THE ROAD SO FAR

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O primeiro post do ano é sempre um troço meio complicado de fazer. Gosto de pensar nele como a primeira página de um caderno que acabei de comprar e que, como todos os meus cadernos recém-comprados, me deixam morrendo de pena de começar a usar sem nenhum motivo aparente além do meu medo inevitável de traçar uma linha do qual posso me arrepender amargamente depois. Não é como se eu não pudesse arrancar a página e começar de novo ou usar um lápis e apagar tudo se me der vontade, mas vocês ficariam surpresos (ou talvez, nem tão surpresos assim) com a minha capacidade de guardar um caderno novinho me contentando com pedaços de papéis velhos enquanto guardo meus queridos, especiais cadernos, em uma gaveta qualquer. Em outubro ou novembro – talvez um pouco antes disso, talvez um pouco depois – comprei um caderno gracinha que pretendia usar no dia-a-dia, andar com ele dentro da bolsa e anotar minhas ideias malucas que surgem de última hora.

Não confirmo nem nego que até hoje não usei o bendito caderno, risos.

Enquanto isso, minhas anotações em casa são feitas num caderno que continua sua existência cercado de muita dor e sofrimento, e que implora de joelhos para ser aposentado, e na rua a gente entrega nas mãos de Deus, anota no celular e torce pra lembrar daquela anotação que, ao que tudo indica, vai ficar pra sempre perdida no bloco de notas até o dia que não servir pra mais nada que é exatamente quando você (no caso, eu) vai lembrar da existência dela de novo. Pois é.

A ideia de não querer traçar uma linha errada do qual vou me arrepender depois é mais ou menos o que sempre me faz postergar tanto o primeiro post do ano no blog. Como se já não bastasse ele estar respirando com a ajuda de aparelhos (por todos os motivos que vocês já devem estar carecas de saber), eu não quero começar com o pé esquerdo, não quero começar com um texto equivocado que daqui alguns dias vai me fazer voltar neste maravilhoso recinto internético, amargamente arrependida por ter voltado e ainda voltado de um jeito tão vergonhoso. Há muito tempo eu já não me sinto culpada por não escrever aqui com a constância de sempre – porque não tenho mais idade, porque tenho outras prioridades, porque a vida acontece e tudo bem -, mas passar um mês inteirinho sem dar qualquer sinal de vida é uma coisa que ainda me incomoda em algum nível: não ao ponto de me fazer decidir postar qualquer coisa só pra dizer que eu postei, porque qualquer coisa é melhor do que nada (não pra mim) ou me questionar se manter um blog ainda é viável. Mas eu me chateio por não conseguir mais escrever sobre a vida, o universo e tudo mais, com a mesma facilidade que escrevia uns dois anos atrás, por não conseguir sentar na cadeira e escrever uma coisinha despretensiosa sobre o que aconteceu na última temporada dessa minha vidinha ridícula e seguir em frente depois, como acontece todos anos, a vida inteira.

Passeio pelas páginas antigas desse enorme caderno sobre a minha vida e me pergunto se algum dia vou conseguir escrever com a mesma facilidade sobre a minha vida. Não é questão de continuar tentando embarcar num barco que já partiu faz tempo, escrever numa página que já foi virada. Mas eu realmente gostaria de chegar aqui e poder contar uns casinhos bestas sobre a vida, como eu conto com facilidade para minhas amigas (ou pra minha psicóloga, risos). Coisas absolutamente banais mas que se encaixam de forma perfeita até se transformarem nesse grande, enorme, complexo quebra-cabeças que é a vida. Se o blog nasceu para ser um lugar onde eu pudesse registrar minhas memórias – para os outros, é claro, mas principalmente pra mim -, então nada mais justo do que eu começar a escrever sem medo de parecer ridícula, sem a cobrança por ser boa, muito boa, não-posso-postar-nada-com-menos-de-oitocentas-palavras ou qualquer coisa assim. Afinal, não é como se qualquer linha errada não pudesse ser apagada e qualquer texto meio ruim não pudesse ser imediatamente enfiado na lixeira.

Num mundo ideal, meus anos começariam sempre na praia, com os pés na areia e o corpo flutuando na imensidão azul do mar, as mãos enrugadas de todas as horas gastas na água e o cabelo embaraçado pela maresia, e seria isso que eu contaria nas primeiras páginas que marcam o início de mais um ciclo na minha vida, minhas aventuras de verão, os amores, as dores, todas as tardes olhando o céu azul se tornar um grande breu iluminado por pequenos pontos de luz. Entretanto, se perfeição não existe nessa vida – e, possivelmente, em nenhuma outra -, não existe motivo para continuar me cobrando por começos que nunca saem exatamente como o planejado. Nunca comecei o ano na praia, meu namoro começou do jeito mais tosco possível, minhas amizades sempre começam de um jeito meio esquisito e minha vida começou em uma quinta-feira, às 9h da manhã, o dia que menos gosto da semana inteira – contrariando o horóscopo, que não para de me dizer que quinta-feira é o melhor dia da semana para os piscianos. E a graça dos começos está exatamente aí: na incapacidade de controlá-los, de saber quando eles vêm, e então aceitar cada um deles, escrever sobre em uma página em branco, e então seguir em frente, como acontece todos os anos, a vida inteira.

Quando comecei a escrever esse texto, minha ideia era falar sobre o que (não) aconteceu nos últimos dias e não refletir sobre minha incapacidade de lidar com o fato de que minha vida nunca parece tão legal e que eu já não consigo escrever com a mesma facilidade sobre coisas banais, transformando-as num texto que daqui alguns anos ainda vão me dar um orgulho meio besta, mas bastante sincero. Mas vejam só vocês: coisas têm acontecido na minha vida nos últimos dias e por mais bobas que elas sejam, são todas elas que constroem o início de mais um ciclo na minha vida – um ciclo que não começa na praia, mas que tem várias tardes ao redor da mesa comendo bolo e tomando café, festinhas de família, muitas séries, abraços, beijos, e a alegria que é estar ao lado do meu afilhado todas as tardes, da hora do almoço até o jantar. É sobre essas coisas, tão banais que ficam perdidas na minha cabeça, que eu quero escrever, mesmo que seja para me arrepender depois porque a verdade é que eu jamais vou ser capaz de escrever algo que traduza fielmente todos os sentimentos que fazem meu coração bater com força enquanto vivo cada uma dessas coisas. Quem sabe, daqui uns anos, ao invés de me julgar por escrever coisas horríveis em tempo integral, eu seja capaz de olhar com mais gentileza para minhas próprias memórias? É quase como acontece com as fotografias: num primeiro momento, achamos nossa imagem pavorosa, mas basta que o tempo faça seu trabalho para que possamos encontrar certa beleza naquilo que parecia tão assustador no passado. Que 2017 seja assim então: um eterno encontrar belezas em coisas que sempre julgamos tão banais.

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1 Comment

  • Reply Lívia Bonilha Bonassi 26 de janeiro de 2017 at 10:06 PM

    Tenho uma mania com cadernos novos: sempre pulo a primeira página e deixo pra escrever nela depois. Vai que eu mude de idéia?
    Sinto que hoje também não tenho mais a facilidade de antes pra me jogar no meu blog. Mas estou tentando não me cobrar. Estou tentando postar mais despretensiosamente, sem ficar séculos com um post no rascunho. Vamos ver até quando.
    Um beijo e boa sorte pra gente!
    P.S.: super quero ler o livro da Carrie ali do lado.
    P.P.S.: falar é fácil, mas você não deveria se cobrar tanto, já que sua escrita é deliciosa de ser lida!

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