PEGA O SAL

RONY WEASLEY ME ENTENDERIA

Assim como a maioria das minhas amigas que viveram intensamente a fase Harry Potter (e seguem vivendo, porque jamais seremos capazes de superar), minha personagem preferida sempre foi a Hermione. Vocês poderiam sozinhos deduzir os meus motivos, mas muito mais do que a determinação, a inteligência e a coragem, Hermione me mostrou que não podemos nunca desistir daquilo que acreditamos, que amizades são nosso bem mais precioso e que rapazes babacas merecem um soco bem no meio da fuças. Ela é minha definição de heroína, aquela pessoa incrível que não brinca em serviço e que eu adoraria ser amiga, prima, ou o gnomo do jardim.

Só que verdade seja dita, a gente se parece bem pouco. Deixando pra lá os motivos óbvios (como o fato de uma coruja até hoje não ter chegado na minha casa), tenho tanto de Hermione quanto, sei lá, Bellatrix tem de Pollyanna, e é aí que chegamos no meu ponto porque, se num mundo de bruxos vivesse, um versão feminina de Rony Weasley eu seria.

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sem os olhos claros e o cabelo ruivo, infelizmente

Me identifiquei com aquele menino ruivo e creiço, que come demais e fica mal humorado quando não tem comida (ou quando só tem comida ruim), que adora xadrez, vive dando mancada, é medroso pacas e tem um coração enorme desde a primeira vez, porque Deus sabe que eu sou igualzinha. E aí nesse momento eu já estou pulando, pedindo plmdds que ele me adote como irmã, querendo dividir uns doces no trem e bater um papo sobre táticas de xadrez, mas é quando ele deixa claro seu pavor por aranhas que meu mundo cai e eu só quero chorar abraçada com ele, porque eu nunca conheci um personagem que tivesse tanto medo de aranha quanto eu e finalmente me sinto compreendida na vida.

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me abraça, migo

É engraçado pensar que mesmo vivendo num mundo completamente diferente do meu, cheio de coisas mais assustadoras, Rony foi ter logo medo de aranha e olha, não é pouco medo não. É claro que no meu mundo eu também preciso enfrentar uma porção de coisas mais assustadoras, mas saber que um bruxo também tem medo de coisas meio whatever é no mínimo reconfortante – e me faz dar graças a Deus por ser trouxa, porque né, imagina eu esbarrando com uma Aragogue da vida por aí.

Como a maioria dos medos, esse simplesmente pulou na minha mochila no meio do caminho, sem pedir licença ou dar explicações. É uma coisa tão antiga que me atormenta desde que eu me entendo por gente, quando ainda era uma criança destemida que matava baratas e se amarrava em tirar sangue – coisas que tenho absoluto pavor hoje em dia. Tanto tempo alimentando o problema me deu em troca um punhado de experiências desagradáveis que continuam não justificando meu horror, mas reforçam minha opinião de que aranhas são seres terríveis, que agem de forma traiçoeira e estão sempre prontas para tocar o terror na vida de pessoas medrosas como eu e o Rony.

Pouquíssimas pessoas compreendem de fato essa dinâmica que, entre outras coisas, me impede de dormir encostada em paredes ou encarar fotos desses bichos bizarros sem me arrepiar inteira, e aí eu acabo sendo dispensada dos esforços de ser compreendida e viro o alvo preferido das piadas da galera e dos vídeos sobre aranhas e afins.

obrigada, migos

Ainda consigo achar graça de tudo isso na maior parte do tempo, porque se minhas angústias não virassem uma grande piada, não estaríamos falando de mim. Mas aí que quando a coisas aperta e alguma aranha aparece do além, descendo em seu fiozinho de seda ou pulando na parede mais próxima, sou eu quem acaba correndo pela casa, chorando e gritando de desespero, passando noites em claro com medo de que o horror se repita.

