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STARSHIPS & QUEENS AWARDS 2016 #1: RETROSPECTIVA LITERÁRIA

Então estamos naquela época do ano. Os perus foram comidos, os presentes foram trocados e finalmente podemos respirar aliviados – ou quase isso. Ainda falta menos de uma semana para o fim de 2016 e não sei exatamente como me sinto em relação ao fim de um ano que, mesmo estranho pra cacete, trouxe coisas incríveis para minha vida. Acompanhem cenas dos próximos capítulos. Enquanto isso não acontece, no entanto, gostaria de informá-los que já estamos autorizados a iniciar mais uma edição do Starships & Queens Awards, a maior premiação deste blog que vocês respeitam demais, risos.

Ao contrário dos outros anos, preferi começar falando sobre os livros que li em 2016. Foram poucos, bem poucos (16, se vocês estiverem se perguntando), quase nenhum livro lido esse ano, mas se quantidade não é sinônimo de qualidade, os poucos livros que li foram suficientes para me lembrar porque a literatura continua sendo uma das minhas coisas favoritas nesse mundo. São histórias incríveis, algumas que me ensinaram um bocado, e é justamente por isso que decidi quebrar as minhas próprias regras e começar por aí. Assim como no ano passado, decidi fazer uma retrospectiva mais livre, usando algumas categorias daquele questionário da Tary e outras da retrospectiva que a Manu fez este ano, de acordo com o que andei lendo nesse meio tempo. Por favor, coloquem o champagne na geladeira, puxem uma cadeira e venham comigo.

LIVROS LIDOS (E RELIDOS) EM 2016

Os Garotos CorvosCartas de Amor Aos MortosA Arte de PedirO Oceano No Fim do CaminhoGuerra CivilA Garota da BandaNoites de AlfaceTigres em Dia VermelhoA Redoma de VidroAs Aventuras de Wonder Woman na Super Hero HighTá Todo Mundo Mal: O Livro das CrisesOrgulho e PreconceitoGirlboss – Harry Potter e A Pedra FilosofalHarry Potter e a Câmara SecretaHarry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

1) MAIOR LIVRO

Orgulho e Preconceito. Tão grande que eu ainda nem consegui terminar, mas tenho fé que concluo as quase 500 páginas antes do ano acabar. Orgulho e Preconceito foi também o único clássico que li este ano, além de ser o meu primeiro contato com uma autora que eu já admirava um bocado: Jane Austen. Embora eu já conhecesse a história de cabo a rabo (risos), a experiência de finalmente ler o livro que originou tantas adaptações foi uma das coisas mais preciosas do meu ano, que me deu um pouco mais de paz e me ajudou a enfrentar as complicações que inevitavelmente surgiram em 2016. Acompanhar a trajetória de Lizzie Bennet e Mr. Darcy tem deixado meu coração quentinho, quase como se alguém estivesse me abraçando de dentro pra fora.

“Há tanta gratidão ou vaidade em quase todos os relacionamentos amorosos, que não é seguro deixar nenhum deles entregue a si mesmo. Todos podem começar espontaneamente (uma ligeira preferência é muito natural); mas pouquíssimos de nós somos corajosos o suficiente para nos apaixonarmos de verdade sem um incentivo.”

2) MELHOR AQUISIÇÃO

Tigres em Dia Vermelho. Uma aquisição meio inconsequente em uma promoção da Amazon que se mostrou uma escolha super acertada, Tigres em Dia Vermelho foi um dos melhores livros que li este ano. Um drama familiar que percorre diferentes épocas e apresenta diferentes pontos de vista, enquanto pouco a pouco nos mostra a verdadeira face de cada um de seus personagens. Liza Klaussmann, a autora, consegue construir protagonistas que são extremamente complexas e nunca são uma coisa só, e que nunca se contentam com a vida que têm, muito pelo contrário. O relacionamento entre Nick e Helena, duas primas criadas muito de perto, cresce ao longo da narrativa só para entrar em decadência à medida que a história avança. O que nasce como uma relação sadia entre duas mulheres, aos poucos dá lugar aos dramas, conflitos e diferenças, e é possível compreender, pouco a pouco, os sentimentos equivocados que nascem dessa relação e que muitas vezes ficam apenas nas entrelinhas. Ao mesmo tempo, a complexidade de ambas se estende para além da relação entre uma e outra, contemplando também os personagens secundários – e também com pontos de vista -, como os filhos de cada uma e o marido de Nick. Embora o final não seja tão bom quanto todo o livro, é uma leitura que de fato vale à pena, e que eu recomendaria de olhos fechados.

