CINEMA & TV

Nas terras de Lorde Grantham

Comecei a assistir Downton Abbey em meados de junho, sem saber que, em pouco menos de um mês, estaria completamente obcecada pela trama & o drama da família Crawley, bastiões da honra e propriedade de Downton Abbey, e seus empregados. O momento não podia ser mais inapropriado: era fim de semestre, eu estava atolada até o pescoço de trabalho, textos e artigos para escrever, prazos a cumprir, pepinos para resolver, etc etc, mas de repente fui levada para o interior da Inglaterra e de lá não pude mais sair; eu não queria mais sair. Parecia improvável que naquele momento eu pudesse me envolver tanto com uma série, mas foi entre a correria diária e a sensação de estar sempre tão sobrecarregada que descobri novamente o prazer de passar horas na frente da televisão sem tratar a atividade como trabalho ou fazê-lo com culpa, algo que não sentia propriamente desde que terminei a sexta temporada de Call The Midwife, ainda no início do ano. O que eu mais precisava naquele momento era de uma história, qualquer história, que me abraçasse com carinho e me oferecesse uma xícara de chá quentinho e doce, me levando de volta para aquele lugar de prazer e entretenimento genuíno que parecia inacessível há tanto tempo.

Downton Abbey faz exatamente isso, mas existe algo mais sobre aquelas pessoas, sobre aquelas histórias, que não são sempre um conto de fadas, mas ainda nos dão algum conforto. Sempre me sinto meio idiota quando falo que a série salvou minha vida, num momento em que o que eu mais precisava era ser salva, porque parece meio retardado levar as coisas a sério desse jeito, mas é verdade; e quando penso em tudo que estava vivendo naquele momento, nas coisas que estava fazendo e nos fantasmas que inevitavelmente estava enfrentando, nada disso me parece idiota ou retardado. Assisti a série duas vezes e emendei uma terceira – que em breve se transformará numa quarta – e não acho que seja por acaso que em todas elas eu tenha sentido as mesmas coisas, tenha rido e chorado exatamente nas mesmas cenas, e amado com um pouco mais de intensidade os mesmos episódios, me identificado profundamente com os mesmos personagens. Mais de um século me separam daquelas pessoas – e a língua, a cultura, o dinheiro, o título -, mas continuamos sendo apenas humanos, nos identificando uns com os outros mesmo nos cenários mais improváveis. O que mais gosto sobre Downton Abbey é justamente essa capacidade de nos transportar para uma realidade completamente deslocada da nossa própria, mas como dramas muito atuais continuam a fazer sentido numa via de mão dupla – o que às vezes é deprimente, é verdade, mas às vezes é um alívio também.

Não é difícil entender porque tem sido tão difícil superar a série, ao ponto de já ter assistido a mesma história três vezes, certa de que absolutamente nada ia mudar, e mesmo assim não conseguir parar de pensar em todos os seus personagens, e querer falar sobre eles, e escrever sobre eles, e torcer pelo dia em que eles finalmente vão voltar pra mim em um filme com duas horas de duração – o que vai acontecer, embora ninguém saiba exatamente como ou quando. Minhas amigas definitivamente criaram um monstro, e eu já passei tempo demais pedindo desculpas nessa vida para me desculpar agora por ser um monstro tão bonzinho e empolgado. Tem sido maravilhoso redescobrir esse lado fangirl, abusar da boa vontade e paciência das pessoas, e embora eu saiba que essa fase eventualmente irá acabar, queria poder registrá-la de alguma forma, quase como um lembrete daquilo que um dia significou tanto pra mim. Naturalmente, este texto estará repleto de spoilers (independente do que vocês consideram spoiler, risos).

1) PRIMEIRA TEMPORADA

A história começa em 1912, no interior da Inglaterra, mais especificamente no condado de Yorkshire, onde está localizada Downton Abbey, propriedade que dá título à série e cujo direito pertence aos Crawley, uma tradicional família da aristocracia inglesa. É ali que conhecemos Robert, detentor do título de conde de Grantham, herdado após a morte de seu pai; sua esposa, Cora, e suas três belas filhas – Mary, Edith e Sybil. Mas é também onde conhecemos a criadagem, as pessoas que mantém a propriedade em pleno funcionamento e que contribuem para que aquele modo de vida continue existindo. Somos apresentados primeiro a eles, e só depois à família, o que faz bastante sentido, sobretudo quando pensamos que Downton jamais existiria sem aquelas pessoas. É um universo paralelo e são eles que explicam o funcionamento e costumes da casa e da família. Já no primeiro episódio, descobrimos porque os jornais são passados à ferro antes de serem entregues à família, que cada um possui uma leitura de preferência, e que mulheres casadas ou viúvas tomam café da manhã ainda na cama, enquanto as solteiras fazem a refeição à mesa. São pequenos hábitos e detalhes que pouco a pouco constroem essa realidade tão distante da nossa, e nos convida a permanecer naquele lugar, mesmo que, do outro lado, o mundo nos convide a fazer qualquer outra coisa. O primeiro episódio tem a ambiciosa duração de uma hora, mas não é preciso que se passe nem quinze minutos para que o tempo pareça suspenso e a história seja a única coisa que importa.

Além de ser um episódio introdutório, onde somos apresentados aos personagens, costumes e tradições tipicamente inglesas à época, o piloto de Downton Abbey é, também, o primeiro contato que temos com o conflito central daquela temporada: sem um filho homem para herdar a propriedade, o título e o dinheiro de Cora, o clã vê seus planos caírem por terra quando Patrick, filho do futuro herdeiro de Downton, e seu pai morrem no naufrágio do Titanic. Assim, a fortuna, outrora reservada às mãos de parentes próximos – e de sua filha mais velha, Mary, noiva de Patrick à época – passariam a ser direito de Matthew, um parente distante e desconhecido que ganhava a vida como advogado. Ainda no primeiro episódio, Matthew recebe uma carta de Lorde Grantham e, quando questionado pela sua mãe sobre o que se trata, ele diz que Robert vai mudar suas vidas; e é verdade. Algo bastante curioso sobre assistir os mesmos episódios várias vezes é que situações que parecem acontecer de forma lenta e gradual num primeiro momento, se desenvolvem e são resolvidas rapidamente, às vezes num mesmo episódio, quando vistas novamente. Em Downton Abbey, isso jamais significa que elas sejam mal desenvolvidas, mas que muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, e é incrível pensar que todas elas coexistam em harmonia. Grande parte da primeira temporada se dedica ao desenrolar do relacionamento de Mary e Matthew, mas não se restringe a ele: é ali que vemos nascer o romance de Anna e Bates, que acompanhamos Gwen buscar um futuro melhor e Sybil se interessar por política e questionar o status quo.

Gosto especialmente da primeira temporada porque ela traça de forma brilhante um estilo de vida que se torna cada vez mais antiquado e que pouco a pouco se transforma em algo impraticável num mundo que muda com tamanha velocidade. No início, parece quase natural como as coisas funcionam, mas o que Downton Abbey faz é justamente questionar se ainda existe espaço para esse tipo vida e segurança, e mostra que mesmo os Crawley não estão livres das mudanças que surgem com o tempo. É um questionamento que ganha força no futuro, mas que, pra mim, é anunciado ao fim dessa temporada, quando Robert recebe um telegrama informando que a Inglaterra acabara de entrar na Primeira Guerra Mundial; um evento que muda absolutamente tudo.

2) SEGUNDA TEMPORADA

Não estamos mais em Downton, mas sim no front. Bombas, gritos e corações que batem com força são os únicos sons que ouvimos, o que faz bastante sentido. Embora não goste tanto assim dessas cenas, são elas que dão o tom da temporada e traçam uma linha muito bem definida entre passado e presente. O futuro já não é exatamente uma questão; ninguém sabe se ele vai existir ou não, de modo que a única coisa que resta é tentar sobreviver aos tempos difíceis. Em determinado momento, Matthew comenta que o que viveu em Downton parece ter acontecido em outra vida se comparado ao que ele via e vivia tão de perto no front; uma verdade dura, mas ainda uma verdade, muito embora não seja a única. Na propriedade, as coisas também se transformam radicalmente: criados são convocados para lutarem pelo país, mulheres passam a assumir funções antes reservadas aos homens e todos começam a ajudar como podem. Até mesmo a propriedade se transforma em uma casa de repouso para soldados que receberam alta do hospital quando, após o suicídio de um ex-combatente, fica claro que mesmo que seus corpos já não precisem mais de cuidados, aqueles homens não estão prontos para ter uma vida normal.

Todos precisam, então, encontrar uma nova forma de lidar com essas mudanças – o que significa extrapolar a própria zona de conforto, desconhecer limites e permitir-se adaptar às novas mudanças. Alguns enfrentam a situação com mais dificuldade, mas outros encontram a si mesmos justamente nas novas funções que passam a assumir. Cora passa a administrar a casa de repouso, Edith cuida do bem-estar dos pacientes e Sybil, que estudou enfermagem, é quem assume a responsabilidade pelo cuidado médico dessas pessoas, e todas se satisfazem profundamente nessas atividades. O funcionamento da casa muda completamente e a privacidade de outrora deixa de existir. Contudo, quando Sybil diz que quer ser útil, que não quer voltar àquele mundo que vivia antes, ela não está dizendo que deseja estar em guerra para sempre, mas que experimentou uma vida, teve uma oportunidade, e não quer limitar-se novamente a uma realidade de jantares e romances arranjados, algo que também reverbera nos arcos de sua mãe e de Edith. Faz sentido: Sybil, assim como Edith e, em partes, a própria Lady Crawley, descobriu uma nova versão de si mesma e sua capacidade de ocupar espaços que, até então, lhe haviam sido negados. Quando foge com Tom, o motorista, Sybil não está tentando confrontar a própria família, não está sendo uma garota rebelde que deseja tão somente chamar atenção e negar as próprias origens, muito pelo contrário. A união dos dois marca, também, a ruptura de Sybil com o mundo que conhecera antes do conflito – ela deixa de ser Lady Sybil para tornar-se Mrs. Branson, como confidencia à Mary no ano seguinte, algo que a enche de orgulho e satisfação, e abre um mundo de novas possibilidades.

Mas ela não é a única. Para o bem ou para o mal, todos os personagens são afetados pela guerra, de maneira direta ou indireta. Existe a morte, a perda, o luto e o medo, mas muitas das histórias se desenvolvem de modo a nos lembrar que ainda existem questões puramente humanas naquele cenário, como o relacionamento de Matthew e Mary, que já não é mais uma realidade, visto que ambos estão noivos de outras pessoas, ainda que o sentimento continue tão forte quando antigamente. São questões complexas, ambíguas e que não são tão facilmente resolvidas, embora muitos tentem enxergar assim. Além disso, é nessa temporada que conhecemos Ethel, uma criada ambiciosa e petulante, que deseja uma vida melhor para si até o dia que todos os seus sonhos caem por terra. A antes criada de uma respeitada família é demitida sem ter direito a uma carta de referência após se envolver com um major que estava hospedado na casa, de quem, conforme descobrimos mais tarde, Ethel engravida. Ela, então, sofre as consequência por ser uma mãe solteira, se prostitui e vive na miséria, enquanto ao major nada acontece. Em uma temporada onde tantas coisas tristes acontecem – são muitas mortes, muitos (muitos!) dramas -, a história de Ethel recorda, sobretudo, o que significa ser mulher numa sociedade patriarcal.

