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QUEM TEM MEDO DE CLÁSSICOS?

O primeiro livro de gente grande que eu li foi Robinson Crusoé, um romance sobre um náufrago que passa vinte e oito anos perdido numa ilha deserta. O livro foi publicado em 1719, mas curiosamente foi uma das coisas mais legais que eu já tinha lido até ali, uma obra que abriu espaço para muitas outras dali em diante numa época em que eu ainda não tinha medo de livros antigos demais, distantes demais da minha realidade, dos grandes clássicos da literatura e todo o resto. Crescer aparentemente me transformou numa pessoa ridiculamente idiota, porque desde o início da minha adolescência, a leitura de clássicos se tornou um grande tabu na minha vida e não é por acaso que, até hoje, minha formação literária nesse sentido é tão falha. Eu criei um medo irracional de muitos livros e de muitos autores, ao ponto de só muito recentemente ter passado a correr atrás do prejuízo – meio por interesse, meio porque não aguentava mais dizer que nunca tinha lido Machadão ou Jane Austen.

É uma situação ridícula essa, especialmente quando falamos de clássicos, que são os livros populares de outrora, os tais best-sellers que a gente tanto ouve falar. Embora a escrita mais rebuscada às vezes seja um problema, ela nem sempre é a regra, e no final das contas esses livros acabam sendo experiências maravilhosas, além de retratos de épocas que não vivemos. Tirando uma ou outra leitura que até agora eu não consegui superar o medo – Machadão, estou olhando pra você #spoiler – a maior parte das minhas experiências foram maravilhosas, e eu acabei conhecendo histórias que se tornaram favoritas de uma vida inteira. Orgulho e Preconceito é uma grande novela das seis, deliciosa de acompanhar e absolutamente cativante; O Retrato de Dorian Gray se tornou um verdadeiro favorito, desses que eu indico pra qualquer pessoa sem nem pensar duas vezes; e embora já faça muito tempo desde que o li, Lucíola ainda é um dos meus clássicos favoritos da literatura brasileira. Então por que diabos a gente – e quando digo a gente, estou falando principalmente de mim mesma – continuamos com esse medo ridículo de… livros?

Foi pensando nisso que a Mia, essa adorável criatura e parceira de crime, sugeriu que falássemos sobre livros clássicos que nos dão medo, muito medo, que nos intimidam em tempo integral mesmo que a vontade de lê-los seja imensa. Imediatamente pensei em uma porção de títulos que se encaixariam perfeitamente na proposta, mas preferi focar nos principais, aqueles que me dão mais medo entre todos os clássicos que estão na minha lista de futuras leituras há anos, mas seguem me assombrando em tempo integral.

1. Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski.
Aparentemente existe um consenso sobre os russos, que não são apenas os russos, mas os RUSSOoOoOoOoOoS, esses caras diferentões e difíceis de lidar, que escrevem uma literatura igualmente diferentona e difícil de lidar. São livros imensos, vindos de uma terra que nos causa, ao mesmo tempo, fascínio e receio, um lugar de gente diferentona e, reza a lenda, difícil de lidar, e eu não acho que seja puro acaso que esses livros evoquem os mesmos sentimentos. Crime e Castigo acaba sendo ainda pior por se tratar de um livro imenso com uma temática pesada; a história de um ex-estudante de Direito que comete um assassinato (!) e se torna incapaz de lidar com sua própria vida após o delito. Outras histórias se desenvolvem em paralelo, mas o livro dedica boa parte de suas infinitas páginas aos conflitos psicológicos do personagem principal, e isso por si só já é suficiente para que eu tenha certeza de que uma bad fenomenal caminha em minha direção só de passar os dedos pela capa do livro, enquanto vivemos um relacionamento platônico e destrutivo numa livraria qualquer.

2. Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Minha relação com Machadão começou no ensino médio, quando eu fui gentilmente obrigada a ler algumas de suas obras para o vestibular e…não li nenhuma. Eu passava horas, na sala de aula mesmo, lendo tudo que fosse possível, menos aquilo que eu efetivamente deveria estar lendo; meu jeitinho de ser rebelde, mas nem tanto assim. A verdade é que eu sempre tive um preconceito sincero em relação aos clássicos da literatura nacional, algo que mais tarde evoluiu para um medo muito honesto de lê-los. As pessoas diziam que todos eram insuportáveis, difíceis, e meio sem querer, meio já querendo, eu acreditava, mesmo que nunca tivesse realmente tentado dar uma chance pra eles. Alguns anos mais tarde, conheci pessoas que me fizeram mudar completamente de ideia e que me mostraram que Machado de Assis não era um autor chato e difícil, como passei boa parte da minha vida ouvindo. Assim, tentei ler uma edição feiosa que ganhei na época do vestibular, junto com uma porção de outros clássicos – todos em edições igualmente horrorosas, para o meu completo horror -, mas infelizmente não consegui passar da primeira página. Foi a primeira tentativa frustrada de algumas, não muitas, mas que imagino serem uma consequência de todos aqueles anos que eu passei ouvindo que o livro era o maior pavor de todos os tempos. Ainda pretendo dar uma nova chance, mas quando isso vai acontecer é realmente uma questão.

