THE ROAD SO FAR

Perfect places

Em 2013, quando o primeiro álbum da Lorde foi lançado, eu tinha 20 anos. Era meu segundo ou terceiro semestre na faculdade de comunicação e coisas que imediatamente me pareceram extraordinárias, começavam a adquirir contornos cada vez mais mundanos. Depois de me impressionar com as pessoas, as opiniões e a aparente transgressão – às vezes, genuína -, me sentir sozinha e ao mesmo tempo parte de algo maior, amar e odiar aquilo com toda a força do meu coraçãozinho pisciano sofredor, eu finalmente começava a enxergar aquelas pessoas e aquele lugar aparentemente perfeitos por uma perspectiva menos idealizada e mais realista. De repente, as roupas bonitas e os cabelos calculadamente descolados passaram a dar lugar a pessoas inseguras, vulneráveis, cada vez mais distantes daquela imagem inicial de força e subversão; ainda eram as mesmas pessoas que, nos corredores da faculdade, pareciam invencíveis, fortes e livres, mas tanto quanto qualquer outro, elas também queriam pertencer, também sentiam medo e eram jovens, muito jovens, embora suas palavras nem sempre as condenassem.

Eu observava tudo isso a uma distância mais ou menos segura: distante o suficiente para não me machucar, o mais perto possível para não deixar nada passar despercebido. Era uma posição privilegiada, superior até; mas curiosamente decepcionante – eu queria o glamour meio decadente, queria o horror das noites em claro, bêbada demais para entender o que estava acontecendo; e todo o trauma, o terror e a porra do melodrama. Eu estava segura e a salvo, mas eu era jovem, muito jovem, e não queria estar segura, muito menos a salvo. Diferente da adolescência, quando passava a maior parte do meu tempo trancada no quarto, ouvindo músicas de bandas que ninguém conhecia, assistindo filmes que ninguém além de mim ou dos meus pais achavam legais e lendo livros que ninguém mais gostava, aos vinte anos, eu já não me sentia tão melhor assim do que outras pessoas por fazer nenhuma dessas coisas, muito menos julgava quem caminhasse na contramão – pelo contrário, eu quase implorava que eles me dessem a mão e pelo amor de Deus, me deixassem caminhar (ou dançar) junto com eles. Era uma mudança sutil – e silenciosa – de comportamento, mas ainda fundamental, que me afastava cada vez mais do meu eu adolescente e me aproximava desse novo cenário onde tudo era meio feio e exagerado, mas que ainda assim me atraía em vários níveis; o que era contraditório e, ao mesmo tempo, profundamente incômodo.

Minha adolescência não foi um mar de rosas – existiram os dramas, as drogas, as festas, o álcool, as pessoas legais demais até que se provasse o contrário -, mas ainda assim havia um abismo que separava a versão adolescente da versão jovem adulta de mim mesma. Com treze ou catorze anos, eu ouvia músicas que falavam sobre lugares em que eu nunca estivera, sobre sentimentos que eu nunca sentira, e via filmes e lia livros que falavam sobre exatamente as mesmas coisas, sonhando com o dia que eu, talvez, pudesse viver aquilo também – e aí, quem sabe, cantar, escrever ou registrar de alguma forma minhas próprias experiências. Contudo, mesmo aquilo que era vivido na clandestinidade, nos momentos de desatenção da minha mãe, vinha envolto por um sentimento de incompletude porque, no final das contas, eu continuava sendo a adolescente que não podia fazer nada sem permissão, envolta por uma bolha de limitações que nunca era estourada por completo.

A única vez que fiquei realmente bêbada durante minha adolescência foi dos quinze para os dezesseis anos, quando vomitei embaixo da mesa no aniversário de uma amiga e tive que ser levada pra casa, literalmente, no colo, na frente de todos os meus professores. As pessoas falaram sobre aquilo por semanas, e eu me senti invencível e descolada, de um jeito sujo e meio infantil – a imagem de garota certinha, de repente, quebrada em mil pedacinhos -, mas ninguém sabia que, naquele mesmo dia, enquanto enfiavam uma latinha de Coca-Cola embaixo do meu nariz, eu chorei no telefone com a minha mãe e pedi que ela, pelo amor de Deus, me levasse para casa; que eu deitei no chão do banheiro público de um shopping e pedi que me deixassem dormir ali porque não aguentava mais ficar em pé de tão enjoada, e foi preciso que meu namorado me carregasse mais uma vez nos braços; que eu precisei literalmente fugir do bar em que estava porque éramos todos menores de idade e ninguém queria terminar a noite numa delegacia ou no hospital. Viver tudo isso foi um terror e um horror do início ao fim, mas a história contada parecia muito mais romântica, de um jeito totalmente decadente e ironicamente glamouroso, e aos olhos (e ouvidos) de todos os outros, era muito mais interessante do que realmente tinha sido. No entanto, esse foi um episódio isolado e, eventualmente, as pessoas esqueceram que aquilo algum dia tinha acontecido. Eu voltei a ser a garota que lia demais, ouvia músicas estranhas e pintava as unhas de amarelo maracujá, enquanto as garotas descoladas de verdade continuavam saindo todos os finais de semana, bebendo horrores e fazendo o que quer que adolescentes descoladas faziam no final da primeira década dos anos 2000.

Pure Heroine, trabalho que apresentou Lorde ao mundo, fala exatamente sobre esse distanciamento – sobre observar tudo a uma distância segura, quase cínica, como uma espécie de espectadora segura demais em seu próprio espaço de controle e superioridade meio infantil e ironicamente periférica, sem se envolver demais ou encarar-se como uma parte ativa naquele contexto. Não ouvi o álbum para ter descoberto isso por conta própria, mas é o que tenho lido ou ouvido a respeito na maior parte do tempo, em especial nas últimas semanas, e não acredito que essa seja uma obra do acaso, onde todas as pessoas resolvem concordar umas com as outras just because. Boa parte das pessoas que disseram isso, aliás, são minhas amigas, pessoas que viveram coisas muito parecidas em algum momento de suas vidas, e que ao dizerem isso, falam com a propriedade de quem já esteve – ou ainda está – naquele lugar. Eu acredito nessas pessoas, acredito quando elas dizem que é exatamente esse sentimento que essas músicas evocam e falam a respeito, assim como acredito que a própria Ella de dezesseis anos, que escreveu aquelas músicas sem saber que elas a levariam ao estrelato, também estivera ali em algum momento.

Meus dezesseis anos foram, de alguma forma, o ápice desse exercício quase antropológico de observação. Depois de passar o início da adolescência nutrindo expectativas que eram controladas à base de pequenos atos de rebeldia, eu finalmente assumia, mais pra mim do que para os outros, que aquele não era o meu lugar; eu jamais andaria de mãos dadas com aquelas pessoas, muito menos frequentaria aquelas festas ou encheria a cara daquele jeito pra me divertir. Eu ansiava pelo fim da adolescência, ansiava pelo o que viria depois do ensino médio (I’m waiting for it, that green light, I want it.), mas já não me preocupava em parecer descolada ou fazer coisas que não me interessavam só porque sim. Então, eu continuei a ouvir minhas músicas estranhas, assistir filmes que ninguém conhecia e ler os mesmos livros em looping, me sentindo importante demais para fazer qualquer outra coisa. Curiosamente, foi mais ou menos nessa mesma época que eu comecei a namorar, o que, em partes, influenciou muito a forma como eu encarava a situação. Eu fiquei com Guilherme pela primeira vez numa noite clandestina de bebedeira, em que nós dois bebemos demais, e que terminou comigo vomitando no canteiro do prédio que morava na época. Contudo, a partir do momento em que decidimos ficar juntos, nada daquilo parecia continuar a fazer sentido. Minhas amigas solteiras passaram a frequentar lugares que não pareciam adequados para mim e meu namorado (embora eu nunca tenha acredito nesse tipo de coisa) e nós fomos, gradualmente, nos afastando. Nós não estávamos mais na mesma página, e para viver todo o drama da l.o.v.e.l.e.s.s. generation, era preciso que nós estivéssemos não apenas falando a mesma língua, mas vivendo as mesmas experiências.

Não que estar comprometida, por si só, seja uma questão ou mesmo um problema, mas o romance quase sempre surge como uma parte muito essencial e indissociável de todo o drama que precisa acontecer, e quando ele acontece de forma natural e pouco dramática, você inevitavelmente enxerga as coisas por uma perspectiva diferente. A própria Lorde viveu um relacionamento relativamente longo durante sua adolescência, que chegou ao fim em 2015, e não é por acaso que a garota que conhecemos em Pure Heroine e a jovem mulher que ouvimos em Melodrama são tão radicalmente diferentes. Ela está em um lugar diferente – o que não tem apenas a ver com o fim do seu relacionamento, mas que ainda diz muito sobre estar solteira e, principalmente, sozinha. Como a Isa Sinay colocou em sua última newsletter, Melodrama é sobre descobrir que entrar na vida adulta é colocar os pés na água.

