THE ROAD SO FAR

SELF IMAGE 2017

Tenho as sobrancelhas da minha mãe e o nariz do meu pai, mas todo o resto é só meu. Nasci em 1993, mas minha história começa quase um século antes, numa cidade pequenininha no interior da Bahia. Sou obcecada por memórias e raízes, e desde então tenho tentado entender esse passado. Sou filha de pais separados, um clichê ambulante com uma porção de daddy issues. Cresci numa casa – e numa família – onde mulheres sempre foram maioria. Sou leitora em uma família de gente que não lê. A mulher mais alta, mas há algum tempo já não sou a neta mais nova. Alguém que quer viajar o mundo, mas precisa de um lugar para onde voltar.

Ainda tenho dificuldades em encarar meu reflexo no espelho. Ainda quero perder 10kg. Ainda quero ter as pernas finas e o quadril estreito que sei que nunca terei. Ainda tenho a autoestima baixa e choro todas as vezes que a realidade bate como um martelo, mas não tenho mais vontade de ser outra pessoa. Faço careta em quase todas as fotos que tiro numa tentativa de driblar a autocrítica. Estou tentando ser mais gentil comigo mesma. Sou uma pessoa que chora muito, mas que tem chorado cada vez menos. Por outro lado, continuo sentindo demais o tempo inteiro, talvez mais do que nunca. Continuo sonhando alto e sonhando grande, mas hoje já não sinto vergonha da minha ambição. Acredito em Deus, no Universo, no poder de boas energias, no ser humano. Acredito no cinema, na arte, no poder de boas histórias. Acredito que o amor vence a guerra, embora nem mesmo ele seja capaz de vencer todas as batalhas.

Continuo achando difícil acreditar no meu trabalho, mas cada vez me sinto mais segura em relação ao que faço, independente de quanto dinheiro ganho ou deixo de ganhar com isso. Mas ainda preciso que vez ou outra alguém me lembre de valorizá-lo. Escrevo há muito tempo, mas só esse ano passei a me reconhecer como escritora. Faço filmes, mas ainda acho difícil me reconhecer como cineasta. Ainda me importo demais com a validação externa. Tenho um site sobre cultura pop que nasceu da minha cabeça, e embora só tenha tomado forma com a união de outras tantas pessoas, não deixo de me encantar com a possibilidade de sonhos e projetos abstratos se transformarem em realidade. Não tenho mais medo de falar com professores ou pessoas mais velhas que eu, mas ainda preciso aprender me impor quando necessário. Continuo sendo overachiever, mas já entendi que é preciso traçar uma linha entre aquilo que eu realmente preciso fazer e aquilo que eu só quero demais.

Tenho mais amigos do que imaginei que fosse ter um dia e todos eles são preciosos, lindos, as melhores pessoas do mundo. Ganhei lembranças, fotos, risadas, registros, conexões, laços. Ganhei vários tetos diferentes em todos os cantos possíveis desse país. Construí histórias lindas, mas descobri que não é preciso ter alguém ao seu lado por uma vida inteira para torná-la especial. Há quase dez anos descobri o amor, que continua firme e forte como nunca, e foi com ele que aprendi que nem só de sorrisos e declarações é feita uma história de amor, mas que os pequenos gestos cotidianos são mais significativos do que todas as palavras do mundo. Descobri que a paixão é fundamental e continuo me apaixonando todos os dias, mas é o amor que tem cheiro de lar.

Eu tenho 24 anos. Não terminei a faculdade. Gosto de jaquetas de couro, calça jeans e camiseta GG. Tenho depressão e ansiedade, mas não acredito que essas coisas me definam. Faço terapia há quase um ano e é a melhor coisa do mundo. Gosto de dançar, mas tenho vergonha de fazê-lo em público, então danço sozinha no meu quarto. Ainda falo muito baixo, sou muito tímida e meio antissocial, mas aos poucos tenho tentado sair da minha concha. Me disseram uma vez que escolhi o jeito mais traumático de fazer isso e eu ri de nervoso, mas se não fosse assim, talvez eu já tivesse mudado de ideia. Sou pisciana. Feminista. Contraditória demais para o meu próprio bem. Tento ser uma pessoa melhor a cada dia, mas já parei de pedir desculpas por ser quem eu sou. Meu filme favorito continua sendo A Noviça Rebelde. Gasto tempo demais com obsessões irrelevantes. Ainda tenho morro de tirar sangue. Algumas coisas realmente não mudam.

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5 Comments

  • Reply Isa 6 de agosto de 2017 at 2:37 PM

    a coisa mais linda que podemos fazer por nós mesmas é esse exercício diário de autoaceitação e reconhecimento. que texto lindo <3

    (a gente é muito parecida!)

  • Reply Rafaela 6 de agosto de 2017 at 5:44 PM

    Que texto mais lindo, amiga!
    Eu adorei tanto, que vou fazer um parecido, sobre mim. Achei uma forma linda e falar sobre si e reler, anos mais pra frente, pra saber o que vai ter mudado.
    Você é uma pessoa linda e muito forte. Torço muito por ti!

    Beijo <3

  • Reply Manu 7 de agosto de 2017 at 2:10 AM

    Amiga, que self-image maravilhoso!!! Quase fico com vontade de escrever um assim, grandão. Adoro esse exercício, por mais egocêntrico que pareça, de falar de si dessa maneira tão aberta. A gente é o que a gente é e tem mais é que deixar as pessoas (e em especial, a gente mesma) saber.<3 <3 <3

  • Reply KARINE 10 de agosto de 2017 at 2:10 AM

    eu tô tão apaixonada por esse seu texto que nem sei. li pelo menos 3x e me vi em muitas coisas que falou, especialmente na parte das obsessões. é cada uma que aparece, que as vezes me sinto ridícula por isso (especialmente porque depois elas acabam ficando esquecidas, HAHA).

  • Reply Aline Amorim 16 de agosto de 2017 at 12:58 AM

    Sempre achei difícil falar sobre mim mesma, mas esse texto me fez ter vontade de escrever algo sobre mim, pois me identifiquei com algumas coisas dele.
    É bom reconhecermos nossas dificuldades e nossas qualidades.
    Também sou tímida e também danço apenas sozinha.
    Beijos

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