é sempre uma pessoa doce e absolutamente adorável, algo que, no fundo, acredito que ele seja de verdade.

7) SONHO 07: Visita do Jensen Ackles e do Jared Padalecki
Um dos meus maiores medos (medo, na realidade, é um jeito meio exagerado de colocar a situação, mas bear with me) é receber a notícia sobre o fim oficial de Supernatural. São anos, literalmente anos, sendo assombrada por esse possibilidade, que ganha cada vez mais força à medida que o tempo passa: já são dez anos de história, afinal, e eventualmente esse ciclo também terá que ser fechado. A cada temporada que passa, no entanto, me sinto menos preparada para o momento em que isso vai acontecer, algo que só piorou quando a coisa toda pareceu ganhar contornos mais sérios, e as conversas sobre um possível fim, de fato, começaram a se tornar uma realidade. A visita de Jensen e Jared, ainda que só em sonho, serviu pra acalmar meu coraçãozinho e dizer que tudo bem, tudo chega a um fim, mas isso não é necessariamente ruim. Nele, os dois vinham ao Brasil para uma despedida e passavam na minha casa para passar alguns dias comigo e a Thay – alguém que também os ama profundamente, mas lida com o fim infinitamente melhor do que eu. Dessa vez, não havia qualquer traço de romance, mas sim uma amizade bonita e sincera entre nós quatro, e eu me senti profundamente amada durante todo o tempo. Foi um sonho longo em comparação aos outros, onde muitas conversas foram jogadas fora e nós passamos horas explorando lugares, jogando jogos de tabuleiro, trocando abraços, confidências e dando risadas até o dia que eles inevitavelmente tiveram que ir embora. Foi triste, mas não só triste, e embora fosse muito difícil dizer adeus, eu me sentia incrivelmente em paz por deixá-los ir em busca de novas aventuras. De certa forma, foi como fazer as pazes com algo que eventualmente vai acontecer, e vai ser difícil e triste demais, mas muito especial também, e hoje já consigo ser grata por ter tido a oportunidade de amar a série e seus personagens e sofrer pelo fim iminente porque isso só significa que foi bom demais enquanto durou.

8) SONHO 08: Descendo por um corredor/escorregador com infinitas portas
De todos, esse talvez seja o sonho mais antigo e também o mais memorável, ainda que até hoje eu não faça a menor ideia do que ele significa. Como diria a Madonna, não tinha começo, muito menos um fim; de repente, eu estava escorregando por um imenso corredor, que mais parecia a pista do arco-íris do Mario Kart, e de um lado e do outro haviam infinitas portas que eu sequer podia tentar entrar, já que escorregava rápido demais para conseguir segurar na maçaneta de qualquer uma delas. Então eu fiquei ali, escorregando ad infinitum, ao lado de criaturas esquisitas, porém inofensivas, sem nunca chegar a lugar algum. Até hoje não sei como esse sonho terminou, muito menos se cheguei em algum lugar de tanto escorregar, ou, ainda, que diabos significa escorregar entre um milhão de portas, mas fica o registro.

9) SONHO 09: Harry Styles, o cara mais legal do mundo
Eu não lembro como, muito menos quando comecei a me interessar pelo Harry e ter uma crush assumida por ele, mas sei exatamente por quê isso aconteceu: o Harry é um cara legal. Ou finge muito bem ser, de modo que é impossível não se apaixonar. Existe algo realmente especial naqueles olhos, naquelas tatuagens horrorosas e principalmente naquele sorriso que poucos caras com os quais sonhei um dia, tem. O Harry me dá a impressão de ser uma pessoa muito gente boa de verdade e com a cabeça no lugar, do tipo que eu adoraria ser amiga, colega, o pinguim da geladeira. Seu álbum (ainda vou falar sobre ele, prometo) reforçou essa impressão, que já vinha desde a época do One Direction, e hoje só posso sentir muito pelos meus sentidos terem me enganado tão fortemente ao ponto de eleger o Zayn como meu favorito. Mas essa é outra história. Nesse sonho especificamente, eu e o Harry nos amávamos demais, de um jeito muito sincero e poético, como eu imagino que amar o Harry seja também. Desde o lançamento do seu álbum, tenho imaginado histórias para as canções ali contidas – algo que faço com frequência, mas que me dediquei a fazer especialmente nesse caso – e acho que, de certa forma, sonhar com ele foi a concretização dessas histórias meio idiotas que só existiam na minha cabeça e onde eu podia me permitir ser a protagonista ou qualquer coisa assim. Gosto de lembrar que, mesmo sendo um ano mais novo do que eu, ele agia como um cara realmente maduro, gente boa e especial, como ele era apaixonado – não só por mim, mas pela vida – e como por alguns minutos, a fantasia pode se tornar realidade.

10) SONHO 10: Jared Padalecki no aeroporto
Percebo agora que, ainda que o Jared não seja exatamente uma crush na minha vida, ele aparece com demasiada frequência nos meus sonhos – o que significa, muito provavelmente, que passo tempo demais com ele na minha cabeça, risos. Nesse caso, mais uma vez, nós não éramos amantes, mas duas pessoas que se conheceram de forma casual no aeroporto e decidiram passar o tempo que esperavam jogando conversa fora. No sonho, eu estava com a Thay, voltando de uma viagem aos Estados Unidos, e nós esbarramos com ele no aeroporto, enquanto esperávamos o nosso voo. Como sempre, Jared foi uma pessoal totalmente adorável, nos convidou para tomar um café – que acabou se transformando numa conversa de horas e horas e horas – e ainda esperou que eu fizesse compras numa farmácia, indecisa demais com todas as opções disponíveis. Nós conversamos sobre a Gwen, conversamos sobre seus filhos, seus trabalhos, e sempre que eu falava alguma bobagem, ele ria alto, como se fosse a coisa mais engraçada que ele havia ouvido em anos. Eu não sou uma pessoa engraçada, eu sequer me acho uma pessoa interessante, mas junto com o Jared eu quase acreditava que não só era essas duas coisas, como era com bastante força. Mais uma vez, o sonho acabou de repente e sem grandes explicações, me deixando com aquela sensação maravilhosa de que, ao menos por alguns instantes, eu quase fui melhor amiga de Jared Padalecki himself.

COM AMOR

8. YOUR FAVORITE INTERNET FRIEND

Inspirado nesse desafio incrível aqui.

Querida Y.

A primeira vez que escrevi pra você foi em abril, logo após meu retorno de São Paulo. Eu tinha pisado na cidade pela primeira vez e, naqueles dias, nós tínhamos feito planos, muitos planos, mas não concretizamos nenhum; ainda que precisássemos desesperadamente uma da outra. Não é preciso te lembrar de nenhuma dessas coisas: cada uma delas está registradas na carta que te enviei naquela época, e você sabe, como eu sei, porque as viveu também. Mas o que eu nunca disse é que temi muito pelo futuro; o nosso futuro. Temi que a culpa que insistíamos em tomar pra nós se tornasse um obstáculo no nosso caminho, que a gente construísse muros alto demais, numa tentativa de evitar a mágoa e a frustração, e que eventualmente esses muros se tornassem intransponíveis. Eu lembro de me sentir profundamente culpada, e lembro de você se sentir também, não porque existia uma culpa real, mas porque somos humanas e insistimos em encontrá-la em algum lugar. Não havia como culpar uma à outra, então culpamos nós mesmas. Então, quando minha caixa chegou até você, eu soube que ficaria tudo bem. De um jeito bobo, mas muito honesto, eu me senti conectada com você, como se o fato de você estar segurando aquela caixa, aquela carta, aquele presente que um dia estava aqui comigo e de repente estava aí com você, mudasse absolutamente tudo. E mudava.