Contudo, nem só de desgraças é feito o segundo ano da série, que após virar a vida de seus personagens de cabeça para baixo, nos presenteia com um episódio especial de Natal que é, muito provavelmente, o melhor episódio de toda a série. É nesse episódio que Mary e Matthew finalmente se entendem e decidem se casar, num dos meus pedidos favoritos da ficção; com direito à neve e duas pessoas belíssimas se amando demais. É minha temporada favorita, aquela que realmente me prendeu e foi uma divisora de águas entre a Ana que simplesmente gostava de Downton Abbey e o monstro que virei depois, risos.

3) TERCEIRA TEMPORADA

Muito provavelmente a mais polêmica das temporadas, o terceiro ano de Downton Abbey é marcado por uma série de mudanças e tragédias que, mais uma vez, mudam radicalmente os rumos da série. Tudo parece bem até que, numa sucessão terrível de fatos, não está mais. É triste como as coisas mudam de uma hora para outra e presenças que acreditávamos certas se tornam apenas uma lembrança de tempos distantes. Contudo, é em meio à tristeza que muitas das cenas mais bonitas acontecem – e, talvez por isso, goste tanto dessa temporada. Assim como na vida, as alegrias coexistem com a tragédia, formando um grande balaio de coisas boas e ruins que transformam os personagens em novas versões de si mesmos.

O casamento de Mary e Matthew é um dos grandes acontecimentos da temporada, mas não é o único. Bates está na prisão, acusado de assassinar a ex-mulher; Edith é abandonada no altar; Sybil e Tom retornam à Downton; e Robert precisa lidar com a perspectiva de perder a propriedade e o trabalho de sua vida após um investimento que lhe custou toda a fortuna. É aqui que os Crawley finalmente entendem que o mundo está mudando, e que, talvez, eles devam mudar junto com ele. Resistir não parece uma saída, pelo contrário. Assim, quando Matthew salva a propriedade com a herança deixada pelo pai de sua antiga noiva, ele se torna não apenas o herdeiro de Downton, mas passa a dividir a administração da propriedade com Robert que, por sua vez, precisa aprender a lidar com as ideias inovadoras do genro – que são, no final das contas, as grandes responsáveis por salvar Downton da possível ruína. Tom, que até então acreditava não ter um lugar para ocupar ali, passa a desempenhar o papel de mediador entre os dois, e pouco a pouco se aproxima da família, mas principalmente de Matthew, que se torna um verdadeiro amigo e suporte. Da mesma forma, o relacionamento com Matthew traz à tona um lado de Mary que não conhecemos: da mulher que ri, é generosa, e expõe os próprios sentimentos com mais facilidade. As picuinhas com Edith, outrora regra no casarão, se tornam cada vez mais raras. Elas não gostam uma da outra, uma verdade que jamais irá mudar, mas elas aprender a lidar com a presença uma da outra e, pouco a pouco, se desvinculam do inveja e frustração geradas pela relação conturbada e de constante disputa. Mary está feliz com o casamento, ama profundamente o marido e sua maior preocupação passa a ser a vontade de ter um filho e, finalmente, gerar o herdeiro que Downton precisa. Edith, por sua vez, não utiliza o abandono como desculpa para se tornar a vítima da própria história, mas encontra formas assumir as rédeas da sua vida e voltar a ter um espaço todo seu. Ela passa a escrever para um jornal, se envolve com o editor do jornal e pouco a pouco passa a vislumbrar um futuro cada vez mais promissor para si mesma.

Mas há, ainda, as verdadeiras tragédias; aquelas para as quais não há nenhuma solução. Mesmo tendo começado a série já sabendo o que viria a acontecer, existe algo de muito único em ver essas coisas, de fato, acontecerem, sobretudo quando a relação entre espectador e personagens é construída de forma tão íntima e delicada, como é o caso aqui. Existe o apego, existe o carinho, existe o profundo desejo de aquelas pessoas sejam felizes. Matthew e Sybil partem, ironicamente, em momentos de muita alegria; mais uma vez, a alegria que coexiste com a tristeza e a tragédia. A morte de Matthew é a que pega todos de surpresa; não é por acaso que, à época em que o episódio foi ao ar pela primeira vez, muita gente se revoltou, se questionou o que aconteceria depois. É uma morte que muda absolutamente tudo e essas mudanças são palpáveis. Mas a morte de Sybil é mais dramática, mais carregada de tristeza. Ela não causa tantas mudanças na série de forma prática, mas ainda é a morte que, todas as vezes, me faz chorar como se estivesse assistindo pela primeira vez. E que faz todos os personagens chorarem juntos. Ao contrário de Matthew, que não temos acesso ao que aconteceu em sequência à notícia de sua morte, no caso de Sybil, acompanhamos todo o processo de luto. Toda dor, todos os momentos de carinho que surgiam em meio à tristeza, mas também a mágoa. Algumas cenas são tão fortes que jamais saíram da minha cabeça, como quando Mary corre para acordar os pais de madrugada; quando Lady Crawley pede para ficar sozinha com Sybil para se despedir do seu bebê; quando Thomas chora copiosamente ao receber a notícia e é consolado por Anna; quando Mrs. Hughes, ao ver os dois, diz que o espírito mais doce da casa partiu; quando Violet diz a Carson que eles viveram muitas coisas juntos, mas nada tão triste quanto aquilo, e então sai andando sozinha, com dificuldade. É uma tristeza imensa, que extrapola a tela e chega do outro lado, tornando-se um dos momentos mais marcantes de toda a série.

4) QUARTA TEMPORADA

Seis meses se passaram desde a morte de Matthew quando a temporada tem início, com a saída furtiva de O’Brien na madrugada, que abandona a propriedade para viajar pela Índia ao lado da marquesa de Flintshire. Rose, filha da marquesa, está passando um tempo em Downton, a pedido de seu pai, e toda uma torta de climão é servida quando O’Brien vai embora; roubar criados de outra pessoa, afinal, era um negócio muito sério à época. Logo fica claro que Rose não tinha qualquer conhecimento prévio sobre a atitude da mãe, que a pegou de surpresa tanto quanto à família. Numa tentativa de consertar o erro da mãe, Rose sai em busca de uma nova dama de companhia para Lady Crawley, o que eventualmente se torna um problema: a candidata escolhida é Edna Braithwaite (também conhecida como a personagem mais odiosa da série), que fora despedida justamente por forçar uma aproximação problemática com Tom – algo que apenas ele e Mrs. Hughes possuíam conhecimento. Motivada a tirar algum proveito da situação, Edna e Tom acabam se envolvendo, o que dá margem para que ela forje uma gravidez falsa, até a mentira ser descoberta e ela ser mandada novamente embora.

Contudo, nem só de damas de companhia mala é feita a temporada. A grande questão sobre a temporada, tanto para os personagens, quanto para quem assiste do outro lado é: o que vai acontecer agora? As mudanças geradas a partir da morte de Matthew são palpáveis, a começar pela própria Mary, que se recusa a voltar a viver e se torna uma pessoa cada vez mais difícil de lidar, enfiada num buraco do qual ninguém consegue tirá-la. É só após ter contato com uma carta de Matthew, escrita pouco antes da sua morte, onde ele expressa o desejo de deixar toda a herança para Mary, que as coisas mudam e ela volta a ter… vida. Mary assume seu lugar como proprietária majoritária de Downton, passa a exercer funções administrativas ao lado do seu pai e de Tom. Embora pretendentes apareçam nesse meio tempo, Mary os dispensa, porque não se sente pronta para tal, de modo que o momento se torna ótimo para termos contato com uma nova faceta da personagem, tão incrível quanto a mulher sedutora e determinada que apresentara no passado. Uma das minhas cenas favoritas, aliás, é quando Mary se suja inteira de lama para salvar seus porcos ao lado de Charles Blake (também conhecido como o melhor ship que nunca aconteceu); uma prova de que ela está de volta, e nunca esteve em tão boa forma. Ao mesmo tempo, Edith começa a viver seu drama pessoal ao lado do editor, Michael Gregson, que desaparece após ir para a Alemanha numa tentativa de conseguir um divórcio para casar-se com Edith. Ela, por sua vez, descobre-se grávida pouco tempo após a partida de Michael, e muito embora sua realidade a impeça de ter o mesmo destino de Ethel (um ponto que a Michas levantou em uma de nossas conversas sobre a série e achei super pertinente), até mesmo para uma mulher rica e de nome, tonar-se mãe solteira é um problema.

Além disso, essa é, também, a temporada em que Anna sofre um estupro, o que até hoje me questiono se era realmente necessário. Que Anna & Bates são o casal mais sofrido da ficção não é exatamente uma novidade, mas existe algo de muito incômodo num crime tão bárbaro que serve tão somente para adicionar mais sofrimento a uma história já tão sofrida. É uma cena perturbadora por demais, com direito à ópera, que abafa os gritos de Anna, que é violentada no andar de baixo, e mesmo sem nada ver além de uma porta (graças a Deus), nós sofremos com ela, choramos por ela. Essa, definitivamente, foi uma virada que jamais vi vindo e, quando aconteceu, pareceu demais até pra mim. Um limite é definitivamente ultrapassado, o que fica ainda mais evidente quando Anna é acusada injustamente pelo assassinato do estuprador; mas, mais uma vez, esse é apenas um lembrete do que é ser mulher numa sociedade que ainda nos nega o papel de sujeito. Não é por acaso que, para a maioria das pessoas, a quarta temporada seja a menos favorita – um fato que até mesmo eu, que gosto bastante dela, apesar dos pesares, sou obrigada a reconhecer.

5) QUINTA TEMPORADA

Estou exatamente no primeiro episódio da quinta temporada pela terceira vez, mas por algum motivo, essa é a temporada do qual menos tenho recordações. Ao contrário de suas antecessoras, que permanecem frescas na minha mente, a quinta temporada é aquele momento em que as coisas ficam meio estranhas e, de repente, você já não se lembra de muita coisa, não sabe bem o que aconteceu – que não significa que seja uma temporada ruim, só não tão emocionante quanto as outras. Após uma temporada em Londres, quando Rose é devidamente apresentada à sociedade, os Crawley estão de volta a Yorkshire e, pouco a pouco, as coisas voltam aos seus devidos lugares: Mary vive um momento da sua vida em que já não precisa estar casada, ela apenas quer estar casada, o que faz toda diferença, e permite que ela seja criteriosa em sua escolha, demorando todo o tempo necessário e toda prova possível para garantir um casamento feliz. Edith, por outro lado, passar a tocar a própria vida, dividindo-se entre o jornal deixado para ela por Michael e o drama de estar tão perto e tão longe da própria filha, a pequena Marigold, que passa a ser criada por Mrs. Drewe, mulher de um fazendeiro local, sem saber que se trata da filha de Edith. Naturalmente, é um arranjo fadado ao fracasso e que eventualmente faz suas vítimas, mas adiciona novos contornos à trajetória de Edith, que se vê definitivamente sozinha quando descobre que Michael foi assassinado em um motim liderado por (à época, um tal de) Hitler.

