MEMES

POR QUE EU ESCREVO

Em 2015, a Sofia e a Anna Vitória responderam algumas perguntas inspiradas no “Why I Write”, uma espécie de meme sobre escrita que circulou entre alguns blogs gringos naquele ano e que a Sofia gentilmente decidiu traduzir para o português. Foi mais ou menos na mesma época que comecei a me aventurar por outros tipos de escrita que não dependiam tanto da minha vida como matéria prima – pelo menos, não de um jeito óbvio – e explorar outras formas de contar histórias, de colocar uma letra depois na outra do papel ou na tela, e transformar aquilo em algo completamente novo. Começar a ler sobre escrita e me interessar pelo processo criativo dos outros, mais até do que pelo resultado final, foi um processo natural e que continua acontecendo até hoje. É por isso que fico feliz por responder essas perguntas só agora, e não em 2015, como tive vontade de fazer: não porque eu não soubesse respondê-las naquele momento, mas porque as respostas de hoje farão sentido por muito mais tempo, mesmo que eventualmente eu diga o contrário.

1) O que eu ando escrevendo?
Muita coisa – o que, basicamente, significa que quando não estou dormindo, comendo ou suprindo qualquer outra necessidade do meu corpo, eu possivelmente estarei escrevendo ou fazendo pesquisa/lendo/assistindo algo para escrever alguma coisa, o que dá praticamente no mesmo. Na maior parte do tempo, tenho escrito textos para o Valkirias, que é, e sempre será, minha maior prioridade. A maioria desses textos, no entanto, exige bastante pesquisa, reflexão e cuidado, além de imersão em alguma obra, quando é o caso, o que quase sempre significa que, entre a ideia e o texto pronto, existe um longo caminho, e é por isso que quase sempre meus textos demoram tanto pra sair. No momento, estou trabalhando na crítica de O Filme da Minha Vida, do Selton Mello, e no texto sobre Minha Vida Fora dos Trilhos, da Clare Vanderpool, mas eventualmente surgirão outros, porque é assim que a banda toca por lá. Além dos textos que publicamos diariamente, as redes sociais do site também são atualizadas por nós, editoras, de modo que somos nós que escrevemos os textos que acompanham as publicações – o que também exige cuidado, tempo e alguma pesquisa. Esse não é meu formato favorito (#TeamTextão) (minha carreira como social media foi morta e enterrada), mas gosto como essas pequenas notas e notícias exigem uma agilidade que normalmente não tenho quando escrevo.

Por causa da faculdade e de projetos paralelos, também tenho escrito alguns roteiros e me debruçado sobre outros mais antigos, numa tentativa de melhorar essas histórias. Todos são projetos de ficção, um gênero que gosto bastante, mas que não exploro com tanta frequência. Por motivos óbvios, o formato de roteiro me deixa muito mais confortável para explorar o gênero e colocar no papel as histórias malucas que surgem na minha cabeça; e é o que tenho tentado fazer desde o semestre passado. Contudo, pra não dizer que esse é o único formato que me permito explorar, também tenho trabalhado (em passos de formiga, mas bear with me) em uma história cujo formato não é roteiro, mas sim, literário. É um desafio imenso e não sei se desse mato sai algum coelho, mas eu precisava começar por algum lugar e é isso que tenho feito. Quando sobre algum tempo, também tento contribuir com projetos de outras pessoas e escrever para outros sites, plataformas ou publicações. No momento, minhas prioridades nesse sentido são três textos sobre cinema – dois artigos e uma crítica – para duas publicações e um site, respectivamente.

Ademais, continuo a escrever no blog sobre a minha vidinha sem graça e registrar minhas memórias, impressões e outras obsessões irrelevantes – o que, se tudo der certo, continuarei a fazer pelos próximos 27 dias (risos nervosos).