Eu gosto dessa história porque acho que ela sintetiza perfeitamente um medo que, pra mim, sempre foi muito real: o de que, eventualmente, eu estragaria tudo. Não é como se nunca tivesse acontecido, como se eu nunca tivesse sido corroída pela culpa de estragar algo que parecia tão perfeito, bonito e especial; naquele momento, parecia uma questão de tempo até que acontecesse de novo. Até que você apareceu e, do jeito mais doce possível, me mostrou que as coisas podiam ser diferentes. Uma das coisas que mais me surpreendem até hoje é a forma e a velocidade com que nos aproximamos, porque parecia improvável que, depois de tanta coisa, eu pudesse me doar novamente de uma forma tão honesta e vulnerável para outra pessoa, que eu pudesse confiar em uma amizade que não me deixaria de lado assim que meu lado mais feio e sujo viesse à tona, mas as barreiras que construí ao meu redor e que me protegiam do mundo jamais pareceram funcionar com você; o que é, ao mesmo tempo, muito doido e especial. Acho que nunca cheguei a te dizer isso, bichinha, mas em nossas primeiras conversas, era assustador ver nossas mensagens ficarem tão grandes e, de repente, assuntos banais do nosso dia-a-dia se transformarem em imensos textos sobre a vida, o universo e tudo mais. Não se engane, eu sempre gostei de falar sobre a vida, o universo e tudo mais – sou pisciana, afinal, nós gostamos desse tipo de coisa -, mas eu jamais conseguira ser tão profunda e expor coisas tão complexas sobre a minha personalidade e minha vida para alguém que eu conhecia há tão pouco tempo. Numa via de mão dupla, também me surpreendia o fato de você retribuir na mesma intensidade, e falar sobre a sua vida de forma tão aberta para uma pessoa que, até pouco tempo atrás, não estava ali. Sempre brincamos com isso, mas hoje, me parece impossível imaginar uma vida sem as nossas longas conversas que jamais têm fim, sem sua presença constante na minha vida.

As pessoas percebem que há algo de especial entre a gente, que há uma conexão profunda e única, porque o modo como falo de você é diferente, assim como nossa amizade é diferente de qualquer outro relacionamento que eu já tenha tido. Tenho a sorte de ter muitas amigas, e todas elas são minhas melhores amigas, sem qualquer traço de cinismo ou ironia, mas quando coloco em perspectiva, sempre me parece que estamos em uma página diferente do resto do mundo, quase como se existisse algo realmente complexo e único acontecendo aqui, e não há explicação alguma pra isso além de que algumas coisas parecem predestinadas a ser – mas não deixa de ser curioso que, em tantas oportunidades para acontecer, nossa amizade tenha se construído justamente no momento em que mais precisávamos uma da outra; o que me faz acreditar menos no acaso e mais em uma força divina que faz as coisas acontecerem como devem, ainda que de um jeito meio torto, como nunca nos cansamos de dizer. Às vezes, tenho a sensação de que somos nós contra um mundo inteiro de coisas horríveis e monstros e fantasmas e dragões. Talvez seja isso mesmo, mas me parece muito mais possível olhar esse mundo de frente e encará-lo quando tenho você segurando minha mão. É mágico – e eu sou retardada o suficiente para acreditar que algumas coisas só podem ser superadas com um pouquinho de mágica; o que nós temos de sobra aqui.

Muito se fala sobre almas gêmeas de um jeito romântico, mas nunca me disseram que era possível encontrar esse tipo de conforto e completude em uma… amizade. Me sinto sortuda o suficiente por ter encontrado minha outra metade, que não fosse a internet, talvez estivesse perdida até hoje nesse mundo tão grande, mas olha só que coisa maravilhosa vivermos no tempo em que vivemos. Em você, baby girl, eu encontrei alguém capaz de desenhar um mundo junto comigo, um mundo em que a gente precisa de muito pouco para ser feliz, onde a gente passa horas flutuando no mar, com a barriga pra cima, os dedos pra fora da água, as mãos dadas e os olhos fechados por causa do sol; um lugar perfeito que não precisa ser físico – embora, eu espere que um dia seja -, mas que ainda vai existir no único lugar que importa: dentro da gente. Gosto que tanto eu quanto você somos de signos de água e que o mar seja o nosso lar, porque por mais diferente que sejamos – e você sabe que nós somos -, nossa essência continua a mesma. São muito sentimentos, tantos que às vezes não somos sequer capazes de lidar com eles, mas então passamos duas horas no telefone com a outra e, de repente, o mundo parece um lugar melhor; mais seguro, confortável. Um lugar onde podemos rolar com o Logan ou enfiar referências de Call The Midwife em conversas aleatórias, onde somos Jenny e Trixie, Eve e Cassie, e ninguém pode nos dizer que não.

Existe uma infinidade de coisas que eu gostaria de dizer nessa carta – algumas, eu sequer poderia -, mas falar sobre elas me parece muito pequeno quando vivemos e fizemos tanto, como crescemos nesse período e como, pouco a pouco, temos nos tornado mais fortes. Um ano parece pouco tempo, e talvez seja de fato, mas cada vez mais tenho entendido que tempo é algo muito relativo – e o nosso é apenas nosso. Você é como um passarinho que voa comigo, o barquinho que jamais deixa meu coraçãozinho se afogar, a luz que me faz enxergar o melhor em mim e que me inspira todos os dias a ser uma pessoa melhor. Obrigada por dividir sua história comigo e permitir que, nessa vida tão efêmera, pudéssemos dividir uma jornada tão bonita e especial. Que nesse mar de incertezas em que navegamos, as dúvidas sejam sempre infinitas, e que sempre encontremos na outra um lugar para chamar de lar.

Com todo o amor do mundo,

Ana Lee

BOOKWORM

TIGRES À BEIRA MAR

Comecei a ler Tigres Em Dia Vermelho ainda no aeroporto, enquanto esperava um voo para o Rio de Janeiro. Sozinha embaixo do ar-condicionado gelado do aeroporto de Brasília e sem qualquer previsão de quando finalmente embarcaria rumo a um fim de semana de praia, sol e vinho rosê ao lado do meu amorzinho, Paloma Engelke, permiti que a história de Liza Klaussmann me engolisse inteira; uma história que, ironicamente, também se passa em um cenário idílico de sol e praia, onde o vinho era substituído por infinitas doses de gim. Logo no primeiro capítulo, Helena e Nick, as protagonistas, rodopiam sob o céu escuro de uma noite de verão, bebem gim em copos de geleia e celebram o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de anos de incertezas, o futuro finalmente se tornara uma realidade palpável, e não mais uma promessa distante, instável e pouco razoável. Nick e Helena fazem planos, riem em voz alta e dançam, dançam, dançam, como se nada fosse mais importante – e não era -, mas também choram a distância, lamentam separar-se uma da outra.

Em uma história onde a relação mais importante e complexa é desenvolvida por e entre duas mulheres, não é uma surpresa que o que acontece ou deixa de acontecer com Nick ou Helena tenham um peso tão grande para a outra; antes de se casarem, formarem a própria família e se tornarem mulheres independentes, Nick e Helena são primas e, sobretudo, amigas, e desde a infância dividem uma história complexa em que são, ao mesmo tempo, confidentes e ruína uma da outra. Nick é a mulher de traços sisudos, de personalidade hipnotizante, expansiva, por quem todos se apaixonam, embora ninguém saiba exatamente o motivo. Helena é o contrário. Ela é doce e introvertida, bonita com seus cachos cor de areia e a pela macia, mas mais suscetível à submissão. Helena é o clichê da mulher comum e banal das décadas de 40, 50 e 60, exatamente o que Nick jamais desejou ser, mas que, ao seu próprio modo, também o é. A história constrói essas mulheres de modo que elas sejam capazes de levantar questões e trazer à tona sentimentos muito específicos da existência feminina. Não é uma história universal, não há como ser. Às vezes, temos acesso ao ponto de vista de outros personagens, e esses personagens às vezes são homens, mas ainda é uma história essencialmente feminina, que trata de dramas e conflitos que conversam muito de perto, de forma direta ou indireta, com a experiência de ser mulher numa sociedade ocidental; um fato que, por si só, já muda absolutamente tudo. Nick e Helena são mulheres, logo possuem experiências e sentimentos que muitas vezes também nos dizem respeito – o que nem sempre é bom, mas que alívio descobrir que não estamos sozinhas nesse mundo.

