THE ROAD SO FAR

PERFECT PLACES

Em 2013, quando o primeiro álbum da Lorde foi lançado, eu tinha 20 anos. Era meu segundo ou terceiro semestre na faculdade de comunicação e coisas que imediatamente me pareceram extraordinárias, começavam a adquirir contornos cada vez mais mundanos. Depois de me impressionar com as pessoas, as opiniões e a aparente transgressão – às vezes, genuína -, me sentir sozinha e ao mesmo tempo parte de algo maior, amar e odiar aquilo com toda a força do meu coraçãozinho pisciano sofredor, eu finalmente começava a enxergar aquelas pessoas e aquele lugar aparentemente perfeitos por uma perspectiva menos idealizada e mais realista. De repente, as roupas bonitas e os cabelos calculadamente descolados passaram a dar lugar a pessoas inseguras, vulneráveis, cada vez mais distantes daquela imagem inicial de força e subversão; ainda eram as mesmas pessoas que, nos corredores da faculdade, pareciam invencíveis, fortes e livres, mas tanto quanto qualquer outro, elas também queriam pertencer, também sentiam medo e eram jovens, muito jovens, embora suas palavras nem sempre as condenassem.

Eu observava tudo isso a uma distância mais ou menos segura: distante o suficiente para não me machucar, o mais perto possível para não deixar nada passar despercebido. Era uma posição privilegiada, superior até; mas curiosamente decepcionante – eu queria o glamour meio decadente, queria o horror das noites em claro, bêbada demais para entender o que estava acontecendo; e todo o trauma, o terror e a porra do melodrama. Eu estava segura e a salvo, mas eu era jovem, muito jovem, e não queria estar segura, muito menos a salvo. Diferente da adolescência, quando passava a maior parte do meu tempo trancada no quarto, ouvindo músicas de bandas que ninguém conhecia, assistindo filmes que ninguém além de mim ou dos meus pais achavam legais e lendo livros que ninguém mais gostava, aos vinte anos, eu já não me sentia tão melhor assim do que outras pessoas por fazer nenhuma dessas coisas, muito menos julgava quem caminhasse na contramão – pelo contrário, eu quase implorava que eles me dessem a mão e pelo amor de Deus, me deixassem caminhar (ou dançar) junto com eles. Era uma mudança sutil – e silenciosa – de comportamento, mas ainda fundamental, que me afastava cada vez mais do meu eu adolescente e me aproximava desse novo cenário onde tudo era meio feio e exagerado, mas que ainda assim me atraía em vários níveis; o que era contraditório e, ao mesmo tempo, profundamente incômodo.

Minha adolescência não foi um mar de rosas – existiram os dramas, as drogas, as festas, o álcool, as pessoas legais demais até que se provasse o contrário -, mas ainda assim havia um abismo que separava a versão adolescente da versão jovem adulta de mim mesma. Com treze ou catorze anos, eu ouvia músicas que falavam sobre lugares em que eu nunca estivera, sobre sentimentos que eu nunca sentira, e via filmes e lia livros que falavam sobre exatamente as mesmas coisas, sonhando com o dia que eu, talvez, pudesse viver aquilo também – e aí, quem sabe, cantar, escrever ou registrar de alguma forma minhas próprias experiências. Contudo, mesmo aquilo que era vivido na clandestinidade, nos momentos de desatenção da minha mãe, vinha envolto por um sentimento de incompletude porque, no final das contas, eu continuava sendo a adolescente que não podia fazer nada sem permissão, envolta por uma bolha de limitações que nunca era estourada por completo.