“[…] Melodrama, aos olhos de todos nós, escritores de vinte e tantos anos, não parece um rompimento, mas uma continuidade: a adolescente fechada em si mesma que descobre que entrar na vida adulta é por os pezinhos na água. É ter as coisas acontecendo. Intensas demais, rápidas demais, coisas demais, coisas que você romantizou na sua cabeça, mas que quando estão aqui, fazendo seu sangue ferver de verdade, já não parecem tão desejáveis.”

Nada disso tem a ver exclusivamente com o fato de estar em um relacionamento amoroso, mas essa ainda é uma parte importante da experiência de ser jovem, muito jovem, e que também diz muito sobre como nos posicionamos e enxergamos o mundo. O fato de nunca ter vivido grandes dramas me privou, de certa forma, dessa experiência, porque o amor continuava a ser um lugar seguro, estável e confortável demais para me jogar para o mundo por conta própria; e não fruto de mágoas profundas, vulnerabilidade e sentimentos confusos. Nunca foi confuso; inebriante e intenso, sem dúvida, mas nunca confuso. Foram necessários muitos mais anos do que talvez fosse aceitável para que eu finalmente colocasse meus pés na água e me permitisse ser vulnerável, o que talvez seja a maior mensagem sobre Melodrama. Até os 22 anos, eu não bebia, sequer pensava em usar drogas, e continuava vivendo numa bolha de pessoas que não bebiam ou usavam drogas, e que raramente iam em festas ou bares ou qualquer coisa assim. Nós passávamos horas jogando WAR, tomando banho de piscina, falando mal dos outros e comendo feito loucos; mas foi uma fase, e como todas as outras, essa também chegou ao fim.

Foi um rompimento dramático, triste e doloroso como poucos que senti e precisei lidar na minha vida. Várias vezes eu disse – pra mim mesma e também para os outros – que 2015 era o pior ano da minha vida, e essa era a mais pura e dolorosa verdade. 2015 foi um ano de profundo desencantamento, o momento em que rompi com todas as minhas certezas e finalmente me permiti colocar os pés na água – só para descobrir que ela era muito mais gelada do que eu estava esperando. Não foi preciso ter meu coração quebrado por um homem; mas ele foi quebrado assim mesmo – uma, duas, três vezes por fim; e foi difícil, traumático, dolorido como eu jamais poderia esperar. Era o fim de uma era, a despedida da vida que eu conhecia. Não por acaso, esse foi o mesmo ano em que eu menti pra minha mãe e viajei sozinha pela primeira vez para encontrar pessoas que eu nunca tinha visto na vida (num lapso inquestionável de coragem) e pedi transferência de curso na faculdade – uma atitude que, naquela altura do campeonato, pareceu ridícula e imatura para a maioria das pessoas -, mas também quando comecei a ter crises de ansiedade mais sérias e me perder em meio à depressão. Depois de perder o emprego, o casamento de uma amiga, levar um pé na bunda da minha então melhor amiga (thought you said that you would always be in love, but you’re not in love, no more) e ver um monte de gente da minha idade literalmente morrer, eu me vi em um lugar em que já não tinha mais nada a perder; o controle era só uma ilusão, não havia nada ali que não pudesse facilmente se desfazer no ar.

Lembro de morrer de medo em vários desses momentos, da ansiedade, do sentimento de vulnerabilidade por me permitir estar tão fora de mim, especialmente quando estava longe de casa. Mas, ao mesmo tempo, também lembro da magia, do sentimento de viver coisas tão incríveis e especiais, da segurança que pouco a pouco ganhava espaço em meio ao caos sem nenhum traço de ironia ou cinismo; o suficiente para que eu não quisesse voltar atrás. 2015 talvez tenha sido o pior ano da minha vida, mas foi um ano absolutamente necessário e também mágico, ainda que do seu jeito meio torto. Eu dancei até sentir meus pés doerem, só pra continuar dançando mesmo assim; chorei de saudades, ri até perder o ar, peguei no sono ainda com roupa de festa no corpo e maquiagem na cara, fui até a Lua e voltei três vezes, sem nem saber como havia saído de órbita para começo de conversa, sem nem mesmo precisar sair de casa. Era visceral, inebriante e, ao mesmo tempo, extremamente libertador.

Ao seu próprio modo, Melodrama também é visceral, inebriante e libertador. Conceitualmente ambientado em uma festa, o álbum nos leva por diferentes lugares que ganham espaço nesse cenário – início, ápice e declínio; lugares perfeitos e outros nem tão perfeitos assim -, condensados em 41 minutos preciosos e repletos de honestidade. Suas letras falam sobre rompimentos, sobre perda de controle, mas principalmente sobre permitir-se perdê-lo; sobre vulnerabilidade, desencantamento, drogas, álcool, paixões intoxicantes e instantâneas, solidão, e em alguma medida, também sobre o sentimento agridoce de renovação. Sem pedir licença, Lorde nos leva em uma montanha-russa de sentimentos contraditórios – e, por isso mesmo, tão reais -, e embora segure nossas mãos com carinho, não pede desculpas pelo final da jornada; não há, afinal, nenhuma garantia de que ela terminará bem. Mas isso não significa que não possamos nos divertir no processo. Se a dor é inevitável, então talvez seja a hora de jogar os braços para cima e dançar ao som das nossas próprias mágoas – exatamente o que ela faz e nos convida a fazer junto.

Em“Green Light”, primeira faixa do álbum, Lorde canta sobre o fim de seu relacionamento, sobre a tentativa de abrir-se para novas experiências, mas sobre a falha que inevitavelmente a persegue ao se apegar ao passado de tal modo que torna-se impossível desvencilhar-se por completo. São sentimentos ambíguos, contraditórios, que ganham espaço em meio à dor e ao sentimento de traição, quase inevitável após um rompimento dramático, ainda que não de forma intencional. O clipe é um retrato perfeito disso: Lorde canta, dança, sente o vento no rosto enquanto se pendura para fora da janela do carro, mas ainda é a mesma garota quebrada que diz na frente do espelho coisas que talvez jamais tenha coragem de dizer para a outra pessoa. ‘Cause, honey, I’ll come get my things, but I can’t let go; I wish I could get my things and just let go.

Por muito tempo, comparei o fim da minha amizade com o fim de um relacionamento; eu me senti profundamente traída, sentia raiva, muita raiva o tempo inteiro (I know about what you did and I wanna scream the truth, she thinks you love the beach, you’re such a damn liar), e por mais que eu tentasse me livrar desses sentimentos – porque, no final das contas, me faziam mais mal do que qualquer outra coisa -, eu sempre voltava para o mesmo lugar, quase como se algo realmente me puxasse de volta cada vez que eu tentasse ir embora. Entretanto, a comparação só foi ganhar contornos mais óbvios quando comecei a fazer terapia e entendi que aquele rompimento, de fato, teve um peso imenso, muito maior do que as pessoas usualmente atribuem a uma amizade – daí a comparação com o fim de um namoro. Embora hoje essa seja uma questão resolvida na minha vida, no entanto, foram necessários muitos estágios até chegar aqui; o que, de certo modo, é o que Melodrama também faz. Os estágios, que a princípio remetem a uma festa, também evocam momentos de uma vida inteira, vividos num espaço de tempo muito distinto.

Não é por acaso que ouvi-lo assemelha-se à sensação de colocar os pés na água e ser pego por uma onda de sentimentos conflituosos, num vai e vem que não faz muito sentido até o fim da tempestade. Em “Homemade Dynamite”, Lorde fala, literalmente, sobre embriagar-se e perder o controle até estar completamente cega, blowing shit up with homemade d-d-d-dynamite. Diferente dela, no entanto, minha experiência com esse lugar aconteceu somente no ano passado, quando a depressão e ansiedade passaram a me consumir de formas muito intensas, e eu comecei a alternar períodos de tristeza e profundo desamparo, com outros em que eu verdadeiramente gostaria de explodir coisas por aí com bomba caseira, irreverente e destemida como nunca fui. Muitas das melhores coisas que fiz ano passado, muitos dos “sims” ditos de modo inconsequente, aconteceram justamente porque eu estava nesse lugar, nesse estado de absoluta embriaguez, mesmo sem uma gota sequer de álcool em meu corpo. Em muitas madrugadas que passei conversando sobre isso com a Yuu, chegamos à conclusão de que esse estado tinha muito a ver com nossos transtornos; a euforia antes da queda, como a Isa também colocou em sua newsletter. “The Louvre” é uma continuação de tudo isso: a situação não poderia estar mais fora de controle, but we’re the greatest, they’ll hang us in the Louvre; down the back, but who cares – still the Louvre.