Em 1945, a maior preocupação de Nick era voltar a viver com o marido – Hughes, que estava na guerra – e não viver mais em um mundo controlado por cartões de racionamento. Helena, por sua vez, tinha planos de ir para Hollywood casar-se com Avery Lewis – um produtor cinematográfico picareta que vendia seguros e adorava contar vantagem – após seu primeiro marido ser morto em combate. Ter alguém para chamar de “meu” parecia ser a única ambição daquelas mulheres, que se satisfaziam com a ideia de casamento, filhos e a vida de dona de casa, mas não é uma surpresa que, pouco tempo depois, ambas estejam frustradas com seus maridos, filhos e uma com a outra, mas principalmente consigo mesmas. O futuro que lhes fora prometido, afinal, não era tão bonito assim na prática. Tanto Helena quanto Nick projetam nos outros e em si mesmas expectativas irreais, é por isso que elas se decepcionam. Assim, quando Nick se entrega à romances extraconjugais que não significam nada, absolutamente nada, ela não está dizendo que não ama seu marido; ela só está em busca de uma fuga de um casamento que parece perfeito na teoria, mas não na prática. Quando Helena bebe, bebe, bebe sem parar, quando toma uma porção de remédios, quando foge da própria realidade, ela está fazendo exatamente a mesma coisa – a fuga de uma mulher torturada por um mundo de homens. São mulheres machucadas demais, complexas demais, e o grande trunfo da história é a construção dessas personagens não como pessoas limpinhas demais, boazinhas demais, mas seres humanos que vivem coisas desagradáveis o tempo inteiro e são complicadas, muito complicadas. São mulheres irritantes, dramáticas, mesquinhas, invejosas, falhas; todas características muito humanas, mas que ainda são ignoradas quando falamos sobre a experiência feminina, porque é muito mais simples lidar com uma mulher que no máximo vai derrubar o café na blusa ou deixar um monte de coisas caírem na frente do cara gato do trabalho. Ser mulher é complicado pra cacete.

Tenho pensado bastante sobre essa coisa de ser mulher e como, por muito tempo, vivi em uma bolha em que era preciso fingir o tempo todo ser uma pessoa quando, na realidade, eu era outra – às vezes radicalmente diferente. Como eu neguei tantos sentimentos na tentativa de me adequar e como hoje parece quase impossível lidar com esse turbilhão, porque ninguém me ensinou o que isso significava ou o que eu devia fazer quando essas coisas acontecessem. Ao longo da vida, tive muito mais contato com a produção artística de mulheres – exceto, muito provavelmente, pelo cinema -, ao contrário de muitas amigas, que primeiro conheceram e consumiram o cânone cultural construído e moldado por homens, dentro de um contexto em que nos dizem que o masculino é universal, uma experiência que me deu a noção de que mulheres poderiam ocupar quaisquer espaços e estar em literalmente qualquer lugar. Contudo, ainda que eu me identificasse com essas mulheres e entendesse muito do que elas estavam dizendo, na prática, eu ainda me limitava; eu jamais poderia ser como elas – ao menos, não de uma forma tão aberta e vulnerável.

Quando constrói duas personagens (três, se também considerarmos Daisy, a filha de Nick) tão ambíguas, Klaussmann está dizendo que esses sentimentos são possíveis, que eles existem; não somos as garotas boazinhas e unidimensionais que um dia nos disseram que deveríamos ser. É um convite a pensar nos papéis que estamos desempenhando, sobre quem somos e qual, afinal de contas, é nosso lugar no mundo, mas sobretudo sobre nos reconhecermos como pessoas que às vezes são boas, às vezes são más, mas jamais são uma coisa só – um reconhecimento brutal, mas também libertador. No título, os tigres são uma referência a Tiger House, a casa de veraneio localizada na ilha de Martha’s Vineyard onde a maior parte da trama e do drama se desenvolvem; mas gosto especialmente como, de maneira menos óbvia, ele também faz referência a suas personagens, que amam, desejam, brigam de forma furiosa, como tigres. E sentem, sentem, sentem o tempo todo. Existem várias coisas acontecendo, inclusive um assassinato, mas a resolução dele se torna bem menos importante quando há tanto a ser dito sobre essas mulheres, seus sentimentos e as relações que estabelecem entre si; um lugar em que inveja, ressentimento, amor, cuidado e carinho coexistem como iguais.

Algum tempo atrás, me vi em uma situação bastante delicada, que envolvia sentimentos com os quais eu não estava acostumada a lidar, que não sabia nomear. “Então isso é inveja?”, eu me perguntei um milhão de vezes enquanto tentava entender o que estava acontecendo comigo, qual era a natureza daquele sentimento, como eu podia ficar tão feliz por uma pessoa e ao mesmo tempo tão frustrada, sem conseguir deixar de pensar “por que não eu? por que não comigo?”. Eu me senti suja, mesquinha e egoísta como poucas vezes na vida, mas quando conversei com outras mulheres sobre isso, ninguém me fez sentir mal ou culpada, ninguém disse que eu era a pior pessoa do mundo. Todas elas fizeram com que eu me sentisse acolhida e amada, sem jamais invalidar meus sentimentos. Porque elas entendiam. Porque muitas delas já haviam pisado nesse lugar antes. Foi uma experiência surpreendente, mas triste também, porque me lembrou que o mesmo mundo que nos cria para sermos criaturas delicadas, sensíveis e, de preferência, invisíveis, é o mesmo que nos ensina a utilizar o sucesso de outra mulher como prova do nosso fracasso. A grama do vizinho é sempre mais verde, mas ela é especialmente verde quando falamos da grama de outra mulher. É algo que tentamos quebrar todos os dias, e eu sei disso porque vejo mulheres todos os dias tentando romper com esse padrão, mulheres que tentam subverter a regra, mudar tudo, começar de novo. Mas ainda são as mesmas mulheres que choram na frente do espelho porque não são quem deveriam ser, porque queriam trocar de lugar com outra pessoa, porque se perguntam o tempo inteiro “por que não eu? por que não eu?”, que se ressentem por aquilo que todas as outras são. Eu sou uma dessas mulheres – e é irônico, contraditório e difícil, mas jamais dissemos que não seria.