A única vez que fiquei realmente bêbada durante minha adolescência foi dos quinze para os dezesseis anos, quando vomitei embaixo da mesa no aniversário de uma amiga e tive que ser levada pra casa, literalmente, no colo, na frente de todos os meus professores. As pessoas falaram sobre aquilo por semanas, e eu me senti invencível e descolada, de um jeito sujo e meio infantil – a imagem de garota certinha, de repente, quebrada em mil pedacinhos -, mas ninguém sabia que, naquele mesmo dia, enquanto enfiavam uma latinha de Coca-Cola embaixo do meu nariz, eu chorei no telefone com a minha mãe e pedi que ela, pelo amor de Deus, me levasse para casa; que eu deitei no chão do banheiro público de um shopping e pedi que me deixassem dormir ali porque não aguentava mais ficar em pé de tão enjoada, e foi preciso que meu namorado me carregasse mais uma vez nos braços; que eu precisei literalmente fugir do bar em que estava porque éramos todos menores de idade e ninguém queria terminar a noite numa delegacia ou no hospital. Viver tudo isso foi um terror e um horror do início ao fim, mas a história contada parecia muito mais romântica, de um jeito totalmente decadente e ironicamente glamouroso, e aos olhos (e ouvidos) de todos os outros, era muito mais interessante do que realmente tinha sido. No entanto, esse foi um episódio isolado e, eventualmente, as pessoas esqueceram que aquilo algum dia tinha acontecido. Eu voltei a ser a garota que lia demais, ouvia músicas estranhas e pintava as unhas de amarelo maracujá, enquanto as garotas descoladas de verdade continuavam saindo todos os finais de semana, bebendo horrores e fazendo o que quer que adolescentes descoladas faziam no final da primeira década dos anos 2000.

Pure Heroine, trabalho que apresentou Lorde ao mundo, fala exatamente sobre esse distanciamento – sobre observar tudo a uma distância segura, quase cínica, como uma espécie de espectadora segura demais em seu próprio espaço de controle e superioridade meio infantil e ironicamente periférica, sem se envolver demais ou encarar-se como uma parte ativa naquele contexto. Não ouvi o álbum para ter descoberto isso por conta própria, mas é o que tenho lido ou ouvido a respeito na maior parte do tempo, em especial nas últimas semanas, e não acredito que essa seja uma obra do acaso, onde todas as pessoas resolvem concordar umas com as outras just because. Boa parte das pessoas que disseram isso, aliás, são minhas amigas, pessoas que viveram coisas muito parecidas em algum momento de suas vidas, e que ao dizerem isso, falam com a propriedade de quem já esteve – ou ainda está – naquele lugar. Eu acredito nessas pessoas, acredito quando elas dizem que é exatamente esse sentimento que essas músicas evocam e falam a respeito, assim como acredito que a própria Ella de dezesseis anos, que escreveu aquelas músicas sem saber que elas a levariam ao estrelato, também estivera ali em algum momento.

Meus dezesseis anos foram, de alguma forma, o ápice desse exercício quase antropológico de observação. Depois de passar o início da adolescência nutrindo expectativas que eram controladas à base de pequenos atos de rebeldia, eu finalmente assumia, mais pra mim do que para os outros, que aquele não era o meu lugar; eu jamais andaria de mãos dadas com aquelas pessoas, muito menos frequentaria aquelas festas ou encheria a cara daquele jeito pra me divertir. Eu ansiava pelo fim da adolescência, ansiava pelo o que viria depois do ensino médio (I’m waiting for it, that green light, I want it.), mas já não me preocupava em parecer descolada ou fazer coisas que não me interessavam só porque sim. Então, eu continuei a ouvir minhas músicas estranhas, assistir filmes que ninguém conhecia e ler os mesmos livros em looping, me sentindo importante demais para fazer qualquer outra coisa. Curiosamente, foi mais ou menos nessa mesma época que eu comecei a namorar, o que, em partes, influenciou muito a forma como eu encarava a situação. Eu fiquei com Guilherme pela primeira vez numa noite clandestina de bebedeira, em que nós dois bebemos demais, e que terminou comigo vomitando no canteiro do prédio que morava na época. Contudo, a partir do momento em que decidimos ficar juntos, nada daquilo parecia continuar a fazer sentido. Minhas amigas solteiras passaram a frequentar lugares que não pareciam adequados para mim e meu namorado (embora eu nunca tenha acredito nesse tipo de coisa) e nós fomos, gradualmente, nos afastando. Nós não estávamos mais na mesma página, e para viver todo o drama da l.o.v.e.l.e.s.s. generation, era preciso que nós estivéssemos não apenas falando a mesma língua, mas vivendo as mesmas experiências.

Não que estar comprometida, por si só, seja uma questão ou mesmo um problema, mas o romance quase sempre surge como uma parte muito essencial e indissociável de todo o drama que precisa acontecer, e quando ele acontece de forma natural e pouco dramática, você inevitavelmente enxerga as coisas por uma perspectiva diferente. A própria Lorde viveu um relacionamento relativamente longo durante sua adolescência, que chegou ao fim em 2015, e não é por acaso que a garota que conhecemos em Pure Heroine e a jovem mulher que ouvimos em Melodrama são tão radicalmente diferentes. Ela está em um lugar diferente – o que não tem apenas a ver com o fim do seu relacionamento, mas que ainda diz muito sobre estar solteira e, principalmente, sozinha. Como a Isa Sinay colocou em sua última newsletter, Melodrama é sobre descobrir que entrar na vida adulta é colocar os pés na água.

