BEDA, COM AMOR

QUERIDA ANA,

Não sei muito bem como começar esta carta. Já faz um tempo que eu não consigo imaginar como nossa vida pode estar aí, agora. Espero que você esteja bem.

Os vinte e poucos não têm sido fáceis – mas disso você já sabe. Tenho me lembrado cada vez mais da nossa infância e não sei até que ponto isso é bom. A gente chora muito, sempre, e isso é meio desesperador. Nós tivemos uma infância ótima, você sabe, então por que tudo parece tão distante e triste ao mesmo tempo? A nostalgia é um sentimento perigoso, você já deve ter percebido. Mas posso pedir uma coisa? Não esqueça nunca de olhar pra trás. É claro que eu não quero te ver deprimida, claro que não. Mas a gente se esquece e eu não quero que você se esqueça. De quem a gente foi, de quem sonhamos ser, de quem queremos ser. A gente deve isso a nós mesmas. Eu sei que, aí no fundo, você concorda comigo. Não tenha medo de ser quem você quiser. 

Uma coisa que a gente descobriu recentemente é que é muito mais fácil seguir a vida por inércia do que sair desse vórtice. Talvez por isso a gente chore tanto agora. Mas eu acredito em você. Sempre. E acredito em mim também, agora. E na gente. Você sabe melhor do que eu se isso vai dar em algum lugar ou não, se ajuda mais do que atrapalha ou se só estou tornando tudo mais difícil, mas é importante eu dizer isso agora pra mim mesma, aos 22. Talvez seja importante pra você aí do futuro também, seja lá qual for a vida que você está levando agora.

Não tenha nunca medo de arriscar, de mudar de opinião, de escolher um caminho diferente. Não tenha medo, principalmente, de reconhecer que você errou. Não é fácil, claro que não é, e a gente sempre morreu de medo de dar com os burros n’água, mas não tem vergonha nenhuma em admitir que fez merda. E você sabe disso, mas não custa lembrar. Se permita errar e fazer novas escolhas. Você ainda tem muito tempo pra isso.

Aliás, a gente precisa mesmo ter uma conversa séria sobre esse lance de tempo. Ele não é mais tão gentil com a gente quanto foi um dia e talvez ele seja ainda menos gentil com você. Se tem uma coisa que consigo imaginar, são seus cabelos brancos (não se preocupe com eles, são lindos, mesmo). Mas Ana, nunca, jamais, diga que está velha demais pra alguma coisa. Você não está e nunca vai estar, nem mesmo quanto tiver 90 anos (tenho fé que a gente chega lá). Não se deixe levar pelo tempo que te resta. Aliás, se deixe sim porque, afinal de contas, se nosso tempo é limitado, a gente tem mais é que correr atrás do que a gente quiser. Faça o que te der vontade. Vá em shows, viaje, faça uma tatuagem, aprenda uma língua nova, faça um intercâmbio, estude fora, mude sua carreira se não estiver feliz com a atual. Só vai. Uma hora, infelizmente, a gente não vai estar mais aqui. Por favor, não desperdice seu tempo. Não pare nunca.

Se você ainda não aprendeu a tocar bateria, essa é uma boa hora.

Nunca deixe de ser quem você é e nunca se esqueça de ser honesta. Com os outros, sim, mas principalmente comigo e com você e com quem fomos um dia. É sério. Pode revirar seus olhos o quanto quiser, eu sei que parece clichê, mas é verdade. A gente precisa disso. Sempre que eu acho que estou meio perdida e não sei muito bem pra onde ir, eu lembro de onde eu vim e pra onde quero ir, sempre ajuda. Tenho certeza que vai ajudar você também. Sei que a vida vai ensinar um bocado pra gente ainda e que algumas coisas vão ser deixadas pelo caminho, porque a vida acontece, paciência e ainda bem. Mas alguns valores não podem ser deixados de lado. Se agarre nesse, em especial. E continue sendo gentil, sempre.

Por favor, não se sinta fracassada. Eu não sei pra onde a vida vai nos levar, mas ainda que nosso destino não tenha sido aquele que sonhamos agora ou 10 anos atrás, não tem problema. Não se cobre tanto. Eu quero que você seja honesta, mas não precisa forçar a barra também. Se permita mudar de ideia, se permita escolher caminhos novos. No fundo, o importante é que a gente seja feliz. Dinheiro é importante, mas definitivamente não é tudo. E, por favor, me diga que a gente começa a levar a poupança a sério em algum momento. 

Siga valorizando suas amizades, da mesma forma que eu estou fazendo agora. As pessoas mudam, às vezes elas saem da nossa vida e isso machuca muito mais do que a gente pode imaginar, mas não perca a fé. Eu espero, do fundo do meu coração, que você continue sendo amiga das mesmas pessoas que são suas amigas agora, mas tenha amigos novos também. Eles são importantes. Continue valorizando, continue dando atenção e o resto a vida se encarrega.