2) Como minha escrita se diferencia de outras do gênero?
Não faço a menor ideia. Por muito tempo, essa foi uma questão que me assombrou, em partes porque não conseguia analisar minha escrita a uma distância segura, mas sobretudo porque tinha absoluto pavor de descobrir que minha escrita não passava de uma caricatura das minhas referências. Hoje, embora não tenha muita certeza sobre a minha voz dentro do texto, tenho muito mais segurança sobre aquilo que escrevo e consigo me enxergar ali de algum modo. Ao mesmo tempo, uma coisa que ouço com certa frequência é que minha escrita é sempre muito carregada de sentimentos, emoção e vulnerabilidade, o que faz com que essas pessoas também consigam me enxergar ali de alguma forma e reconhecer um texto de minha autoria a léguas de distância. Ouvir isso me dá a certeza de que, apesar dos tropeços, eu ainda estou no lugar certo, fazendo a coisa certa, e é isso que me faz continuar colocando uma palavra depois da outra. Belo será o dia que eu não precisar da validação externa para me sentir confortável em dizer que sou uma pessoa que escreve em voz alta, mas enquanto isso não acontece, me contento com a beleza e a preciosidade da opinião alheia.

3) Por que eu escrevo?
Já disse uma ou duas vezes, mas escrevo, principalmente, por necessidade; não financeira – ao menos, não ainda -, mas para colocar meus pensamentos em ordem, entender o que está acontecendo ao meu redor e concretizar coisas que até então só estão na minha cabeça. Ao mesmo tempo, sou uma pessoa obcecada por registros e memórias, o que significa que a escrita também foi uma forma que encontrei de registrar minhas lembranças e impressões sobre o mundo, sobre o que acontece ao meu redor, mas principalmente dentro de mim, quase como uma tentativa de encontrar um sentido em tudo isso. Não venho de uma família de pessoas preocupadas em manter o passado vivo, menos ainda registrado, de modo que tomei para mim essa função de desenterrá-lo e mantê-lo vivo; e escrever sobre o presente também é uma forma de fazê-lo. A ficção, por outro lado, é um reflexo de tudo isso: ainda que aquelas histórias não sejam exatamente sobre mim, elas são parte de mim, e projetam aquilo que eu sou, quero ser, etc etc.

Existem duas citações sobre isso, ainda, que resumem muito bem os motivos pelo qual escrevo. A primeira delas é da Elena Ferrante, que numa entrevista ao El País, disse que “as mulheres escrevem muito, e não tanto por profissão, mas por necessidade. Recorrem à escrita sobretudo em momentos de crise, e o fazem para se explicarem a si mesmas. Há muitas coisas de nós que não foram contadas até o fundo ou que simplesmente não foram contadas, e acabamos descobrindo isso quando a vida de cada dia se turva e sentimos necessidade de pôr ordem”. A segunda é da Lena Dunham, que escreve, na introdução de Não Sou Uma Dessas, o seguinte: “Não há nada mais corajoso para mim do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher. Por mais que tenhamos trabalhado muito e por mais longe que tenhamos chegado, ainda existem muitas forças que conspiram para dizer às mulheres que nossas preocupações são fúteis, que nossas opiniões não são relevantes, que não dispomos do grau de seriedade necessário para que nossas histórias tenham importância. Que a escrita pessoal feminina não passa de um exercício de vaidade e que nós deveríamos apreciar esse novo mundo para mulheres, sentar e calar a boca”. Eu acredito na escrita como uma forma de resistência, e é como uma forma de resistir a esse mundo que nos engoliria com sal e limão se pudesse, que eu continuo a escrever.

4) Como eu escrevo?
Normalmente, escrevo no Word, no Google Docs ou direto no WordPress; exceto roteiros, que prefiro escrever no Celtx, porque me permite pensar mais na história e menos na formatação. É muito difícil que eu escreva no papel, muito embora tenha sido assim que comecei a me aventurar na escrita, ainda na infância (quando escrevi um manual com recomendações da minha mãe, risos eternos), mas quando acontece, costuma ser fora de casa, quando não tenho nenhuma outra forma de anotar alguma ideia, o início de um texto, ou pontos importantes que preciso abordar numa crítica ou resenha e não quero correr o risco de esquecer. Fora isso, também gosto de escrever listas, prazos e algumas ideias no papel porque ainda me parece algo mais concreto do que um arquivo perdido no computador.