“[…] Melodrama, aos olhos de todos nós, escritores de vinte e tantos anos, não parece um rompimento, mas uma continuidade: a adolescente fechada em si mesma que descobre que entrar na vida adulta é por os pezinhos na água. É ter as coisas acontecendo. Intensas demais, rápidas demais, coisas demais, coisas que você romantizou na sua cabeça, mas que quando estão aqui, fazendo seu sangue ferver de verdade, já não parecem tão desejáveis.”

Nada disso tem a ver exclusivamente com o fato de estar em um relacionamento amoroso, mas essa ainda é uma parte importante da experiência de ser jovem, muito jovem, e que também diz muito sobre como nos posicionamos e enxergamos o mundo. O fato de nunca ter vivido grandes dramas me privou, de certa forma, dessa experiência, porque o amor continuava a ser um lugar seguro, estável e confortável demais para me jogar para o mundo por conta própria; e não fruto de mágoas profundas, vulnerabilidade e sentimentos confusos. Nunca foi confuso; inebriante e intenso, sem dúvida, mas nunca confuso. Foram necessários muitos mais anos do que talvez fosse aceitável para que eu finalmente colocasse meus pés na água e me permitisse ser vulnerável, o que talvez seja a maior mensagem sobre Melodrama. Até os 22 anos, eu não bebia, sequer pensava em usar drogas, e continuava vivendo numa bolha de pessoas que não bebiam ou usavam drogas, e que raramente iam em festas ou bares ou qualquer coisa assim. Nós passávamos horas jogando WAR, tomando banho de piscina, falando mal dos outros e comendo feito loucos; mas foi uma fase, e como todas as outras, essa também chegou ao fim.

Foi um rompimento dramático, triste e doloroso como poucos que senti e precisei lidar na minha vida. Várias vezes eu disse – pra mim mesma e também para os outros – que 2015 era o pior ano da minha vida, e essa era a mais pura e dolorosa verdade. 2015 foi um ano de profundo desencantamento, o momento em que rompi com todas as minhas certezas e finalmente me permiti colocar os pés na água – só para descobrir que ela era muito mais gelada do que eu estava esperando. Não foi preciso ter meu coração quebrado por um homem; mas ele foi quebrado assim mesmo – uma, duas, três vezes por fim; e foi difícil, traumático, dolorido como eu jamais poderia esperar. Era o fim de uma era, a despedida da vida que eu conhecia. Não por acaso, esse foi o mesmo ano em que eu menti pra minha mãe e viajei sozinha pela primeira vez para encontrar pessoas que eu nunca tinha visto na vida (num lapso inquestionável de coragem) e pedi transferência de curso na faculdade – uma atitude que, naquela altura do campeonato, pareceu ridícula e imatura para a maioria das pessoas -, mas também quando comecei a ter crises de ansiedade mais sérias e me perder em meio à depressão. Depois de perder o emprego, o casamento de uma amiga, levar um pé na bunda da minha então melhor amiga (thought you said that you would always be in love, but you’re not in love, no more) e ver um monte de gente da minha idade literalmente morrer, eu me vi em um lugar em que já não tinha mais nada a perder; o controle era só uma ilusão, não havia nada ali que não pudesse facilmente se desfazer no ar.

Lembro de morrer de medo em vários desses momentos, da ansiedade, do sentimento de vulnerabilidade por me permitir estar tão fora de mim, especialmente quando estava longe de casa. Mas, ao mesmo tempo, também lembro da magia, do sentimento de viver coisas tão incríveis e especiais, da segurança que pouco a pouco ganhava espaço em meio ao caos sem nenhum traço de ironia ou cinismo; o suficiente para que eu não quisesse voltar atrás. 2015 talvez tenha sido o pior ano da minha vida, mas foi um ano absolutamente necessário e também mágico, ainda que do seu jeito meio torto. Eu dancei até sentir meus pés doerem, só pra continuar dançando mesmo assim; chorei de saudades, ri até perder o ar, peguei no sono ainda com roupa de festa no corpo e maquiagem na cara, fui até a Lua e voltei três vezes, sem nem saber como havia saído de órbita para começo de conversa, sem nem mesmo precisar sair de casa. Era visceral, inebriante e, ao mesmo tempo, extremamente libertador.

