THE ROAD SO FAR

PEQUENO DIÁRIO DA VIDA ATÉ AQUI

Recentemente comecei a ler “Chá de Sumiço”, livro da Marian Keyes, autora irlandesa que foi minha queridinha por muito muito tempo, mas com quem ultimamente mantenho uma relação quase bipolar. No ano passado, por exemplo, li “A Estrela Mais Brilhante do Céu”, um livro que me encantou tão fortemente e me fez chorar de forma muito honesta o tempo inteiro (fosse de alegria ou de tristeza) e que acabou ganhando o título de melhor leitura do ano passado. Antes disso, no entanto, li “Cheio de Charme”, um catatau com mais de 700 páginas sobre relacionamentos abusivos e personagens pouco cativantes que me torraram o saco do início ao fim. Isso talvez tenha a ver com minha pouca maturidade (não que eu tenha muita hoje) e minha ignorância abissal sobre o assunto aos 16 anos (ou talvez tenha sido 17), mas a coisa toda foi tão traumática que até hoje, uns cinco anos depois, ainda não tive coragem de reler, de modo que ele continua parado na minha estante, apenas por ter calhado de ficar bonito lá, ao lado de seus irmãos, pra sempre com essa imagem horrorosa que pintei na minha cabeça. Desde então leio os livros da Marian com um pé atrás, esperando muito gostar e me identificar, mas preparada pra mais um livro sem muita emoção.

“Chá de Sumiço” estava mais pro segundo caso do que pro primeiro, e eu confesso que já pensava seriamente em desistir e deixar pra depois (Raven Boys me espera na estante e sinceramente parece muito mais promissor) quando lá pela página 200 (sim) eu li um trecho e chorei com ele porque facilmente podia ser eu dizendo tudo aquilo – só estava aqui esse tempo todo procurando as palavras certas pra isso:

“Acho cada vez mais difícil conversar com as pessoas em geral. Na verdade, não tenho vontade de estar com ninguém. Mas também não quero ficar sozinha. E me sinto meio esquisita. Assustadoramente esquisita. O mundo todo me parece… esquisito. Não faço questão de tomar banho; não faz diferença que roupa vou vestir. Tudo me parece agourento e nefasto, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer. Às vezes, acho que já aconteceu.”

E aí eu, que passei as últimas semanas querendo muito falar sobre a vida, mas fugindo de toda e qualquer conversa como o diabo foge da cruz (eu sei que não faz o menor sentido); que me senti esquisita o tempo inteiro, mesmo sem saber muito bem em que sentido; que não fiz a menor questão de tomar banho (mas continuei me obrigando por motivos óbvios); e que não senti a menor vontade de me arrumar ou vestir qualquer outra roupa que não fosse um pijama velho horroroso, leio tudo isso e só consigo pensar que meu deus, que porra de vida é a dessa mulher e por que de repente eu sei exatamente do que ela está falando?

i am fine

2015 não tem sido um ano fácil, nem pra mim nem pra ninguém. Tem a crise, tem o dólar que não para de subir, tem o calor que não dá trégua, isso pra citar os motivos mais comuns. Mas tem também a faculdade que vai mal, a ansiedade que não me abandona nunca, o tempo que parece cada vez mais curto, o orçamento cada vez mais apertado, essa sensação de nunca fazer nada certo, e alguém já trocou o óleo do carro? Estive lidando com isso como a pessoa corajosa que sou: fazendo milhões de coisas ao mesmo tempo e não me permitindo pensar muito a respeito, até que eu fui mandada embora do estágio.

Pois é, eu sei.

