NOVELA MEXICANA

RONY WEASLEY NÃO APROVA ESSE POST

Ou: Sobre improváveis amizades de banheiro. 

Pode ter sido numa manhã ensolarada de setembro ou numa madrugada chuvosa no fim de agosto, sei que num belo dia (ou noite) (que sinceramente pode não ter sido tão belo assim) (é provável que não tenha sido mesmo) eu entrei no banheiro movida apenas pela incontrolável vontade de fazer xixi, e me deparei com uma criaturinha desagradável flutuando entre a parede e o canto do armário. Minha reação imediata foi gritar pela minha mãe e pedir socorro, como sempre faço, mas então, quando ela bateu na porta do banheiro perguntando o que tinha acontecido, eu me vi respondendo que não era nada não, que eu já estava saindo e falava com ela depois. Mal sabia eu, mas era o início de uma boa amizade.

A partir daí eu nunca mais entrei no banheiro sem dar uma boa olhada naquele canto entre a parede e o armário, e sempre me surpreendia ao encontrar ela ali, me encarando, imóvel mesmo quando eu fazia o maior estardalhaço com as gavetas. Comecei a me posicionar estrategicamente sempre que precisava usar a pia pra não bater em sua teia sem querer e acabar com nossa trégua, e só por via das dúvidas, parei de entrar no banheiro sem óculos. Vai que eu esqueço e ultrapasso meus limites sem querer? A cautela era muito mais resultado do meu pavor do que qualquer outra coisa, mas ao poucos fui me acostumando com sua presença. Ainda conferia se ela estava ali sempre que precisava usar o banheiro, afinal sou eu, e sempre melhor evitar do que remediar um ataque surpresa.

Mas surpresa mesmo foi quando eu entrei no banheiro certa vez e encontrei o cantinho vazio. Ao contrário do alívio que pensei que fosse sentir, no entanto, me vi genuinamente preocupada com o paradeiro da minha companheira desagradável, o monstrinho do meu banheiro, e me perguntei se ela algum dia iria voltar. Naquele mesmo dia, uma de suas amigas resolveu dar um passeio pelo meu travesseiro. Infelizmente eu estava presente, deitada no travesseiro ao lado do grande escolhido, lendo com toda a calma do mundo. Foi uma cena lastimável em que, no susto, eu gritei tão alto que a própria chegou a se assustar e sair correndo, mas aí já era tarde demais e minha mãe, caçadora profissional, chegou para me salvar. Me arrependi amargamente no instante em que vi a aranha morta embaixo do chinelo, mas melhor morta do que passeando pelo meu travesseiro e, quem sabe, se jogando em cima de mim. Nunca se sabe até onde pode chegar a ousadia dessa geração.

Só depois fui me dar conta de que talvez aquela aranha do travesseiro fosse minha companheira de banheiro, a mesma que andava meio sumida, talvez porque, como qualquer jovem inconsequente que se preze, resolveu explorar esse mundão de meu Deus. O choque me deixou abalada e naquele dia fui dormir com a consciência pesada, pensando que depois de todos os dias dividindo o banheiro, nossa história terminaria da mesma forma trágica que tentei evitar quando nos conhecemos, e que meus esforços tinham sido em vão. Não se pode ter tudo na vida, repeti pra mim mesma, e talvez humanos e aranhas não tivessem vindo ao mundo pra serem amigos e dividirem conversas no banheiro afinal de contas.

