JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

PLACES WE CAN HIDE

Uma das perguntas que eu mais recebo quando as pessoas descobrem que eu tenho um blog pessoal é como, afinal de contas, eu consigo escrever sobre a minha vida em um espaço que, por mais meu que seja, está aberto pra quem quiser entrar. É um questionamento que eu, na realidade, acho bem válido, especialmente pra quem cresceu numa época que você precisava ir na casa de outra pessoa se quisesse ver seus álbuns de família ou saber seu número de telefone pra manter algum tipo de contato. Minha mãe e minhas tias cresceram numa época em que as pessoas precisavam entregar convite em mãos se quisessem convidar os outros para sua festa de aniversário e minha vó ainda acha difícil entender esse tal de zap-zap ou como a gente descobre coisas sobre a vida de todo mundo só dando uma olhada em um perfil no Facebook. Mas pra mim, que cresci fazendo amizade com pessoas que nunca conheci pessoalmente e que encontrei na internet um lugar repleto de pessoas com gostos e opiniões parecidas com as minhas, mais até do que as pessoas que se encontravam ao meu redor em diferentes momentos da vida, sempre pareceu muito natural falar sobre meus dramas e contar os causos da minha vidinha sem graça de millenial num blog qualquer – e continua sendo, mesmo depois de tanto tempo.

O fato de me expor de alguma forma na internet não é – nem nunca foi – um big deal. Embora a frequência com que eu tenho aparecido por aqui tenha diminuído bastante em 2016, isso só aconteceu porque agora eu tenho mais coisas com as quais lidar do que tinha até o ano passado e não porque eu desisti de me expor em algum nível. Por mais que eu não conheça a maior parte das pessoas que estão aí do outro lado, a verdade é que, cada vez que venho aqui, a sensação é quase a mesma de abrir a porta da minha casa e convidar vocês pra se sentarem no tapete da sala comigo enquanto jogamos conversa fora e dividimos uma pizza e uma garrafa de vinho. São coisas que eu facilmente faria com uma amiga e que eu faço com vocês com a mesma facilidade – e aí sim, é muito curioso, pra mim, especialmente, perceber que, enquanto eu sou uma pessoa que tem uma dificuldade enorme em me abrir com as pessoas da vida real (o que quer que isso seja), uma vez no blog, eu consigo falar sobre a vida, o universo e tudo mais com uma naturalidade realmente inesperada. Se a escrita sempre foi uma forma de terapia, que me ajuda a compreender melhor o mundo ao meu redor, nada mais justo do que ter pessoas do outro lado acompanhando o que acontece, compartilhando seus aprendizados e, quem sabe, aprendendo junto comigo também. Pode até ser que, pra quem é de fora, pareça estranho que alguém que eu nunca vi na vida venha aqui dar pitacos sobre o que acontece ou deixa de acontecer na minha trajetória, mas eu realmente acho que o que acontece aqui é muito, muito especial.

Graças ao blog, eu conheci pessoas que hoje fazem parte verdadeiramente da minha vida. Pessoas que viajam comigo, pessoas que estão comigo nos momentos mais difíceis da minha vida, com quem eu divido minhas angústias e alegrias, pessoas que conhecem os bastidores por trás de cada página desse blog. Pessoas que assistem séries comigo, que estão sempre dispostas a me ajudar com o que quer que seja, que dão pitacos sobre as minhas roupas. Pessoas que sonham comigo e constroem o meu sonho junto comigo. Ou seja, é realmente especial o que está acontecendo entre um texto e outro – seja ele um meme engraçadinho, um texto mais sério ou só mais um casinho bobo da minha vida. Aqui estão os registros de tudo isso, coisas que me lembram o tempo inteiro que, mesmo o que não está escrito nessas páginas, está registrado aqui de alguma forma, em um comentário, em uma foto, em algo nas entrelinhas que somente aquelas pessoas que de fato estão vivendo comigo em tempo integral vão saber que está ali, presente de alguma forma.

Hoje foi um dia realmente especial. Depois de uma semana que pesou em vários sentidos, foi bom poder, finalmente, ter motivos pra sorrir com vontade de novo. O Valkirias está crescendo. Os novos episódios de Gilmore Girls finalmente foram ao ar e eu assisti o primeiro com um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos, enquanto me esbaldava com um enorme balde de pipoca cheia de manteiga. Eu recebi um prognóstico bastante positivo do meu tratamento e talvez, num futuro nem tão distante assim, eu possa seguir em frente sem a ajuda de remédios. Eu abracei meu cachorro que nunca deixa ser abraçado, joguei conversa fora com minhas amigas, dancei na cozinha com meu afilhado, deitei no chão da sala e me permiti ficar ali só admirando a árvore de Natal que montamos ontem, tão linda quanto vocês puderem imaginar. Coisas assim, tão bobas, mas ao mesmo tempo, tão fundamentais. Se a vida não é feita de viagens à Viena, mas de festinhas de aniversário, então talvez seja isso que, afinal de contas, torna nossas vidas mais especiais.

