DRAMAS REAIS

PEQUENO MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA PARA DIAS DE CHUVA

É sabido que a temporada de chuvas é uma das épocas mais problemáticas do ano – pelo menos aqui em Brasília. É a energia que cai com uma frequência ridícula, o trânsito que literalmente para o tempo todo, são os pés molhados e o cabelo com frizz, e o que dizer sobre todos os guarda-chuvas perdidos no caminho? São tempos já difíceis demais para todos nós sem que ninguém precise sair por aí ensopado, e foi pensando nisso que resolvi trazer este pequeno manual de sobrevivência para dias de chuva, baseado exclusivamente na experiência adquirida nesses 23 anos de guarda-chuvas esquecidos e sapatos molhados.

Eu gosto de chuva, bastante até, e por trás de toda a inconveniência do mundo, acho que existe muito mais beleza do que nosso mau-humor nos deixa admitir. Foi um longo e tortuoso caminho de aprendizado, aceitação e pés molhados até chegar aqui, e eu também ainda estou aprendendo – não é difícil me ver por aí com o nariz escorrendo, super gripada e sem a menor dignidade, graças a um posterior banho de chuva inesperado, e toda a ideia desse post foi concebida durante um engarrafamento monstruoso no início do semestre passado (!), na volta da faculdade graças a, isso mesmo, um temporal. Ou seja, eu ainda não tenho todas as respostas e também estou aprendendo. Este não é um guia definitivo de como sobreviver em dias de chuva, mas um compilado daquilo que aprendi nesse meio tempo e que pode te ajudar também, não a amar e reconhecer a beleza deles (talvez isso também), mas, na medida do possível, tornar mais fácil a convivência com eles.

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1) A CHUVA NÃO É SUA INIMIGA

Ou, pelo menos, quase sempre ela não é. Excluindo casos em que a chuva é, senão o problema, pelo menos o desencadeador do problema (e aqui obviamente estou falando de problemas sérios como enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra, e não de pés molhados e cabelos com frizz), na grande maioria das vezes, a chuva faz mais bem do que mal: é o clima que fica mais agradável, a umidade que nos faz respirar melhor, as plantinhas que agradecem e ficam mais bonitas, sem contar que a falta de chuva também pode ser um problema bem sério. Ou seja: ruim com ela, pior sem ela. Gosto de lembrar disso especialmente em manhãs chuvosas, quando acho particularmente difícil sair da cama e viver a vida. Não é porque eu gosto de chuva que não sofro quando preciso acordar cedo se minha vontade sincera era passar o dia inteiro embaixo das cobertas, assistindo Netflix, e me lembrar que existe algo maior acontecendo do que eu e minha vontade de dormir até o fim dos tempos sempre ajuda a enxergar o lado bom da situação ou tentar fazer o melhor que posso com ela.

2) ALGUMAS COISAS SÃO MAIS DIVERTIDAS QUANDO ESTÁ CHOVENDO

E com isso não quero dizer apenas os beijos – que são uma experiência altamente interessante e que eu recomendo fortemente pra qualquer pessoa -, mas coisas não tão óbvias, tipo jantar fora. Ou então ir ao cinema, que é a coisa que eu mais tenho feito no meu tempo livre e acho especialmente maravilhoso quando está chovendo. Ou tomar banhos de piscina (exceto quando é uma tempestade, aí é uma péssima ideia, não façam isso). Comer, principalmente, é uma das coisas que mais gosto de fazer na chuva, principalmente porque é algo que me conforta profundamente. A Olivia Wilde disse uma vez que o barato da comida é que ela é como um abraço por dentro, e é por isso que a gente se sente tão bem quando come. Eu sinto muito isso, e acho que o barato de comer na chuva está exatamente aí: nada como receber um abraço quentinho por dentro enquanto ouve a chuva batendo na janela e joga conversa fora com alguém especial. Sem contar que, por mais que nada nem ninguém nos impeça de comer coisas quentes no calor, é muito melhor (e mais gostoso!) fazer isso em temperaturas mais amenas. Tipo, ninguém vai te proibir de tomar uma sopa ou um chocolate quente no verão, mas vocês entendem a diferença radical entre fazer isso num dia de chuva e num calor de 40º.

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Além disso, tenho a impressão de que consigo fazer algumas coisas com mais facilidade quando está chovendo. Estudar, por exemplo, fica muito mais prazeroso. Ou escrever. Ou me concentrar em qualquer coisa. Da mesma forma, coisas clássicas como ler, assistir televisão (ou Netflix), jogar um jogo, comer pizza e tomar um vinho são opções igualmente válidas, que não se tornaram clássicos por acaso. Ou seja, dá sim pra se divertir numa boa enquanto a chuva cai lá fora, é só escolher aquilo que funciona melhor pra você.