O foco é momentaneamente tirado das Crawley mais jovens para se voltarem para personagens a quem, até então, a possibilidade de romance não parecia uma realidade. Isobel, mãe de Matthew, passa a ser cortejada por Lorde Merton, padrinho de Mary, com quem tem um romance conturbado, com direito a filhos que não aceitam o novo relacionamento do pai e servem tortas de climão por onde passam (definitivamente, as piores pessoas do mundo). Também é na quinta temporada que descobrimos o passado pouco convencional da condessa viúva, Violet Crawley, que quando jovem quase fugira com um príncipe russo, mas fora impedida pela princesa, que literalmente a puxou para fora da carruagem e a enviou de volta ao marido. Quando os dois se reencontram, o príncipe Kuragin já não é sequer um príncipe, mas um refugiado, que perdera tudo, absolutamente tudo, após a Revolução Russa. Ele, contudo, ainda deseja viver seus últimos dias ao lado de Violet, que recusa, porque naquele momento, já não acredita que a proposta faça algum sentido. Mas é ao relembrar o passado da condessa viúva que Downton Abbey subverte a imagem da senhora dura, racional e indissociavelmente alinhada aos valores tradicionais para mostrar que, antes de tudo isso, Violet é humana, o que significa que mesmo ela teve a sua cota de agir com impulsividade e coração. Quando compartilha sua história com Isobel, ela fala sobre o incidente de um lugar em que o abandono dos filhos e do título lhe parecem absurdos, mas Violet jamais se condena; ela também fora jovem, muito jovem, e abandonar sua família para viver ao lado do homem que amava parecia fazer todo o sentido do mundo. É essa mesma Violet que, no ano seguinte, diz à Mary que acredita em muitas coisas, mas sobretudo no amor, e é algo que faz muito sentido, ainda que essa seja uma faceta reservada a poucos.

Há, ainda, Cora, que passa a ser cortejada pelo historiador Simon Bricker, amigo de Charles Blake, que passa a frequentar a propriedade da condessa por causa de uma obra de arte. Logo o interesse muda de figura, quando Bricker passa a flertar com Cora. Ela aprecia sua companhia, mas a amizade chega ao fim quando, numa noite, Bricker aparece sem ser convidado em seu quarto, o que termina em uma briga com Robert, que chega de surpresa, porque lógico. Robert e Cora passam algum tempo sem se falar, até que ele seja lembrado de seus erros do passado e volte atrás, mas o mais interessante sobre essa história é que Cora, antes a mulher à sombra do marido, mostra que é muito mais do que uma mulher preocupada com roupas e criadagem, ou o cardápio do jantar. Ela é uma mulher interessante e inteligente; algo que Robert, depois de tantos anos, veio a esquecer. Cora passa a ganhar mais autonomia dentro do próprio casamento; o que às vezes incomoda o marido, mas que lhe dá cada vez mais certeza e segurança sobre seu valor. À medida que se encaminha para o seu final, a série começa a traçar o desfecho de seus personagens; e o de Cora é assim: seguro, confiante, bonito. Ainda que não seja minha favorita, a quinta temporada é um lembrete do por quê gostamos tanto de Downton Abbey e porque somos tão apaixonados por todos aqueles personagens – o que, inevitavelmente, nos faz lamentar o iminente fim. É nessa temporada, ainda, que Rose e Atticus se conhecem, talvez o casal mais adorável da série; que aparecem pouco, muito pouco depois de casados, mas se podemos ter alguma certeza é a de que, independente de onde estejam, Rose e Atticus estarão felizes.

6) SEXTA TEMPORADA

É a última temporada, aquela em que todos os arcos começam a ser concluídos e todos os episódios passam a ter um gostinho de despedida. Por ser a única que tenho baixada – na época que assisti, ela ainda não tinha chegado na Netflix – foi, também, a que assisti mais vezes: qualquer tempinho era motivo para dar um passeio por aquelas histórias, caminhar com aquelas pessoas e relembrar que apesar de todos os pesares, fica tudo bem. E é lindo. A série não se esquiva do que acontece de ruim, daquilo que é difícil, das personalidades complexas demais com as quais está lidando, mas não utiliza isso como uma desculpa para transformar a si mesma numa série séria & sombria; ela, afinal, nunca teve a pretensão de ser séria, menos ainda sombria (Downton Abbey sombria kkk). Assim, mesmo os dramas mais complicados ganham desfechos satisfatórios e são encarados de forma mais natural, quase como se a arte fosse, de fato, um retrato de nossas próprias vidas (exceto que não somos nobres da Inglaterra do século XX, mas bear with me).

Não é por acaso que, embora eu goste muito de muitas coisas nessa temporada, uma das minhas cenas favoritas seja, justamente, uma cena em que personagens são finalmente confrontados pelos seus próprios demônios e tentam se redimir, não pedindo desculpas por ser quem são, mas numa tentativa de se tornarem versões melhores de si mesmos. Mary erra demais. Mary erra tanto que desgraça a vida da própria irmã, que teve literalmente um único momento de felicidade na vida inteira. Que chegou tão, tão perto de ser feliz, e de repente, Mary lhe tirara aquilo, do jeito mais mesquinho possível. É uma cena dolorosa porque a gente vê quanto o ser humano pode ser feio, pequeno e complexo do jeito mais horrível possível, e é exatamente sobre isso que Tom fala pra Mary, naquela que é uma das minhas cenas favoritas da série inteira. Então ela pode ser mesmo uma pessoa horrível, Mary pensa. E não podemos todos? Mary destrói Edith porque ela é, sim, uma pessoa horrível, como a própria Edith foi uma pessoa horrível quando, lá na primeira temporada, expôs o segredo de Mary sobre a morte de Mr. Pamuk para a embaixada Turca, como eu fui uma pessoa horrível quando me ressenti pelas conquistas de pessoas que amo profundamente, mas ainda assim fui incapaz de não pensar “por que ela e não eu?”. Gosto de como Mary não é condenada por ser uma pessoa horrível, mas encontra uma forma de subverter essa narrativa e se tornar uma pessoa melhor, por tentar consertar as coisas, ainda que não se possa desfazer o passado; o que todos deveríamos fazer, mas poucos são realmente capazes de concretizar. Gosto de como Edith, contrariando todas as expectativas, se torna marquesa, é aceita por ser quem é e com Marigold à tiracolo, tem o casamento digno da pessoa maravilhosa que se tornou.

E gosto de como os criados também ganham seus momentos de alegria. Gosto de como Thomas encontra uma luz depois de tanta tristeza. De como Anna finalmente consegue realizar o desejo de ser mãe. De como Gwen aparece de novo e janta com seus antigos patrões, na casa que um dia ela limpou e trocou os lençóis da cama. Como mesmo após se casar, Rose continua sendo a mulher expansiva e sorridente de sempre, e como Atticus continua encantado pela sua luz, rindo como bobo o tempo inteiro. De como Mr. Molesley se realiza como professor. Como Daisy se torna uma mulher iluminada, consciente, com um futuro não mais limitado à cozinha. Como Mrs. Hughes e Mr. Carson se casam, são felizes juntos. Na última cena, todos os personagens se unem e cantam juntos, numa cena linda, linda de morrer, deixando todos os corações aquecidos. É o fim, até que se prove o contrário, e é o fim que sempre sonhamos; como um quentinho no coração e o gosto doce do chocolate. Amém.

QUERIDO DIÁRIO

Diário da semana #2: Uma semana ruim

Todo mundo tem dias – às vezes semanas, meses, anos; enfim, vocês entenderam – ruins. Eles podem chegar de forma inesperada e, sem pedir licença, começam a fazer estrago. Você acorda se sentindo meio estranha, mas sem saber exatamente o por quê, até que de repente, e não mais que de repente, entende: um dia ruim. Simples assim. Outras vezes, esses dias simplesmente se acomodam no meio de toda a desgraça possível, como uma consequência inevitável e insuportável, que chega de mala e cuia sem nem pedir desculpas por estar ali. Dias ruins são sempre muito mal educados e inconvenientes, como parentes distantes que não cansam de fazer perguntas mal educadas e igualmente inconvenientes sobre o futuro, os namorados e casamentos que jamais irão acontecer; mas assim como parentes, eles também têm data e hora certa para irem embora – a única diferença é que nós nunca sabemos exatamente quando isso vai acontecer.

Eu tive uma semana bastante ruim, do tipo que não acontecia desde maio ou abril, quando literalmente precisei de toda a ajuda possível para ser salva de mim mesma. Olhando agora, esses dias parecem ironicamente distantes, mas eu ainda lembro como era ter tanto pra fazer quando eu sequer conseguia levantar da cama de manhã. Era o auge do semestre, as coisas não podiam estar piores em casa e eu não tinha a menor ideia do que fazer com a minha vida. As coisas não estão tão horríveis agora, mas não foi preciso muito esforço para que o pouco controle que eu tinha adquirido nas férias fosse perdido novamente. E eu me sentisse perdida de novo. Era só um dia ruim, que de repente se transformou em uma semana inteira, e daí eu estava jogando a toalha, me enfiando embaixo das cobertas ao meio-dia, decidida a cancelar meu dia porque eu não ia mesmo conseguir escrever aquele texto a tempo, não ia mesmo terminar aquela crítica, aquela resenha, aquele formulário do edital, eu não ia postar aquela papelada nos Correios; forçar a barra não ia ajudar em absolutamente nada.

Minha rotina é bastante confusa para a maioria das pessoas, o que não ajuda em nada quando tento justificar por que diabos estou arrancando a calcinha pela cabeça de novo. A maior parte do meu tempo é gasto na frente do computador, que é onde escrevo, preencho formulários e planilhas, converso com pessoas, faço reuniões, leio, assisto e tenho acesso à maior parte do material que preciso para escrever, e mesmo o tempo que passo fora de casa, tendo aulas ou resolvendo coisas na rua, tem se tornado cada vez menor. Para quem me vê sentada no meu quarto, com fone de ouvido, de frente para o computador, aquilo se parece bem pouco com o que nos ensinaram sobre o conceito de trabalho – que em qualquer outra circunstância, significa passar várias horas fora de casa, bater ponto cinco vezes por semana em um horário fixo e receber um salário “x” no fim do mês. O fato de todos os meus trabalhos convencionais terem sido realizados por longas horas na frente de um computador que não era meu não altera absolutamente nada nesse cenário: o importante é não estar em casa, não o fato de você encarar ambas as situações como um compromisso real oficial, que possui prazos que precisam ser respeitados e obrigações com as quais você precisa arcar.