Passado o desespero (meu deus o que eu vou fazer com a minha vida, meu deus sou um fracasso, meu deus eu tenho CONTAS PRA PAGAR), tentei levar a situação com a naturalidade que ela merecia pra, só depois, olhar pra ela e enxergar ali uma oportunidade. Seria minha chance de trocar de habilitação e virar oficialmente uma aluna de cinema? Seria a minha chance de procurar um novo estágio, escrever um livro e dirigir um vídeo clipe? Seria minha chance de voltar a ser aquela pessoa que não comprava 28371293 livros novos por mês e sobrevivia com mais ou menos as mesmas peças de roupas por mais que duas estações? Seria, finalmente, minha chance de largar Brasília e ir vender minha arte na praia? Eram muitas questões, muitas dúvidas e receios, mas ao mesmo tempo foi um momento em que eu me permiti olhar pra mim mesma e pensar que aquele podia ser de fato um sinal do Universo dizendo vai lá, segue teu rumo, vai atrás do teu sonho. Ajudou o fato de todo mundo ao meu redor de repente fazer coro à minha teoria, como numa promessa que ninguém prometeu de verdade, mas que todo mundo meio que acreditava por fé – na vida, em Deus, no Universo, talvez em mim também. Foi libertador ter tantas possibilidades na minha mão e principalmente tempo pra fazer as coisas acontecerem (ou, pelo menos, correr atrás de uma parte delas), mas depois de um tempo tudo começou a me parecer meio estranho e então eu já não tinha ânimo nem pra levantar da cama e encarar a vida, muito menos pra correr atrás de qualquer coisa.

Tenho pra mim que esses períodos trevosos sempre são desencadeados por algum motivo, seja uma doença ou o casamento da minha amiga que perdi por pura incompetência da Gol (claramente ainda não superei essa história), mas dessa vez parece diferente, porque as coisas já estavam ruins antes, a nuvem cinza estava ali o tempo todo sobre minha cabeça, o negócio é que só agora eu tive tempo de olhar pra cima e ver ela ali, me rondando como um urubu. Não deixa de ser traumático perder minha independência (?) e ter que voltar a pedir dinheiro pra minha mãe e ver ela pagando minhas contas idiotas mais ou menos na mesma época em que meu padrasto perdeu o emprego e ela tem que se virar em duas pra dar conta das contas da casa, mesmo sem um emprego fixo, mas não é como se as coisas tivessem ficado ruins agora, muito menos tão de repente.

Como eu disse, 2015 não está sendo um ano fácil.

Helen, a personagem do livro, tem depressão, não tem um emprego fixo e acabou de ser obrigada a voltar pra casa dos pais porque não tinha grana pra pagar a hipoteca do seu apartamento. Ela tem um namorado incrível e as únicas partes em que ela parece realmente normal e feliz é quando está com Artie, mais ou menos como eu aqui, fingindo que tá tudo bem e rindo atoa na frente de todo mundo, e depois me desesperando no WhatsApp porque não sei manter uma conversa séria olho no olho. Passar as noites com o Gui é sempre uma tábua de salvação, aquelas horas de glória em que eu posso ser eu mesma e falar do que eu quiser, mas incrivelmente me sinto tão leve que não consigo falar nada de ruim, até que ele vai embora e me vejo naquele breu de novo, deitada embaixo do meu edredom, incapaz de sair da cama, sem ânimo de sair e ver o mundo lá fora, enquanto minha mãe incansavelmente clama que eu saia do quarto e pelo amor de deus vá mandar uns currículos.

man you are in the bell jar

ainda preciso escrever sobre esse filme

A essa altura do campeonato acho que já é permitido dizer que eu talvez reprove umas duas matérias por causa das faltas.

Fico pensando se é essa a história que estou escrevendo pra mim, se daqui 10 anos eu vou ver em mim mesma uma versão da Helen, essa mulher incrível que eu acompanhei desde que tinha 23 anos (!) através da história de suas irmãs, e que agora me parece muito mais errada que todas as irmãs Walsh juntas, tão errada que eu chego a sentir raiva dela por se sentir assim, mas só sinto isso porque eu me sinto meio assim também, não o tempo todo, mas em boa parte do tempo. Não é essa a história que eu quero pra mim. Eu sei que querer não é poder, eu sei que a Helen também não gostaria de ser assim (ela deixa isso claro no livro o tempo todo), mas não deixa de ser desesperador pensar que entre todos os planos e promessas, eu posso acabar sendo meio assim também. Que eu posso querer demais ser essa pessoa que sai de manhã cedo pra caminhar, que tem um trabalho incrível, que viaja todo ano pro exterior, que tem um marido maravilhoso, bebe uma taça de vinho toda noite e que consegue ser maravilhosa de shortinho e pés descalços; mas talvez eu não seja essa pessoa – ou talvez eu até seja, só não o tempo inteiro.