Alguns dias depois, para minha alegria, a minha monstrinha, como gentilmente passei a chamar dona aranha, cansada de explorar esse mundão enorme e hostil, voltou pro seu cantinho entre a parede e o canto do armário. Fiquei tão feliz que quase fiz uma festa de boas-vindas no banheiro, até que me olhei no espelho e percebi o quanto aquela cena era patética. Eu, a versão feminina do Rony Weasley quando falamos em creicisse e medo de aranhas, comemorando o fato de uma aranha (!) ter voltado a morar no meu banheiro. Talvez eu tenha mesmo despirocado de vez. O negócio é que, a partir daquele momento, senti que nossa amizade alçou um novo nível. Monstrinha não era apenas uma aranha que estava ali, motivada a me assustar e tirar minha paz em tempo integral. Ela estava muito mais pra um bichinho como outro qualquer, que calhou de não ser tão bonito e agradável aos olhos de seres humanos idiotas que nem eu, mas que não queria saber da minha cara, quiçá da existência de seres humanos idiotas de um modo geral. No entanto, ali estávamos nós, sozinhas nesse mundão, ainda que rodeadas de outros da nossa espécie, passando mais tempo do que era seguro juntas e construindo uma amizade bonitinha e pouco óbvia.

Todos os dias eu escovava os dentes enquanto batia um papo com minha monstrinha preferida, mais ou menos como eu fazia todos os dias conversando sozinha comigo mesma na frente do espelho (eu sei que sou doente), só que dessa vez eu tinha alguém pra me escutar. Passei a fechar as gavetas com mais delicadeza pra não incomodar minha amiga, que sempre foi muito sensível aos barulhos que eu frequentemente fazia, naquela bagunça desesperada de quem sai atrasada de casa e ainda precisa escovar os dentes ou passar um creme no cabelo. Quando sabia que ela corria algum perigo, batia com mais força pra que ela, dessa forma, pudesse correr pra baixo do armário e se escondesse até que fosse seguro sair dali de novo. Eu ainda a observava com certa desconfiança, porque certos limites precisam ser lembrados e eu jamais ia querer uma aranha andando em cima de mim – pelo meu bem e pelo dela também -, mas não deixava de ser bom ter com quem conversar enquanto eu tomava banho, por exemplo.

Esse fim de semana, minha tia resolveu dar uma geral no banheiro. Acordei por volta de meio-dia e saí do quarto direito pro banheiro, movida pela vontade incontrolável de fazer xixi, não sem antes tropeçar no corredor nos tapetes e lixeiras que tinham sido deixados ali pra não molharem durante o processo, e foi com tristeza que observei o cantinho entre a parede e o armário vazio. Desde então, nunca mais vi minha monstrinha. Depois de tamanha invasão, acho que ela está muito certa em sumir por um tempo, tirar umas férias, passar uma temporada na casa de suas tias ali no quartinho dos fundos ou qualquer coisa assim. Aqui, me permito o direito de torcer pra que ela esteja bem e não tenha sucumbido diante de tanta água e todos os produtos de limpeza.

Tenho certeza que de algum lugar, Rony Weasley está me julgando fortemente, mas só posso dizer que foi bom enquanto durou.

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6 Comments

  • Reply Ana Flávia 29 de setembro de 2015 at 1:18 PM

    Ai gente! Cê não imagina o quanto me identifico com esse post, Ana. Eu tenho PAVOR desse tipo de bichinho e por mais que eu tente – nem tanto quanto você – ser amiga, não suporto nem olhar. Tenho pânico. Principalmente das grandes e peludas, caranguejeiras. Vez ou outra tenho pesadelo que estou sendo atacada por infinitas delas e acordo desesperada. hahhahahaha
    Que bom que superou em partes este tipo de coisa e daqui de longe tô torcendo para que ela esteja bem, fazendo filhotinhos e teias noutro lugar. Mas que não seja aqui, obrigada. hahahahah

    Ah, obrigada pelo comentário incrível e doce que deixou lá no Prato. Faz muito bem quando a gente se acha um grande desastre. Aos poucos – recuperando do beda – tô voltando. Tô pensando em até unir um projeto literário que tinha com umas amigas de faculdade lá. Tipo colunistas de leituras. hehehhe Vamos ver se funciona e se assim, o Prato fica menos abandonado.

    Beijo enorme.