5) Como supero bloqueios criativos?
Não supero. Um dos meus maiores problemas com a escrita, especialmente a escrita profissional, que precisa cumprir prazos, respeitar demandas, etc, era minha dependência da famigerada inspiração. Seria incrível poder escrever textos sempre inspirados, incríveis, cheios de sacadas geniais? Seria. Mas isso não existe na vida real, de modo que quando tenho algum bloqueio, tento entender porquê ele está ali – porque quase sempre não se trata apenas de um bloqueio criativo no vácuo, mas uma porção de outras coisas que acabam gerando esse bloqueio – e só então buscar uma forma saudável de conviver com ele. Nos últimos anos, minha alternativa não tem sido superá-los, mas aprender a trabalhar apesar deles. Algo que sempre me ajuda é me afastar um pouco do texto, dar uma volta, tomar um café, brincar com meus bichos, conversar com algumas pessoas, assistir um episódio de Downton Abbey e só então voltar. Às vezes, os bloqueios só aparecem porque estamos exaustas e é preciso reconhecer a hora de parar um pouquinho. Tempo é um troço precioso e não adianta nada ficar frustrada na frente do computador se você pode usar seu tempo pra outra coisa no meio tempo.

No entanto, quando isso não é possível, aprendi com a Lauren Graham que o segredo não é tentar fazer um milhão de coisas ao mesmo tempo, nem estabelecer metas semi-impossíveis, mas trabalhar com algo que seja realmente possível. Você nunca vai conseguir escrever três textos em um único dia, então que tal ficar feliz se conseguir terminar um só? Para se sentir menos frustrada, a Lauren tem um método chamado Cronômetro de Cozinha (risos eternos), que basicamente consiste em marcar uma hora num cronômetro desses que a gente usa na cozinha – daí o nome (mas também pode ser o cronômetro do celular ou o que você quiser) – e, no tempo que o cronômetro estiver contando, você não fazer absolutamente nada além de… escrever. Ou não escrever absolutamente nada, se for o caso. O mais importante nesse método é você ter a certeza de que aquele tempo foi gasto exclusivamente no seu projeto e que se nada saiu, não foi culpa sua ou de todas as distrações que inevitavelmente surgem quando decidimos começar alguma coisa. Não é algo que uso com frequência, mas funciona sempre que preciso. Contudo, a lição mais importante que aprendi com a Lauren é que não dá pra trabalhar em cima de nada. Expectativa e medo são duas coisas que me bloqueiam fortemente, e às vezes é difícil começar um texto que te assombra e encanta na mesma medida. Mas ninguém consegue trabalhar o nada. Você pode editar, melhorar, trocar a ordem e as palavras de um texto escrito, mas não pode fazer isso se tiver apenas uma página em branco. Então, o mais importante ainda é escrever, escrever e escrever mais um pouco. A done something is better than a perfect nothing, e é a tentativa, no final das contas, que vai nos levar a algum lugar.

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2 Comments

  • Reply Manu 6 de agosto de 2017 at 4:03 AM

    Amiga, eu amei ler tuas respostas pra esse meme, porque acho a sua escrita incrível e algo que me inspira demais. Memes são tão bons em dias assim mas tão maravilhosos porque as vezes eles fazem as perguntas que a gente precisa responder mas nem sabe exatamente como formular – deixar registrado como, quando e porque a gente faz isso que fazemos (quase) todo dia é muito lindo <3 amei amei

  • Reply Joice 10 de agosto de 2017 at 4:41 PM

    Gostei muito do meme e das suas respostas :)
    Quanto a inspiração é complicado mesmo. Eu estou tentando aprender a não necessitar tanto dela para escrever, mas é muito complicado e desestimulante.
    Muito obrigada pelo post *-*
    Eu já escrevi sobre o porquê de escrever, mas em outro formato, não conhecia esse meme ainda.
    Se você quiser ler: https://feitobailarina.wordpress.com/2017/02/07/por-que-eu-escrevo/

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