3) USE A ROUPA CERTA

Por muito tempo, meu maior problema com a chuva não era nem com a chuva em si, mas com minha incapacidade de escolher roupas que fizessem algum sentido no meio dela, que me deixassem confortável e me protegessem na medida do possível (não estamos falando de galochas e capas de chuva aqui) (embora eu não seja contra galochas) (mas sou contra capas de chuva, risos eternos), e que também não me dessem um ar muito sofisticado. Veja bem, eu gosto de peças sofisticadas, acho lindo e tenho algumas até, mas é um troço que, na prática, não funciona muito pra mim. Porque eu sou uma pessoa de camiseta e calça jeans, e sendo uma pessoa de camiseta e calça jeans, é muito pouco provável que eu vá acordar num belo dia chuvoso e usar um trench coat pra ir pra faculdade. Nessas horas, o combo de jaqueta de couro (ecológico) + moletom é o que me salva porque esquenta na medida, o capuz protege minha cabeça e são peças que eu já uso naturalmente no dia-a-dia. Além disso, embora calça seja a opção imediata, vale sempre lembrar que as chances dela molhar são bem grandes e que a maioria demora bastante pra secar no corpo, ou seja, na falta de opção melhor (não importa a boa vontade, usar saia ou vestido às vezes é impraticável), escolha um modelo de tecido mais leve ou que não fique muito próxima do chão – leggings, por exemplo, são maravilhosas porque ficam justas no corpo e terminam na altura do tornozelo. Por fim, sempre prefiro usar botinhas (de preferência coturnos) porque a maioria protege o pé (mas é bom ficar de olho porque nem todos encaram chuva muito bem).

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E sempre importante lembrar: se vestir para a chuva é muito diferente de se vestir para o frio. Com isso em mente, fica mais fácil acertar, mas não se esqueça de dar uma olhada no espelho antes de sair de casa e se perguntar se a sua roupa realmente está adequada. Se a resposta for sim, é só seguir em frente e ser feliz. Senão, volte duas casas, comece de novo.

4) PREVENIR É MELHOR DO QUE REMEDIAR

Estavam certas nossas mães e avós que sempre nos mandaram levar um guarda-chuva, um casaquinho, um pacotinho de biscoito dentro da bolsa antes de sair de casa. Porque acontecem coisas, coisas demais, e muito melhor do que correr o risco de fazer cover do gato desolado na chuva é ser prevenido e sair de casa com o kit de sobrevivência completo, mesmo (e principalmente) quando parecer ridículo demais. Brasília, por exemplo, é esse lugar maluco que você nunca sabe quando vai fazer sol, chuva ou casamento da viúva, de modo que é muito melhor sair preparado pro que der e vier do que ter que se lamentar embaixo de chuva pela falha cometida. Além disso, é sabido que mães e avós têm poderes sobrenaturais, ou seja, se elas disserem que é melhor você sair de casa com um guarda-chuva, um casaquinho ou um pacote de biscoito, é melhor sair com todas essas coisas porque muito provavelmente você vai precisar. Ninguém merece chegar em casa ensopado depois e ainda ter que ouvir um “eu te avisei”.

(Caso não tenha ficado claro, o pacote de biscoito serve para aquelas situações em que você se vê preso em algum lugar – um prédio, um carro, whatever – por causa da chuva e não sabe quando vai conseguir sair e continuar com a vida. É bom pra passar o tempo e segura a fome chata que eventualmente aparece)

5) RECLAMAR NÃO RESOLVE NADA – DESCONTAR NOS OUTROS TAMBÉM NÃO

Embora eu goste muito de chuva, sou a primeira a reconhecer que ela pode sim ser bastante inconveniente, especialmente pra quem tem algum compromisso importante e inadiável ou precisa cumprir horários muito rígidos. Tempo é dinheiro e é também uma das coisas mais importantes que temos, e uma vez que ele vai embora, é impossível voltar atrás, mas eu também sei que algumas coisas simplesmente acontecem, que o mundo não gira em torno do meu umbigo e que eu não tenho controle sobre tudo o tempo inteiro, então não adianta nada eu praguejar, xingar ou colocar a culpa em outra pessoa que, tanto quanto eu, só queria chegar em casa ou no seu compromisso e ficar em paz. Acho que o exemplo mais claro disso é o trânsito: as pessoas já se estressam naturalmente com ele, num nível que muitas vezes beira o doentio, e no meio da chuva isso só toma proporções ainda maiores. Ninguém quer perder tempo, ninguém quer passar horas dentro de um carro fazendo absolutamente nada, mas se carros voadores ainda não são uma realidade e se ninguém ainda pode passar em cima do coleguinha quando bem entender (ainda bem), então o melhor que a gente pode fazer é esperar e não tornar toda a situação ainda mais traumática do que já é. É um desgaste completamente desnecessário esse de ficar arrumando confusão por absolutamente nada, transformando algo que já é ruim em um troço ainda pior e usando uma energia que poderia ser utilizada em algo muito melhor, tipo ouvir música ou fazer uma emergency dance party no carro. Sério, a gente não precisa de mais gente deixando a vida de todo mundo ainda mais difícil.