Na terça, depois de acordar de manhã cedo e levar o Gui na porta, eu voltei pro meu quarto disposta a fazer qualquer coisa que não fosse dormir, mas sabem como é, meu quarto ainda estava muito escuro, eu não estava tão disposta assim a acender as luzes ou puxar a cortina, e daí dois minutos eu peguei no sono de novo. Acordei com minha mãe brigando comigo, dizendo que eu devia ir acordar e fazer alguma coisa, e num reflexo de quem ainda está meio dormindo e de repente perde qualquer filtro e noção de respeito, eu mandei ela largar de ser chata ou qualquer coisa assim. Ao invés de ficar brava, no entanto, ela começou a gargalhar, desarmada pela minha honestidade repentina e então estávamos nós duas ali, rindo demais de uma coisa tão boba, numa dessas cenas que, como eu sempre gosto de dizer, podiam ser de um filme ou de uma série qualquer, mas que era só a vida acontecendo. Besta desse tanto, mas talvez eu enfie essa cena no meu próximo roteiro só pra não desperdiçar. Assim como nos filmes, esses respiros me dão um certo alívio e, por que não?, fazem com que eu me sinta um pouco mais disposta a seguir em frente. Na terça, por exemplo, depois de todas as risadas, eu dormi por mais algumas horinhas, então levantei, tomei um banho e fui resolver uma porção de coisas que eu estava adiando; e entre ligações feitas, e-mails enviados e alguns rascunhos escritos, arrumei tempo (e, principalmente, ânimo) de fazer o jantar. No entanto, meu cinismo não permite que eu encare isso como algo além de um dia bom, muito diferente de todos os outros que já passaram e muito diferente dos que vieram depois, mas sempre existe a chance de um repeteco no meio do caminho.

No fundo no fundo, continuo sendo a Ana de sempre, dramática até o último fio de cabelo, mas com uma fé inabalável na vida e que acredita, acima de tudo, que as coisas melhoram em algum momento. Digo isso sempre que minhas amigas vêm pedir colo, primeiro porque sou muito melhor com abraços e ouvidos do que sou consolando, mas também porque é nisso que eu acredito e preciso dizer isso pra elas tanto quanto preciso dizer pra mim mesma. Não sei até quando consigo continuar sem me estrepar inteira pelo caminho. Por hora, entre mais dias ruins do que bons, a gente vai levando e tudo bem. Mas por favor vida, vamos agilizar uma luz aí.

youre gonna suffer

assinado: VIDA, Minha.

“A onda de escuridão que subiu pelo meu corpo quase me cegou. Foi como um eclipse do sol. Mas eu já me sentira daquela jeito antes. Sabia exatamente o que precisava fazer. Tinha de ir em frente, sem parar, colocando um pé na frente do outro. Até, talvez, não conseguir mais fazer isso.”

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5 Comments

  • Reply Larie 24 de setembro de 2015 at 6:20 PM

    Antes de tudo: um abraço? Amiga, que urucubaca tá acontecendo na sua vida, misericórdia. Vou mandar as vibes positivas daqui.

    Olha, eu nunca deixei de acreditar naquela frase “everything happens for a reason”, sabe? Ela é quem me ajuda a seguir em frente quando a coisa tá preta. Essa coisa do seu estágio deve ter te tirado o chão, mas tenta ver pelo lado positivo. Talvez você precisasse disso pra sair do stand-by. Vai que cinema é o grande amor da sua vida. Já te vi falando algumas vezes sobre isso e parece que a ideia já tem raízes na sua cabeça e que você tá com medo de se jogar.
    Acho que tá na hora de pesar na balança o que importa, né? Vaique.

    Adorei as falas desse filme. QUE FILME É ESSE? FALE SOBRE ELE PLS.

    <333 a tempestade há de passar.
    beijocas.