Ao seu próprio modo, Melodrama também é visceral, inebriante e libertador. Conceitualmente ambientado em uma festa, o álbum nos leva por diferentes lugares que ganham espaço nesse cenário – início, ápice e declínio; lugares perfeitos e outros nem tão perfeitos assim -, condensados em 41 minutos preciosos e repletos de honestidade. Suas letras falam sobre rompimentos, sobre perda de controle, mas principalmente sobre permitir-se perdê-lo; sobre vulnerabilidade, desencantamento, drogas, álcool, paixões intoxicantes e instantâneas, solidão, e em alguma medida, também sobre o sentimento agridoce de renovação. Sem pedir licença, Lorde nos leva em uma montanha-russa de sentimentos contraditórios – e, por isso mesmo, tão reais -, e embora segure nossas mãos com carinho, não pede desculpas pelo final da jornada; não há, afinal, nenhuma garantia de que ela terminará bem. Mas isso não significa que não possamos nos divertir no processo. Se a dor é inevitável, então talvez seja a hora de jogar os braços para cima e dançar ao som das nossas próprias mágoas – exatamente o que ela faz e nos convida a fazer junto.

Em“Green Light”, primeira faixa do álbum, Lorde canta sobre o fim de seu relacionamento, sobre a tentativa de abrir-se para novas experiências, mas sobre a falha que inevitavelmente a persegue ao se apegar ao passado de tal modo que torna-se impossível desvencilhar-se por completo. São sentimentos ambíguos, contraditórios, que ganham espaço em meio à dor e ao sentimento de traição, quase inevitável após um rompimento dramático, ainda que não de forma intencional. O clipe é um retrato perfeito disso: Lorde canta, dança, sente o vento no rosto enquanto se pendura para fora da janela do carro, mas ainda é a mesma garota quebrada que diz na frente do espelho coisas que talvez jamais tenha coragem de dizer para a outra pessoa. ‘Cause, honey, I’ll come get my things, but I can’t let go; I wish I could get my things and just let go.

Por muito tempo, comparei o fim da minha amizade com o fim de um relacionamento; eu me senti profundamente traída, sentia raiva, muita raiva o tempo inteiro (I know about what you did and I wanna scream the truth, she thinks you love the beach, you’re such a damn liar), e por mais que eu tentasse me livrar desses sentimentos – porque, no final das contas, me faziam mais mal do que qualquer outra coisa -, eu sempre voltava para o mesmo lugar, quase como se algo realmente me puxasse de volta cada vez que eu tentasse ir embora. Entretanto, a comparação só foi ganhar contornos mais óbvios quando comecei a fazer terapia e entendi que aquele rompimento, de fato, teve um peso imenso, muito maior do que as pessoas usualmente atribuem a uma amizade – daí a comparação com o fim de um namoro. Embora hoje essa seja uma questão resolvida na minha vida, no entanto, foram necessários muitos estágios até chegar aqui; o que, de certo modo, é o que Melodrama também faz. Os estágios, que a princípio remetem a uma festa, também evocam momentos de uma vida inteira, vividos num espaço de tempo muito distinto.

Não é por acaso que ouvi-lo assemelha-se à sensação de colocar os pés na água e ser pego por uma onda de sentimentos conflituosos, num vai e vem que não faz muito sentido até o fim da tempestade. Em “Homemade Dynamite”, Lorde fala, literalmente, sobre embriagar-se e perder o controle até estar completamente cega, blowing shit up with homemade d-d-d-dynamite. Diferente dela, no entanto, minha experiência com esse lugar aconteceu somente no ano passado, quando a depressão e ansiedade passaram a me consumir de formas muito intensas, e eu comecei a alternar períodos de tristeza e profundo desamparo, com outros em que eu verdadeiramente gostaria de explodir coisas por aí com bomba caseira, irreverente e destemida como nunca fui. Muitas das melhores coisas que fiz ano passado, muitos dos “sims” ditos de modo inconsequente, aconteceram justamente porque eu estava nesse lugar, nesse estado de absoluta embriaguez, mesmo sem uma gota sequer de álcool em meu corpo. Em muitas madrugadas que passei conversando sobre isso com a Yuu, chegamos à conclusão de que esse estado tinha muito a ver com nossos transtornos; a euforia antes da queda, como a Isa também colocou em sua newsletter. “The Louvre” é uma continuação de tudo isso: a situação não poderia estar mais fora de controle, but we’re the greatest, they’ll hang us in the Louvre; down the back, but who cares – still the Louvre.