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Se tudo der errado, pelo menos a gente ganha um arco-íris bem lindo pra compensar a dor de cabeça no final do dia.

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5 Comments

  • Reply Manu 2 de agosto de 2016 at 1:29 PM

    O mundo precisa ler esse seu post!!!!
    Amo amo amo demais a chuva, e já estou sentindo saudade dela por aqui, enquanto o ar fica seco e irrespirável e eu fico com aquela sensação horrível de mão seca e suja depois de sair na rua por cinco minutos. Claro que volta e meia transtornos acontecem (aquelas estações chuvosas erradíssimas que estragam safras e o preço dos alimentos sobre tudo, a chuva de pedra que deu aqui ano passado e quebrou metade dos prédios da cidade, o apartamento em que morei e toda vez que chovia alagava meu quarto), mas não entendo as pessoas reclamando de dias chuvosos. É só água, sabe? Cês são de papel???
    Se vestir pra chuva, lógico, é um negócio muito importante (eu sou totalmente a favor de galochas, to esperando alguma fashionista brasileira lançar a tendência há anos), e sempre que preciso sair e andar quilômetros eu coloco uma touquinha marota pra proteger as cabela do frizz/umidade. Também sempre ando com um guarda-chuva pequenininho na bolsa, e tenho outro guarda chuva tamanho gigante (é uma sobrinha de arco-íris!!! como alguém pode odiar a chuva sendo que a gente pode usar sombrinhas lindas?) pra sair no meio daquelas chuvas com vento – NINGUÉM MERECE TER O GUARDA CHUVA VIRADO, AÍ JÁ NÃO TEM HUMOR QUE RESISTA.
    Se não dá pra cancelar todos os dias chuvosos e ficar vendo tv e comendo, pelo menos a gente pode se confortar com um banhinho quente no final do dia, né?

  • Reply Thay 2 de agosto de 2016 at 5:21 PM

    Que post maravilhoso! AMO chuva e quando chove me sinto extremamente bem. Pego ônibus, saio de casa, faço tudo quanto há no maior bom humor. E acho bem equivocada gente que fica reclamando da chuva quando, claramente, o problema não é água que cai das nuvens, risos. E curioso você dizer que Brasília nunca tem um clima bem definido pq Cwb é igual! O dia começa com sol, aí fica nublado, aí chove, aí final da tarde tem sol de novo. Enfim, é uma loteria! E aprender a se vestir para esse clima testou minha paciência por anos, mas acho que agora me adaptei bem (moro aqui há 17 anos e só agora me adaptei, veja só). AHH, e desculpa, mas eu era esse tipo de pessoa que ia pra faculdade de trench coat porém, em minha defesa, eu tinha que me vestir arrumadinha pois estágio. Aí acabei me acostumando depois de todos aqueles anos e trench coat já faz parte de mim, tenho uns cinco diferentes no armário e amo absurdamente. Mas amo também minhas jaquetinhas de couro estilosas, adoro fingir que sou a Jessica Jones quando as uso com bota de cano curto e fivelas (e sim, eu sei que ela usa coturnos, mas no momento não tenho nenhum par, aff). E gente, eu me transformei na minha mãe pois não saio sem sombrinha, casaquinho e lanchinho na bolsa! HAHA, mas, em minha defesa² eu tenho que me alimentar de 3 em 3 horas certinho caso contrário pressão baixa e já era. :~~
    Beijos, miga linda! <3

  • Reply Maria 3 de agosto de 2016 at 12:08 AM

    Eu AMO a chuva, mas reconheço que ela é extremamente inconveniente às vezes. E, sendo bem sincera, sempre depende muito da época do ano também. Eu simplesmente amo chuva de verão/primavera. Já chuva de inverno/outono me deixa melancólica. Tem dias que eu curto, tem dias que nem tanto.

    Eu concordo com todos os pontos do post e admito que também tenho bastante dificuldade pra me vestir para a chuva. Aqui em Curitiba o tempo também é uma bagunça, como a Thay comentou aí em cima, HAHA.

    Aliás, minha mãe nunca jogou essas pragas em mim (e minhas avós moram longe), felizmente, mas tenho certeza que sofreria caso ela assim fizesse.

    Beijinhos.

  • Reply Nicas 3 de agosto de 2016 at 2:00 AM

    Não tenho grandes problemas com chuva: sou até que tolerante com o trânsito e acho a danada muito gostosa pra ficar em casa, mas QUANDO ENTRA ÁGUA NO SAPATO! SEM OR! Eu não repondo por mim, sofro demais.

    É boa a dica dos coturnos, mas recomendo testes antes (sou muito rígida), tem uns que não seguram nada, sou tão noiada que só bota fechadona mesmo.

  • Reply Bruna Morgan 6 de agosto de 2016 at 9:57 PM

    Amo passar as tardes de chuva lendo um livro debaixo da coberta <3

    ✦ ✧ http://bruna-morgan.blogspot.com ✧ ✦

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