  • Reply Thay 29 de setembro de 2015 at 4:02 PM

    MAS GENTE? HAHAHA, meu Deus, fiquei só pensando aonde essa história chegaria! Olha, eu não sou a maior fã de insetos em geral, mas até que tento não matá-los. Quer dizer, por qual motivo eu teria esse direito? Se está cada um no seu canto, de boa, deixo ele lá. Tipo quando aparece um tatuzinho de jardim no meio da sala: vou lá, pego uma folha de papel, faço o tatuzinho subir nela e depois a levo até o jardim, para que ele refaça o seu caminho depois, haha. E joaninhas, sempre as liberto quando ficam presas no meu quarto. Mas amizades com aranha? AHM, tenho que confessar que não saberia lidar com seus vários pares de pernas, UGH. D:

    ADOREI teu texto, mesmo! ♥
    =**

  • Reply Leticia 29 de setembro de 2015 at 6:30 PM

    Que post cheio de amor. Eu já tive uma amiga de banheiro e fiquei bem triste quando ela desapareceu (também foi devido a uma limpeza). Eu conversava com ela cheia de cautela e ficava feliz quando ela capturava algum insetinho em sua teia. Humanos são estranhos.

  • Reply Yuu 2 de outubro de 2015 at 2:27 AM

    Ana, primeiro eu gostaria de esclarecer que às vezes demoro para responder seus comentários pelo único motivo de não querer fazê-lo de qualquer jeito. Não aqui. Sei que essa prática não requer dar satisfações, mas mesmo assim me senti na posição de te avisar, porque eu adoro seus textos. Leio-os tão logo aparecem no meu Feedly, e só demoro a te mimar por preguiça mesmo. Ok? :)

    Dito isso, vamos ao post: que amizade inusitada e maravilhosa. Aranhas não são os meus seres favoritos do universo, mas se acabam se mostrando inofensivas, não tenho problema algum em coexistir com elas. Eu mesma tive uma amizade de banheiro lá pelo começo do ano: uma lagartixa pequena que, um belo dia, apenas apareceu na parede acima do box. No nosso primeiro encontro eu gritei, mas depois aceitei sua presença. Veja bem: o chão do apartamento de cima está vazando e nosso teto está sempre com umidade e, o banheiro, cheio daqueles mosquitinhos chatos. Eis que quando Marieta (a lagartixa) surgiu, ela fez deles seu alimento e fizemos um acordo silencioso. Enquanto eu tomava banho passei a conversar com ela, e senti sua falta quando desapareceu. Que bom saber que eu não fui a única! Gostei muito da crônica sobre a dona aranha. Criatividade define. Quando bons textos surgem de episódios-detalhe do dia a dia é amor na certa.

    Beijinhos. :*

  • Reply BA MORETTI 21 de outubro de 2015 at 12:57 AM

    isso me fez lembrar de uma amizade inusitada e rápida (but real) que eu tive esse ano. um camundongo que cheguei a chamar de stuart little (sim, muito criativa) e que me fazia companhia enquanto procurava algo pra assistir na TV (coisa que nunca faço).

    a amizade acabou quando descobri que stuart e sua família (eram vários meudeus) estavam morando, comendo (minhas roupas), cagando e mijando no armário que era da minha irmã (que estava abandonado há eternidades). descobri que minhas roupas estavam no armário dela da pior forma: meu cropped favorito foi comido HAHA

    aí acabou a amizade, rolou medo de doença e afins e meu pai meio que exterminou todos x_x

  • Reply Ana 22 de outubro de 2015 at 12:18 PM

    Deus do céu. Esse post……………. HAHAHAHAHAHAHAHAHHA Ai Ana, eu tenho muito medo de aranha. Nos últimos anos eu controlo melhor isso, e quando vejo aquelas aranhas lights no corredor do prédio, geralmente eu deixo elas lá. Agora se eu vejo em casa, eu não consigo. Se é muito grande, eu chamo meu pai. Se não, eu vou lá e extermino. ;___; Não consigo ser coração bom de poupar uma aranha assim. Minha irmã tem uma baita de uma marca na perna por causa de uma aranha, uma prima minha foi picada por uma e teve que tomar não sei quantas injeções. Meu medo é maior que a minha empatia por essa bicho cheios de patas. :(

    Beijão!

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