QUERIDO DIÁRIO

QUERIDO DIÁRIO,

No último domingo eu fiz 14 anos de novo.

Era uma noite chuvosa, como as tantas que andam rolando em Brasília nos últimos dias. Eu já tinha trocado de roupa dez vezes e ainda não estava lá muito satisfeita, já tinha passado um tempão deitada pensando se não era melhor ficar em casa e parar de inventar moda, mesmo que por um milagre do destino meu delineador tivesse ficado bom demais. Era domingo e meu humor estava terrível porque eu teria que trabalhar no dia seguinte e meu deus, quem é que inventa de trabalhar numa segunda-feira pré-feriado? Também porque eu tinha uma porrada de coisas pra fazer e incrivelmente não consegui fazer nenhuma delas; porque eu estava me sentindo ignorada pela vida e como se não bastasse estava chateada com coisas bobas que não vem ao caso agora, mas que me irritaram mesmo assim e pelo amor de deus, que ideia errada foi essa de sair em pleno domingo, quem foi que me deixou comprar esse ingresso, quem autorizou essa merda? Eu não estava tendo um dia bom e esse claramente era um sinal pra eu ficar em casa, mesmo que isso significasse não ver minha melhor amiga. Mas eu não desisti e fui lá ver a Fresno, com minha regata de poser e minha legging de bolinhas, embaixo de chuva, porque minhas amigas não me encontraram em qualquer canto e eu não sou de dizer não para ciladas.

Enquanto a gente ia até o pub onde ia acontecer o show, no banco de trás do carro, eu só conseguia pensar no quanto eu queria minha cama, em como tinha sido errada essa ideia de sair, e na fila que a gente fatalmente pegaria embaixo de chuva. Eu era um poço de pessimismo, ainda que não dissesse nada pra não azedar a noite de ninguém. Por mais que eu goste de fingir que ainda tenho 15 anos, é só entrar nessas furadas que eu me lembro que na verdade tenho 22, que eu já sou uma velha caduca de alma e condicionamento físico, e que enquanto adolescentes de verdade iam curtir um feriado prolongado no dia seguinte, o máximo que eu iria curtir era o ar condicionado do trabalho.

Mas aí que alguma coisa aconteceu quando eu coloquei os pés naquele pub meio caído porque, de repente, eu estava numa festa estranha com gente esquisita, ouvindo uma banda horrível fazer música ruim, esperando pra ver o show de uma banda que eu já não via há uns oito anos (cacete, OITO!!1!1!11!) e curtir uma fossa emo com minhas amigas. Era como se eu tivesse 14 anos de novo, ou quase isso, porque ainda parecia bem errado estar ali quando eu só queria saber da minha cama e do meu edredom, porque eu ainda me sentia um ser estranho perto daquelas pessoas, e também tinha essa voz que não parava de sussurrar no meu ouvido que eu estava velha demais pr’aquilo. Mas, sei lá? Quando a Fresno subiu no palco e eu vi o cabelo horroroso do Lucas, só conseguia achar aquilo certo demais. Eu podia ser muito diferente de todas aquelas pessoas, eu podia me sentir um peixe fora d’água e ainda assim todas nós estávamos ali pelo mesmo motivo, porque em algum momento das nossas vidas a gente tinha encontrado a Fresno e suas letras deprimentes e aquilo agora unia todo mundo num mesmo lugar, todo tipo de gente, de tudo quanto é idade. Isso não era errado, era na verdade certo demais.

Eu ri muito, ri demais. Ri por lembrar da Ana de 14 anos, que usava um tanto de lápis preto e calças mais justas que Deus, da Ana que ia todo fim de semana bater ponto no Pátio Brasil beber vodka barata com os amigos, a Ana que ia pros mesmos shows duvidosos que me fizeram conhecer a Fresno e tantas outras bandas maravilhosas de um jeito tão duvidoso que só bandas maravilhosas porém duvidosas conseguem ser. Ri porque estava feliz demais, porque eu estava vivendo tudo aquilo de novo, meus amados 14 anos, sendo tomada por uma avalanche de sentimentos, e meu deus como é bom ser adolescente. Ri porque as músicas eram tão deprimentes que chegavam a ser engraçadas, e nesse momento eu talvez esteja desmerecendo o sofrimento genuíno de muita gente que chorou naquele noite ao som daquelas palavras, mas quando Lucas desenterrou aquela que seria sua música mais velha e começou a cantar imagina se um dia eu não acordar, quem vai puxar assunto com você, quem vai mentir que você é legal, imagina se um dia eu morrer, eu tive que me controlar pra não gargalhar alto demais porque né, como era bom e saudável ser emo. Sdds.

