LIVROS

RORY GILMORE APROVARIA ESSE POST

Muito antes de ser uma pessoa que escreve, eu já era uma pessoa que lê. Desde muito cedo, minha mãe – que nunca foi uma pessoa que escreve, muito menos uma pessoa que lê – me incentivou a gostar de livros e encontrar na leitura de páginas e páginas e mais páginas um prazer genuíno, que mantenho até hoje. A gente passava tardes inteiras explorando livrarias, lendo um livro atrás do outro até não aguentarmos mais, perdidas entre estantes que escondiam tantas histórias, infinitas histórias; e continuávamos tudo isso em casa, quando ela contava uma história diferente a cada noite até o dia que eu pude lê-las por conta própria e ela, então, passou a apenas financiar meu gosto por livros, rumo a uma biblioteca como a da Bela e a Fera (que ainda está bem longe da realidade, mas um dia chegamos lá), etc etc.

Gosto de livros porque, muito mais do que histórias, registro e preservação, e a capacidade de nos transportar para realidades tão diferentes da nossa, eles são capazes de evocar sensações antes mesmo do início da leitura: livros são cheiro, textura, peso, dor nas costas, e dizem um bocado sobre nós só por estarem ali. Olhar a estante de outra pessoa é, ao mesmo tempo, explorar seus gostos literários, mas também descobrir quem é aquela pessoa para além da leitura – seus gostos, ídolos, manias, preferências e hábitos. Um exemplar é suficiente para revelar os hábitos alimentares de alguém – uma mancha vermelha pode indicar sopa de tomate e uma verde macarrão ao molho pesto -, se a pessoa utiliza as orelhas como marcadores, se ela é do tipo que usa flags para marcar suas passagens favoritas ou se é do tipo que risca páginas inteiras sem dó. Ou seja, um universo inteiro e extraordinário que se esconde no simples ato de observar os livros (e estantes) dos outros.

Minha estante não é tão bonita ou memorável como algumas que existem por aí. Minha tia, por exemplo, tem uma em casa que é meu sonho de consumo: paredes de tijolinhos, pequenininha, mas cheia de estantes lotadas de livros lindos, enormes exemplares em capa dura. Mas ela, a minha estante, ainda é única e especial, algo que diz mais sobre mim do que sobre todos os livros presentes nela, o que por si só, eu já acho incrível demais. É por isso que vira e mexe eu abro as portinhas dela e fico ali, admirando minhas aquisições, lembrando das histórias que elas contam, mas principalmente das que construíram comigo. Não é por acaso que um dos meus maiores sonhos é morar num lugar em que eu possa ter um quarto inteiro vago para transformar numa biblioteca; e que eu fique tão apavorada só de pensar em me mudar para outro estado ou país e precisar deixar todos os meus livros para trás – o que é meio problemático, mas bear with me, podemos conversar sobre isso em outra hora.

Talvez por isso, eu nunca tenha me interessado tanto assim por e-readers. Embora consiga reconhecer todas as vantagens de ter uma biblioteca inteira na palma da mão, com toda a mobilidade e economia de espaço que isso dá, sem drama e sem dor nas costas – e, muito provavelmente, a um custo bem mais em conta -, elas não são o suficiente para me fazerem abrir mão da ideia de continuar comprando meus livros sempre que possível, ocupando espaços que não tenho, mas ainda garantindo a possibilidade de poder abraçar, cheirar, folhear, marcar e construir uma história com cada um deles que só existe quando temos um livro nas mãos.

Muita gente já me disse que comprar um e-reader é um caminho sem volta porque você naturalmente se encanta com todas as possibilidades, mas principalmente com a praticidade de tudo aquilo – e eu acredito. Quando uma das minhas melhores amigas da faculdade comprou um, ainda no nosso primeiro ano de curso, nós pulamos juntas no meio de um monte de pessoas, e nos abraçamos e celebramos aquela conquista, e foi ali, admirando aquele pequeno quadradinho branco e suas milhões de possibilidades que eu quase – eu disse, quase – pensei em adquirir um também. Mas bastou que eu voltasse para casa e olhasse a minha pequena, mas amada e idolatrada estante, para esquecer toda essa ideia maluca de enfiar tudo num quadradinho eletrônico pouco maior que a minha mão. E foi exatamente nisso que eu pensei enquanto lia a reportagem sobre o renascimento do livro impresso.

Eu não acho que o livro digital deva morrer, muito pelo contrário. Mas em tempos como o que vivemos, talvez continuar comprando livros físicos seja, também, uma forma de resistência, aquele jeitinho de continuar com um pézinho no passado, preservando certos costumes, enquanto continuamos inevitavelmente seguindo em frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Previous Post Next Post

2 Comments

  • Reply Mia 15 de fevereiro de 2017 at 1:58 PM

    Ai ♥ que post mais amor, deu vontade de te abraçar, miga

  • Reply Janaina jala 16 de fevereiro de 2017 at 5:00 PM

    Que texto mais fofo <3. Eu também pensava dessa forma em relação aos e-readers até comprar um. Sou apaixonada por livros, pelas texturas das capas, pela gramatura das folhas, folhear um livro me relaxa, mas acredito que os leitores digitais vieram como uma alternativa para quem não tem condições de comprar todos livros que pretende ler. Infelizmente, os livros no Brasil são caros, não são todos os leitores que podem gastar R$25 ou R$30 reais em 1 livro, não são todos os livros que estão em promoção e não são todos que tem fácil acesso à biblioteca. Acredito que a facilidade de encontrar livros digitais de graça na internet é o que faz valer a pena a compra dos leitores digitais, você investe hoje para compensar amanhã. Em 3 meses que tenho meu Kindle já paguei o valor dele caso eu tivesse comprado todos os livros que li nele. Adorei o "blog"!

  • Leave a Reply