3. Drácula, de Bram Stoker.
Sendo uma pessoa apaixonada por vampiros e toda a mitologia que os envolve, chega a ser ridículo que até hoje eu não tenha lido Drácula, também conhecido como o livro que moldou nosso imaginário coletivo e que nos deu de presente a figura misteriosa e repulsiva do vampiro mais famoso do mundo, etc etc. Tenho certeza que vou amar cada minuto da leitura e foi justamente por isso que, no ano passado (!) finalmente comprei uma edição pra chamar de minha – uma que não é exatamente bonita, mas também não é exatamente feia, bear with me -, decidida a iniciar a leitura assim que possível; um possível que, por algum motivo, nunca chega. Já perdi as contas de quantas vezes tirei o livro da estante, determinada a mergulhar na história, mas aparentemente não trabalhamos com vergonha na cara, porque até hoje foi o máximo que já aconteceu. Numa medida desesperada, enfiei o livro na minha lista do Desafio Luxuoso, genialmente criado pela menina Analu e sua amiga, creiça Karina, mas até o fechamento desta edição, o livro segue “””intocado””” na minha estante. Vai entender.

4. Este Lado do Paraíso, de Scott Fitzgerald.
Não sei se já falei sobre isso, mas desde que conheci a Fer, tenho nutrido uma obsessão descompromissada pelo casal Fitzgerald. Amor descompromissado foi a forma que eu encontrei de chamar essa admiração e interesse que tenho pelos dois e sua história de vida curta e conturbada, mas sem realmente mergulhar na vida & obra de ambos. Este Lado do Paraíso foi o primeiro livro do Scott a ser publicado, o responsável por colocar o selo “top” de aprovação na testa do homem, e desde que assisti a primeira temporada de Z: The Beginning of Everything – que na verdade é sobre a Zelda, mas bear with me – tenho me sentido especialmente interessada. Mas meu primeiro contato com a literatura de Scott Fitzgerald não foi das melhores. Embora ainda tenha vontade de lê-lo em outro momento, O Grande Gatsby não me disse absolutamente nada, o que me faz ter um medo especial de encarar uma nova obra sem um bom preparo psicológico antes. Não é uma leitura difícil, muito pelo contrário, mas eu realmente gostaria de me apaixonar pelas histórias e não apenas lê-las e seguir com a vida depois, como se nada tivesse acontecido.

5. Moby Dick, de Herman Melville.
Um milhão de páginas sobre uma baleia, pesca, arpões e métodos de caça que, por algum motivo, se tornou um dos livros mais importantes da literatura mundial. Curiosamente, meu medo de Moby Dick não é exatamente em relação ao livro em si – que como acontece com muitos clássicos, foi mal recebido pela crítica da época, até se tornar O Livro Respeitado™ que é hoje -, mas sobre a história, sobre o fato de ser uma questão – no caso, a caça de baleias – que pra mim ainda é muito delicada. Realmente, não sei se algum dia conseguirem ler, mas a vontade, ironicamente, é bem real, apesar dos pesares.

6. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.
Falo de Cem Anos de Solidão porque é o primeiro que me vem à cabeça, mas poderia ser qualquer livro do Gabo. Eu tenho pavor de Gabriel García Márquez – um pavor que também não é nada senão uma consequência das aulas de literatura e de todas as pessoas que me disseram que eu deveria ter medo, muito medo, da literatura de um cara tão incrível. E eu tenho, até hoje. Não ajuda em nada que o livro seja considerado uma das obras mais importantes da literatura latino-americana, a segunda mais importante de toda a literatura hispânica, ou seja né. O medo, ele é muito real.

7. Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
Aparentemente existe um consenso de que esse livro é o pavor maior entre todos os pavores gigantes que fazem parte desse período maravilhoso chamado ensino médio, vestibular a dar com pau, etc etc. Como todos os clássicos que deveria ter feito parte do meu currículo (cof, cof), mas foram gentilmente ignorados, Grande Sertão: Veredas acabou ficando esquecido no tempo; até, claro, o dia que decidi que queria compensar o tempo perdido, mesmo que fosse para me sentir burra o tempo inteiro – o que, tenho certeza, inevitavelmente irá acontecer. Embora seja um livro que, reza a lenda, é difícil pra caramba, ele ainda é uma obra muito rica, que utiliza um cenário muito específico para tratar de temas universais, e uma vez ultrapassadas as barreiras que me afastam dele, tenho certeza que a experiência pode ser verdadeiramente incrível.