Foi assim numa manhã fria e particularmente gostosa do ano passado, quando eu acordei bem cedo pra tomar um remédio e voltei a me encolher embaixo do edredom em seguida. Felicidade é uma manhã fria embaixo do edredom e eu não poderia estar mais satisfeita até que, naquele ponto entre o sono pesado e a vigília, surge uma aranha pequeninha porém bastante esquisita, caminhando tranquilamente pelo meu edredom, tão perto do meu rosto que mesmo sem óculos eu consegui enxergá-la claramente. Levantei de um pulo (estrategicamente calculado pra ela não acabar vindo parar na minha cara) e saí correndo, fazendo o maior escândalo pela casa. A aranha acabou morta pelas mãos da minha mãe, rainha absoluta, mas eu ainda fiquei dias dormindo desconfiada porque de onde aquela praga veio até hoje é um mistério.

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Foi assim também numa noite de verão do ano passado, que eu fiquei deitada na cama, jogando papo fora com o Gui até o sono bater. Com a barriga cheia, estávamos os dois de muito bom humor, rindo adoidado de coisas bobas e conversando trivialidades, quando eu vi uma aranha enorme andando na parede e saí correndo, gritando desesperada demais para olhar pra trás. Esse dia, aliás, foi um terror, porque além da aranha ser gigantesca e diferente demais de qualquer uma que eu já tenha visto em casa, eu demorei meio milênio até descobrir que o que estava correndo pela minha parede era, vejam só, uma aranha. Sem óculos (por que eu estou sempre sem óculos nessas horas?), com o quarto iluminado só pelas luzes do closet e da televisão, fiquei um tempão olhando abestalhada pr’aquela machinha preta que corria agitada pela parede, achando extremamente engraçado, tentando entender se era de verdade mesmo ou se alguém tinha colocado ~ certas dorgas~ na minha comida. Foi só quando o Gui, que até então estava de costas pra parede, resolveu acompanhar meu olhar e deu de cara com uma aranha pentelha que eu me liguei que sim, aquela merda era real e não tinha nada de engraçado. E quando ele pulou da cama e gritou “uma aranha!”, eu já estava na sala, em cima do sofá, me sacolejando toda só pra me certificar de que aquela criatura horrorosa não tinha aparatado na minha roupa. No final das contas foi a vez do Gui bancar o herói e matar a criatura terrível, mas eu fiquei dormindo mal por dias, morrendo de medo de ficar sozinha no quarto e acabar vivenciado aquele terror todo de novo.

Ambas as situações teriam sido suficientes para eu encerrar as contribuições aracnídeas no meu currículo, obrigada, porque uma próxima seria demais pro meu coração, mas daí que na semana passada o universo resolveu dar uma sacaneada, tirar uma com a minha cara, e me deixar presa num carro com uma aranha no banco do carona.

EU. E. UMA. ARANHA. PRESAS. JUNTAS. NO. MESMO. CARRO.

200

 AI MEU JESUS CRISTINHO ME TIRA DAQUI!!!1!11!!!111!1

Tudo teria sido evitado, claro, se eu tivesse saído de casa com um pouco mais de antecedência, mas é óbvio que eu saí atrasada (de novo), de modo que nem reparei na belíssima aranha que estava ali o tempo todo, pegando uma carona marota comigo.

Na verdade ela não estava bem no banco do carona. Céus, eu agradeceria se estivesse, porque pelo menos assim eu teria uma distância segura entre nós, o que me impediria de quase provocar um acidente como quase aconteceu. Mas dona aranha não estava satisfeita em pegar uma carona, como queria mostrar que estava presente, e decidiu aparecer ali, do lado do meu ombro, pendurada numa teia que surgiu sei lá de onde, enquanto eu dirigia e cantarolava uma música que nem lembro mais qual era. Daí por um acaso do destino eu olhei pro lado, talvez para olhar no retrovisor direito, e de repente tenho a visão do inferno que é ter uma aranha pegando carona com você, ouvindo uma música tranquilamente e balançando pra lá e pra cá numa teia invisível, em tempo de grudar no seu ombro e ser feliz.