Contudo, eventualmente a conta é cobrada, e quase sempre ela é cara, muito cara. “Liability” é essa conta. A música nos confronta com a perspectiva de que talvez sejamos difíceis demais, complexas demais, para sermos amadas. Não é um pedido de desculpas, pelo contrário, mas a dolorosa noção de que talvez esse amor idealizado e aparentemente perfeito não exista para mulheres… como nós; todas nós. É uma percepção que machuca, porque confronta anos e anos de representações tortas, que nos moldaram de algum modo, e destroem sonhos que são construídos a partir de padrões e expectativas irreais de amor, seja ele qual for. Deitada no meu quarto, sem vida e sem chão, muitas vezes eu me perguntei se não deveria fugir, se não deveria sumir de uma vez por todas (they’re gonna watch me disappear into the sun; you’re all gonna watch me disappear into the sun), deixar de existir e ser um problema para todas as pessoas que tiveram o azar de cruzar o meu caminho.

They say,”you’re a little much for me, you’re liability, you’re a little much for me”; so they pull back, make other plans; I understand, I’m a liability; get you wild, make you leave, I’m a little much for everyone. Na música, o eu-lírico se sente como um brinquedo, que pode ser substituído e deixado de lado tão logo seus truques perdem a graça. Eu me senti dessa forma um milhão de vezes; o sentimento de ser descartável como uma barreira que se punha entre eu e o mundo. Não foi por acaso que tantas vezes eu senti medo, muito medo, de permitir que as pessoas entrassem na minha casca, que elas conhecessem a verdadeira Ana, a mais feia dentre todas as mulheres que existem em mim – só para fugirem em seguida, algo que, eu sabia, ia acontecer, e aconteceria rápido se eu me tornasse… inútil. Mais de uma vez, fui questionada se eu realmente precisava ser tão útil o tempo inteiro, se só era digna do amor das pessoas quando servia para alguma coisa. Não era sobre como elas me tratavam ou me viam, mas sobre o tipo de amor que eu acreditava merecer: um amor condicionado e cheio de restrições.

Encontrar um meio de subverter essa narrativa foi um processo – mais curto e menos traumático do que eu esperava, mas ainda assim um processo -, que continua acontecendo todos os dias, embora hoje eu esteja em um lugar infinitamente melhor. “Hard Feelings / Loveless”“Writer In The Dark” representam, de certa forma, parte desse processo: Lorde se joga em amores incertos, repudia uma geração inteira de cabeças desgraçadas, e a mágoa e o desencantamento são sentimentos que gritam no escuro. Bet you rue the day you kissed a writer in the dark. E não apostamos todos? “Supercut”, em contrapartida, apresenta um eu-lírico quase conformado, que depois da tempestade, torna-se novamente capaz de dançar ao som das próprias mágoas. O desencantamento e a melancolia continuam lá, mas existe algo mais: a profunda e libertadora aceitação de que, na vida, o controle é apenas mentira que não nos impede de encontrar sentido em meio ao caos. Como disse em uma conversa que tive com a Yuu sobre álbum, algum tempo atrás, eu me identifico profundamente com isso porque acho que desde 2015 minha vida tem sido esse eterno processo de desencantamento: eu não sou boa demais, minhas expectativas foram enfiadas num buraco, e a vida não é tão fácil quanto meu eu adolescente imaginava; as coisas não acontecem simplesmente porque eu estou trabalhando duro. São constatações duras, difíceis e pouco gentis, mas que após o choque inicial, ainda abrem espaço para essa aceitação genuína e a percepção de que, embora o mundo não nos deva favor algum, ainda podemos ser felizes, ainda podemos encontrar um lugar perfeito em nossa própria imperfeição e fazer com que toda essa bagunça adquira algum significado – o que é, de certa forma, extremamente libertador.