Liza Klaussmann parte da experiência de mulheres das décadas de 40, 50 e 60, um período em que, depois de serem incentivadas a saírem de suas casas e desempenharem funções antes reservadas exclusivamente aos homens (porque não haviam homens para fazê-las, eles estavam na guerra, pelo amor de deus), elas são novamente convidadas a se retirarem e voltarem aos afazeres domésticos, ao marido, ao lar, aos filhos, a coisa toda. É um contexto diferente do nosso, é claro, embora ainda exista um abismo quando pensamos na realidade de homens e mulheres no mercado de trabalho, mas ainda que a História nos separe dessas mulheres, existe o universal de feminilidade que nos unem à elas. Um universal que está longe de ser bonito e que jamais é preto e branco. Ao mesmo tempo, existe algo de ordinário ali, confortável porque já é muito conhecido. Nick e Helena são mulheres extraordinárias em sua própria banalidade. Elas sofrem muito, o tempo inteiro, mas seu sofrimento jamais ganha contornos mirabolantes. A complexidade dessas mulheres jamais é posta à prova, mas seus conflitos não são originados a partir de histórias cabeludas; tudo se encaixa perfeitamente no nosso universal de feminilidade. O ressentimento, a inveja, o casamento fracassado, o abandono, o abuso, a raiva. Existe muita raiva ali, em todos os lugares. Em determinado momento do livro, Helena, em um fluxo de consciência terrivelmente íntimo e visceral, confessa que odeia Nick; mas num reconhecimento de sua própria ambiguidade, também diz que sente falta da prima, porque ela é uma pessoa encantadora, divertida e insuportável, características ambíguas que coexistem numa só pessoa e que, em contrapartida, gera sentimentos contraditórios, difíceis de lidar. Tudo isso em um cenário tão, tão bonito que parece óbvio que aquelas pessoas sejam felizes, lindas, mas elas são apenas humanas, atormentadas por uma porção de fantasmas. Existem os romances de verão, mas eles jamais são perfeitos, simples; existem as festas, mas elas são apenas uma forma mais ambiciosa de encenação. É tudo extremamente banal e, ainda assim, é em meio ao banal que coisas extraordinárias acontecem.

Ainda falamos muito pouco sobre mulheres banais, sobre o valor que essas histórias têm. Sobre como é importante se reconhecer em algo além do extraordinário, ou de, pelo contrário, reconhecer o extraordinário dentro das nossas vidinhas comuns. Essas histórias têm ganhado muita força nos últimos tempo, e é revolucionário que isso esteja acontecendo, mas se me perguntassem, ainda acho que existe muito espaço para ser ocupado. Que ainda existem muitas histórias esperando para serem trazidas à tona, muitas mulheres com as quais podemos nos identificar. Já conhecemos homens comuns demais. Um dos pontos negativos do livro que muita gente apontou é o fato do assassinato ser resolvido de um jeito meio morno e o final perder força por causa da revelação que parece óbvia a partir de determinado ponto. E eu concordo, mas ainda acho que existe mais sobre essa história, e que esse mais é menos sobre quem matou quem, e mais sobre os dramas vividos por Nick, Helena e, em alguma medida, também Daisy; que é o que existe de mais poderoso no livro e o que me faz gostar tanto, tanto dele, ao ponto de sempre olhá-lo com carinho e sonhar com o dia que terei tempo de retornar à Tiger House, apesar dos pesares. Ainda há um caminho imenso pela frente, mas me permito admirar quem ao menos tenta contar essas histórias e dizer em voz alta que estamos longe de sermos perfeitas – graças a Deus.

 

MEMES

GUILTY READER

Eu sei que ninguém mais aguenta me ver respondendo meme. Eu não aguento mais responder memes, ainda que seja a coisa mais divertida do mundo, e eu entendo que seja chato, quase insuportável me ver responder mais um. Peguei realmente pesado na última semana, não com um ou dois, mas três memes de uma vez. Eram tempos desesperados, que pediam medidas desesperadas, mas prometo maneirar da próxima vez. Não desistam de mim, não ainda. Hoje também foi um dia difícil, cansativo, mais pra lá do que pra cá; mas amanhã vai ser melhor, tenhamos fé. Assim, aproveitarei o cansaço e a falta de assunto para falar sobre culpas que nutro enquanto leitora. O meme é um oferecimento do canal Read Like Wild Fire, e a Michas gentilmente traduziu para nosso bom e velho português.

1. Já presenteou alguém com algum livro que você ganhou de presente?
Mais ou menos. Uma vez, ganhei num amigo secreto o mesmo livro que já tinha comprado algumas semanas antes. Sem poder trocar e sem saber o que fazer com dois livros iguais, decidi dar um pra Juliana. O livro era Fangirl, da Rainbow Rowell, e eu o entreguei no dia do aniversário dela. Mas ela sabia o motivo de estar lhe dando aquele livro e o presente real oficial foi outro: uma plaquinha amarela, de madeira, onde lia-se “friends”. Em outras palavras, o livro foi um presente, mas um presente aleatório, e não como o de uma data especial ou algo assim.   

2. Já disse que leu algum livro quando, na verdade, não leu?
E quem não? Por mais que sempre tenha gostado bastante de ler, nunca me interessei por literatura clássica brasileira, por exemplo, de modo que passei reto por todos eles no ensino médio e só recentemente quis correr atrás do prejuízo. Até hoje não li Dom Casmurro, o que pode parecer um absurdo pra muita gente, mas não necessariamente pra mim, embora eu morra de vergonha de dizê-lo em voz alta. É uma discussão longa e que não pretendo iniciar aqui, mas o modo como os livros são introduzidos nas escolas faz, sim, com que a literatura – especialmente a clássica – se transforme no horror dos nossos tempos, e foi exatamente por isso que passei batido por histórias que hoje, quando leio as sinopses, me parecem absolutamente incríveis. Na época, entretanto, eu preferia mentir para os meus professores e continuar lendo meus livros ao invés de ser honesta e dizer que não, não tinha lido, porque nada daquilo me parecia interessante.  

3. Já pegou algum livro emprestado e não devolveu?
Já. Sei que isso é péssimo, mas em minha defesa, os poucos livros que ficaram comigo e que não me pertenciam são livros que ficaram por viradas da vida e sumiços espontâneos dos donos – que, por sua vez, sumia com livros meus. Talvez por isso, hoje eu tenha absoluto pavor de emprestar meus livros, e pelo mesmo motivo não pego livros emprestados, nem mesmo em bibliotecas; prefiro baixar, no caso do livros que não faço tanta questão de ter, ou simplesmente esperar ter dinheiro para comprar aquelas que, acredito, farão diferença ao serem lidos no material físico. 

4. Já leu alguma série fora de ordem?
Não. Inclusive, pavor absoluto, me perdoe.

5. Já deu spoiler de algum livro para alguém?
Gente, kkk. Eu sou a pessoa que menos se importa com spoilers no mundo (ou, pelo menos, no mundo que é a minha bolha), de modo que eu não só já dei spoiler de livros pras pessoas, como eu o faço o tempo todo, e às vezes imploro pra fazê-lo, só pra ter alguém com quem discutir o assunto. Isso serve, também e principalmente, para séries, porque é triste demais acompanhar algo sozinho, especialmente uma coisa tão boa que você precisa dividir com o mundo. Entretanto, existem alguns casos que até eu sou obrigada a admitir que um spoiler pode estragar toda a experiência, de modo que seguro minha língua e espero a pessoa ter seu momento.     

6. Já dobrou a página de algum livro para marcar?
Já, mas não é um costume. Realmente só acontece quando, por algum motivo, eu perco meu marcador, então preciso encontrar um jeito de marcar e, na falta de um clipe, flag ou qualquer outra coisa que possa fazer o trabalho pra mim, dobrar é a única solução.

7. Já disse para alguém que você não tem um livro quando, na verdade, tem?
Não?

8. Já disse que nunca leu algum livro quando, na verdade, já leu?
De modo algum; inclusive adoraria conhecer pessoas que já fizeram isso. Qual o motivo? Vergonha? Receio? Embora não seja, naturalmente, público alvo de todas as obras do mundo, acredito que sempre existe o livro certo pra pessoa certa, de modo que, no final das contas, o mais importante não é aquilo que você está lendo, mas o fato de você estar, pra começo de conversa, lendo. O resto é um mero detalhe.    

Já pulou um capítulo ou trechos de algum livro?
Já tive vontade, mas nunca fiz. O sentimento de que algo muito importante vai ficar pra trás é maior do que eu, então o máximo que faço é ler rápido alguma parte que não está me agradando assim e, se pescar algo interessante, leio de novo, com mais atenção. Mas pular, não.  