A cena seguinte deve ter durado uns cinco segundos, mas me pareceu uma eternidade. Porque num momento eu estava feliz da vida, indo para o trabalho numa boa, e no instante seguinte eu estava gritando sozinha no carro, presa, morrendo de medo daquela aranha horrível resolver pular em cima de mim e sem saber o que fazer. Eu me tremia toda, gritava e chorava de desespero, porque eu estava sozinha naquela situação, me sentindo sufocada e achando que ia ter um piripaque a qualquer momento, tentando ser racional e não causar um acidente de trânsito, ao mesmo tempo que achava impossível continuar um minuto sequer dentro daquele carro que, de repente, parecia pequeno demais pra nós duas.

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Então eu freei.

Depois que eu parei pra avaliar a situação, percebi que frear foi uma péssima ideia porque dona aranha bem que podia ter balançado pra frente e voltado direto pra minha cara, mas na hora do desespero eu só pensei em parar o carro e sair correndo dali para as colinas. Então eu parei, no meio da pista, recebi umas dez buzinadas da mais pura empatia (não), quase subi no meio fio, e não me importei com nada disso porque tinha uma aranha filha do cão dentro do carro e eu precisava me salvar.

A freada brusca deve ter sido suficiente pra fazer o monstro do inferno se arrepender de ter pego carona logo comigo, porque ela recolheu sua teia invisível e foi se esconder no banco de trás, longe o suficiente pra que eu pudesse pensar com um pouquinho mais de clareza. Liguei o pisca alerta e fui dirigindo bem devagar até o recuo mais próximo, rezando pra que PELO AMOR DE DEUS ela não resolvesse forçar uma amizade e voltar pro meu lado, e eu poder descer do carro de uma vez. O que eu ia fazer em seguida eram outros quinhentos, mas desde que eu estivesse segura, tudo ia ficar bem.

Madura que sou, saí do carro e liguei pra minha mamãe me salvar. Eu ainda estava relativamente perto de casa o que facilitava bastante na hora de alguém vir me socorrer, mas ainda assim tive que esperar um pouco porque minha mãe não estava lá muito inclinada a sair de casa naquele sol para exterminar uma aranha que ela, até então, imaginava ser uma dessas comuns de casa, com pernas enormes e totalmente inofensivas. Mas não era. E mais tarde ela fez questão de se desculpar comigo por ter se importado tão pouco com a causa (mas só depois que ficou claro que a aranha era de fato bem assustadora), e então ela admitiu que, fosse ela presa num carro com uma barata, o desespero seria tão genuíno quanto o meu.

(se você ficou curioso, aqui vai uma pequena descrição: dona aranha pentelha tinha uns 2cm, era gorda igual uma porca, marrom, feia, horrível, assustadora e terrível, fim)

No final das contas minha tia foi a heroína da vez, matou a aranha e mostrou o pau (na verdade, o panfleto de supermercado). Eu agradeci, chorei um tanto e continuei tremendo descontrolada, mas fui pro estágio assim mesmo porque já sou uma adulta muito madura (cof cof) e a vida segue apesar de tudo. Felizmente não aconteceu nada de mais grave e, no fim do dia, eu cheguei em casa sã e salva, ainda choramingandinho, mas muito aliviada. De tudo isso, a lição que fica é: saia mais cedo de casa, dê um check em tudo antes e evite um acidente de trânsito, mas como sempre terei a certeza de que eu atraio aranhas tanto quanto minha mãe atrai baratas e minha avó atrai ratos, gostaria de deixar registrado meu pedido para que o universo não sacaneie tão pesado da próxima vez e me assuste de um jeito que eu não corra o risco de morrer de verdade – ou pior, que eu seja responsável pela morte de alguém. Grata.