Eu queria te fazer uma porção de perguntas, mas confesso que tenho medo. Porque eu morro de medo do futuro e talvez você continue morrendo também. Continuamos sendo a mesma pessoa, afinal de contas. A gente não se importa com spoilers, mas não é diferente quando estamos falando sobre a nossa vida? No fundo, por mais que a curiosidade seja enorme, acho que prefiro a dúvida. Talvez a curiosidade me faça seguir em frente. A gente não pode mesmo parar nunca.  

A única coisa que eu espero, Ana, é que a gente seja feliz. Eu sei que disse que as coisas não estão muito fáceis agora e sei que você entende, mas você sabe que, no fundo, eu estou feliz, ainda que chorando o tempo todo, e eu quero que você esteja feliz também (mas, por favor, não chore tanto). Não perca seu tempo pensando no que poderia ter sido se a gente tivesse feito outras escolhas, se a gente não tivesse desistido de alguma coisa, se a gente não tivesse errado. Se você deitar sua cabeça no travesseiro todos os dias tranquila e com a certeza de que é feliz, então tudo vai ficar bem. Eu prometo.

Com amor.  

♥         

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9 Comments

  • Reply Analu 13 de agosto de 2015 at 11:39 AM

    Já sei que não vou dar conta do dia de hoje porque essas cartas “para a gente mesmo” sempre me deixam emocionada e arrepiada. Amei demais a sua, tô abraçada com a Sharon de agora – e quero muito estar abraçada com a Sharon de 30. Brindando champanhe na orla carioca, a promessa tá feita! <3

    Te amo muito!

  • Reply Jéssyka 13 de agosto de 2015 at 2:58 PM

    Ana, fala sério! Adoro os seus textos. ♥ Esse, me deu a sensação de estar em um sonho.

  • Reply Ana Flávia 13 de agosto de 2015 at 5:35 PM

    Ei Ana.
    Adorei sua carta porque pareceu um pouco comigo sabe?
    O medo de fazer perguntas, esse negócio da gente se cobrar, essa nostalgia com a infância.
    Que no futuro você,eu, todo mundo, continue a valorizar a família e as amizades, que nos arrisquemos mais e nunca pensemos que é tarde pra tocar bateria ou começar o balé.
    Que os cabelos brancos só acrescentem luz no nosso sorriso e que tenha MUITO SORRISO nesse futuro.

    Beijos <3

  • Reply Thay 13 de agosto de 2015 at 10:04 PM

    Que carta mais linda, Ana! ♥

    Sei que é de você pra você, mas falou comigo em tantos aspectos que terminei com os olhos cheios de lágrimas. Também não estou no meu melhor momento de vida, a cabeça anda cheia de caraminholas e às vezes é difícil seguir em frente, mas acho (e tento me lembrar toda vez disso) que se a gente mantiver nossa essência, aquilo que somos e o que queremos ser, tudo tem jeito.

    Força aí, que vou continuar tentando daqui também!
    Um beijo, nova amiga de feices! ~haha

  • Reply Gab 14 de agosto de 2015 at 12:02 AM

    Amiga, temos quase as mesmas preocupações e os mesmos medos sobre os spoilers do futuro. Acho que temos que dar uma ajudinha para a nossa pessoa do futuro e começar desde agora a não se cobrar tanto nessa vida. Por que a gente faz isso, né? aff
    E pode ter certeza que eu vou estar por perto para ver a Sharon do futuro arrasando nessa vida.
    Te amo, amiga <3

  • Reply Alessandra Rocha 14 de agosto de 2015 at 12:21 AM

    menina, também ando muito chorona, que passa?
    Ja disse porém repito, amando as cartas para as futuras vocês e desejo muito que toda a felicidade possível esteja no seu caminho amanhã ou daqui 100 anos!

    beijo <3

  • Reply Anna 14 de agosto de 2015 at 11:54 AM

    Miga, sua carta foi a que mais me fez chorar. Porque é muita identificação, sabe? O medo, o choro que não para nunca, e a necessidade de repetir pra mim mesma o tempo inteiro que sempre dá tempo de voltar atrás, que errar não é o fim do mundo. Acho que o fim do mundo pra mim seria também não ser feliz, e também é a única (como se fosse fácil risos) coisa que eu realmente espero de que serei lá na frente. Independente de como, onde e com quem, espero estar feliz. Espero que a gente esteja muito feliz. Em Copa, brindando, por favor.
    te amo <3

  • Reply Ana 14 de agosto de 2015 at 1:10 PM

    Aff Ana, que chata. Você e esses teus textos. ;_;
    Eu já fui mais chorona, mas ainda assim, às vezes do nada, por nada, eu ensopo a fronha do travesseiro de tanto chorar. É bom, parece que acalma, e tem algo muito calmante em inchar o rosto de tanto chorar e pegar no sono depois.
    Eu espero que daqui 10 anos tudo esteja bem.
    Força na peruca.
    Beijos!

  • Reply Passarinha 17 de agosto de 2015 at 2:18 PM

    Ai, Sharon, que emocionante a sua carta. Tô achando muito interessante ler essas cartas porque, por mais que a gente esteja pensando em nossas pessoas daqui a 10 anos, estamos falando também com o ‘nós’ de agora, né? É meio que uma forma de a gente dar conselhos pra nós mesmas, e eu estou achando isso lindo.

    Amei sua carta, amo você.

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