Já falou mal de algum livro que, na verdade, você gostou?
Não. Felizmente, tenho a sorte de conviver com pessoas que embora leiam muito e leiam o tempo inteiro, tem um profundo respeito pelos meus gostos e jamais me julgariam por ler alguma coisa que elas julgam ruim ou que não tenham gostado tanto assim. E eu faço o mesmo em troca. Aquela história de que existe livros certos para pessoas certas também cabe aqui: nem sempre aquilo que eu gosto vai ser o favorito de todas as pessoas do mundo e tudo bem! Não há nada mais insuportável do que gente que tenta limitar os outros levando em consideração somente aquilo que a gente gosta, de modo que se eu me sentir pressionada a falar mal de algo que gostei ou me sentir pequena por alguém que odeia algo que eu amo profundamente, então o problema não sou eu, muito menos a obra, mas a pessoa; então o melhor talvez seja me afastar ao invés de negar meus gostos em troca de nada.

 

CINEMA E TV

NAS TERRAS DE LORDE GRANTHAM

Comecei a assistir Downton Abbey em meados de junho, sem saber que, em pouco menos de um mês, estaria completamente obcecada pela trama & o drama da família Crawley, bastiões da honra e propriedade de Downton Abbey, e seus empregados. O momento não podia ser mais inapropriado: era fim de semestre, eu estava atolada até o pescoço de trabalho, textos e artigos para escrever, prazos a cumprir, pepinos para resolver, etc etc, mas de repente fui levada para o interior da Inglaterra e de lá não pude mais sair; eu não queria mais sair. Parecia improvável que naquele momento eu pudesse me envolver tanto com uma série, mas foi entre a correria diária e a sensação de estar sempre tão sobrecarregada que descobri novamente o prazer de passar horas na frente da televisão sem tratar a atividade como trabalho ou fazê-lo com culpa, algo que não sentia propriamente desde que terminei a sexta temporada de Call The Midwife, ainda no início do ano. O que eu mais precisava naquele momento era de uma história, qualquer história, que me abraçasse com carinho e me oferecesse uma xícara de chá quentinho e doce, me levando de volta para aquele lugar de prazer e entretenimento genuíno que parecia inacessível há tanto tempo.

Downton Abbey faz exatamente isso, mas existe algo mais sobre aquelas pessoas, sobre aquelas histórias, que não são sempre um conto de fadas, mas ainda nos dão algum conforto. Sempre me sinto meio idiota quando falo que a série salvou minha vida, num momento em que o que eu mais precisava era ser salva, porque parece meio retardado levar as coisas a sério desse jeito, mas é verdade; e quando penso em tudo que estava vivendo naquele momento, nas coisas que estava fazendo e nos fantasmas que inevitavelmente estava enfrentando, nada disso me parece idiota ou retardado. Assisti a série duas vezes e emendei uma terceira – que em breve se transformará numa quarta – e não acho que seja por acaso que em todas elas eu tenha sentido as mesmas coisas, tenha rido e chorado exatamente nas mesmas cenas, e amado com um pouco mais de intensidade os mesmos episódios, me identificado profundamente com os mesmos personagens. Mais de um século me separam daquelas pessoas – e a língua, a cultura, o dinheiro, o título -, mas continuamos sendo apenas humanos, nos identificando uns com os outros mesmo nos cenários mais improváveis. O que mais gosto sobre Downton Abbey é justamente essa capacidade de nos transportar para uma realidade completamente deslocada da nossa própria, mas como dramas muito atuais continuam a fazer sentido numa via de mão dupla – o que às vezes é deprimente, é verdade, mas às vezes é um alívio também.

Não é difícil entender porque tem sido tão difícil superar a série, ao ponto de já ter assistido a mesma história três vezes, certa de que absolutamente nada ia mudar, e mesmo assim não conseguir parar de pensar em todos os seus personagens, e querer falar sobre eles, e escrever sobre eles, e torcer pelo dia em que eles finalmente vão voltar pra mim em um filme com duas horas de duração – o que vai acontecer, embora ninguém saiba exatamente como ou quando. Minhas amigas definitivamente criaram um monstro, e eu já passei tempo demais pedindo desculpas nessa vida para me desculpar agora por ser um monstro tão bonzinho e empolgado. Tem sido maravilhoso redescobrir esse lado fangirl, abusar da boa vontade e paciência das pessoas, e embora eu saiba que essa fase eventualmente irá acabar, queria poder registrá-la de alguma forma, quase como um lembrete daquilo que um dia significou tanto pra mim. Naturalmente, este texto estará repleto de spoilers (independente do que vocês consideram spoiler, risos).

1) PRIMEIRA TEMPORADA

A história começa em 1912, no interior da Inglaterra, mais especificamente no condado de Yorkshire, onde está localizada Downton Abbey, propriedade que dá título à série e cujo direito pertence aos Crawley, uma tradicional família da aristocracia inglesa. É ali que conhecemos Robert, detentor do título de conde de Grantham, herdado após a morte de seu pai; sua esposa, Cora, e suas três belas filhas – Mary, Edith e Sybil. Mas é também onde conhecemos a criadagem, as pessoas que mantém a propriedade em pleno funcionamento e que contribuem para que aquele modo de vida continue existindo. Somos apresentados primeiro a eles, e só depois à família, o que faz bastante sentido, sobretudo quando pensamos que Downton jamais existiria sem aquelas pessoas. É um universo paralelo e são eles que explicam o funcionamento e costumes da casa e da família. Já no primeiro episódio, descobrimos porque os jornais são passados à ferro antes de serem entregues à família, que cada um possui uma leitura de preferência, e que mulheres casadas ou viúvas tomam café da manhã ainda na cama, enquanto as solteiras fazem a refeição à mesa. São pequenos hábitos e detalhes que pouco a pouco constroem essa realidade tão distante da nossa, e nos convida a permanecer naquele lugar, mesmo que, do outro lado, o mundo nos convide a fazer qualquer outra coisa. O primeiro episódio tem a ambiciosa duração de uma hora, mas não é preciso que se passe nem quinze minutos para que o tempo pareça suspenso e a história seja a única coisa que importa.

Além de ser um episódio introdutório, onde somos apresentados aos personagens, costumes e tradições tipicamente inglesas à época, o piloto de Downton Abbey é, também, o primeiro contato que temos com o conflito central daquela temporada: sem um filho homem para herdar a propriedade, o título e o dinheiro de Cora, o clã vê seus planos caírem por terra quando Patrick, filho do futuro herdeiro de Downton, e seu pai morrem no naufrágio do Titanic. Assim, a fortuna, outrora reservada às mãos de parentes próximos – e de sua filha mais velha, Mary, noiva de Patrick à época – passariam a ser direito de Matthew, um parente distante e desconhecido que ganhava a vida como advogado. Ainda no primeiro episódio, Matthew recebe uma carta de Lorde Grantham e, quando questionado pela sua mãe sobre o que se trata, ele diz que Robert vai mudar suas vidas; e é verdade. Algo bastante curioso sobre assistir os mesmos episódios várias vezes é que situações que parecem acontecer de forma lenta e gradual num primeiro momento, se desenvolvem e são resolvidas rapidamente, às vezes num mesmo episódio, quando vistas novamente. Em Downton Abbey, isso jamais significa que elas sejam mal desenvolvidas, mas que muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, e é incrível pensar que todas elas coexistam em harmonia. Grande parte da primeira temporada se dedica ao desenrolar do relacionamento de Mary e Matthew, mas não se restringe a ele: é ali que vemos nascer o romance de Anna e Bates, que acompanhamos Gwen buscar um futuro melhor e Sybil se interessar por política e questionar o status quo.

