DRAMAS REAIS

SOBRE ESCREVER E PUBLICAR

Até o ano passado, uma das coisas que eu mais me perguntava sobre o blog era se alguém estava verdadeiramente interessado em ler as abobrinhas que eu escrevia (e sigo escrevendo) aqui. Eu não sou famosa, minha vida não é tão mais legal ou diferente das pessoas que conheço e por mais que vira e mexe eu fale sobre assuntos que parecem muito próximos da vida de muita gente, eventualmente eu percebi que existem pessoas – muitas! infinitas! – que falam sobre esses mesmos assuntos infinitamente melhor do que eu. Se fosse racionalizar sobre isso, eu provavelmente ia descobrir que todo esse tempo de páginas e páginas e páginas ocupadas com a história da minha vida não serviu pra nada, absolutamente nada, além de ocupar o meu tempo (às vezes, livre demais) e me dar a impressão – talvez falsa, talvez não – de registrar minha própria vida de alguma forma.

Por muito tempo, essa foi uma questão delicada e pra qual eu não tinha resposta. Embora a linha que eu tenha traçado entre aquilo que é publicável e o que não é seja muito tênue – às vezes, de um jeito até meio problemático -, a questão nunca era tão sobre isso quanto era sobre meu desejo de trocar ideia com as pessoas. O desejo de registrar continuava o mesmo e foi se fortalecendo ao longo dos anos. Mas ao mesmo tempo, eu reconhecia – muito mais pra mim do que pra qualquer outra pessoa – que ter uma troca era importante e que muito mais do que o desejo de ter as minhas memórias gravadas em algum canto, muitas vezes que eu apareci aqui foi só porque eu precisava de alguém pra conversar, um jeito de extravasar minhas emoções e ter alguém de fora me dando uma opinião sincera sobre aquilo que estava acontecendo na minha vida. Não por acaso, a maior parte das minhas amizades hoje surgiram graças ao blog e eu morro de orgulho sempre que olho as fotos e penso que esse cantinho, muito mais do que um registro daquilo que eu vivo, me fez cruzar com tantas pessoas incríveis e que significam tanto pra mim.

Lembro de uma vez, num grupo no site feices, em que uma moça se questionou sobre continuar escrevendo quando ela claramente sabia que aquilo não tinha importância pra mais ninguém além dela mesma. Não lembro exatamente qual foi a minha resposta na época, mas naquele dia eu deixei de lado muito dos meus próprios receios e abracei de vez essa experiência. Pela primeira vez em muito tempo – talvez desde a criação do Starships & Queens – eu me dei conta de que não era preciso ser nada além de mim mesma pra escrever sobre a minha vida e que a identificação do outro era uma consequência – uma consequência boa, é claro, mas que jamais foi capaz de validar aquilo que eu fazia ou deixava de fazer nessa página. Por mais que eu continuasse sendo um pontinho num mar de pessoas incríveis – ou nem tanto – existiam pessoas que iam se identificar comigo, com aquilo que eu escrevia – e continuo escrevendo – e que isso era o mais importante. Ao mesmo tempo, eu também fui capaz de enxergar que por trás daquelas pessoas que eu tanto admiro, existem seres humanos que são falhos, também se sentem inseguros e não fazem a menor ideia do que aquelas pessoas estão fazendo lendo sobre a sua vida.

É mais ou menos nesse momento que eu começo a pensar  em todas as coisas maravilhosas que aconteceram na minha vida por causa do blog e que não teriam acontecido não fosse essa vontade de escrever sobre a minha vida e registrar minhas memórias. São pessoas que hoje se tornaram absolutamente fundamentais na minha vida, amigas que estão comigo nos momentos bons e ruins, que celebram minhas vitórias e choram minhas derrotas junto comigo, e sem as quais eu não saberia viver. Da mesma forma, nesses três anos que já dura o blog, eu recebi infinitas mensagens de gente que não me conhecia e que eu também não conhecia, mas que de alguma forma se identificaram com aquilo que eu escrevia – fosse o amor por uma série ou sobre a aparente incapacidade millenial de lidar com a vida adulta. Coisas bobas, mas que foram importantes pra mim e que, de algum modo, também foram importantes para alguém que estava do outro lado. Saber que eu não chorei sozinha pelo fim de Penny Dreadful, que mais gente também amou o Adam Lambert à frente do Queen e que ninguém sabe mesmo o que fazer com a própria vida pode não ser a solução de todos os problemas do mundo, mas mostra que nesse mundo horroroso em que a gente vive, ainda existia um lugarzinho onde todos estaríamos a salvo.

Estou dizendo tudo isso porque hoje li a newsletter da Larie e embora não me identifique mais com tudo o que ela escreveu, eu consigo lembrar de quando eu mesma tinha as mesmas questões e tentava encontrar respostas de algum modo. Hoje, eu não escrevo com a frequência de sempre – porque a vida acontece, porque eu não sou mais a pessoa com tanto tempo livre que fui um dia -, não porque eu decidi que o blog não tem mais espaço na minha vida ou porque simplesmente reconheci de vez que não faz a menor diferença estar aqui ou não. Porque, aconteça o que acontecer, eu sei que ainda vou ficar aqui por bastante tempo, nem que seja pra falar sobre como meu cachorro é lindo, compartilhar meus dramas com a faculdade ou falar que pizza é, definitivamente, a cura de todos os problemas – e espero que vocês do outro lado continuem aí também.

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2 Comments

  • Reply Larie 16 de dezembro de 2016 at 1:47 AM

    <33333333333333333333333 EU NEM ACREDITO QUE FUI CITADA AFFFFFFFFF

    Amiga, gostei muito da sua visão. Foi muito difícil pra mim colocar aquelas coisas pra fora, mas tive um feedback legal até agora. É muito importante saber que não estamos sozinhas e saber que é possível virar amiga de gente incrível (olha você e Máfia na minha vida <3) só compartilhando nossa experiência. Se eu for pensar nesse âmbito tenho mais gás ainda pra escrever (vou colocar um friendly reminder na minha parede).
    Obrigada por me lembrar disso. <3
    Meu sonho é chegar num nível como o seu de estar mais amadurecida no sentido do porque você escreve. Talvez em 2017 isso aconteça. OREMOS.

    Besos <3

  • Reply Manu 17 de dezembro de 2016 at 2:17 AM

    Toda vez que você fala sobre escrever, eu sinto como se você estivesse dando voz aos meus sentimentos muitas vezes intraduzíveis sobre isso – e por isso, obrigada por esse post, miga. <3 No final do dia, também tenho essa sensação de que por mais inutil que seja essa atividade (e olha que eu tenho DOIS blogs, rapá quem quer ler tanta coisa sobre mim?), a diferença que isso faz pra gente é imensa – seja conhecendo gente incrível, seja trocando figurinhas, fazendo vínculos, ou só desabafando e criando memórias. Long live seu blog pra gente ficar aqui na blogosfera batendo papo e trocando mimos nessas inbox por muito mais tempo. <3333

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