Melodrama foi, curiosamente, lançado num momento em que eu vivia esse turbilhão de sentimentos, festas, álcool, trabalhos infinitos, e eu não podia me sentir mais perdida (are you lost enough?): era fim de semestre na faculdade, eu não parava de sair um minuto sequer, e quando não estava enchendo a cara em algum lugar, estava em casa, arrancando os cabelos para dar conta de um projeto que queria muito ver acontecer, embora só a ideia de vê-lo ganhar vida me enchesse de medo. Foram muitas noites em claro, pouquíssimas horas de sono, crises de choro em absolutamente qualquer lugar, uma briga interna entre acreditar que aquilo podia dar muito certo e a certeza de que daria muito errado; momentos de raiva, esperança, desesperança, estresse, risadas, corações quentinhos e medo, muito medo, que basicamente resumiram os últimos meses. Por algumas semanas, foi como se eu estivesse (e eu de fato estava) vivendo no meu limite, e tenho certeza que se não fossem as mensagens de apoio, as conversas, a paciência, o amor e carinho infinitos que recebi nesse meio tempo, eu jamais teria dado conta e resistido até o último minuto, quando finalmente enviei o projeto e entreguei nas mãos de Deus.

Parece idiota que eu tenha me envolvido tanto com um projeto que, a princípio, era só mais um trabalho de faculdade; mas como disse na apresentação – uma apresentação em que absolutamente tudo que podia dar errado deu, e mesmo assim continuei segura e plena; uma versão completamente nova de mim mesma -, aquela era uma história que dizia muito sobre mim, sobre minhas experiências, frustrações e desencantamentos, e eu queria a chance de contá-la, especialmente agora, quando todas essas coisas ainda são incrivelmente atuais pra mim. Compartilhei o roteiro dessa história com algumas pessoas ao longo do processo e uma das coisas mais importantes que ouvi nesse tempo foi que ele era muito… eu. Que embora fosse uma história repleta de silêncios, era possível me sentir ali o tempo inteiro, meu coração batendo em cada linha escrita, em cada palavra não dita pelos personagens. Eu chorei ao ouvir isso, chorei na véspera da apresentação e quis chorar antes dela, quando as coisas começaram a dar errado – mas eu continuei ali e, no final das contas, acho que todo esse processo me ajudou a criar uma base sólida sobre o que eu acreditava; e naquele momento, eu acreditava profundamente e irrevogavelmente no meu projeto.

Ironicamente, essa história fala muito sobre – se permitir – perder o controle e sobre aceitar que a vida não é sempre boa ou sempre ruim, mas algo aí no meio. Os momentos felizes são tratados exatamente como momentos, instantes de alegria que parecem eternos até que se prove o contrário – o que, eventualmente e inevitavelmente, acontece com todo mundo. Mas eu não queria contar uma história triste: “Aurora” era – e ainda é – uma história sobre esperança e aceitação, uma história não sobre encontrar respostas, mas sobre ser feliz em um mundo onde elas não existem e o controle é apenas uma ilusão; é sobre encontrar felicidade e sentido em meio ao caos. Os personagens dessa história são pessoas que sofreram muito ao longo da vida, pessoas que possuem uma cota considerável de tragédias pessoais e que, em determinado momento, se permitiram definir por elas – só para perceberem que, assim como os momentos de alegria, a tristeza e a dor também não são eternas. Elas são um capítulo, não a história de uma vida inteira.

Escrever essa história foi, ao mesmo tempo, um exercício de roteiro, construção narrativa e de personagens, mas também foi o momento em que fui confrontada pelos meus próprios fantasmas, e em que finalmente pude olhar de perto para o meu melodrama pessoal, um processo de me desencantar e encantar novamente por uma vida que jamais será perfeita. Ao lado de Julia e Rafael, meus dois personagens, eu exorcizei meus demônios, chorei, dancei, dirigi em alta velocidade e pulei na água sem medo que ela estivesse gelada demais. Eu segurei a mão deles e eles seguraram as minhas, e quando acabou, eu já não era mais a mesma. O encontro dos dois os marcou profundamente, mas me encontrar com eles deixou marcas indeléveis na minha jornada enquanto escritora e roteirista, mas principalmente como pessoa.