Contudo, eventualmente a conta é cobrada, e quase sempre ela é cara, muito cara. “Liability” é essa conta. A música nos confronta com a perspectiva de que talvez sejamos difíceis demais, complexas demais, para sermos amadas. Não é um pedido de desculpas, pelo contrário, mas a dolorosa noção de que talvez esse amor idealizado e aparentemente perfeito não exista para mulheres… como nós; todas nós. É uma percepção que machuca, porque confronta anos e anos de representações tortas, que nos moldaram de algum modo, e destroem sonhos que são construídos a partir de padrões e expectativas irreais de amor, seja ele qual for. Deitada no meu quarto, sem vida e sem chão, muitas vezes eu me perguntei se não deveria fugir, se não deveria sumir de uma vez por todas (they’re gonna watch me disappear into the sun; you’re all gonna watch me disappear into the sun), deixar de existir e ser um problema para todas as pessoas que tiveram o azar de cruzar o meu caminho.

They say,”you’re a little much for me, you’re liability, you’re a little much for me”; so they pull back, make other plans; I understand, I’m a liability; get you wild, make you leave, I’m a little much for everyone. Na música, o eu-lírico se sente como um brinquedo, que pode ser substituído e deixado de lado tão logo seus truques perdem a graça. Eu me senti dessa forma um milhão de vezes; o sentimento de ser descartável como uma barreira que se punha entre eu e o mundo. Não foi por acaso que tantas vezes eu senti medo, muito medo, de permitir que as pessoas entrassem na minha casca, que elas conhecessem a verdadeira Ana, a mais feia dentre todas as mulheres que existem em mim – só para fugirem em seguida, algo que, eu sabia, ia acontecer, e aconteceria rápido se eu me tornasse… inútil. Mais de uma vez, fui questionada se eu realmente precisava ser tão útil o tempo inteiro, se só era digna do amor das pessoas quando servia para alguma coisa. Não era sobre como elas me tratavam ou me viam, mas sobre o tipo de amor que eu acreditava merecer: um amor condicionado e cheio de restrições.

Encontrar um meio de subverter essa narrativa foi um processo – mais curto e menos traumático do que eu esperava, mas ainda assim um processo -, que continua acontecendo todos os dias, embora hoje eu esteja em um lugar infinitamente melhor. “Hard Feelings / Loveless”“Writer In The Dark” representam, de certa forma, parte desse processo: Lorde se joga em amores incertos, repudia uma geração inteira de cabeças desgraçadas, e a mágoa e o desencantamento são sentimentos que gritam no escuro. Bet you rue the day you kissed a writer in the dark. E não apostamos todos? “Supercut”, em contrapartida, apresenta um eu-lírico quase conformado, que depois da tempestade, torna-se novamente capaz de dançar ao som das próprias mágoas. O desencantamento e a melancolia continuam lá, mas existe algo mais: a profunda e libertadora aceitação de que, na vida, o controle é apenas mentira que não nos impede de encontrar sentido em meio ao caos. Como disse em uma conversa que tive com a Yuu sobre álbum, algum tempo atrás, eu me identifico profundamente com isso porque acho que desde 2015 minha vida tem sido esse eterno processo de desencantamento: eu não sou boa demais, minhas expectativas foram enfiadas num buraco, e a vida não é tão fácil quanto meu eu adolescente imaginava; as coisas não acontecem simplesmente porque eu estou trabalhando duro. São constatações duras, difíceis e pouco gentis, mas que após o choque inicial, ainda abrem espaço para essa aceitação genuína e a percepção de que, embora o mundo não nos deva favor algum, ainda podemos ser felizes, ainda podemos encontrar um lugar perfeito em nossa própria imperfeição e fazer com que toda essa bagunça adquira algum significado – o que é, de certa forma, extremamente libertador.

Melodrama foi, curiosamente, lançado num momento em que eu vivia esse turbilhão de sentimentos, festas, álcool, trabalhos infinitos, e eu não podia me sentir mais perdida (are you lost enough?): era fim de semestre na faculdade, eu não parava de sair um minuto sequer, e quando não estava enchendo a cara em algum lugar, estava em casa, arrancando os cabelos para dar conta de um projeto que queria muito ver acontecer, embora só a ideia de vê-lo ganhar vida me enchesse de medo. Foram muitas noites em claro, pouquíssimas horas de sono, crises de choro em absolutamente qualquer lugar, uma briga interna entre acreditar que aquilo podia dar muito certo e a certeza de que daria muito errado; momentos de raiva, esperança, desesperança, estresse, risadas, corações quentinhos e medo, muito medo, que basicamente resumiram os últimos meses. Por algumas semanas, foi como se eu estivesse (e eu de fato estava) vivendo no meu limite, e tenho certeza que se não fossem as mensagens de apoio, as conversas, a paciência, o amor e carinho infinitos que recebi nesse meio tempo, eu jamais teria dado conta e resistido até o último minuto, quando finalmente enviei o projeto e entreguei nas mãos de Deus.

Parece idiota que eu tenha me envolvido tanto com um projeto que, a princípio, era só mais um trabalho de faculdade; mas como disse na apresentação – uma apresentação em que absolutamente tudo que podia dar errado deu, e mesmo assim continuei segura e plena; uma versão completamente nova de mim mesma -, aquela era uma história que dizia muito sobre mim, sobre minhas experiências, frustrações e desencantamentos, e eu queria a chance de contá-la, especialmente agora, quando todas essas coisas ainda são incrivelmente atuais pra mim. Compartilhei o roteiro dessa história com algumas pessoas ao longo do processo e uma das coisas mais importantes que ouvi nesse tempo foi que ele era muito… eu. Que embora fosse uma história repleta de silêncios, era possível me sentir ali o tempo inteiro, meu coração batendo em cada linha escrita, em cada palavra não dita pelos personagens. Eu chorei ao ouvir isso, chorei na véspera da apresentação e quis chorar antes dela, quando as coisas começaram a dar errado – mas eu continuei ali e, no final das contas, acho que todo esse processo me ajudou a criar uma base sólida sobre o que eu acreditava; e naquele momento, eu acreditava profundamente e irrevogavelmente no meu projeto.

Ironicamente, essa história fala muito sobre – se permitir – perder o controle e sobre aceitar que a vida não é sempre boa ou sempre ruim, mas algo aí no meio. Os momentos felizes são tratados exatamente como momentos, instantes de alegria que parecem eternos até que se prove o contrário – o que, eventualmente e inevitavelmente, acontece com todo mundo. Mas eu não queria contar uma história triste: “Aurora” era – e ainda é – uma história sobre esperança e aceitação, uma história não sobre encontrar respostas, mas sobre ser feliz em um mundo onde elas não existem e o controle é apenas uma ilusão; é sobre encontrar felicidade e sentido em meio ao caos. Os personagens dessa história são pessoas que sofreram muito ao longo da vida, pessoas que possuem uma cota considerável de tragédias pessoais e que, em determinado momento, se permitiram definir por elas – só para perceberem que, assim como os momentos de alegria, a tristeza e a dor também não são eternas. Elas são um capítulo, não a história de uma vida inteira.

Escrever essa história foi, ao mesmo tempo, um exercício de roteiro, construção narrativa e de personagens, mas também foi o momento em que fui confrontada pelos meus próprios fantasmas, e em que finalmente pude olhar de perto para o meu melodrama pessoal, um processo de me desencantar e encantar novamente por uma vida que jamais será perfeita. Ao lado de Julia e Rafael, meus dois personagens, eu exorcizei meus demônios, chorei, dancei, dirigi em alta velocidade e pulei na água sem medo que ela estivesse gelada demais. Eu segurei a mão deles e eles seguraram as minhas, e quando acabou, eu já não era mais a mesma. O encontro dos dois os marcou profundamente, mas me encontrar com eles deixou marcas indeléveis na minha jornada enquanto escritora e roteirista, mas principalmente como pessoa.