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4 Comments

  • Reply Analu 1 de abril de 2015 at 12:25 PM

    Amiga, cê pode ter feito o maior drama e falado que seu post tava enorme e eterno mas ó, foi uma delícia de ler. Apavorei junto com você e dei gostosas risadas também. Olha, eu amo amo amo a Hermione, sempre será minha favorita e eu queria muito ter recebido a carta – mas a verdade é que eu seria um Rony Weasley piorado. Saca a cara dele na hora do “siga as aranhas”? Então, eu provavelmente passaria os 7 anos de escola com essa cara porque eu tenho pavor de quase tudo que envolve um CASTELO todo de pedra no meio do nada, cheio de bicho e bruxaria. Sério, ia passar o dia quicando de medo e JAMAIS seria parceira nessas aventuras de sair no meio da noite para perambular pelo castelo ou pela floresta e resolver pepinos. SO COR RO.
    Agora, eu senti junto contigo esse desespero de estar sozinha num carro com uma aranha e tendo que lidar com a situação. LIDAR pior verbo que já inventaram, odeio lidar.
    Outro dia estava chovendo horrores em Curitiba, eu já não estava afim de sair porque estava cheia de espinhas e me sentindo horrorsa. Aí eu estava esperando o táxi num toldinho que era a única parte coberta que eu tinha à minha disposição naquele momento e o que acontece? Uma barata. Sim. Eu tinha pouquíssimos centímetros quadrados de possibilidades de movimento e UMA BARATA apareceu para ocupar metade deles. E se ver um bicho é terrível, é pior ainda quando você perde o danado do bicho de vista. Olha, foram segundos horríveis porque eu não podia ficar na chuva (já tava horrorosa, imagina o tamanho que ia ficar meu cabelo) e nem podia me mexer e nem perder a desgraçada da barata de vista. Só de pensar me da arrepio. INSETOS, por que???
    Que Deus te livre das aranhas!
    Te amo! <3

  • Reply Paloma 1 de abril de 2015 at 1:00 PM

    Ai, amiga. Não sei lidar. Também tenho uma pavor considerável de aranhas (não tão grande quanto o seu, e não tão grande quanto o que eu sinto por baratas, mas ainda assim considerável), e teria apenas saído correndo no meio dos carros e largado tudo de mão se eu fosse você. Na antiga casa em que eu morava, eu atraía lacraias. Uma vez uma subiu no meu pé enquanto eu banhava e, depois disso, as malditas só apareciam quando era eu tomando banho. Graças a deus isso nunca mais aconteceu.
    Beijos e espero que você se recupere logo do susto. E, universo, por favor, dá um tempo.

  • Reply Suelen 4 de abril de 2015 at 9:18 PM

    bate aqui miga que eu também atraio essas desgraças! parece que quanto mais a gente tem pavor, maior é a probabilidade de atrair essas coisas nojentas.
    tenho muito MUITO MUUUITO pavor de aranhas e me identifiquei totalmente com o post e se fosse eu acho que largava o carro lá e saía correndo sem nem pensar duas vezes (meu pai é que me mataria pelo carro, mas ok)
    também já passei por perrengues danados por esse pavor, e olha, Rony totalmente me entenderia também! :(

  • Reply Carol 6 de abril de 2015 at 12:16 AM

    Deus (e minha irmã que está aqui no quarto) sabe o quanto ri desse post. Primeiro que não deu pra não morrer de amores pelos gifs. Eu tinha resolvido fazer uma maratona da HP esse final de semana e me deparo logo com esse post, foi pra aquecer o coração <3
    E segundo: Me identifiquei tanto com você ahhahahah Você descreveu minha situação perto de qualquer bicho, se for pra falar a verdade. Tenho as piores reações possíveis (ou melhores, se a intenção for rir da minha cara) e sempre acabo encolhida num canto cobrindo o rosto com as mãos como se isso fosse me proteger de algo hahaha maturidade a gente vê por aqui. Enfim, texto delicioso de ler, adorei!

    Beijo!

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