Gosto especialmente da primeira temporada porque ela traça de forma brilhante um estilo de vida que se torna cada vez mais antiquado e que pouco a pouco se transforma em algo impraticável num mundo que muda com tamanha velocidade. No início, parece quase natural como as coisas funcionam, mas o que Downton Abbey faz é justamente questionar se ainda existe espaço para esse tipo vida e segurança, e mostra que mesmo os Crawley não estão livres das mudanças que surgem com o tempo. É um questionamento que ganha força no futuro, mas que, pra mim, é anunciado ao fim dessa temporada, quando Robert recebe um telegrama informando que a Inglaterra acabara de entrar na Primeira Guerra Mundial; um evento que muda absolutamente tudo.

2) SEGUNDA TEMPORADA

Não estamos mais em Downton, mas sim no front. Bombas, gritos e corações que batem com força são os únicos sons que ouvimos, o que faz bastante sentido. Embora não goste tanto assim dessas cenas, são elas que dão o tom da temporada e traçam uma linha muito bem definida entre passado e presente. O futuro já não é exatamente uma questão; ninguém sabe se ele vai existir ou não, de modo que a única coisa que resta é tentar sobreviver aos tempos difíceis. Em determinado momento, Matthew comenta que o que viveu em Downton parece ter acontecido em outra vida se comparado ao que ele via e vivia tão de perto no front; uma verdade dura, mas ainda uma verdade, muito embora não seja a única. Na propriedade, as coisas também se transformam radicalmente: criados são convocados para lutarem pelo país, mulheres passam a assumir funções antes reservadas aos homens e todos começam a ajudar como podem. Até mesmo a propriedade se transforma em uma casa de repouso para soldados que receberam alta do hospital quando, após o suicídio de um ex-combatente, fica claro que mesmo que seus corpos já não precisem mais de cuidados, aqueles homens não estão prontos para ter uma vida normal.

Todos precisam, então, encontrar uma nova forma de lidar com essas mudanças – o que significa extrapolar a própria zona de conforto, desconhecer limites e permitir-se adaptar às novas mudanças. Alguns enfrentam a situação com mais dificuldade, mas outros encontram a si mesmos justamente nas novas funções que passam a assumir. Cora passa a administrar a casa de repouso, Edith cuida do bem-estar dos pacientes e Sybil, que estudou enfermagem, é quem assume a responsabilidade pelo cuidado médico dessas pessoas, e todas se satisfazem profundamente nessas atividades. O funcionamento da casa muda completamente e a privacidade de outrora deixa de existir. Contudo, quando Sybil diz que quer ser útil, que não quer voltar àquele mundo que vivia antes, ela não está dizendo que deseja estar em guerra para sempre, mas que experimentou uma vida, teve uma oportunidade, e não quer limitar-se novamente a uma realidade de jantares e romances arranjados, algo que também reverbera nos arcos de sua mãe e de Edith. Faz sentido: Sybil, assim como Edith e, em partes, a própria Lady Crawley, descobriu uma nova versão de si mesma e sua capacidade de ocupar espaços que, até então, lhe haviam sido negados. Quando foge com Tom, o motorista, Sybil não está tentando confrontar a própria família, não está sendo uma garota rebelde que deseja tão somente chamar atenção e negar as próprias origens, muito pelo contrário. A união dos dois marca, também, a ruptura de Sybil com o mundo que conhecera antes do conflito – ela deixa de ser Lady Sybil para tornar-se Mrs. Branson, como confidencia à Mary no ano seguinte, algo que a enche de orgulho e satisfação, e abre um mundo de novas possibilidades.

Mas ela não é a única. Para o bem ou para o mal, todos os personagens são afetados pela guerra, de maneira direta ou indireta. Existe a morte, a perda, o luto e o medo, mas muitas das histórias se desenvolvem de modo a nos lembrar que ainda existem questões puramente humanas naquele cenário, como o relacionamento de Matthew e Mary, que já não é mais uma realidade, visto que ambos estão noivos de outras pessoas, ainda que o sentimento continue tão forte quando antigamente. São questões complexas, ambíguas e que não são tão facilmente resolvidas, embora muitos tentem enxergar assim. Além disso, é nessa temporada que conhecemos Ethel, uma criada ambiciosa e petulante, que deseja uma vida melhor para si até o dia que todos os seus sonhos caem por terra. A antes criada de uma respeitada família é demitida sem ter direito a uma carta de referência após se envolver com um major que estava hospedado na casa, de quem, conforme descobrimos mais tarde, Ethel engravida. Ela, então, sofre as consequência por ser uma mãe solteira, se prostitui e vive na miséria, enquanto ao major nada acontece. Em uma temporada onde tantas coisas tristes acontecem – são muitas mortes, muitos (muitos!) dramas -, a história de Ethel recorda, sobretudo, o que significa ser mulher numa sociedade patriarcal.

Contudo, nem só de desgraças é feito o segundo ano da série, que após virar a vida de seus personagens de cabeça para baixo, nos presenteia com um episódio especial de Natal que é, muito provavelmente, o melhor episódio de toda a série. É nesse episódio que Mary e Matthew finalmente se entendem e decidem se casar, num dos meus pedidos favoritos da ficção; com direito à neve e duas pessoas belíssimas se amando demais. É minha temporada favorita, aquela que realmente me prendeu e foi uma divisora de águas entre a Ana que simplesmente gostava de Downton Abbey e o monstro que virei depois, risos.

3) TERCEIRA TEMPORADA

Muito provavelmente a mais polêmica das temporadas, o terceiro ano de Downton Abbey é marcado por uma série de mudanças e tragédias que, mais uma vez, mudam radicalmente os rumos da série. Tudo parece bem até que, numa sucessão terrível de fatos, não está mais. É triste como as coisas mudam de uma hora para outra e presenças que acreditávamos certas se tornam apenas uma lembrança de tempos distantes. Contudo, é em meio à tristeza que muitas das cenas mais bonitas acontecem – e, talvez por isso, goste tanto dessa temporada. Assim como na vida, as alegrias coexistem com a tragédia, formando um grande balaio de coisas boas e ruins que transformam os personagens em novas versões de si mesmos.

O casamento de Mary e Matthew é um dos grandes acontecimentos da temporada, mas não é o único. Bates está na prisão, acusado de assassinar a ex-mulher; Edith é abandonada no altar; Sybil e Tom retornam à Downton; e Robert precisa lidar com a perspectiva de perder a propriedade e o trabalho de sua vida após um investimento que lhe custou toda a fortuna. É aqui que os Crawley finalmente entendem que o mundo está mudando, e que, talvez, eles devam mudar junto com ele. Resistir não parece uma saída, pelo contrário. Assim, quando Matthew salva a propriedade com a herança deixada pelo pai de sua antiga noiva, ele se torna não apenas o herdeiro de Downton, mas passa a dividir a administração da propriedade com Robert que, por sua vez, precisa aprender a lidar com as ideias inovadoras do genro – que são, no final das contas, as grandes responsáveis por salvar Downton da possível ruína. Tom, que até então acreditava não ter um lugar para ocupar ali, passa a desempenhar o papel de mediador entre os dois, e pouco a pouco se aproxima da família, mas principalmente de Matthew, que se torna um verdadeiro amigo e suporte. Da mesma forma, o relacionamento com Matthew traz à tona um lado de Mary que não conhecemos: da mulher que ri, é generosa, e expõe os próprios sentimentos com mais facilidade. As picuinhas com Edith, outrora regra no casarão, se tornam cada vez mais raras. Elas não gostam uma da outra, uma verdade que jamais irá mudar, mas elas aprender a lidar com a presença uma da outra e, pouco a pouco, se desvinculam do inveja e frustração geradas pela relação conturbada e de constante disputa. Mary está feliz com o casamento, ama profundamente o marido e sua maior preocupação passa a ser a vontade de ter um filho e, finalmente, gerar o herdeiro que Downton precisa. Edith, por sua vez, não utiliza o abandono como desculpa para se tornar a vítima da própria história, mas encontra formas assumir as rédeas da sua vida e voltar a ter um espaço todo seu. Ela passa a escrever para um jornal, se envolve com o editor do jornal e pouco a pouco passa a vislumbrar um futuro cada vez mais promissor para si mesma.