De certa forma, Melodrama foi a forma que a Lorde encontrou de registrar e guardar para sempre seus 19 anos. “Aurora”, por sua vez, foi a minha forma de condensar, em alguns minutos, um processo que já vinha acontecendo desde os meus 22. Lorde conclui o álbum com “Perfect Places” – de todas, minha favorita -, uma música onde ela assume para si mesma que lugares perfeitos não existem e para de procurar por eles, o que é, de certa forma, libertador. Tudo começa de novo e de novo e de novo – os drinks, a dança, o romance, a queda -, mas isso não a impede de se divertir. It’s just another graceless night – e tudo bem. A essa altura, ela tem a consciência de que o ideal é apenas uma história bonita demais que nos contaram e que o controle não é uma realidade; lugares perfeitos não existem – ela já passou noites inteiras buscando-os, afinal – e, quando existem, não são eternos, e não há absolutamente nada de errado com isso. Enquanto passava noites chorando, apavorada demais com o que aconteceria com meu projeto, as palavras da Lorde vieram como um abraço apertado e quentinho, e não é por acaso que suas músicas complementaram tão bem a minha história, ainda que ela tenha sido concebida muito antes do álbum sequer ser lançado. Nós estávamos no mesmo lugar.

Essas músicas sempre vão ser a trilha sonora desse momento, das descoberta, das decepções, das crises, da euforia, das conquistas e do momento em que eu finalmente me tornei capaz não de colocar os pés na água, mas de pular num mar inteiro de sentimentos e incertezas. Conversando com algumas amigas algumas semanas atrás, disse que me sentia meio idiota por me identificar tanto com o trabalho de uma mulher de 19 anos, quando eu já devia ter passado dessa fase. Hoje, no entanto, enquanto escrevo esse texto (uma tentativa meio tosca, mas honesta, de também registrar essas memórias e impressões), não me sinto nem um pouco idiota, mas plena e segura, de um jeito que talvez nunca tenha me sentido antes. What the fuck are perfect places anyway?

PESSOAL

Uma palavra de cada vez

Como todos os textos que nasceram da necessidade meio tosca de justificar minhas ausências, pensei em começar esse com um imenso e ridículo pedido de desculpas, mas então decidi que não valia à pena. Não que pedir desculpas não seja importante, mas a essa altura já é uma verdade universalmente conhecida que a rotina desse blog é feita de pequenos hiatos, que cedo ou tarde chegam ao fim, e eu já deixei de me sentir culpada por eles há tempo demais para continuar a me desculpar. Embora nem sempre tenha sido assim, nos últimos meses, o blog assumiu um espaço na minha vida que passa muito longe de ser uma obrigação; o que é, ao mesmo tempo, bom e ruim: bom porque, naturalmente, eu não passo mais tanto remoendo todos os textos que não escrevi; ruim pelo exato mesmo motivo. Entre uma atualização e outra, muita coisa acaba ficando perdida, e eu estaria mentindo se dissesse que eu não sinto muito, muitíssimo, por todos os textos que não viram a luz do dia.

Curiosamente, essa nova relação com a escrita, de um modo geral, me deixa muito mais tranquila, e taí uma coisa que eu tenho priorizado bastante na minha vida. Aos 24 anos, sempre imaginei que tranquilidade fosse estar muito longe da minha cota de prioridades – “quero dinheiro”, eu pensava, “um casamento”, “um trabalho maneiro”, “viagens”, etc etc -, mas sendo a vida essa grande piada cósmica, é impossível não olhar ao redor e querer viver num mundo em que a gente tenha tempo pra fazer tudo ou não fazer nada se preferir. Se minha vida fosse um filme, o transformaria numa narrativa cheia de silêncios carinhosos, tons pastéis e músicas fofas, e cenas que deixassem o coração de quem assiste mais quentinho. Ainda hoje (na verdade ontem, porque comecei a escrever esse texto num dia, mas só fui concluí-lo no dia seguinte), disse pra uma amiga que, embora eu amasse filmes frios e grandiosos, esse não era o tipo de cinema que eu gostaria de fazer, e é verdade. Não por acaso, os filmes que eu desejo fazer são aqueles que falam sobre pessoas muito desgraçadas, mas que curiosamente contam histórias leves, quentinhas, com sabor de comfort food, que é mais ou menos como eu desejo que minha vida seja também.

Sempre gostei de pensar que eu podia fazer o que quisesse, ser o que quisesse e conseguir o que quisesse, mas foi preciso que minha saúde física e mental entrassem em cena para que eu entendesse que, ainda que eu me sentisse muito capaz o tempo inteiro, nada nesse mundo valia o risco de perdê-las de vez. E que nem sempre eu ia conseguir fazer o que quisesse, ser o que quisesse, etc etc. Tenho a sorte – e o azar – de estar envolvida em muitos projetos e ter responsabilidades pelas quais eu sou completamente apaixonada e que fazem todo o esforço valer à pena. Eu amo a faculdade, eu amo fazer filmes, eu amo escrever. Mas existe uma diferença fundamental em amar todas essas coisas de maneira saudável e esquecer de si mesma no processo. Ser workaholic parece muito bacana na teoria; um milhão de vezes eu disse que era assim que eu queria ser, desde que fizesse o que amava, e era exatamente essa pessoa que eu estava me tornando, sempre ocupada demais para qualquer coisa. Então eu fiquei doente; uma vez, duas vezes, três vezes em pouquíssimos meses. Minha ansiedade voltou com força total. E enquanto eu era obrigada a abandonar um, dois, três projetos, quatro, cinco, seis ideias de textos, invariavelmente, eu me sentia uma fraude. Uma mentira. Uma pessoa incapaz e ridícula e falha e que não ia chegar em lugar nenhum porque ninguém chega a lugar algum se não consegue sequer cumprir um prazo porque está com a cabeça desgraçada demais pra isso.

Quando a Anna Vitória escreveu no Valkirias sobre colocar o pé no freio e se permitir absorver as coisas com calma, uma parte de mim jazia no chão completamente exausta depois de passar horas gritando na minha cabeça que aquele era um passo terrivelmente equivocado e que eu ia me arrepender amargamente de tê-lo aprovado num futuro nem tão distante assim. Depois de um ano intenso, porém maravilhoso, parecia uma decisão estúpida seguir na contramão daquilo que vinha dando tão certo. 2017 seria um ano do trabalho duro, diziam os astros, de fazer as coisas acontecerem, e eu, que nunca precisei de muito incentivo para acreditar nessas coisas, levei a máxima a sério o suficiente para me permitir ser engolida pelo trabalho. E pelos meus sonhos e projetos e ambições, como se de algum modo eu precisasse provar que eu era uma pessoa ocupada de verdade e que não passava o dia inteiro sentada na frente do computador atoa, assistindo vídeo de gato e jogando conversa fora com minhas amigas – ironicamente, as coisas que eu deveria estar fazendo também, mas que simplesmente não encontravam espaço para coexistir com a loucura entre faculdade e projetos que se multiplicavam de maneira insana. Eventualmente, consegui entender que pisar o pé no freio não significava fracassar ou admitir uma possível derrota; é uma decisão que parte muito mais da consciência de que, para acontecer da forma que queremos, nosso trabalho precisa de cuidado e atenção e tempo, do que de supostos fracassos. Além disso, somos todas humanas e não adianta nada falar sobre a humanidade não aceita de tantas personagens se nós sequer somos capazes de aceitar nossas próprias limitações.