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5 Comments

  • Reply Jeniffer Yara 20 de abril de 2017 at 12:55 PM

    Todo esse medo de não gostar de clássicos vem da ideia de que todo clássico é bom e a gente PRECISA gostar deles. Na verdade, ler clássicos são necessários sim, mas a gente não precisa, necessita, gostar de todos eles só porque homens, brancos e velhos concordaram que tal livro, tal autor, é canônico e muito bom pra ser chamado de Literatura. Passando isso, a ideia de que os clássicos brasileiros são chatos vem muito da escola mesmo, o que é péssimo. Até eu entrar na faculdade de Letras tinha lido apenas dois, Lucíola foi um deles e amo até hoje. Eu iniciei a ler Machado com Memórias Póstumas, que muita gente dizia ser chato, mas que me fez apaixonar por ele. Sou louca pra ler algo do Dostoiévski, mas acho que não começaria com Crime e Castigo. haushaus’ Te aconselho a ler antes o livro da Zelda Fitzgerald, Esta Valsa é Minha, que é mil vezes melhor que O Grande Gatsby. Esse livro também não me disse nada e sigo falando mal e exaltando a Zelda, linda, talentosa e infelizmente ignorada por causa da fama do marido *olhos revirando* Ainda não terminei a série sobre ela, preciso!
    Não sei se Gabo é um clássico, mas esse livro eu não consigo fluir na leitura também. Comecei a ler ele com Memórias de Minhas Putas Tristes, o que foi uma ótima leitura. Uma dica boa é iniciar a leitura desses grandes autores e autoras com outros livros que não os mais famosos deles. Uma pena que com o Scott a gente começou tão mal, né. haushaus’
    Grande Sertão: Veredas é um livro obrigatório para quem cursou Letras e eu deveria ter terminado de ler ele ANTES de me formar, de acordo com minha professora de literatura brasileira, porém, não cheguei nem a comprar uma edição dele. Mas pretendo em breve fazer isso. Realmente o autor fala de questões universais narradas em espaços específicos do Brasil :3
    Outra dica legal é pegar esses clássicos em edições bonitas ou até de luxo pra ler, funciona comigo, parece que me dá um incentivo pra leitura.

    https://monautrecote.blogspot.com.br/

  • Reply Carolina S. 20 de abril de 2017 at 10:35 PM

    É a minha primeira vez comentando (embora eu já tenha acompanhado o blog “na moita” por um tempinho, haha) e vou logo dizendo que o jeito que você escreve é muito encantador pra mim, gosto dos posts em que tu fala de coisas simples da vida de um jeito bem pitoresco e singular, bonito mesmo.
    Engraçada essa relação que às vezes a gente tem com clássicos. Eu comecei a mergulhar neles mais no primeiro ano do médio (embora tenha lido coisas mais profundas durante a infância também), mas minha abordagem com relação a eles é um pouco diferente. Ficamos nos encarando meio torto durante um tempinho, mas logo me toco neles e não saio até sentir que meu dever foi cumprido. Minha cabeça não me deixa protelar muito com livros (embora eu seja procrastinadora profissional em diversas outras áreas), fica me cutucando constantemente com uma vozinha que lembra que têm umas páginas esperando por mim (acho que é TOC). Então eu acabo não ficando intimidada por muito tempo.
    Mas deixo aqui um que consegue me botar mais medo que os demais, talvez um dos únicos que eu tenho efetivamente temido: O Tempo e o Vento (trilogia).
    :)

  • Reply Manu 22 de abril de 2017 at 9:12 PM

    AMIGA PELAMORDEDEUS VAMOS BICHAR GRANDE SERTÃOOOOOOOOO, eu quero demais ler esse livro porém estou tomada de pavor
    Me identifiquei com livros demais aí: Moby Dick é um que passou batido na minha lista mas tenho medo demais, do Fitzgerald eu ainda preciso ler o Grande Gatsby – mas me sinto pressionada a gostar de tudo dele também (e esses tempos atrás também comecei a sentir um interesse fora do comum por Zelda Fitzgerald, um dia chegarei nela), li Dom Casmurro pro vestibular mas foi o único livro de Machadão que engoli (lembro de ter começado Memórias Póstumas e ARGHHHHHHHH) e eu morria de medo de Cem Anos de Solidão, justamente por ter amado O Amor Nos Tempos e sempre tinha a possibilidade de me sentir um embuste por não entender o maravilhoso realismo fantástico consagradérrimo (admito, me arrastei por muitas páginas e uns 400 Aurelianos Buendía, mas o final é ótimo então BORA SUPERAR ESSE MEDO, AMIGA). Os russos são toda uma questão pavorosa que um dia espero superar, mas honestamente não sei quando vou estar pronta pra desbravar esse universo literário – mas é sempre bom saber que você tem o mesmo pavor que eu HEHEHEHE
    :***

  • Reply Marina Matos 23 de abril de 2017 at 10:15 PM

    Quero muito ler uma boa parte desses livros também, vamos montar um clubinho, hahah.
    Já li Gabo, na verdade, O amor nos tempos do cólera. Cem anos de solidão está na top lista.

    Vamos ver o que esse ano ainda nos reserva, ahahaha.

    Beijo! <3

  • Reply Aline Amorim 24 de abril de 2017 at 8:07 PM

    Toda a pressão por ler os livros para vestibular por pura obrigação nos deixa com medo mesmo né…
    Eu tenho muita vontade de ler Dom Casmurro, mas os clássicos também me apavoram um pouco.
    E é igualmente com Moby Dick.
    Mas um clássico que eu quero dar uma chance, mesmo tendo um certo medo, é O Morro dos Ventos Uivantes.
    Beijos

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