Mas há, ainda, as verdadeiras tragédias; aquelas para as quais não há nenhuma solução. Mesmo tendo começado a série já sabendo o que viria a acontecer, existe algo de muito único em ver essas coisas, de fato, acontecerem, sobretudo quando a relação entre espectador e personagens é construída de forma tão íntima e delicada, como é o caso aqui. Existe o apego, existe o carinho, existe o profundo desejo de aquelas pessoas sejam felizes. Matthew e Sybil partem, ironicamente, em momentos de muita alegria; mais uma vez, a alegria que coexiste com a tristeza e a tragédia. A morte de Matthew é a que pega todos de surpresa; não é por acaso que, à época em que o episódio foi ao ar pela primeira vez, muita gente se revoltou, se questionou o que aconteceria depois. É uma morte que muda absolutamente tudo e essas mudanças são palpáveis. Mas a morte de Sybil é mais dramática, mais carregada de tristeza. Ela não causa tantas mudanças na série de forma prática, mas ainda é a morte que, todas as vezes, me faz chorar como se estivesse assistindo pela primeira vez. E que faz todos os personagens chorarem juntos. Ao contrário de Matthew, que não temos acesso ao que aconteceu em sequência à notícia de sua morte, no caso de Sybil, acompanhamos todo o processo de luto. Toda dor, todos os momentos de carinho que surgiam em meio à tristeza, mas também a mágoa. Algumas cenas são tão fortes que jamais saíram da minha cabeça, como quando Mary corre para acordar os pais de madrugada; quando Lady Crawley pede para ficar sozinha com Sybil para se despedir do seu bebê; quando Thomas chora copiosamente ao receber a notícia e é consolado por Anna; quando Mrs. Hughes, ao ver os dois, diz que o espírito mais doce da casa partiu; quando Violet diz a Carson que eles viveram muitas coisas juntos, mas nada tão triste quanto aquilo, e então sai andando sozinha, com dificuldade. É uma tristeza imensa, que extrapola a tela e chega do outro lado, tornando-se um dos momentos mais marcantes de toda a série.

4) QUARTA TEMPORADA

Seis meses se passaram desde a morte de Matthew quando a temporada tem início, com a saída furtiva de O’Brien na madrugada, que abandona a propriedade para viajar pela Índia ao lado da marquesa de Flintshire. Rose, filha da marquesa, está passando um tempo em Downton, a pedido de seu pai, e toda uma torta de climão é servida quando O’Brien vai embora; roubar criados de outra pessoa, afinal, era um negócio muito sério à época. Logo fica claro que Rose não tinha qualquer conhecimento prévio sobre a atitude da mãe, que a pegou de surpresa tanto quanto à família. Numa tentativa de consertar o erro da mãe, Rose sai em busca de uma nova dama de companhia para Lady Crawley, o que eventualmente se torna um problema: a candidata escolhida é Edna Braithwaite (também conhecida como a personagem mais odiosa da série), que fora despedida justamente por forçar uma aproximação problemática com Tom – algo que apenas ele e Mrs. Hughes possuíam conhecimento. Motivada a tirar algum proveito da situação, Edna e Tom acabam se envolvendo, o que dá margem para que ela forje uma gravidez falsa, até a mentira ser descoberta e ela ser mandada novamente embora.

Contudo, nem só de damas de companhia mala é feita a temporada. A grande questão sobre a temporada, tanto para os personagens, quanto para quem assiste do outro lado é: o que vai acontecer agora? As mudanças geradas a partir da morte de Matthew são palpáveis, a começar pela própria Mary, que se recusa a voltar a viver e se torna uma pessoa cada vez mais difícil de lidar, enfiada num buraco do qual ninguém consegue tirá-la. É só após ter contato com uma carta de Matthew, escrita pouco antes da sua morte, onde ele expressa o desejo de deixar toda a herança para Mary, que as coisas mudam e ela volta a ter… vida. Mary assume seu lugar como proprietária majoritária de Downton, passa a exercer funções administrativas ao lado do seu pai e de Tom. Embora pretendentes apareçam nesse meio tempo, Mary os dispensa, porque não se sente pronta para tal, de modo que o momento se torna ótimo para termos contato com uma nova faceta da personagem, tão incrível quanto a mulher sedutora e determinada que apresentara no passado. Uma das minhas cenas favoritas, aliás, é quando Mary se suja inteira de lama para salvar seus porcos ao lado de Charles Blake (também conhecido como o melhor ship que nunca aconteceu); uma prova de que ela está de volta, e nunca esteve em tão boa forma. Ao mesmo tempo, Edith começa a viver seu drama pessoal ao lado do editor, Michael Gregson, que desaparece após ir para a Alemanha numa tentativa de conseguir um divórcio para casar-se com Edith. Ela, por sua vez, descobre-se grávida pouco tempo após a partida de Michael, e muito embora sua realidade a impeça de ter o mesmo destino de Ethel (um ponto que a Michas levantou em uma de nossas conversas sobre a série e achei super pertinente), até mesmo para uma mulher rica e de nome, tonar-se mãe solteira é um problema.

Além disso, essa é, também, a temporada em que Anna sofre um estupro, o que até hoje me questiono se era realmente necessário. Que Anna & Bates são o casal mais sofrido da ficção não é exatamente uma novidade, mas existe algo de muito incômodo num crime tão bárbaro que serve tão somente para adicionar mais sofrimento a uma história já tão sofrida. É uma cena perturbadora por demais, com direito à ópera, que abafa os gritos de Anna, que é violentada no andar de baixo, e mesmo sem nada ver além de uma porta (graças a Deus), nós sofremos com ela, choramos por ela. Essa, definitivamente, foi uma virada que jamais vi vindo e, quando aconteceu, pareceu demais até pra mim. Um limite é definitivamente ultrapassado, o que fica ainda mais evidente quando Anna é acusada injustamente pelo assassinato do estuprador; mas, mais uma vez, esse é apenas um lembrete do que é ser mulher numa sociedade que ainda nos nega o papel de sujeito. Não é por acaso que, para a maioria das pessoas, a quarta temporada seja a menos favorita – um fato que até mesmo eu, que gosto bastante dela, apesar dos pesares, sou obrigada a reconhecer.

5) QUINTA TEMPORADA

Estou exatamente no primeiro episódio da quinta temporada pela terceira vez, mas por algum motivo, essa é a temporada do qual menos tenho recordações. Ao contrário de suas antecessoras, que permanecem frescas na minha mente, a quinta temporada é aquele momento em que as coisas ficam meio estranhas e, de repente, você já não se lembra de muita coisa, não sabe bem o que aconteceu – que não significa que seja uma temporada ruim, só não tão emocionante quanto as outras. Após uma temporada em Londres, quando Rose é devidamente apresentada à sociedade, os Crawley estão de volta a Yorkshire e, pouco a pouco, as coisas voltam aos seus devidos lugares: Mary vive um momento da sua vida em que já não precisa estar casada, ela apenas quer estar casada, o que faz toda diferença, e permite que ela seja criteriosa em sua escolha, demorando todo o tempo necessário e toda prova possível para garantir um casamento feliz. Edith, por outro lado, passar a tocar a própria vida, dividindo-se entre o jornal deixado para ela por Michael e o drama de estar tão perto e tão longe da própria filha, a pequena Marigold, que passa a ser criada por Mrs. Drewe, mulher de um fazendeiro local, sem saber que se trata da filha de Edith. Naturalmente, é um arranjo fadado ao fracasso e que eventualmente faz suas vítimas, mas adiciona novos contornos à trajetória de Edith, que se vê definitivamente sozinha quando descobre que Michael foi assassinado em um motim liderado por (à época, um tal de) Hitler.