Por mais difícil que seja, aceitar que nem sempre dá pra fazer tudo, ser tudo, dar conta de tudo, é fundamental para seguir com o baile. Continuo acreditando que crescer é importante, que fazer cada dia mais e melhor também é, mas desde que isso não custe tão caro ao ponto de se tornar prejudicial. É uma relação completamente nova com a escrita, é claro, mas também com minha vida acadêmica, profissional e também pessoal porque nem só de trabalho e problematização e artigos de cinco mil palavras é feita a vida; o que naturalmente também reflete no blog. Diferente de muitas pessoas que abandonaram os blogs para continuar falando sobre a vida em outras plataformas ou simplesmente se dedicar a outros projetos, eu continuo incrivelmente determinada a continuar nesse espaço, mas sem a obrigação que um dia já foi regra. Quero continuar a escrever sobre a vida e registrar minhas memórias aqui, mesmo que nem tudo seja explicitamente escrito, porque essa ainda é a melhor forma que encontrei para lembrar e guardar aquilo que é importante, e o que não é também, mas que eu vou gostar de lembrar quando tiver 84 anos e conversar com meus netos e deixar para trás depois que eu morrer – mesmo que ninguém se importe com isso além de mim mesma. Uma das minhas maiores frustrações é não ser fruto de uma família de gente que escreve, obcecada por registros e memórias, e nunca ter tido a oportunidade de passear pelas lembranças dos meus avós, que são pessoas que eu admiro tão profundamente e que tenho certeza que viveram coisas incríveis, mas que jamais foram registradas e que terminaram se perdendo com o tempo.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que começou a Primeira Guerra Mundial, um conflito de importância histórica que, dizem alguns, foi ainda mais traumático, sujo e brutal do que a Segunda Guerra. Ambos parecem distantes demais da nossa realidade, separadas por um período de mais de cem anos, mas que não parece tão distante assim quando sabemos que pessoas que conhecemos estiveram lá de alguma forma e fizeram parte da história, mais ou menos como nós também estamos fazendo agora. Meu avô assistiu muitos dos maiores fatos históricos que marcaram o século XX acontecerem em tempo real, e eu realmente gostaria de saber o que ele pensava sobre esses assuntos, quais eram suas opiniões, seus medos, frustrações. O homem que eu conheci – e que infelizmente já não está mais entre nós – é uma versão infantil e carinhosa moldada pela perspectiva da neta que passou dezesseis anos sendo chamada de passarinho, que ria de suas piadas e que acreditava que nenhum outro homem poderia ser tão gentil quanto aquele; mas existiam muitos outros e sinto muito por não tê-los conhecido também. Não é muito diferente do que acontece com a minha avó. Ela, que nasceu em 1927, também já viveu e assistiu muita coisa, mas ainda que conversemos um bocado sobre o passado, algumas memórias simplesmente se esvaem com o tempo.

É uma obsessão idiota, mas não vazia, e é isso que, de certa forma, me faz continuar aqui. Me perguntaram uma vez porquê eu continuava com o blog quando existia um sem fim de plataformas onde eu poderia fazer exatamente a mesma coisa, e eu não precisei pensar duas vezes antes de responder: porque o blog ainda é, dentre todas as coisas, algo essencialmente meu. Tirando duas ou três coisas nessa vida, esse é o único espaço do qual eu tenho pleno controle e que não vai sofrer mudanças se alguém além de mim mesma quiser; o que é muito mais do que eu posso esperar de um Medium da vida ou de um Tinyletter qualquer. Esse foi um dos motivos, aliás, que me fez desistir da newsletter nos moldes em que ela estava; embora eu ainda tenha a pretensão de fazer algo novo com ela, escrever sobre a minha vida em um novo espaço pode fazer muito sentido pra muita gente, mas definitivamente não faz pra mim. O blog é minha casa, é meu lar, é o cantinho que tem a minha cara e que muda comigo cada vez que eu achar necessário, como um corte de cabelo que muda ao longo dos anos, cada vez que sentimos a necessidade de apresentar uma nova faceta ao mundo. É aqui que eu quero poder sentar no tapete com uma taça de vinho na mão e falar sobre a vida e não faz o menor sentido tentar mudar o que acontece nesse espaço se eu já me sinto tão confortável aqui.

Ainda existem muitas coisas que eu quero fazer e pouco tempo para, de fato, fazê-las. Quero escrever mais e em novos lugares, quero remodelar a newsletter, aprender a bordar, voltar a fotografar, escrever mais roteiros, começar uma pequena produtora e produzir mais filmes, fazer colagens, terminar um livro; mas são coisas que inevitavelmente precisam de tempo e calma – e às vezes dinheiro – para acontecerem e eu estou disposta, talvez pela primeira vez na minha vida, a esperar e dar um passo de cada vez ao invés de sair atropelando tudo sem nunca ser capaz de curtir nada porque estou mais preocupada em fazer com que elas aconteçam do que realmente aproveitar cada uma dessas conquistas – que podem ser pequenas ou não, mas devem ser celebradas da mesma forma. Escrever mais ainda é meu maior objetivo, mas ao final de um dia de trabalho, eu ainda quero poder entrar nesse blog e descobrir que esse é exatamente o lugar em que eu desejo estar.

LITERATURA

Quem tem medo de clássicos?

O primeiro livro de gente grande que eu li foi Robinson Crusoé, um romance sobre um náufrago que passa vinte e oito anos perdido numa ilha deserta. O livro foi publicado em 1719, mas curiosamente foi uma das coisas mais legais que eu já tinha lido até ali, uma obra que abriu espaço para muitas outras dali em diante numa época em que eu ainda não tinha medo de livros antigos demais, distantes demais da minha realidade, dos grandes clássicos da literatura e todo o resto. Crescer aparentemente me transformou numa pessoa ridiculamente idiota, porque desde o início da minha adolescência, a leitura de clássicos se tornou um grande tabu na minha vida e não é por acaso que, até hoje, minha formação literária nesse sentido é tão falha. Eu criei um medo irracional de muitos livros e de muitos autores, ao ponto de só muito recentemente ter passado a correr atrás do prejuízo – meio por interesse, meio porque não aguentava mais dizer que nunca tinha lido Machadão ou Jane Austen.

É uma situação ridícula essa, especialmente quando falamos de clássicos, que são os livros populares de outrora, os tais best-sellers que a gente tanto ouve falar. Embora a escrita mais rebuscada às vezes seja um problema, ela nem sempre é a regra, e no final das contas esses livros acabam sendo experiências maravilhosas, além de retratos de épocas que não vivemos. Tirando uma ou outra leitura que até agora eu não consegui superar o medo – Machadão, estou olhando pra você #spoiler – a maior parte das minhas experiências foram maravilhosas, e eu acabei conhecendo histórias que se tornaram favoritas de uma vida inteira. Orgulho e Preconceito é uma grande novela das seis, deliciosa de acompanhar e absolutamente cativante; O Retrato de Dorian Gray se tornou um verdadeiro favorito, desses que eu indico pra qualquer pessoa sem nem pensar duas vezes; e embora já faça muito tempo desde que o li, Lucíola ainda é um dos meus clássicos favoritos da literatura brasileira. Então por que diabos a gente – e quando digo a gente, estou falando principalmente de mim mesma – continuamos com esse medo ridículo de… livros?

Foi pensando nisso que a Mia, essa adorável criatura e parceira de crime, sugeriu que falássemos sobre livros clássicos que nos dão medo, muito medo, que nos intimidam em tempo integral mesmo que a vontade de lê-los seja imensa. Imediatamente pensei em uma porção de títulos que se encaixariam perfeitamente na proposta, mas preferi focar nos principais, aqueles que me dão mais medo entre todos os clássicos que estão na minha lista de futuras leituras há anos, mas seguem me assombrando em tempo integral.

1. Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski.
Aparentemente existe um consenso sobre os russos, que não são apenas os russos, mas os RUSSOoOoOoOoOoS, esses caras diferentões e difíceis de lidar, que escrevem uma literatura igualmente diferentona e difícil de lidar. São livros imensos, vindos de uma terra que nos causa, ao mesmo tempo, fascínio e receio, um lugar de gente diferentona e, reza a lenda, difícil de lidar, e eu não acho que seja puro acaso que esses livros evoquem os mesmos sentimentos. Crime e Castigo acaba sendo ainda pior por se tratar de um livro imenso com uma temática pesada; a história de um ex-estudante de Direito que comete um assassinato (!) e se torna incapaz de lidar com sua própria vida após o delito. Outras histórias se desenvolvem em paralelo, mas o livro dedica boa parte de suas infinitas páginas aos conflitos psicológicos do personagem principal, e isso por si só já é suficiente para que eu tenha certeza de que uma bad fenomenal caminha em minha direção só de passar os dedos pela capa do livro, enquanto vivemos um relacionamento platônico e destrutivo numa livraria qualquer.

2. Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Minha relação com Machadão começou no ensino médio, quando eu fui gentilmente obrigada a ler algumas de suas obras para o vestibular e…não li nenhuma. Eu passava horas, na sala de aula mesmo, lendo tudo que fosse possível, menos aquilo que eu efetivamente deveria estar lendo; meu jeitinho de ser rebelde, mas nem tanto assim. A verdade é que eu sempre tive um preconceito sincero em relação aos clássicos da literatura nacional, algo que mais tarde evoluiu para um medo muito honesto de lê-los. As pessoas diziam que todos eram insuportáveis, difíceis, e meio sem querer, meio já querendo, eu acreditava, mesmo que nunca tivesse realmente tentado dar uma chance pra eles. Alguns anos mais tarde, conheci pessoas que me fizeram mudar completamente de ideia e que me mostraram que Machado de Assis não era um autor chato e difícil, como passei boa parte da minha vida ouvindo. Assim, tentei ler uma edição feiosa que ganhei na época do vestibular, junto com uma porção de outros clássicos – todos em edições igualmente horrorosas, para o meu completo horror -, mas infelizmente não consegui passar da primeira página. Foi a primeira tentativa frustrada de algumas, não muitas, mas que imagino serem uma consequência de todos aqueles anos que eu passei ouvindo que o livro era o maior pavor de todos os tempos. Ainda pretendo dar uma nova chance, mas quando isso vai acontecer é realmente uma questão.