O fato de estar em uma semana ruim torna tudo ainda pior, porque não adianta ter todos os prazos colados num mural bem na sua frente, tampouco uma lista de tarefas para cada dia anotada em um caderno que praticamente é uma extensão de você mesma. Você não vai conseguir fazer nada; ou vai fazer muito pouco, o que é tão ruim quanto. Eu entendo a noção de compromisso, eu entendo minhas obrigações e tento respeitá-las ao máximo, mesmo que às vezes isso signifique fazer hora extra, mas às vezes é preciso reconhecer a derrota e, oh boy, essa semana foi uma derrota.

A começar pelas minhas aulas, que começaram do pior jeito possível: não começando de jeito nenhum. Estou naquele período conhecido na Universidade de Brasília – em especial, pelas pessoas do Audiovisual – como o Bloco, um bloco (dã) de disciplinas práticas que incluem, entre outras coisas, disciplinas como direção, produção, fotografia e edição; em sua, o que a gente vai fazer quando sair dali com um diploma na mão; ao menos, em tese. Semestre passado, peguei a primeira rodada do Bloco (batizada de Bloco I), matérias essencialmente práticas, mas que ainda exigiam presença como uma disciplina teórica qualquer. É uma realidade completamente diferente do Bloco II, que é onde estou agora, onde no máximo temos reuniões esporádicas com os professores enquanto produzimos um curta-metragem por conta própria, que é o que temos que entregar no fim do semestre letivo. Aproveitei o horário mais flexível para pegar uma cadeira de Documentário às terças e quintas pela manhã, numa tentativa de manter uma rotina, mas como colocou uma colega numa conversa que tivemos antes do início das aulas, tanto tempo livre é um convite à vadiagem – tamanha vadiagem que sequer tivemos aula na segunda-feira, quiçá alguma informação sobre qualquer reunião. Além disso, a disciplina de Documentário, que seria minha âncora no meio de um semestre sem qualquer tipo de rotina, não tinha professor definido até o fechamento desta edição, o que significa a completa ausência de aulas até segunda ordem.

A última semana foi bastante instável e a falta de uma rotina e informações fizeram com que as coisas saíssem um pouco mais do controle dessa vez. Passei a maior parte da segunda-feira em casa, coçando meu saco imaginário, esperando uma resposta, uma mensagem, qualquer coisa que me tirasse daquele limbo escuro de desorganização, mas conseguindo vários nadas. Tentei adiantar alguma coisa, qualquer coisa, numa tentativa de matar o tempo e excluir alguma tarefa da minha lista, mas falhei miseravelmente em todas elas. Minha crítica continua interminável, assim como a resenha que ainda nem comecei, e não confirmo nem nego que a essa altura, meu único desejo era matar o Selton Mello e a Clare Vanderpool com minhas próprias mãos por fazerem trabalhos tão incríveis e tão, tão bons. Eu estou completamente apaixonada e é uma verdade universalmente conhecida que é muito mais difícil falar sobre aquilo que a gente ama do que sobre aquilo que odeia. Era certo que nenhum coelho sairia daquele mato – pelo menos, não nesse cenário de estresse e frustração -, de modo que fui até os Correios buscar um pequeno envelope que me aguardava na agência desde a semana anterior, mas que só na segunda-feira tive tempo para, de fato, buscá-lo. O envelope em questão era o convite do casamento da minha amiga Dedê, essa pessoa que nunca nem vi ao vivo e já amo profundamente, de um jeito totalmente inexplicável e especial. A gente se ama, simples assim. Abrir o convite foi como receber uma enxurrada de sentimentos e amor. Eu chorei de um jeito inesperado, mas não surpreendente, porque me senti muito sortuda e especial por fazer parte desse momento, e mal posso esperar para estar ali, celebrando esse momento. A gente vai casar (de novo!), dá pra acreditar?

Na volta, eu, minha mãe, minha vó e JG passamos no comércio perto de casa para comprar algumas coisas; minha avó precisava de um chuveiro novo, minha mãe de algum remédio, e eu e JG ficamos vendo pincéis da loja de tintas. Ele, que sonha em ser pintor, ficou completamente obcecado, e só topou sair de lá bem mais tarde, com alguma resistência. Minha avó nos ofereceu açaí na sequência, o que JG prontamente aceitou. Dividimos um pequeno potinho, mas foi suficiente para matar a vontade de algo gelado e doce no calor da tarde. Terminamos em casa, sentados juntos no sofá, como sempre fazemos, e antes que o açaí chegasse ao fim, JG se aconchegou no meu colo e pegou no sono. À noite, decidi que merecia uma pizza, porque pizza fixes everything. Não deu certo, mas valeu a tentativa.

Na terça, acordei com a garganta doendo, o que me pareceu um sinal de que talvez eu devesse me obrigar a parar um pouquinho e prestar atenção no que estava acontecendo com minha mente, o que estava me deixando tão ansiosa e triste, e como isso afetava meu corpo. Aproveitei que não teria aula e passei a manhã inteira deitada na cama de roupão até pegar no sono de novo. Às vezes, é realmente preciso forçar a barra para que as coisas aconteçam, para que o corpo não se entregue de vez a uma mente que implora de joelhos que você fique mais um pouco na cama, que você deixe de escrever aquele texto, que faltar um dia não vai te reprovar, até que você deixa toda a sua vida de lado e não faz a menor ideia de como isso aconteceu. Eu já vi isso acontecer com pessoas próximas, eu sei o que a depressão é capaz de fazer com uma pessoa, e sendo desde sempre a pessoa que se cobra demais e que sonha tão alto, me permitir parar por um dia ou dois é quase como brincar com fogo; eventualmente, alguém irá se queimar. Mas parar também é necessário. Não dá pra lidar com uma vida que já saiu há tanto tempo dos trilhos que já criou raízes em todo lugar, menos onde deveria; mas isso só acontece quando a gente não se permite respirar, quando tenta acelerar demais, quando deixa de respeitar o ritmo natural da vida. A Isa Sinay escreveu algum tempo atrás, em uma newsletter, algo com o qual me identifico profundamente – embora não seja judia, tampouco criada para receber prêmios nobéis – e eu sempre retorno a esse texto quando preciso lembrar que é preciso ser gentil comigo mesma e interromper esse fluxo de atividades, cobranças e prazos infinitos.

“Eu sou muito dura comigo mesma. Terrivelmente. Eu chego ao ponto de ser cruel. Culpem meu signo, minha profissão, minha mãe, aquilo que o Jonathan Safran Foer chamou de “criar crianças judias para serem prêmios nobéis” ou tudo isso junto. Mas a verdade é que eu me cobro não só com uma expectativa imensa, mas com uma violência furiosa. (…) Então a ideia de me cobrir com uma camada de amor, embora bem menos simples do que pareça na prática, foi quase iluminadora. Não que eu tenha tido uma epifania e de repente, em uma aula de yoga, vou começar a fazer o que anos de análise não conseguiram conquistar. Eu ainda vou ser exigente e crítica e cruel comigo mesma muitas vezes, mas o lembrete de que eu não precisava ser fez algo por mim. Eu posso cuidar de mim mesma e me circundar com um espaço gostoso e enfrentar o mundo por trás dessa camada. Para alguém como eu é um exercício no qual falharei muitas vezes, mas que tem funcionado nos últimos dias. Eu me permiti ser acolhida, pelos outros e por mim mesma.”

Eu volto a essa newsletter porque ela me lembra, de um jeito terrivelmente honesto, que por mais crítica e exigente que eu seja comigo mesma, por mais que eu me cobre o tempo inteiro para ser a filha perfeita, a aluna perfeita, a dona de site perfeita, a escritora perfeita, em níveis que jamais estiveram próximos de serem saudáveis, eu não preciso ser essa pessoa o tempo todo. Se me desvencilhar completamente dela é impossível, porque ainda é algo que me traz uma imensa satisfação na maior parte do tempo, é importante traçar linhas e entender quais são os meus limites, justamente para evitar que aquilo que é satisfatório e prazeroso, de repente se transforme num fardo grande demais para carregar. O mundo já é um lugar horrível demais, terrível demais para eu tornar as coisas ainda mais difíceis. Às vezes, a gente só precisa de um carinho, um episódio de uma série conforto, uma comida quentinha e gostosa, como um abraço por dentro. Na tarde daquela mesma terça-feira, tive uma reunião com alguns professores, que esclareceram como as coisas vão funcionar esse semestre, e foi um alívio imenso. Aproveitei para conversar com a diretora do filme que vou produzir e esboçarmos alguns planos, mas não era nada formal e assim que entrei no carro, esqueci tudo que havíamos conversado.

Quarta e quinta foram dias completamente aleatórios em que eu não fiz nada, absolutamente nada, além de passar o dia na frente da televisão ou do computador; e, ironicamente, foram os dois dias que me senti mais perdida e quando as coisas realmente começaram a descer ladeira abaixo. Eu tive crises de ansiedade, eu voltei a sentir meu braço doer, eu voltei a chorar de tanto estresse e precisar de toda a ajuda possível para me acalmar, e foi horrível, como sempre é. Aconteceram coisas, é claro, e naturalmente essas coisas se juntaram à outras, e outras e mais outras, transformando-as numa bola de neve tão grande que passou por cima de mim e me levou junto com elas; mas o mais importante é que tudo já estava ali, como um monstro à espreita, esperando o momento de dar o bote; como as quedas que a gente sabe que vai acontecer, mas nunca percebe o suficiente para evitar. Na sexta, aproveitei e conversei sobre tudo isso com minha psicóloga, e foi uma sessão bastante esclarecedora, embora não o suficiente para que eu largasse esse peso de imediato. Ainda não está tudo bem, mas vai ficar. Ainda na sexta, tive uma reunião com meu professor de roteiro, e foi incrível poder finalmente conversar com alguém e ter um feedback profissional e realista não só sobre meu projeto, mas como funciona o vasto universo dos editais voltados para o financiamento de obras audiovisuais. De vez em quando, tenho realmente a impressão de que fazer cinema no Brasil parece um troço cada vez mais impossível, sobretudo se você é jovem, muito jovem e não tem muita experiência ou uma produtora para bancar suas ambições e dar alguma segurança para quem investe em você. Segurança é o que o Estado quer quando investe em cultura; ele precisa ter a garantia de que aquele filme vai sair e que você não vai só usar o dinheiro pra beber cerveja e sumir do mapa depois. É por isso que pessoas como o Selton Mello (eu realmente estou brava com o Selton Mello, vocês me perdoem) ganham dinheiro do Estado para fazerem filmes e estudantes universitários não. E eu entendo, por mais triste e restrito que seja.