  • Reply Thay 24 de setembro de 2015 at 11:07 PM

    Ain, Ana, why a vida tem que ser tão dura às vezes?

    Esse ano de 2015 é o ano da zica, sinceramente. Também não tem sido um dos melhores pra mim, então entendo direitinho todo o seu sentimento. Mesmo assim, com todo esse mar de coisa errada nos puxando na direção contrária a que queremos ir, não podemos nos deixar levar simplesmente, né? Sei que é muito mais fácil falar do que fazer, mas a gente tem que tentar se manter positiva mesmo nesses momentos mais escuros.

    Temos que pensar que tudo isso acontece em nossas vidas por um motivo, nem que seja pelo nosso crescimento e aprendizado. Tá difícil de levar? Oh se está! Mas a gente leva! Um dia de cada vez, um depois do outro. Aos poucos a gente se levanta e vê que o sol raiou de novo. Vou ficar aqui, torcendo pra você e que tudo de mais lindo esteja ao teu encontro logo mais.

    Fica bem! ♥

  • Reply Leticia 25 de setembro de 2015 at 12:54 AM

    O óleo do carro é um trauma eterno. E perto das coisas grandes parece pequeno mas na vida é esse monte de coisinha chata que acumula e vai deixando a gente na merda.
    Um abraço virtual pra vc, torcendo que as coisas melhorem! Épocas de tristeza e coisas chatas acontecendo é muito, muito ruim. Que bom que elas passam.
    Acho que esse livro da Marian não li. Desencanei total dos livros dela, mas me identifiquei horrores com a sinopse que vc deu… to indo procurar o livro já!

  • Reply Mari Mari 26 de setembro de 2015 at 3:22 PM

    Eu curto a Marian Keys. Comecei por Melancia, depois fui pra sushi (já leu? Meu favorito dela) e daí pra frente, mas confesso que depois de 5 livros comecei a encontrar algumas mesmices.

    2015 está sendo difícil. Confesso que to achando um ano bom, COMPARADO AOS ÚLTIMOS, porém difícil.

    Sim, concordo que sempre há um motivo pra que as coisas se desenrolem dessa forma, mas VC PERDEU O CASAMENTO DA SUA AMIGA POR INCOMPETÊNCIA DA GOL? Como assim? Q bad cara…

    Lendo o post todo dá pra dizer que vc está mal. Quase reprovada por falta, admitindo que quase não sai de casa e se comparando com personagens fodidos (esse é o pior sintoma, amiga, o pior). Olha, não tem nada que vc possa fazer pra melhorar? Jogar tudo pro alto e fazer alguma coisa q te de vontade de continuar. Sei lá, eu posso estar falando merda, não sei como é ser ansiosa, mas conheço pessoas com esse problema e é realmente o inferno pra elas, então me sinto meio mal de sair falando sobre alguma coisa que eu não de fato sei.

    Mas força aí, cara. Qualquer coisa eu to aqui a um blog de distância. De verdade. Pode falar comigo.

  • Reply Yuu 27 de setembro de 2015 at 2:31 AM

    Ana, fica aqui o meu abraço virtual pra você. <3

    2015 está sendo um ano que eu não tô conseguindo entender. Está passando tudo muito rápido, e cadê o progresso? Como Jout Jout disse em um dos seus vídeos, tá todo mundo mal. Embora seja trágico, acho minimamente reconfortante saber que temos companhia nesse caminho espinhoso. Só queria saber quando essa crise dos 20 vai passar, acho que superar isso por si só seria um grande avanço.

    Não me ofereço para te dar conselhos, porque muitas vezes eles são furados, mas ofereço o meu apoio e a minha torcida por você. Se precisar de alguma coisa, como disse a mocinha de cima, estou a um blog de distância. Disposta a ouvir desabafos (evasivos ou não) e compartilhar minha receita de brownie (a única que eu sei fazer). Uma coisa que eu aprendi com as minhas próprias fases trevosas é que a força vem de dentro mesmo. E qual foi a minha surpresa ao perceber que não era só um clichê que as pessoas repassavam.

    Procure fazer o que te faz bem por enquanto. E se cuide, está bem?

    Beijinhos. :*

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