De certa forma, Melodrama foi a forma que a Lorde encontrou de registrar e guardar para sempre seus 19 anos. “Aurora”, por sua vez, foi a minha forma de condensar, em alguns minutos, um processo que já vinha acontecendo desde os meus 22. Lorde conclui o álbum com “Perfect Places” – de todas, minha favorita -, uma música onde ela assume para si mesma que lugares perfeitos não existem e para de procurar por eles, o que é, de certa forma, libertador. Tudo começa de novo e de novo e de novo – os drinks, a dança, o romance, a queda -, mas isso não a impede de se divertir. It’s just another graceless night – e tudo bem. A essa altura, ela tem a consciência de que o ideal é apenas uma história bonita demais que nos contaram e que o controle não é uma realidade; lugares perfeitos não existem – ela já passou noites inteiras buscando-os, afinal – e, quando existem, não são eternos, e não há absolutamente nada de errado com isso. Enquanto passava noites chorando, apavorada demais com o que aconteceria com meu projeto, as palavras da Lorde vieram como um abraço apertado e quentinho, e não é por acaso que suas músicas complementaram tão bem a minha história, ainda que ela tenha sido concebida muito antes do álbum sequer ser lançado. Nós estávamos no mesmo lugar.

Essas músicas sempre vão ser a trilha sonora desse momento, das descoberta, das decepções, das crises, da euforia, das conquistas e do momento em que eu finalmente me tornei capaz não de colocar os pés na água, mas de pular num mar inteiro de sentimentos e incertezas. Conversando com algumas amigas algumas semanas atrás, disse que me sentia meio idiota por me identificar tanto com o trabalho de uma mulher de 19 anos, quando eu já devia ter passado dessa fase. Hoje, no entanto, enquanto escrevo esse texto (uma tentativa meio tosca, mas honesta, de também registrar essas memórias e impressões), não me sinto nem um pouco idiota, mas plena e segura, de um jeito que talvez nunca tenha me sentido antes. What the fuck are perfect places anyway?

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2 Comments

  • Reply Yuu 18 de julho de 2017 at 3:05 PM

    Bichinha, se for pra elencar meus textos favoritos de todos que você já escreveu – aqui, e no Valkirias – esse sem sombra de dúvidas subiu para o primeiro lugar. Eu jamais li de você um relato tão sincero, transbordando de sentimentos em cada linha. Talvez seja certo dizer que a sua segurança está refletida em cada linha desse texto também. Você me fez ter inveja de todas as transgressões que você viveu, das festas regadas a álcool, das decepções e dos medos, só pelo resultado: a aceitação, a sensação de estar em paz com cada capítulo da sua vida e a segurança. Fico cada vez mais surpresa com a quantidade de textos que você escreve por mês quando todos eles tem essa carga de sentimentos tão pesada, algo característico de você. Eu, provavelmente, morreria de overdose no meio do caminho se fosse seguir o mesmo ritmo. Mas, algo que saltou pra mim desse texto foi o potencial que você tem de transformar esses registros numa história maior. Um livro, por exemplo. Fictício ou não, você escolhe. Estou só dizendo que talvez esse seja o seu caminho, se você quiser tomá-lo. Eu tenho cada vez mais certeza que as pessoas mais fortes são aquelas que se deixam ser mais vulneráveis. Aquelas que são puxadas em todas as direções por uma força invisível, mas que permanecem inteiras ao invés de arrebentar, as que se reconstroem independente do desgaste. Needless to say que se eu precisasse dar um exemplo dessas pessoas, esse exemplo seria você. Quem te enxerga como o brinquedo de Liability não entende nada sobre pessoas, quiçá pessoas raras, os diamantes que a gente deixa passar despercebidos no meio de cascalhos. É honra ter sido mencionada nesse texto não uma, mas duas vezes, ainda que apenas como suporte dessas reflexões. Amo você, e morro de orgulho de você.

  • Reply Tany 20 de julho de 2017 at 9:00 PM

    É bizarro como eu sinto uma conexão absurda com os seus textos. Como amo cada um deles de uma forma muito especial e esse é só mais um deles. Você terminou falando que achava meio idiota se identificar com a música escrita por uma menina de 19 anos, e eu que tenho 28 e me identifico totalmente? Depois de ler muitas pessoas escreverem textos sobre o Melodrama eu notei que não tem idade pra isso. O que ela experienciou e sentiu é o que todas nós já sentimos, cada uma da nossa forma, e vamos sentir em diversas fases da vida. A festa do álbum é a vida. São os altos e baixos. As luzes acesas e apagadas. Os romances e as decepções. A realidade e a fantasia.

    É lindo demais ver uma pessoa se abrir assim e disso saírem músicas lindas, assim como é de tamanha admiração ver outra pessoa se abrir e sair um texto bonito desses. Eu sinto que já te conheço um pouquiiiinho e tenho uma grade vontade de te dar um abraço apertado.

    O álbum parou de tocar aqui, mas vou colocar pra tocar de novo. Igual a vida também, né?
    Beijo!

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