O bom disso tudo é que a gente sabe onde está amarrando o jegue, e que provavelmente não vai dar em nada, absolutamente nada, mas vai ser uma experiência interessante; fora que vamos ter um projeto pronto. Quando surgirem outras oportunidades, basta enviar de novo, de novo e de novo até o dia que nos aceitarem. O cinema, afinal de contas, também é feito de tempo e alguma paciência.

No sábado, fizemos uma festa surpresa pro meu primo Peu, que é surdo, e morou mais ou menos dois anos no Rio Grande do Sul antes de voltar para Brasília. É uma história complicada e não sou eu quem vou contá-la, mas no tempo que passou lá, ele sentiu muita falta dos amigos e da família, de modo que parecia uma excelente ideia surpreendê-lo esse ano. A única prova que eu tive é que minha família é muito amadora nessa coisa de fazer festas surpresas (pensem em luzes sendo apagadas em cima da hora, em um milhão de carros estacionados na frente da casa, num PULA-PULA – !!!!!!! – localizado bem na entrada; festas surpresas definitivamente não são o nosso forte), mas foi uma comemoração linda e especial, e por mais que eu não tenha me sentido muito bem o tempo inteiro, foi bom sair um pouco de casa, vestir uma roupa bonita e ouvir as pessoas dizerem que aquela era, de fato, uma roupa muito bonita, que eu estava especialmente bela naquela noite. Não saímos de lá muito tarde, mas ficamos o suficiente para nos divertirmos, e eu ainda voltei para casa carregando dois livros encontrados por acaso na biblioteca da minha tia, em edições tão velhas que quando estava saindo com eles debaixo do braço, minha prima Bia perguntou se agora eu andava carregando uma Bíblia por aí: A Montanha Mágica, do Thomas Mann; e Quando o Espiritual Domina, da Simone de Beauvoir. Comecei a leitura do segundo ainda na casa da minha tia e fui obrigada a abandonar porque realmente precisávamos ir embora.

Acordei hoje com a garganta realmente inflamada, embora tenha preferido fingir que não, muito obrigada. Acabei não conseguindo ver meu pai – em partes, porque estava doente e não tinha o menor ânimo de sair de casa, mas também porque não me sentiria confortável naquela situação. Um dos motivos que me deixaram ansiosa nessa última semana foi o fato de que, muito embora eu quisesse passar o dia dos pais ao lado do mai pai, não queria fazê-lo num ambiente que pra mim é tão pouco familiar, e só a perspectiva de estar cercada por pessoas que me amam, mas que não me conhecem muito bem, parecia um filme de terror. Me senti bem menos culpada por não ter ido do que imaginei, mas passei toda a tarde pensando no que teria acontecido se eu tivesse tido um pouquinho mais de força de vontade e realmente me esforçado para ir ao invés de acordar cedo e passar horas e horas olhando pro teto, só para depois me desculpar por ter perdido a hora. Com meu padrasto, por outro lado, foi um momento realmente importante, porque pela primeira vez fui capaz de dizer que era ele a minha figura paterna, e embora tenhamos sempre sabido disso, acho que é diferente quando falamos as coisas em voz alta. Mais tarde, Guilherme me chamou para almoçar na casa da vó dele, e embora uma parte de mim quisesse muito ir, preferi também não fazê-lo: se eu não estaria com meu pai, eu não estaria em lugar nenhum além da minha casa. Passei o resto do dia alternando entre o computador e cochilos clandestinos, até a noite, quando o novo episódio de Game of Thrones deu o dia oficialmente por encerrado.


MÚSICA DA SEMANA

Acho que a grande questão da minha vida no momento é: será que algum dia vou superar Melodrama? Eu realmente acredito que não. O que a Lorde fez com esse álbum é um troço de outro mundo e eu realmente espero que o encanto jamais se perca; que ele mude, mas não se perca jamais. “Green Light” foi o primeiro single do álbum, mas à época de seu lançamento eu estava completamente maluca (estar completamente maluca: cada vez mais um estado constante da minha pessoa), o que significa que só quando o hype da música, e principalmente do clipe, já haviam passado foi que eu finalmente descobri o quanto a música era maravilhosa e como o clipe construía toda a vibe do álbum, que é ambientado numa festa, como a própria Lorde – e todas as pessoas da internet – já disse um milhão de vezes. Além disso, embora “Perfect Places” seja um clipe mais complexo, acho que “Green Light” é mais bem sucedido, o que prova meu ponto de que nem só de grandes firulas são feitas boas produções audiovisuais.


LUKINHO DA SEMANA

Uma das coisas que mais gosto sobre essa seção é que ela me lembra o quanto eu gostei de moda algum tempo atrás e como um dia sonhei em trabalhar com isso. Essa não é mais uma ambição, sobretudo quando penso na selva que a indústria da moda é (não que a do cinema não seja, mas bear with me), mas gosto de brincar de vez em quando, fingir que entendo de alguma coisa e compartilhar aquilo que visto sem muita pretensão, que é exatamente o que tenho feito aqui. Dessa vez, sem as luzes do provador, o que dificulta bastante a visibilidade, mas paciência. Esse foi o lukinho que usei na festa do meu primo, o mesmo que todas as pessoas elogiaram, ainda que seja uma combinação bem simples de blusinha preta de frio, saia jeans, meia calça preta e oxfords. O calor voltou oficialmente à Brasília e a única coisa que tem confortado meu coração é o fato de que, a partir de agora, cada vez mais vou poder usar minhas saias; e eu estava morrendo de saudades delas.


O QUE ESCREVI ESSA SEMANA

• Na segunda, respondi o meme das 50 perguntas (48, na realidade), um oferecimento de menina Manu, que salvou minha vida e o BEDA mais uma vez.

• Na terça, fiz uma breve lista sobre alguns dos filmes que assisti nos últimos meses e compartilhei minha opinião geral sobre cada um deles.

• Na quarta aproveitei para falar sobre Downton Abbey, como sugestão da Michas, que também acabou salvando o dia. Não era um meme programado, mas me diverti um bocado enquanto respondia à perguntas sobre uma das minhas séries favoritas dos últimos tempos.

• Na quinta, escrevi sobre minha relação com a cidade natal da minha mãe e do meu avô, sobre acreditar no passado, enxergar histórias em todos os lugares, encontrar raízes e se sentir em casa.

• Na sexta, exausta e descabelada, respondi outro meme, porque não tinha a menor condição de fazer qualquer outra coisa. Dessa vez, fui inspirada pela Natália que, por sua vez, tirou as perguntas de uma tag do Buzzfeed.

• Já no sábado, escrevi uma pequena nota de agradecimento, inspirada pela newsletter Thank You Notes, que envia para sua caixa de entrada notas de agradecimento de várias pessoas ao redor do mundo.


O QUE ANDEI LENDO

• A Manu escreveu sobre suas aventuras no transporte público e ilustrou todo o texto com gifs da Violet Crawley, também conhecida como a melhor personagem que esse blog já viu.

• A Tati escreveu sobre se reconhecer escritora, um texto muito, muito lindo, que conversou muito comigo também.

• A Jazz, que escreve no Valkirias, mas também mantém um blog, escreveu sobre A Mulher Calada, livro cuja autora utiliza o mito Sylvia Plath para discutir os limites de uma biografia; quantas versões podem existir para uma mesma história?; em quem devemos acreditar, se é que devemos acreditar em alguém?; a escrita é movida por interesses particulares? Achei o texto muito esclarecedor e fiquei com bastante vontade de ler o livro, muito embora isso provavelmente demore a acontecer.

• A Manu também escreveu sobre Mary Crawley, e como eu jamais me canso de falar sobre Downton Abbey, não podia deixar de compartilhar um texto que existe justamente para defender uma das melhores personagens já vistas na televisão.

• Não é exatamente uma novidade que sou apaixonada pelos textos da Revista Cinética, e amo especialmente os da Andrea Ormond. Essa semana, ela escreveu sobre Pitanga, documentário sobre o Antônio Pitanga, dirigido pela sua filha, Camila Pitanga, atriz e pessoa maravilhosa que mora nos nossos corações. Ainda não assisti ao filme, mas o texto da Andrea é uma preciosidade, dessas que te convencem sem muito esforço.

Por fim, no Headcanons, saiu o texto da Sofia (que também escreve no Valkirias, nossa bolha é realmente maravilhosa) sobre Gossip Girl e o fato inegável de que todos aqueles personagens não são héteros nem aqui, nem na China.

(Por algum motivo, perdi a maior parte dos textos que salvei ao longo da semana para compartilhar, de modo que peço desculpas à Michas e à Mia, que foram as maiores prejudicadas nessa palha assada. Por favor, não deixem de prestigiá-las.)

MEMES

31 questões aleatórias

Esse não era o texto que eu tinha programado para hoje. Esse sequer é um texto, o que já faz cair por terra qualquer possibilidade de termos algo realmente programado, agendado, conforme deveria acontecer, mas não acontece. Estou exausta, descabelada, uma visão bastante perturbadora de mim mesma, de modo que responder um meme me pareceu a única solução para não deixar a peteca cair de vez. Eu estou tentando. Tenham paciência comigo.

O meme de hoje é um oferecimento da Natália, que agora tem o seu nome registrado no meu coração, no espaço reservado ao seleto grupo de pessoas que salvaram minha vida em meio à ciladas blogueiras, risos.

1. Você gosta de coentro ou acha que tem gosto de sabonete?
Em um teste do BuzzFeed para saber quão fresco você é pra comer, eu sou a pessoa que marcou apenas um item, que era tofu, e mesmo assim na dúvida, porque na verdade eu nunca comi tofu e não me oporia a experimentar qualquer hora dessas. Eu comeria tofu da mesma forma que como coentro e adoro, e não tenho qualquer problema com isso; na realidade, acho engraçado quem tem e acha que ele tem gosto de… sabonete? Vocês realmente sabem como é o gosto de sabonete? Eu sei. Não tem nada a ver com coentro.

2. O que você acha de áudios do WhatsApp?
Maravilhosos na maior parte do tempo. Inconvenientes em todo o resto.

3. Você também comia o chocolate da Turma da Mônica pelas bordinhas?
De jeito nenhum.

4. Qual é a melhor consoante do alfabeto?
Boa pergunta.  

5. Qual é a primeira rede social que você vê de manhã?
Instagram, porque é a única que tenho no meu celular. Depois checo meus e-mails, o WhatsApp e o chat do Facebook, e só depois que tomo café da manhã é que pulo pro computador e confiro todo o resto.