3. Drácula, de Bram Stoker.
Sendo uma pessoa apaixonada por vampiros e toda a mitologia que os envolve, chega a ser ridículo que até hoje eu não tenha lido Drácula, também conhecido como o livro que moldou nosso imaginário coletivo e que nos deu de presente a figura misteriosa e repulsiva do vampiro mais famoso do mundo, etc etc. Tenho certeza que vou amar cada minuto da leitura e foi justamente por isso que, no ano passado (!) finalmente comprei uma edição pra chamar de minha – uma que não é exatamente bonita, mas também não é exatamente feia, bear with me -, decidida a iniciar a leitura assim que possível; um possível que, por algum motivo, nunca chega. Já perdi as contas de quantas vezes tirei o livro da estante, determinada a mergulhar na história, mas aparentemente não trabalhamos com vergonha na cara, porque até hoje foi o máximo que já aconteceu. Numa medida desesperada, enfiei o livro na minha lista do Desafio Luxuoso, genialmente criado pela menina Analu e sua amiga, creiça Karina, mas até o fechamento desta edição, o livro segue “””intocado””” na minha estante. Vai entender.

4. Este Lado do Paraíso, de Scott Fitzgerald.
Não sei se já falei sobre isso, mas desde que conheci a Fer, tenho nutrido uma obsessão descompromissada pelo casal Fitzgerald. Amor descompromissado foi a forma que eu encontrei de chamar essa admiração e interesse que tenho pelos dois e sua história de vida curta e conturbada, mas sem realmente mergulhar na vida & obra de ambos. Este Lado do Paraíso foi o primeiro livro do Scott a ser publicado, o responsável por colocar o selo “top” de aprovação na testa do homem, e desde que assisti a primeira temporada de Z: The Beginning of Everything – que na verdade é sobre a Zelda, mas bear with me – tenho me sentido especialmente interessada. Mas meu primeiro contato com a literatura de Scott Fitzgerald não foi das melhores. Embora ainda tenha vontade de lê-lo em outro momento, O Grande Gatsby não me disse absolutamente nada, o que me faz ter um medo especial de encarar uma nova obra sem um bom preparo psicológico antes. Não é uma leitura difícil, muito pelo contrário, mas eu realmente gostaria de me apaixonar pelas histórias e não apenas lê-las e seguir com a vida depois, como se nada tivesse acontecido.

5. Moby Dick, de Herman Melville.
Um milhão de páginas sobre uma baleia, pesca, arpões e métodos de caça que, por algum motivo, se tornou um dos livros mais importantes da literatura mundial. Curiosamente, meu medo de Moby Dick não é exatamente em relação ao livro em si – que como acontece com muitos clássicos, foi mal recebido pela crítica da época, até se tornar O Livro Respeitado™ que é hoje -, mas sobre a história, sobre o fato de ser uma questão – no caso, a caça de baleias – que pra mim ainda é muito delicada. Realmente, não sei se algum dia conseguirem ler, mas a vontade, ironicamente, é bem real, apesar dos pesares.

6. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.
Falo de Cem Anos de Solidão porque é o primeiro que me vem à cabeça, mas poderia ser qualquer livro do Gabo. Eu tenho pavor de Gabriel García Márquez – um pavor que também não é nada senão uma consequência das aulas de literatura e de todas as pessoas que me disseram que eu deveria ter medo, muito medo, da literatura de um cara tão incrível. E eu tenho, até hoje. Não ajuda em nada que o livro seja considerado uma das obras mais importantes da literatura latino-americana, a segunda mais importante de toda a literatura hispânica, ou seja né. O medo, ele é muito real.

7. Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
Aparentemente existe um consenso de que esse livro é o pavor maior entre todos os pavores gigantes que fazem parte desse período maravilhoso chamado ensino médio, vestibular a dar com pau, etc etc. Como todos os clássicos que deveria ter feito parte do meu currículo (cof, cof), mas foram gentilmente ignorados, Grande Sertão: Veredas acabou ficando esquecido no tempo; até, claro, o dia que decidi que queria compensar o tempo perdido, mesmo que fosse para me sentir burra o tempo inteiro – o que, tenho certeza, inevitavelmente irá acontecer. Embora seja um livro que, reza a lenda, é difícil pra caramba, ele ainda é uma obra muito rica, que utiliza um cenário muito específico para tratar de temas universais, e uma vez ultrapassadas as barreiras que me afastam dele, tenho certeza que a experiência pode ser verdadeiramente incrível.

PESSOAL

Aos treze

Quando assisti Aos Treze pela primeira vez eu tinha vinte e três anos. Isso mesmo: depois de passar aproximadamente 19023890183 bilhões de anos fantasiando sobre a histórias das meninas com piercing na língua na capa do dvd, minha adolescência inteira pautada pelas irrealidades provocadas pela expectativa, finalmente, no ano passado, tomei vergonha na cara e assisti o filme – e odiei.

Odiei, na realidade, é o jeito exagerado de dizer que eu não gostei tanto assim, que ele não chegou perto de suprir minhas expectativas adolescentes; eu esperava um filme sobre jovens adoravelmente lindas e loucas, curtindo seus treze anos como se não houvesse amanhã e se enfiando em algumas furadas de um jeito limpinho e destemido que não incomoda ninguém. Aos treze anos, meu sonho era ser uma jovem destemida e adoravelmente louca, além de linda, de um jeito que não incomoda justamente porque tem o efeito oposto: causa admiração. Eu cruzei com essas meninas um milhão de vezes durante minha adolescência, na escola, no shopping, lugares que naquela época eram o ponto de encontro de todos os adolescentes de Brasília; sempre sonhando em ser um pouco como elas, sem considerar que, por trás das roupas bonitas e da atitude blasé, existiam garotas com uma porção de questões mal resolvidas – que eu também tinha, ou talvez não -, que não viviam vidas tão divertidas assim, muito menos eram tão limpinhas quanto nosso olhar idealizado e os jeans rasgados de butique nos faziam enxergar.

A amizade entre Tracy e Evie começa num misto de admiração e curiosidade que a primeira dispensa à segunda, os mesmos sentimentos que eu tinha em relação às meninas mais velhas que eram minha referência na época. Evie é a garota mais popular do colégio, estilosa, destemida, admirada pelos garotos, linda e louca de um jeito adoravelmente inconsequente que não parece suficiente para machucar ninguém, e Tracy enxerga tudo isso de longe, querendo fazer parte daquele mundo de alguma forma, mas ao mesmo tempo muito distante dele. As duas se tornam amigas de um jeito absolutamente ridículo, com a primeira descaradamente tentando se enturmar; mas elas são jovens e ser jovem também significa ser ridículo e cara de pau de um jeito que adultos às vezes deveriam ser, mas não são. Assim, as duas se tornam amigas; dividem roupas, cigarros, namorados, dramas, a casa e a vida, uma relação que a princípio não parece tão diferente do padrão, até as duas entrarem juntas numa montanha-russa que só vai pra baixo. A amizade das duas se torna cada vez mais problemática e auto-destrutiva à medida que a história avança, e elas passam a ter contato com universos que idealmente deveriam passar longe da realidade de qualquer adolescente. Ambas constroem uma relação que não é exatamente de autodescoberta, sobre pertencimento, sobre ser jovem e descobrir qual o seu lugar no mundo – embora, em algum nível, seja sobre essas coisas também -, mas sobre drogas, sexo, roubo e automutilação; uma sucessão irrealística de fatos a não ser que você tenha vivido coisas muito parecidas… aos treze anos. O roteiro é baseado nas experiências reais da própria Nikki Reed – que além de interpretar Evie no longa, também ajudou a escrever o roteiro -, alguém que viu e viveu algo muito similar enquanto era pré-adolescente, e decidiu que precisava contar essa história.