Por algum motivo eu não lembrei de quase nenhuma letra durante o show, mas foi ótimo mesmo assim porque cada uma que eu lembrava era uma folia particular e eu cantava bem alto. E aí teve aquela hora também que o Lucas mandou abraçar nossos amigos e eu virei pras minhas amigas e a gente foi se abraçando até que eu estava com as duas nos meus braços e foi maravilhoso demais. Todo mundo ali estava numa vibe incrível, e mesmo que o show fosse acústico, isso não fez com que ele fosse menos animado. Porque a galera pulou, gritou, chorou e se entregou de verdade àquele momento e cacete, foi bonito demais de ver.

Já passava das 23hrs quando eu cheguei em casa e olha, foi ótimo poder tomar um banho, deitar na cama e sossegar finalmente, mas eu trocaria mil noites de sono pra poder voltar para aquelas horas que eu tive 14 anos de novo. Talvez eu não tenha mais o mesmo pique de antes. Talvez eu seja um pouco mais reclamona do que há 8 anos. Talvez meu estilo não seja mais tão duvidoso e talvez eu não goste mais tanto assim de lápis de olho. Mesmo assim, lá no fundo, eu continuo sendo a mesma adolescente de sempre. E que continue sendo sempre assim. Valeu, Fresno. Valeu, vida. E que venha a próxima.

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4 Comments

  • Reply Analu 22 de abril de 2015 at 11:41 AM

    Gente, não sabia que tinha tido aí em Brasília também e que cê tinha ido. Amei o relato da Anna e adorei o seu também, essa adolescência aos 220 e poucos tá maravilhosa, quero pegar o embalo – mas eu era enjoada e não gostava de nenhuma dessas ~bandinhas~. Eu ficava rolando na cama ouvindo Avril Lavigne, essa era minha fossa. Hoje em dia eu rolo no tapete ouvindo Taylor Swift em looping, essa é a minha nova fossa. Pouca coisa mudou, como você pode perceber. A diferença é que no show da Avril eu fui, no da Tay TÁ DIFÍCIL.
    Beijos! Te amo! <33

  • Reply Ana 22 de abril de 2015 at 1:42 PM

    Só pode ser mal de Ana, sério. Porque lendo o que tu escreveu, parecia que era um post meu sobre o meu show da Fresno na sexta-feira do dia 10.

    Eu tava cansada, tava chovendo, eu também não lembrava mais tanto das letras, e eu definitivamente não curto mais lápis de olho na mesma intensidade. Queria tanto a minha cama que quase dormi pelas paredes do bar que foi o show.

    Mas foi tão bom voltar aos 14 anos por um tempinho, cantando Onde Está e ficando rouca em Cada Poça… que eu até superei a vontade de vender meu ingresso de última hora.

    Que bom que tu acabou curtindo, porque os caras são demais. <3

    Beijos!

  • Reply Lilica 26 de abril de 2015 at 11:49 PM

    Mas gente, mais uma adolescente no show de Fresno? Ahahahaha! Vi lá na Anna e agora aqui, e acho o maior barato essa vibe adolescente que está se intalando nas nossas vidas. Digo nossas porque daqui um mês serei eu, a Lilica de 15 anos, a ver BSB aqui em Sampa!!!

    Não curto Fresno, nunca curti, mas vi uma vez ao vivo na abertura de um show do Bon Jovi. Lembro que os caras foram bastante vaiados porque a galera não curtiu muito esse show de abertura, mas veja, foi o próprio Jon Bon Jovi que escolheu a Fresno, então quer dizer que alguma coisa de bom ele viu né! E se você se divertiu, isso que importa!

    Beijos

  • Reply Thay 28 de abril de 2015 at 3:12 PM

    Que relato incrível! Me identifico com o pessimismo crônico, a preguiça de sair e a vontade de ficar escondida no edredom, haha, mas depois é sempre tão bom quando chegamos ao destino e notamos que apesar de todo o prognóstico negativo estamos nos divertindo horrores e nos sentindo infinitos. Nunca fui fã de Fresno, mas posso facilmente me relacionar com a sensação de voltar à adolescência, aquele tempo que eramos felizes, confusos e livremos, tudo ao mesmo tempo. (:

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