6. Você acha que existe alguma bala melhor que 7 Belo?
Provavelmente, só não vou lembrar qual agora.

7. Que cor você acha menos confiável?
Laranja, porque é a cor favorita dos publicitários ambiciosos.

8. Qual foi o último filme que você viu e odiou?
Acho que no início desse ano, quando assisti Aliados e foi uma morte horrível. Confesso que esperava bastante de um filme com Marion Cotillard, Brad Pitt e Jared Harris no elenco, ambientado no pós-Segunda Guerra Mundial e que trazia uma mulher como a grande suspeita de espionagem, mas eu me senti desconfortável em toda a sessão, o que foi coroado por aquele final tenebroso, que só faz sentido quando pensamos que a história não faz nenhum sentido at all.

9. Qual animal parece mais simpático, um pato ou um golfinho?
Os dois, não me façam escolher.

10. Toddy ou Nescau?
Nenhum.

11. Você acha que bebês conversam uns com os outros?
Conversar, conversar mesmo, de forma consciente, como naqueles filmes sobre bebês falantes do século passado, não. Mas eu acredito que eles tenham uma forma muito própria de se comunicar entre si, do mesmo modo que se comunicam com a gente – com choro, grunhidos, esse tipo de coisa.

12. Sabia que todo mundo é feito de poeira de estrelas?
Sabia. Acho poético pra caramba.

13. Ouro Branco ou Sonho de Valsa?
Sonho de Valsa, mas só porque não tem outra opção.

14. Qual era seu desenho favorito na infância?
Pokémon, acho, embora tenha tido fases distintas ao longo toda infância. Mas Pokémon foi realmente uma febre na minha vida, então acho que ele acabou sendo meu favorito.

15. Que série você jamais reveria?
Land Girls. A ideia da série, na realidade, é muito boa: contar a história de mulheres que cuidavam das fazendas e do trabalho anteriormente feitos por homens, enquanto seus maridos, irmãos, pais, etc, estavam lutando na guerra. Seria uma série maravilhosa, mas o ritmo dela é péssimo, os dramas são realmente desnecessários, e a trama é realmente cheia de pequenos problemas que, no todo, se tornam quase insuportáveis.

16. Qual personagem do Harry Potter você menos gosta?
Crabbe. Goyle. Tanto faz.

17. Qual é sua opinião sobre barrinhas de cereal?
Na época do colégio, sempre tinha uma dessas barrinhas na bolsa e gostava bastante, mas o costume me fez enjoar da maioria delas, de modo que hoje só como as de banana e olhe lá.

18. Com quem você dividiria um Bis?
Com meu namorado ou alguma amiga, provavelmente.

19. O que você faria se achasse R$ 50 na rua?
Gente, kkk, a vida anda tão ridícula que acho que se achasse cinquenta golpinhos na rua eu realmente ia parar por um minuto e, depois de constatar que era realidade, ia começar a chorar compulsivamente e agradecer o universo pela graça alcançada. Depois, provavelmente gastaria o dinheiro em comida, pois that’s how we roll.

20. Quanto tempo uma comida precisa estar na geladeira para você considerar ela velha?
Depende. Algumas coisas duram mais que outras, então normalmente levo em consideração a aparência, o cheiro e, por fim, o gosto pra decidir se a comida está velha ou não.

21. Qual é seu número preferido?
Já tive vários, mas atualmente é o seis.

22. Qual é o aplicativo mais inútil do seu celular?
O Boomerang, porque não uso essa bosta nunca, seguido pelo VSCO, que só tenho por costume, mas raramente uso.

23. Quem você tiraria do elenco de “Friends” se fosse obrigado?
A maioria das pessoas que responderam essa pergunta responderam o Ross, e eu entendo, mas eu dificilmente o tiraria, porque acho que toda a narrativa dele com a Rachel, embora problemática, precisava acontecer de algum modo. Assim sendo, eu provavelmente tiraria algum personagem secundário, de preferência algum que não fizesse muita falta.

24. Você é contra ou a favor de comer macarrão com arroz?
Nem contra, nem a favor, cada um come do jeito que quiser #pas.

25. Qual foi a última vez que você precisou usar a Fórmula de Bhaskara?
No ensino médio (já faz 84 anos, etc).

26. Você acha que dá para morrer de overdose de rúcula?
Não mesmo.

27. Quanto tempo você levou para entender como funciona o Snapchat?
Pouquíssimo, e realmente queria entender qual era a dificuldade das pessoas em assimilarem o aplicativo. Acho  o insta stories bem mais difícil e bem menos instintivo, mas paciência, tem outros troféu.

28. Qual é sua opção favorita no restaurante por quilo?
Depende muito. Se for um restaurante por quilo com opção de massas, então elas provavelmente serão minhas opções favoritas. Quando não é o caso, acho que palmito e batata frita são as opções que nunca passam batido.

29. Você gosta de “Sorry” do Justin Bieber?
Demais, até hoje.

30. Você prefere passar muito frio ou muito calor?
Prefiro o frio ao calor, mas entre passar muito frio ou muito calor, prefiro passar muito calor.

31. Você está dormindo e sobe uma barata na sua cara. Você prefere continuar dormindo e nunca saber ou acordar e fazer alguma coisa?
Continuar dormindo e nunca saber. Se acordar, a única coisa que vou fazer é gritar, acordar a casa inteira e não dormir nunca mais, então é melhor manter a tranquilidade e não saber o que aconteceu. O que os olhos não veem, o coração não sente, risos.

COM AMOR

Formas de voltar para casa

De Brasília até Correntina percorre-se pouco mais de 530km; mais ou menos cinco horas se você estiver de carro, um pouco mais se estiver de ônibus. Não é uma viagem longa, tampouco cansativa, e não exige muito mais do que vontade e alguns trocados para ir até lá. Quando era pequena, qualquer feriado era motivo para sair de Brasília rumo à Correntina, e eu sempre gostei como, mesmo muito nova e impaciente, as coisas se moviam do lado de fora. De dia, o céu muito azul se desloca, acompanha, faz desenhos com suas nuvens brancas como algodão, enquanto a estrada, o cerrado e as imensas plantações que até hoje não sei bem do que é, são as únicas coisas no chão. Minha mãe sempre dizia para não olhar as árvores por muito tempo, nem tão fixamente; do contrário, eu poderia passar mal; mas eu desobedecia todas as vezes porque parecia injusto deixar aquela paisagem tão bonita passar batido. Eu imaginava quem morava ali, quem cuidava de tudo aquilo, se existiam pessoas, casas, vida depois daquelas pequenas estradas de chão feitas no meio do nada, e gostava de imaginar como seria morar ali, como seria estar tão distante de tudo. Na época, internet ainda era algo muito restrito, uma mordomia limitada aos moradores das grandes capitais, mas nem mesmo o telefone, uma coisa tão básica, parecia funcionar naquela terra de ninguém.

À noite, são as estrelas que acompanham tudo isso e iluminam a paisagem que, do contrário, desapareceria em meio à escuridão. O céu do interior é sempre mais bonito, mais limpo, é muito fácil enxergar as estrelas ali. Da última vez que viajamos, eu e Guilherme procuramos estrelas, constelações, satélites, e era possível ver tudo ali de baixo. Ao mesmo tempo, eu pensava em filmes de terror; espantalhos que acordavam no meio da noite em uma plantação qualquer e se alimentavam de viajantes desavisados, zumbis que passeavam sozinhos como aquele da abertura de The Walking Dead. Como seria viver em um mundo destruído pela praga? Como seria caminhar por aquelas estradas rumo a lugar nenhum? Como seria viver no meio de um apocalipse zumbi? Sempre lembro do Hershel, que morava no meio do nada e, por muito tempo, conseguiu manter a família afastada da realidade, mais ou menos alheia ao que acontecia fora da fazenda. Mas a que preço? Nunca disse que não tinha uma imaginação fértil, mas são esses pensamentos e essas histórias cabeludas que me confortam enquanto, pouco a pouco, me entrego ao sono.

Estar na estrada é diferente de chegar ao destino. Em Correntina não existem zumbis, não existem espantalhos assassinos, não existem celeiros lotados de monstros que comeriam meu cérebro na primeira oportunidade. Mas existem histórias. Boa parte dessas histórias são o que me motivam a voltar pra lá sempre que possível, a entrar em contato com minhas memórias, mas principalmente com um passado que não é diretamente meu. Eu sei que estou em casa muito antes de ver as luzes da cidade, muito antes de sequer entrar na rua Coronel Flores ou na casa dos meus avós, mas quando desço a ladeira de paralelepípedo e ouço o barulho do rio, é quando me lembro que boa parte da minha história começa ali. Mais de um século atrás, meu avô nascia naquela mesma cidade, e antes disso sua família – que eventualmente se tornaria minha – já habitava aquelas ruas, construíam suas próprias narrativas. Estamos em todos os lugares. Quando viajo de ônibus, só o fato de estar parada na rodoviária me lembra que tudo está carregado de história: antes de ser a rodoviária da cidade, aquele terreno pertenceu ao meu avô, e foi ele que o vendeu para a prefeitura da cidade muito, muito tempo atrás construir um lugar onde as pessoas pudessem embarcar e desembarcar de forma apropriada, e os ônibus não precisassem parar em lugares aleatórios no meio da cidade. Guilherme sempre brinca que meu avô era dono da cidade, porque nas histórias ele sempre conhece todo mundo e é dono de todos os lugares, mas isso não é verdade, muito embora ele de fato conhecesse muitas pessoas e fosse dono de muitos lugares.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que teve início a Primeira Guerra Mundial; dois acontecimentos que parecem muito, muito distantes, mas não tão distantes assim. Ele nasceu e cresceu na cidade, assim como seus irmãos e seus filhos depois dele, e não é difícil entender por quê ele sempre esteve tão presente, como ele conhecia tantas pessoas, como praticamente todos os moradores daquela pequena cidade no interior da Bahia dividiam algum tipo de parentesco com ele e, consequentemente, com todo o resto da família. Minha prima Renata costumava dizer que sempre que íamos pra Correntina, a gente descobria a existência de um novo parente, e é verdade. Se não fossem parentes legítimos, eram amigos suficientemente próximos para serem considerados parte da família; amigos dos meus avós que viram seus filhos crescerem e se tornarem amigos, brincarem nas mesmas ruas e das mesmas coisas até o dia que começaram a sair da cidade em busca de uma vida melhor e ter os próprios filhos. A minha geração não é tão próxima justamente porque somos fruto de outros lugares – Brasília, Salvador, Goiânia -; mesmo nas férias, era difícil forçar uma amizade que durava no máximo algumas semanas. Foi um laço que, inevitavelmente, se perdeu com o tempo, ainda que, daqui alguns anos, as únicas pessoas que vão se lembrar dessas histórias e dessas pessoas seremos nós. Eu tenho medo do esquecimento, eu tenho medo de pensar que meus filhos jamais vão conhecer meu avô, que tudo que eles vão saber sobre ele será a partir de memórias minhas e da minha mãe, e essas jamais terão o mesmo significado, porque não fazem parte daquilo que eles viveram. Mas tudo vai continuar ali, na cidade.