O foco é momentaneamente tirado das Crawley mais jovens para se voltarem para personagens a quem, até então, a possibilidade de romance não parecia uma realidade. Isobel, mãe de Matthew, passa a ser cortejada por Lorde Merton, padrinho de Mary, com quem tem um romance conturbado, com direito a filhos que não aceitam o novo relacionamento do pai e servem tortas de climão por onde passam (definitivamente, as piores pessoas do mundo). Também é na quinta temporada que descobrimos o passado pouco convencional da condessa viúva, Violet Crawley, que quando jovem quase fugira com um príncipe russo, mas fora impedida pela princesa, que literalmente a puxou para fora da carruagem e a enviou de volta ao marido. Quando os dois se reencontram, o príncipe Kuragin já não é sequer um príncipe, mas um refugiado, que perdera tudo, absolutamente tudo, após a Revolução Russa. Ele, contudo, ainda deseja viver seus últimos dias ao lado de Violet, que recusa, porque naquele momento, já não acredita que a proposta faça algum sentido. Mas é ao relembrar o passado da condessa viúva que Downton Abbey subverte a imagem da senhora dura, racional e indissociavelmente alinhada aos valores tradicionais para mostrar que, antes de tudo isso, Violet é humana, o que significa que mesmo ela teve a sua cota de agir com impulsividade e coração. Quando compartilha sua história com Isobel, ela fala sobre o incidente de um lugar em que o abandono dos filhos e do título lhe parecem absurdos, mas Violet jamais se condena; ela também fora jovem, muito jovem, e abandonar sua família para viver ao lado do homem que amava parecia fazer todo o sentido do mundo. É essa mesma Violet que, no ano seguinte, diz à Mary que acredita em muitas coisas, mas sobretudo no amor, e é algo que faz muito sentido, ainda que essa seja uma faceta reservada a poucos.

Há, ainda, Cora, que passa a ser cortejada pelo historiador Simon Bricker, amigo de Charles Blake, que passa a frequentar a propriedade da condessa por causa de uma obra de arte. Logo o interesse muda de figura, quando Bricker passa a flertar com Cora. Ela aprecia sua companhia, mas a amizade chega ao fim quando, numa noite, Bricker aparece sem ser convidado em seu quarto, o que termina em uma briga com Robert, que chega de surpresa, porque lógico. Robert e Cora passam algum tempo sem se falar, até que ele seja lembrado de seus erros do passado e volte atrás, mas o mais interessante sobre essa história é que Cora, antes a mulher à sombra do marido, mostra que é muito mais do que uma mulher preocupada com roupas e criadagem, ou o cardápio do jantar. Ela é uma mulher interessante e inteligente; algo que Robert, depois de tantos anos, veio a esquecer. Cora passa a ganhar mais autonomia dentro do próprio casamento; o que às vezes incomoda o marido, mas que lhe dá cada vez mais certeza e segurança sobre seu valor. À medida que se encaminha para o seu final, a série começa a traçar o desfecho de seus personagens; e o de Cora é assim: seguro, confiante, bonito. Ainda que não seja minha favorita, a quinta temporada é um lembrete do por quê gostamos tanto de Downton Abbey e porque somos tão apaixonados por todos aqueles personagens – o que, inevitavelmente, nos faz lamentar o iminente fim. É nessa temporada, ainda, que Rose e Atticus se conhecem, talvez o casal mais adorável da série; que aparecem pouco, muito pouco depois de casados, mas se podemos ter alguma certeza é a de que, independente de onde estejam, Rose e Atticus estarão felizes.

6) SEXTA TEMPORADA

É a última temporada, aquela em que todos os arcos começam a ser concluídos e todos os episódios passam a ter um gostinho de despedida. Por ser a única que tenho baixada – na época que assisti, ela ainda não tinha chegado na Netflix – foi, também, a que assisti mais vezes: qualquer tempinho era motivo para dar um passeio por aquelas histórias, caminhar com aquelas pessoas e relembrar que apesar de todos os pesares, fica tudo bem. E é lindo. A série não se esquiva do que acontece de ruim, daquilo que é difícil, das personalidades complexas demais com as quais está lidando, mas não utiliza isso como uma desculpa para transformar a si mesma numa série séria & sombria; ela, afinal, nunca teve a pretensão de ser séria, menos ainda sombria (Downton Abbey sombria kkk). Assim, mesmo os dramas mais complicados ganham desfechos satisfatórios e são encarados de forma mais natural, quase como se a arte fosse, de fato, um retrato de nossas próprias vidas (exceto que não somos nobres da Inglaterra do século XX, mas bear with me).

Não é por acaso que, embora eu goste muito de muitas coisas nessa temporada, uma das minhas cenas favoritas seja, justamente, uma cena em que personagens são finalmente confrontados pelos seus próprios demônios e tentam se redimir, não pedindo desculpas por ser quem são, mas numa tentativa de se tornarem versões melhores de si mesmos. Mary erra demais. Mary erra tanto que desgraça a vida da própria irmã, que teve literalmente um único momento de felicidade na vida inteira. Que chegou tão, tão perto de ser feliz, e de repente, Mary lhe tirara aquilo, do jeito mais mesquinho possível. É uma cena dolorosa porque a gente vê quanto o ser humano pode ser feio, pequeno e complexo do jeito mais horrível possível, e é exatamente sobre isso que Tom fala pra Mary, naquela que é uma das minhas cenas favoritas da série inteira. Então ela pode ser mesmo uma pessoa horrível, Mary pensa. E não podemos todos? Mary destrói Edith porque ela é, sim, uma pessoa horrível, como a própria Edith foi uma pessoa horrível quando, lá na primeira temporada, expôs o segredo de Mary sobre a morte de Mr. Pamuk para a embaixada Turca, como eu fui uma pessoa horrível quando me ressenti pelas conquistas de pessoas que amo profundamente, mas ainda assim fui incapaz de não pensar “por que ela e não eu?”. Gosto de como Mary não é condenada por ser uma pessoa horrível, mas encontra uma forma de subverter essa narrativa e se tornar uma pessoa melhor, por tentar consertar as coisas, ainda que não se possa desfazer o passado; o que todos deveríamos fazer, mas poucos são realmente capazes de concretizar. Gosto de como Edith, contrariando todas as expectativas, se torna marquesa, é aceita por ser quem é e com Marigold à tiracolo, tem o casamento digno da pessoa maravilhosa que se tornou.

E gosto de como os criados também ganham seus momentos de alegria. Gosto de como Thomas encontra uma luz depois de tanta tristeza. De como Anna finalmente consegue realizar o desejo de ser mãe. De como Gwen aparece de novo e janta com seus antigos patrões, na casa que um dia ela limpou e trocou os lençóis da cama. Como mesmo após se casar, Rose continua sendo a mulher expansiva e sorridente de sempre, e como Atticus continua encantado pela sua luz, rindo como bobo o tempo inteiro. De como Mr. Molesley se realiza como professor. Como Daisy se torna uma mulher iluminada, consciente, com um futuro não mais limitado à cozinha. Como Mrs. Hughes e Mr. Carson se casam, são felizes juntos. Na última cena, todos os personagens se unem e cantam juntos, numa cena linda, linda de morrer, deixando todos os corações aquecidos. É o fim, até que se prove o contrário, e é o fim que sempre sonhamos; como um quentinho no coração e o gosto doce do chocolate. Amém.