Estamos todos lutando uma batalha e seria ingenuidade acreditar que, daqui pra frente, todos os dias serão assim, porque eles não vão ser. Mas, ao mesmo tempo, um dia bom às vezes é exatamente o que a gente precisa pra voltar acreditar que a vida pode, em meio ao caos, ser muito boa, como o ponto fora da curva, a florzinha que nasce no meio do asfalto ou qualquer coisa assim, e depois de dois textos particularmente baixo astrais, é importante que eu também venha aqui para contar sobre as coisas boas que acontecem, mesmo quando elas parecem tão pequenas diante de todo o resto. Talvez seja a hora de parar de pensar um pouquinho em tudo de ruim que acontece e valorizar as pequenas coisas – maravilhosas, incríveis, adoráveis e tão, tão especiais – que acontecem no meio do caminho.

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3 Comments

  • Reply Mary 29 de novembro de 2016 at 3:15 AM

    Acho que a tua facilidade em se abrir pro blog se dá mais por dois motivos:
    1) Você não vê a pessoa ali de verdade, e isso retira um pouco a ideia de que está realmente se dirigindo a alguém – é mais fácil falar com as “paredes” do que com alguém, né?;
    2) Só lê isso aqui quem quer, então você tem certeza que não tá “atrapalhando” ninguém com as tuas piras erradas.

    Pelo menos comigo acho que é isso que me faz não ter dificuldade em me revelar pra trocentas pessoas aleatórias e não conseguir conversar sobre nada com ninguém pessoalmente. Na verdade o fato de eu ter poucas visitas/comentários ajuda, HAHAH.

    Acredito que as coisas bonitas da vida são justamente essas que não são muito hypadas, sabe? Comigo é sempre assim. Esses tempos ganhei o meu dia quando percebi como era bonita a garrafa térmica de café na casa do meu namorado. Sim, só isso me deixou extremamente feliz. E é uma coisa que nunca tinha percebido antes porque né, é só uma garrafa térmica na cozinha. Acho que é assim mesmo, a gente vai vendo a beleza das coisas aos poucos e a vida vai ficando bonita assim.

    Espero que mais coisas boas, mesmo que pequenas, aconteçam pra você.

    E não se envergonhe dos remédios. Acho horrível tomar remédios, faria de tudo pra não tomar, mas a verdade é que eles nos salvam, né? E por que nos envergonhar de algo assim, de termos uma doença sendo muito bem controlada quimicamente? Acho desnecessário. Acho que a gente tem mais é que ter orgulho: eu tenho uma doença sim, e estou dando a volta por cima, biatch!

    Beijinhos.

  • Reply Tati 1 de dezembro de 2016 at 11:51 PM

    É quase uma terapia, mas sem os momentos horríveis em que a psicóloga se deixa sair do personagem profissional e te olha com uma cara estranha depois de alguma confissão, né?
    Acho tão importante quando finalmente chegamos nesse equilíbrio da vida, em que percebemos como as pequenas coisas do dia podem se transformar em conquistas enormes só pelo modo que as enxergamos e pela energia que decidimos gastar (ou não) com elas. Ter um blog pessoal é acima de tudo, saber transformar algo tão comum como a vida em uma experiência que traz lições para você e para pessoas que nem te conhecem, e isso é fantástico!
    A internet tem sido um campo minado onde todo cuidado é pouco, qualquer coisa vira um gatilho pra estragar um dia bom que tivemos fora dela, e é sempre incrível encontrar espaços em que isso muda, como seu blog (e o Valkirias! Eu amei a semana especial GG e o texto problematizando a Rory <3).
    E espero que a recuperação do seu diagnóstico seja cada vez mais propícia, tenho certeza que tudo vai dar certo, to torcendo muito!

    Abracinhos, take care of yourself <3

  • Reply Tany 5 de dezembro de 2016 at 1:11 AM

    Meu, que post lindo demais. Inicialmente, muito feliz por ler alguém falando coisas positivas da vinda depois de tudo que aconteceu esse ano e por não ter sido fácil pra ninguém. Como você disse, a vida não é feita de viagens pra Viena mas de festas de aniversário e é bom ler alguém ver que a vida tá aos poucos melhorando, notando um crescimento e não ao contrário. Espero, do fundo do coração, que continue assim.

    De resto, foi tão bom ler esse post de internet. Acho que nesse mundo de blog, principalmente, nós sabemos exatamente como é isso. Usar a internet constantemente, se abrir pra pessoas estranhas parece ser algo de doido mas hoje se tornou comum. Eu tô a tanto tempo nesse mundo que a maioria dos meus amigos eu conheci por aqui ou o vínculo se formou aqui. É muito bonito ver que disso, do blog, ou da internet, vieram pessoas que provavelmente influenciaram a nossa vida a ser como é hoje. É lindo demais lembrar.

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