Em 2003, quando o filme foi lançado, eu tinha dez anos e era a mesma criança certinha ao ponto de ser idiota que eu ia me esforçar para subverter não muito tempo depois. Eu tirava boas notas, era educada, usava roupas fofas e muito cor-de-rosa, brincava de Barbie e tinha um fã-clube de Sandy & Júnior, minhas maiores preocupações na vida. Mas era uma realidade muito frágil, construída sobre uma perfeição que não existe, e bastou que minha tia caísse de cama em depressão para que todas as minhas certezas caíssem junto com ela. 2004 é um ano que não tenho muitas recordações, um grande vácuo na minha linha cronológica, composta por pequenos flashes de um ou outro momento mais marcante; mas aos doze anos eu já começava a nutrir uma certa revolta interna, já começava a me questionar o por quê da minha vida não ser mais aquele mundo cor-de-rosa no qual eu tinha sido criada. Para quem via de fora, eu ainda era a menina doce e delicada de sempre, mas dentro de casa a narrativa era outra. No filme, Tracy também é uma garota doce, talvez não exatamente delicada, mas meiga e bondosa o suficiente para fazer o que tem que ser feito, para fingir que aceita a situação em que vive e não incomodar ninguém. Ela não aceita o padrasto, se incomoda com a falta de dinheiro da mãe e com a ausência do pai, mas finge que está tudo bem. Fingir que está tudo bem foi algo que eu aprendi a fazer desde muito cedo e que ainda tenho dificuldades em não fazer, algo que, aos poucos, minha psicóloga tenta me ensinar que é possível. Mas é uma situação extremamente complicada, nociva, e também delicada, algo que te corrói por dentro, mas que continua impossível de ser exorcizado.

A postura de Tracy muda quando ela conhece Evie, que é quem mostra pra ela um outro lado da vida – mais sujo e cruel, é verdade, mas onde ela ainda pode ser quem quiser. Ela abandona a imagem de garota certinha para assumir uma versão de si mesma que é admirada e idealizada por quem vê de fora, que não aceita a realidade que lhe é concedida e se sente no direito de questionar e quebrar tudo se necessário, e apontar o dedo na cara de quem se colocar em seu caminho como se isso fosse algo natural. É uma garota muito mais destemida do que a que conhecemos no início e muito mais livre também, mas ironicamente, é essa mesma liberdade aparente que a permite sucumbir de vez. Quem a atenta inicialmente para esse fato é sua mãe (não curiosamente, a primeira pessoa a quem Tracy vira as costas), mas mesmo que seu irmão e seu pai (que despenca sabe-se lá de onde só para entender que diabos está acontecendo com sua filha perfeita que ele nunca se preocupou em amar e dar a devida atenção) conversem com ela posteriormente, é só quando realmente vê a situação sair completamente do controle que Tracy percebe que é só uma adolescente que precisa desesperadamente de amor e proteção. A grande mensagem do filme é justamente a que nossos pais ainda vão ser as pessoas a segurar cada uma das pontas das nossas vidas quando tudo ameaçar desabar – um clichê tão grande que parece deslocado num filme que se esforça tanto para construir uma imagem tão subversiva de jovens de treze anos -, mas o que existe no meio me parece muito mais importante, fundamental.

Minha postura também mudou radicalmente aos treze anos – foi a época em que eu comecei a usar roupas pretas, ouvir rock e passar lápis preto no olho; mas foi também quando eu comecei a pensar na morte, a me revoltar contra minha realidade, a ter problemas com minha mãe, tirar notas baixas no colégio e escrever desabafos na parede do meu quarto -, mas não foi preciso que uma garota popular e prafrentex entrasse na minha vida pra virar meu mundo de cabeça pra baixo. Eu conheci alguém, é verdade, uma pessoa que me apresentou a um mundo com o qual eu não estava acostumada, que eu nem sabia direito que existia mesmo que, racionalmente, eu soubesse que existia em algum lugar; mas nós o exploramos juntas, não separadas.

A B., que é como vou chamá-la aqui, era uma garota muito parecida comigo: nós duas vinhamos de famílias imperfeitas, não éramos exatamente populares, mas andávamos com esse grupo de meninas que eram populares e perfeitas, exatamente o oposto de nós duas. Eram meninas legais até, gente boa e de bom coração, mas que ainda eram as mesmas meninas lindas e populares de sempre, o lembrete de tudo que eu e B. poderíamos ser, mas não éramos. Ninguém precisava nos dizer o contrário, ninguém precisava sequer dizer alguma coisa; nós tínhamos plena consciência de aquele não era nosso lugar, não exatamente, e isso já era o suficiente. Quando nos afastamos – com uma briga que explodiu do nada, como naturalmente acontece entre pessoas que tentam com força demais manter uma relação que já não existe -, nós assumimos que jamais seríamos como aquelas garotas; não de um jeito arrogante de quem se acha superior, mas com a certeza confortadora de que não precisávamos mais usar aquelas máscaras. Nós tínhamos caído da corda bamba, é verdade, mas a cama elástica que nos esperava no final era incrivelmente mais divertida.

Meio sem querer, nós nos tornamos exatamente as pessoas que queríamos ser: garotas misteriosas e destemidas que pareciam viver numa dimensão paralela onde nada, nem ninguém, era capaz de nos atingir – que as pessoas estivessem falando não era o problema, desde que continuassem falando sobre a gente.

Em Aos Treze, a amizade de Tracy e Evie eventualmente entra numa espiral de problemas, auto-destruição e pequenos crimes que são descobertos e terminam por colocar um ponto final no relacionamento das duas. É algo que acontece aos poucos, até assumir proporções incontroláveis, ao ponto de respingar em todas as pessoas que não deveriam estar sabendo de nada, e enquanto uma acusa a outra de ser a culpada por tudo o que está acontecendo, as responsáveis se desentendem sem saber em quem acreditar. É um desfecho ridículo, mas muito verossímil também, justamente porque mostra o quando ambas são apenas garotas, vulneráveis e machucadas até dizer chega, que só precisavam de amor, carinho e um pouco de atenção. O fim da amizade das duas é exatamente o que teria acontecido comigo e B. se as coisas tivessem saído do nosso controle: existiram pequenos delitos, existiram drogas (que nunca usamos, é verdade, mas ainda assim), existiram momentos estranhos em que tivemos absoluta certeza de que tudo ia dar errado e nós íamos morrer, existiram nomes pichados nos muros de Brasília quase como uma declaração de amor de devoção, existiu um presidiário que tirou a própria vida na cadeia e, numa sucessão estranha de fatos, seu corpo surgiu no nosso caminho, existiram festas, álcool, brigas, e mentiras, uma porção de mentiras; fora todos os problemas que estavam em casa, ou muito perto de casa, dos quais a gente nunca podia fugir.

Não é preciso falar sobre cada uma dessas coisas porque mencioná-las já é suficiente, qualquer pessoa entende que nenhuma adolescente deveria estar lidando com elas; não é preciso de detalhes para entender que elas são absurdas, irrealistas demais, não fossem exatamente o contrário. E curiosamente, ninguém percebeu. Assim como os pais de Tracy demoraram a descobrir que algo estava errado, e a responsável por Evie jamais percebeu, sequer se perguntou quando todos os problemas vieram à tona, ninguém nunca se perguntou o que estava acontecendo comigo ou com B. As pessoas falavam sobre nossas notas, sobre nosso mau comportamento, sobre as fugas da escola, sobre um possível relacionamento que nunca tivemos; mas elas nunca se perguntaram o que realmente estavam acontecendo. Ninguém queria saber sobre a tia maníaco-depressiva, não queria ouvir sobre o pai ausente; sobre uma mãe igualmente ausente e alcoólatra, e sobre um outro pai que passava o dia inteiro fora porque precisava trabalhar, mas também porque não fazia a menor ideia de como lidar com uma filha adolescente.

Tenho pensado muito em todas essas coisas ultimamente, revirando meu passado como se de repente despejasse uma imensa caixa cheia de papéis no chão em busca de alguma resposta, mas só consigo pensar que, embora as pessoas ainda pareçam muito preocupadas, elas nunca se importam o suficiente. É um assunto que me deixa muito sensível, que me faz olhar de frente para fantasmas dos quais até hoje não consegui me livrar, esqueletos que deveriam ter sido queimados com sal grosso há muito tempo, mas que continuam trancados no meu armário a sete chaves, e eu tenho certeza que muito disso teria sido evitado se as pessoas tivessem feito as perguntas certas, se tivessem olhado para dentro, e não só para o que estava fora.

Aos Treze continua não sendo o filme que eu achei que seria, mas talvez sua grande sacada não seja mostrar como pais são pessoas importantes na vida de um adolescente e sim como adolescentes são pessoas complexas e com problemas muito, muito reais.