Meus avós se casaram na mesma igreja branca com detalhes azuis que fica em frente à praça, ao lado da antiga delegacia e do Hotel de Vivi, que há muito já não hospeda ninguém. Minha avó se casou de preto, porque esse era o único vestido de festa no seu armário, já com quase 30 anos, numa época em que mulheres da idade dela já eram consideradas velhas demais para o casamento. Tudo foi feito às pressas, no dia do aniversário dela; meu avô também já não era nenhum menino e os dois se conheceram de maneira inesperada, quando minha avó ainda não morava em Correntina e estava noiva de outro rapaz. Ela rompeu o noivado para se casar com meu avô e, cinquenta anos depois, os dois celebrariam bodas de ouro naquela mesma igreja – dessa vez, com minha vó usando um belo conjunto nude e dourado. Foi uma noite linda, que se estendeu madrugada adentro, numa imensa festa no hotel, e eu percebi o quanto minha família era importante e amada na cidade. Eu não conhecia aquelas pessoas, muitas delas também não me conheciam, mas todos estavam ali pelo mesmo motivo: celebrar o amor de duas pessoas que eles amavam profundamente. Ao longo da festa, muitas dessas pessoas subiram no palco e homenagearam meus avós – com músicas, poesia, discursos e histórias – e a cada uma delas eu sentia mais e mais orgulho de pertencer a essa família, de ser fruto dessas narrativas.

A última vez que entrei naquela igreja foi em 2009, na missa de corpo presente do meu avô. Tudo aconteceu muito rápido e de repente; nós fomos todos pegos de surpresa. Ele não estava doente, na verdade ele não poderia estar melhor, até que, de repente, não estava mais. Eu nunca chorei tanto em toda a minha vida, ou sofri tanto e quis tanto poder voltar no tempo. Mas foi no meio da tristeza que, mais uma vez, senti orgulho por fazer parte dessa família, por não apenas ter conhecido um homem tão especial quanto o meu avô, mas por tê-lo chamado de avô e ouvido de volta ele me chamar de passarinho. Todas as pessoas que o amavam estavam ali mais uma vez, e elas relembraram histórias, choraram, disseram palavras lindas e nos encheram de… amor. Eu nunca me senti tão triste em toda a minha vida e, ainda assim, poucas vezes me senti tão amada e confortada. Nunca mais entrei naquela igreja – menos por uma decisão consciente, mais porque as oportunidades se tornaram cada vez mais escassas -, mas quando penso em casar no religioso, penso em fazê-lo lá, numa tentativa ambiciosa e meio ridícula de continuar a escrever essa história e ligar o passado a um presente que parece se importar cada vez menos com aqueles que vieram antes dele.

Enterrei meu avô no mesmo lugar em que meus bisavós estão enterrados, e acho que foi naquele momento que me dei conta da quantidade de histórias que moravam ali. Eu podia ou não assumir aquelas histórias como minhas, podia ou não dar continuidade à elas, mas elas continuariam existindo naquele lugar – nas ruas de paralelepípedo, nas casinhas coloridas com piso cimentado, nas ladeiras, tantas ladeiras, no rio que corta a cidade ao meio, nas pessoas, principalmente nas pessoas. São muitas histórias, e ainda que a vida tenha me ensinado que o tempo é capaz de apagar muitas coisas, talvez o esquecimento não seja a regra. Talvez exista uma maneira de preservar esse passado, talvez eu não seja a única preocupada em resgatar e registrar essas lembranças.

Faz muito tempo que não coloco meus pés em Correntina, mas cada vez que estou lá, é como estar novamente em casa. Gosto, especialmente, quando viajo à noite e de ônibus porque sempre chegamos de madrugada, num horário cedo demais para alguém estar acordado, mas tarde o suficiente para ninguém perambular pelas ruas, e é enquanto caminhamos no escuro e em silêncio até a casa da minha avó, que eu sinto a vida que existe ali e, inevitavelmente, me sinto muito viva também. Viva de um jeito idiota. Viva de um jeito que só a ideia de herança e passado e todas essas bobagens que ninguém se importa, mas eu me importo demais, te dá. Então eu penso no meu avô, e penso na minha mãe brincando com filhotes de ratos naquelas ruas, dando os primeiros beijos, indo às primeiras festas. Na minha avó brigando com minha tia avó que esse ano completou cem (!) anos e a cidade inteira comemorou junto com ela. Penso no rato que caiu do telhado em cima da cama quando minha avó estava grávida do seu primeiro filho e meu avô, que disse que aquilo obviamente não ia acontecer, ficou desesperado. Nos quartos que hoje têm vídeo game e computador, mas que um dia tiveram posteres do Roberto Carlos cobrindo as paredes. Na minha mãe correndo apavorada de uma vaca. Do meu avô distribuindo leite, cuidando com carinho do gado, admirando o canto do sabiá. Tudo isso é também uma parte de mim – indireta e distante, mas ainda assim. Eu, que brinquei naquelas ruas, que chorei olhando aquelas estrelas, que corri com galinhas, nadei naquele rio; que vivi coisas realmente horríveis, mas outras incríveis, especiais.

Quando era mais nova, me ressentia por não ter origens mais interessantes, por minha vida começar numa cidadezinha no interior da Bahia, pelo meu sobrenome não ser tão único e diferente. Hoje, no entanto, só posso dizer que estar ali é como estar de volta ao lar – e eu nunca senti tantas saudades desse lar.

QUERIDO DIÁRIO

Diário da semana #1: Fim de férias

Minhas aulas começam amanhã.

Não sei exatamente quando, muito menos como ou porquê, mas em algum momento da minha vida acadêmica (cof, cof) minhas férias – em especial as de julho – começaram a parecer cada vez menores e mais irrelevantes perto da quantidade absurda de trabalho e esforço que eu precisava fazer para sobreviver ao semestre letivo. São mais ou menos quatro meses de aulas para um de férias; o que, em tese, deveria ser tempo suficiente para colocar minha vida em ordem antes de começar tudo de novo, mas não é. Minhas férias começaram oficialmente no dia sete do mês passado, exatamente um mês atrás, e parece outra vida, é verdade, mas ao mesmo tempo tudo que eu queria era ter pelo menos mais uma semana livre pra me organizar, tentar colocar minha vida mais ou menos em ordem antes de ser obrigada a estar de volta e bater ponto na faculdade todo dia de manhã, cinco vezes por semana.

Já repeti tantas vezes que minhas férias tinham sido uma mentira, para absolutamente qualquer pessoa que estivesse disposta a ouvir, que a essa altura já deve ter enchido o saco, mas foi exatamente isso que aconteceu. Prometi que me daria a primeira semana de férias para descansar de verdade, olhar pro teto, assistir todas as séries e filmes do mundo, colocar minha vida mais ou menos no lugar e não pensar em nada relacionado a trabalho, faculdade ou editais de 500 páginas que ninguém quer ler, mas que a gente precisa, porque é assim que a banda (pelo menos a do cinema) toca no Brasil. Eu dormiria até meio-dia, tomaria café da manhã na hora do almoço, passaria horas na frente da televisão e do computador, ia ler uma milhão de livros, começaria uma rotina de exercícios, cuidaria da minha aparência e da minha saúde, voltaria a fotografar e cozinhar, sairia com meus amigos, passaria mais tempo com meu namorado; e faria todas as coisas que tinha vontade de fazer o ano inteiro, mas que nunca encontrava tempo disponível para, de fato, realizá-las. Era uma meta ambiciosa, e como acontece com a maior parte das metas ambiciosas feitas com base na promessa de tempo livre, estavam fadadas ao fracasso. Eu até podia voltar a cozinhar, sair, ler todos os livros do mundo, mas jamais conseguiria fazer todas essas coisas ao mesmo tempo, quem dirá todas as que me propus a fazer. Eu nem tinha tempo pra tudo isso. Um mês não é tanto tempo assim.

Entretanto, o que mais me incomodou nesse meio tempo foi o fato de que, embora eu tenha tentado fazer essas coisas por algum tempo, a culpa por fazê-las – ou por não fazer o que eu realmente deveria estar fazendo: trabalho, faculdade, projetos paralelos, etc etc – era imensa. Não existia satisfação naquele lugar onde o único sentimento presente era a culpa e a certeza de que eu deveria estar fazendo algo melhor com meu tempo. Em nenhum dia sequer eu consegui ficar totalmente sossegada e em paz, mesmo que sossegada e em paz fossem minhas únicas tarefas; eu falhei miseravelmente. O que diz muito sobre o peso que coloco em mim mesma. Na escola, eu era do tipo que chegava a sentir saudades da rotina e das aulas, ainda que não gostasse tanto assim das matérias ou do ambiente escolar, porque o fato de ter que levantar todos os dias pela manhã e ter um lugar pra ir me dava a sensação de que eu estava em movimento numa época em que eu não tanto assim para fazer. É uma relação completamente diferente da de hoje, especialmente porque agora sou completamente apaixonada pelo o que faço, e a necessidade de ser boa – de preferência, muito boa – e fazer as coisas acontecerem é muito maior. Às vezes, eu realmente sinto falta da rotina de aulas, trabalhos, gravações, mas na segunda-feira, quando me dei conta de que aquela era a última semana de férias, a única coisa que eu queria era, pelo amor de Deus, ter só mais alguns dias pra descansar. Ou tentar descansar, já que fazê-lo foi absolutamente impossível nas últimas quatro semanas. Começar tudo de novo, de novo (!), significaria voltar a ficar descabelada e maluca, e eu ainda não estou pronta para estar nesse estado tão cedo. Existe a satisfação nos dias de loucura, prazos, gravações, artigos e textos infinitos; eu sou maluca desse tanto. Mas até eu preciso admitir a hora de parar, até eu preciso reconhecer meus próprios limites.

Tenho pensado em todas essas coisas desde segunda-feira, e talvez por isso, a última semana foi um misto bastante honesto de sentimentos, com momentos muito bons e outros em que eu verdadeiramente só queria deitar na minha cama e esquecer da vida por duas horinhas, deixar que tudo pegasse fogo ao meu redor enquanto eu tirava um cochilo. Meu único desejo era ver tudo resolvido quando acordasse; que meu namorado pudesse tirar cópias e imprimir documentos, que minha mãe soubesse dirigir, que eu não precisasse escrever, que não precisasse dar conta de site ou filme para produzir. Naturalmente, nada disso ia acontecer, então só tentei ignorar, do jeito que deu, a pequena tragédia que era minha vida. Nem sempre deu certo, mas não se pode ter tudo. Segundas-feiras são dias horríveis sem que ninguém precise fazer esforço; ignorar parecia a única saída plausível. No final das contas, o dia passou sem maiores traumas e até consegui concluir algumas tarefas que vinham me tirando do sério há bastante tempo: tipo terminar um livro que preciso resenhar e escrever alguns parágrafos que estou devendo há 84 anos. Ainda era menos do que gostaria de ter feito, mas o conjunto parecia melhor do que nada.

Terça foi mais ou menos um repeteco da segunda, exceto que acordei cedo e consegui tomar café com minha mãe e minha vó. É sempre uma delícia estar com as duas à mesa, jogar conversa fora e dividir uma refeição gostosa, mas existe algo de especial no café da manhã, algo mais íntimo e, por isso mesmo, nossoÉ o momento em que a casa está vazia e só as mulheres estão acordadas, e nós dividimos uma xícara de café enquanto conversamos amenidades de pijama e roupão, antes de seguirmos com nossos afazeres. Eu estava de férias, de modo que minha única obrigação era deitar novamente na minha cama quentinha e assistir Downton Abbey até pegar no sono – o que talvez tenha acontecido, talvez não, mas não vem ao caso agora. Na quarta, tive consulta com meu psiquiatra, que além de prescrever a medicação como de costume, também sugeriu que eu fizesse aulas de dança para ocupar a mente e exercitar meu corpo menos como uma obrigação e mais por prazer. Não confirmo nem nego que estou seriamente pensando no assunto. Quinta, por sua vez, foi um dia completamente aleatório. Se saí pra dar uma volta com João Guilherme, foi muito.

Mas todo o marasmo da semana foi devidamente compensado na sexta, quando eu e Guilherme saímos para celebrar a formatura da Juli. Além dos meus primos e da minha tia, ela foi a única pessoa que eu efetivamente vi formar, e acompanhei praticamente todo o processo até chegar lá, desde quando fazíamos cursinho juntas até o dia em que ela finalmente pegou seu diploma. Por muito tempo, acreditei que jamais participaria desse momento e que no máximo ficaria sabendo pelas atualizações no Facebook e no Instagram, até que nós estávamos juntas de novo e tudo aconteceu como tinha que ser; como sempre soubemos que seria. E foi incrível. A colação foi linda e especial, como ela merecia, e era visível como aquele momento era importante e especial em níveis estratosféricos. Tinha vontade abraçá-la o tempo inteiro e não largar nunca mais, enfiar numa caixinha e literalmente levar pra casa, e pedir pelo amor de Deus que continuasse feliz daquele jeito pra sempre; e ainda que eu não estivesse no melhor dos dias, a noite foi tão divertida que lamentei a hora de voltar para casa.

O que não aconteceu de verdade. Ao invés de voltar pra casa, fui direto pra casa de Guilherme, onde passei a noite e só fui acordar por volta das 10h; finalmente um horário razoável. Ganhei café da manhã na cama, com direito a ovos mexidos, suco de morango e vários pãezinhos doces que fizeram meu sábado mais bonito. Só então peguei o celular e, ainda na cama, ouvi a mensagem de voz que a Juli tinha nos enviado na noite anterior, agradecendo pela presença, e mais uma vez foi como receber um boost de amor no meu coraçãozinho. Quando digo que tenho os melhores amigos do mundo é porque, de fato, tenho os melhores amigos do mundo.

No mesmo dia, tínhamos um churrasco pra ir. Mas aí eu tinha muito o que fazer, não estava realmente interessada e não me parecia justo sair de casa para ficar de cara feia, de modo que fiquei em casa e meu namorado seguiu sozinho. Passei a tarde escrevendo e assim fiquei até a hora de dormir. Já no domingo, passei a tarde no shopping com minha mãe, minha tia e minha avó. A intenção era comprar um presente pra Guilherme, que fez aniversário em junho (!), mas só agora consegui ir no shopping escolher algo com calma. Acabei o que queria com relativa facilidade, o que me permitiu passar o tempo que me restava fazendo compras com minha mãe. Foi ali que comprei o oxford vinho que citei aqui, além de uma camiseta e um brinco enorme que não parece muito minha cara, mas que me encantou o suficiente para valer à pena trazer pra casa (o fato dele custar só dez golpinhos ajudou um bocado, risos). Minha mãe também comprou um sapatinho com cara de tumblr, que se parece um oxford, mas ainda tem um saltinho que é ideal para parecer mais arrumada sem necessariamente estar desconfortável. É lindo, lindo de morrer, e arrisquei colocá-lo no pé ainda na loja, mesmo sabendo que minha mãe calça um ou dois números a menos que eu. Surpreendentemente, o sapato serviu em nós duas, o que significa que, de agora em diante, vamos protagonizar uma nova versão de Quatro Amigas e Um Jeans Viajante, só que agora com uma mãe e uma filha que dividem o mesmo sapato que, surpreendentemente, cabe nas duas.

Por fim, o domingo terminou como sempre terminam meus domingos desde a estreia da nova temporada de Game of Thrones: com um novo episódio. Depois de toda a história do vazamento, parecia ridículo esperar até domingo para assistir o episódio, mas eu gosto da folia o suficiente para esperar assim mesmo, e foi o que fiz. Gosto de ver as reações na internet, gosto de conversar com a Michas depois dos episódios, quando trocamos ideias e opiniões sobre os rumos da série, e gosto especialmente que meu domingo termine dessa forma. Embora ainda não tenha uma opinião formada sobre a temporada no geral, o último episódio me lembrou porque Game of Thrones foi uma revolução para a televisão, e porque continuo gostando tanto dessa história. Os problemas existem, mas também existe algo além, e no final das contas, acredito que seja isso que nos mantenha ligados domingo após domingo, numa época em que assistir algo na televisão parece coisa de outro mundo.


MÚSICA DA SEMANA

Depois de uma espera relativa (mentira, foi uma espera ridícula), a Lorde finalmente liberou o clipe de Perfect Places; que não por acaso, é minha música favorita de todo o álbum. Talvez por isso, o fato de finalmente ter um clipe para ilustrar essa música tenha sido ligeiramente decepcionante: é tudo muito lindo e bem feito, mas não exatamente o lindo e bem feito que idealizei por esse tempo todo. O fato de falar sobre lugares perfeitos em literalmente um paraíso à beira-mar me parece uma escolha óbvia e um pouco preguiçosa, especialmente para alguém como a Lorde, que sempre esteve longe de ser óbvia ou preguiçosa; mas ainda é uma produção impecável e muito bonita, que tem os seus momentos. O clipe, no entanto, me levou novamente para os últimos dias de junho e o início de julho, quando finalmente entrei de férias e estava literalmente em êxtase pelas minhas conquistas naquele semestre. Ironicamente, meu mood agora era muito diferente, mas foi incrível permitir que a música me levasse de volta àqueles dias e que eu ainda conseguisse encontrar motivos para sorrir no meio de tudo. What the fuck are perfect places, anyway?


LUKINHO DA SEMANA

Para minha absoluta tristeza, voltou a fazer sol em Brasília, o que significa que, mais dia menos dia, estaremos vivendo o terror e o horror (and the fucking melodrama) que é sobreviver aos meses de agosto e setembro na capital federal. Apesar do sol, o calor ainda não é exatamente uma realidade, de modo que ainda é possível sair de calça e jaquetinhas de couro durante o dia. Usei essa roupinha – sem calças, pela primeira vez no mês – para passear no shopping; o que me pareceu apropriado na hora que escolhi as peças, mas que me deixou na dúvida tão logo saí de casa. Sigo na dúvida se gosto da combinação ou não, mas fica a tentativa de registrá-lo. Meu futuro como blogueira de moda definitivamente está morto e enterrado.


O QUE ESCREVI ESSA SEMANA

Contrariando minhas expectativas, sobrevivemos sem grandes traumas à primeira semana de BEDA, o que, pra quem não durou nem uma semana no ano passado, é uma excelente notícia. A má notícia é que a parte mais difícil começa agora. Explico: a primeira semana é sempre encarada com festa; é quando temos textos agendados, quando conseguimos escrever com mais calma e pensar melhor naquilo que queremos publicar. Mas a partir da segunda semana, as coisas mudam radicalmente de figura. As ideias começam a se multiplicar de forma descontrolada, mas o tempo para desenvolvê-las se torna cada vez menor; o que, no meu caso, gera todo um ciclo de ansiedade que só piora à medida que o desafio avança e a vida real volta a bater na porta. Não quero transformar o blog numa obrigação, muito menos o desafio em algo além da diversão, e espero conseguir fazer isso por mais uma semana. Por enquanto, pra quem não viu ou perdeu alguma coisa, fica a lista daquilo que escrevi por esses dias.

Terça-feira foi o primeiro dia de BEDA, o que significa que abrimos os trabalhos por aqui com um texto introdutório. Era para falar sobre o desafio, mas acabei falando sobre ser uma pessoa overachiever e minha dificuldade em dizer “não”.

• Na quarta, compartilhei 25 fatos aleatórios sobre mim, num formato que já tinha utilizado em outro momento e achei bacana replicar – dessa vez com direito ao mesmo gif que a Manu usou num post parecidíssimo, porque obviamente somos a mesma pessoa.

• Na quinta, escrevi sobre a menina mais bonita da faculdade e como é importante nos vestirmos com aquilo que gostamos e sem se preocupar com a opinião dos outros ou em registrar por registrar.

• Na sexta, respondi o meme “Por que eu escrevo” e falei um pouco sobre minha relação com a escrita, meu processo criativo e o que tanto tenho feito no momento.

• No sábado, por fim, fiz um self image, que basicamente consiste em falar sobre a imagem que tenho de mim mesma. Tirei a ideia inicialmente da Milena, que faz os self images mais lindos do mundo inteiro, mas acabei curtindo bastante o resultado, mas principalmente o exercício de escrever sobre eu mesma de uma forma tão sincera e vulnerável. Foi um textinho que teve um feedback incrível e fiquei muito feliz que as pessoas tenham se inspirado e escrito sobre elas mesmas também.


O QUE ANDEI LENDO

• Falando em self image, a Rafinha escreveu um pra ela também, e o resultado é esse texto lindo e inspirador, como não poderia deixar de ser.

• Nunca li Watchmen, mas esse texto da Manu me fez verdadeiramente questionar que diabos eu fiz esse tempo todo que ainda não li essa história. Amo ser fisgada dessa forma por algo que não conheço, que na realidade conheço tão pouco sobre, mas ainda assim me convenço pela qualidade da escrita de uma pessoa. A Manu é 100% esse tipo de pessoa.

• A Michas escreveu um post fantástico sobre coisas absurdas que ela já ouviu na academia (e as respostas que ela gostaria de ter dado naquela situação), o que prova dois pontos: a) o ser humano definitivamente não trabalha com limites; e b) academia é um ambiente pavoroso.

• A Mia fez um top 6 HOMÃOS DO PASSADO, e se esse não for o melhor post do mundo para alegrar nossas vidinhas sem graça, eu não sei o que é.

• A Tati, por sua vez, falou sobre suas girl crushes ficcionais, e eu achei uma ideia tão boa, mas tão boa, que tenho pensado seriamente em fazer igual. A gente fala muito sobre crushes masculinas; é chegada a hora de valorizar as minas também.