THE ROAD SO FAR

Nobody likes you when you’re 23

Eu sempre gostei de fazer aniversário – até, claro, o dia que não gostei mais tanto assim. Desde que eu fiz vinte anos – longe de casa pela primeira vez, sem a minha mãe e a maior parte dos meus amigos, mas de frente pro mar, com meu namorado, com direito a um “parabéns pra você” tocado num imenso piano de cauda – minha relação com essa coisa de fazer aniversário mudou muito. Os dias que antecedem a data são sempre meio estranhos; meio triste, meio alegres, meio já cansei de tentar entender. Mas é também uma época que vem carregadas de uma expectativa que eu não sinto em qualquer outra época do ano, que é meio o que me mantém viva nesse período conturbado.

Eu sempre digo que março é o meu mês num tom de brincadeira, como quem pede pra que nada dê muito errado e que as pessoas pelo amor de Deus façam o favor de não forçarem muito a barra e serem mais gentis comigo do que o normal, mas esse é um mês que eu sinto muito meu justamente porque é quando um novo ciclo na minha vida começa de fato e eu me sinto no direito de pedir o que quiser, mesmo que não receba de volta. Minha mãe sempre me diz que querer não é poder e eu acredito nisso demais, mas foi essa mesma mãe que me disse que a gente precisa querer as coisas e pensar positivo, porque os pensamentos têm poder. Por mais que eu tenha revirado os olhos depois, preocupada demais em não morrer (risos eternos), eu sei exatamente do que ela estava falando porque na maior parte do tempo eu acredito nisso também: querer não é poder, mas é preciso querer antes de saber se é possível tê-las ou não. Então eu me permito desejar muitas coisas, ser mais abusada que o normal e ver no que dá, o máximo que eu posso receber é um “não”. É uma tática maravilhosas, e numa dessas eu já convenci muita gente que me ama a fazer coisas meio absurdas – mas não tão absurdas assim – só porque era o meu mês.

Só que secretamente, março é também um mês que eu costumo me recolher com mais frequência, ficar mais reservada que o normal, e refletir sobre minha vida, minhas escolhas, meus sonhos e como eu quero continuar minha caminhada dali em diante. É um momento que quase sempre envolve muito choro e também algum sofrimento, porque é difícil olhar pra trás e pisar de novo em lugares que já não existem mais no aqui e no agora, lembrar de sonhos que ficaram no meio da estrada e foram pisoteados por quem veio depois, e encarar de perto meus demônios só pra tentar diferenciar aqueles que já me sinto capaz de exorcizar daqueles que ainda precisam passar algum tempo comigo. Então eu choro: pela raiva, pela perda, pela saudade daquilo que já foi e, em algum momento, por tudo que não foi, pelo o que ainda está por vir. Nunca é fácil, mas é algo que faz total sentido na minha cabeça e que é absolutamente necessário – pelo menos, pra mim. Eu fico muito sensível e vulnerável depois, mas ironicamente é justamente assim que eu consigo me levantar mais forte e confiante mais tarde, e aí sim, ter forças pra celebrar mais um ciclo que se inicia.

O que não aconteceu esse ano – ou aconteceu e eu estava ocupada demais para perceber. Desde o início de março, ou talvez desde o final de fevereiro, minha vida virou uma bagunça tão grande que eu não tive tempo, quiçá vontade, de me acostumar com a ideia de mais um aniversário, refletir sobre a data e tentar entender tantos sentimentos que tomavam conta de mim de uma vez só. Eu passei dias inteiros deitada na cama, olhando pro teto do meu quarto sem a menor vontade de fazer qualquer coisa, porque qualquer coisa exigia uma força que eu não tinha e honestamente não queria ter. Era o meu mês e eu podia chorar se quisesse – mas também podia passar o dia inteiro na cama, e faltar todas as aulas do mundo, me afastar do mundo e fantasiar sobre cenários em que eu invariavelmente morria. Eu, que sempre tive pavor de morrer, de repente encantada com a perspectiva de por um fim em tudo. Foda-se, é o meu mês e eu posso morrer se quiser.

Verdade seja dita, eu achei que fosse morrer de verdade. Enquanto revirava na cama, dessa vez fisicamente doente, sentindo a febre e a dor me consumirem, eu alternava momentos de muito choro e outros em que simplesmente desejava que aquilo acabasse o mais rápido possível. O antibiótico não fez efeito, meu médico não podia me atender, e eu não tinha coragem de sair de casa para ir em qualquer outro. Era óbvio que eu ia acabar morrendo como uma camponesa da Idade Média. Quando disse isso pra minha mãe, ela respondeu que todo mundo ia morrer mesmo, mas que ninguém morre de amigdalite no século XXI. Era questão de tempo até eu melhorar e eu deveria parar de ser tão pessimista; mas ela não entendia que era impossível não ser. De repente, era o meu mês e eu estava fazendo uma porção de coisas, coisas demais para sequer aproveitar a vantagem, consumida pela depressão e pela ansiedade, até cair de cama de vez. Ficar doente foi como um pedido de ajuda do meu corpo, mas me magoava que justamente quando as coisas deveriam estar dando tão certo, elas estavam dando tão errado. O universo não deve nada, nem pra mim nem pra ninguém, mas me parecia injusto demais passar meu aniversário de cama, com um pijama velho e o cabelo sujo, sem nem conseguir ter uma refeição gostosa e especial. Eu queria ter um dia bacana, como qualquer pessoa deve querer em seu aniversário, mas a única coisa na minha frente era a morte lenta e dolorosa de uma camponesa medieval.

Foram necessárias horas e horas de conversas com minhas amigas, pequenos rituais de exorcismo que me ajudaram a manter a cabeça no lugar, superando de pouco em pouco cada um dos obstáculos que apareciam na minha frente: a amigdalite, a ansiedade, a depressão, as questões com o futuro, a falta de ânimo e de apetite, a pouca vontade de viver. Eu chorava muito em todas essas conversas, mas ao fim de cada uma delas eu me sentia incrivelmente renovada, um pouco mais forte e amada, especialmente amada. Foi assim que aprendi, do jeito mais difícil, uma lição que eu já acreditava ser muito verdadeira, mas que foi preciso muito tempo para finalmente colocar em prática: a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços delas. A distância é enganadora porque ela nos dá essa aparente sensação de controle, como se nossos problemas se tornassem mais reais à medida que falamos em voz alta sobre eles. Mas eles estão ali e tentar lidar com tudo sozinha é terrível demais, além de enlouquecedor. Pela primeira vez em anos, talvez em décadas, eu permiti que meus problemas fossem o centro de todas as minhas conversas, permiti que as pessoas me dessem colo e palavras de conforto, e que entendessem o que estava acontecendo comigo. Era uma exposição até então inédita – ironicamente, já que eu me exponho em tempo integral por aqui – e também assustadora, porque foram anos criando barreiras e lidando sozinha com minhas questões. Mas foi assustador justamente por ser tão especial. A sensação foi como estar submersa, mas dessa vez numa enorme onda de amor e carinho, do qual eu não podia e nem queria fugir.

Quando meu aniversário chegou, eu estava incrivelmente em paz. E foi com esse sentimento de paz e profunda gratidão que eu recebi de braços abertos uma nova onda de amor e carinho, vinda dos mais diferentes lugares, de pessoas que eu sequer podia esperar. Eu recebi mensagens lindas, delicadas e carinhosas, mesmo depois da data; assisti minhas amigas fazerem festa e meus amigos escreverem coisas ridículas, mas absolutamente sensacionais sobre mim; tirei fotos ridículas e me senti bela em cada uma delas. Aproveitei cada minuto da minha ceia de Natal fora de época, feita especialmente pro meu aniversário, só porque era meu aniversário e eu queria uma ceia de Natal – um pedido que minha mãe não pensou duas vezes em atender. À noite, fui ao cinema assistir A Bela e a Fera, porque, de novo, era meu aniversário e ninguém me impediria de assistir a um dos meus filmes favoritos ganhar uma versão com gente de verdade. Cada minuto da sessão foi como um pequeno presente, e eu ri, chorei, cantei e me emocionei o tempo inteiro.

Eu não ganhei muitos presentes, mas foi como se cada parte do dia fosse um presente por si só. Diferente do que eu esperava, os vinte e quatro chegaram leves, especiais, coloridos como um arco-íris depois de uma tempestade; um adorável lembrete de como a vida pode ser bela, mesmo que nunca seja fácil. Quando soprei minhas velas – cor de rosa (!), com glitter (!) – no último dia 18, eu pedi um pouco mais de saúde, mas também que a vida se tornasse mais gentil e mais leve do que foi no ano anterior. Os vinte e três me ensinaram demais e foram, de longe, um dos melhores anos da minha vida, mas talvez seja a hora de voltar a respirar fundo e devagar – e que seja assim, então.