“Tia Nick não fazia parte do mar de mesmice. Ela exercia certo fascínio sobre mim, era algo em seu jeito de andar, mas eu não gostava muito dela. E, em muitos aspectos, por baixo de sua aparência incomum, ela era exatamente igual a todo mundo. O mundo parecia formado por dois tipos de pessoas: os como eu e Daisy, que viviam o mais honestamente que podiam, e o resto, pessoas que por variadas razões não conseguiam deixar de mentir para si mesmas.”

3) SÃO QUESTÕES

Noites de Alface. Sabe um daqueles livros em que a gente se apaixona pela escrita da autora, mas não necessariamente pela história que está sendo contada? Pois então, Noites de Alface foi esse livro pra mim. Não conhecia o trabalho da Vanessa Barbara e acho que não teria ouvido por tão cedo não fosse a Analu me puxando pelo braço e gentilmente convidando para bicharmos. Ela precisava ler uma autora nacional para um trabalho da pós e eu não estava fazendo nada melhor mesmo, então pensei “por que não?”, e de repente estava com esse livro – curtinho que só – em mãos. Nele, conhecemos a história de um senhor que, após mais de 50 anos de casado, perde a esposa de forma repentina e se vê completamente sozinho. Eles não tiveram filhos e ele nunca fez questão de interagir com outras pessoas – muito diferente de sua esposa, que era amiga de todos na vizinhança. Ao mesmo tempo, existe um mistério rolando, mas que não é tão forte ao ponto de segurar a história e que hoje, alguns meses depois da leitura, eu nem me lembro mais do que se tratava. O relacionamento de Ada e Otto, por outro lado, é uma coisa realmente preciosa e as reflexões que ele faz sobre o casamento e a morte são muito, muito especiais.

“Em quatro horas sem sono, é possível fazer uma viagem de ida até o inferno e por lá ficar, ruminando ansiedades e coisas terríveis, antecipando a morte de entes queridos e rasgando coisas que deviam ficar bem enterradas no passado, como brigas que nunca se resolveram, raivas represadas de gente que sumiu há tempos, coisas ouvidas e não compreendidas, tragédias, notícias ruins. Em quatro horas, dá para repassar os piores episódios da sua vida, na ordem, derretendo-se em dor de garganta, taquicardia e suor.”

4) MELHOR PERSONAGEM

Gansey, de Os Garotos Corvos. Sei que Ronan é a unanimidade, mas enquanto lia o primeiro livro da saga dos Garotos Corvos, eu não conseguia lidar com o amor que crescia, página depois de página, pelo Gansey. Esse garoto rico que não se contenta apenas em ser um garoto rico, esse garoto que busca umas coisas bizarras e que nunca deixa seus amigos na mão. Sinto uma inveja bem sincera da Blue por ter um lugar garantido em seu coração e só não sofro mais porque aquele papo do beijo faz meu coração doer de verdade. Ainda preciso ler os outros três livros pra saber o que acontece, mas se o primeiro já foi suficiente pra me fazer ficar de quatro pelo moço (risos), não quero nem imaginar o que vai acontecer nos próximos.

“– Talvez – disse Gansey. De alguma maneira, ver os pais sempre o lembrava de quão pouco ele havia conquistado, quão parecidos ele e Helen eram, quantas gravatas vermelhas ele tinha, como ele estava lentamente amadurecendo para se tornar tudo que Ronan tinha medo de se tornar.”

5) HOMÃO DA PORRA

Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito. Porque lógico, né? Como lidar com esse homem que não é apenas um bom partido com o qual qualquer mocinha em sã consciência adoraria casar, mas uma pessoa justa, honesta e com um coração tão grande? Descobrir o verdadeiro homem que reside por trás da máscara esnobe que ele não se cansa de exibir é uma viagem sem volta e com destino certo. É impossível não se apaixonar por Mr. Darcy e, depois que isso acontece, impossível é voltar atrás – e dona Elizabeth Bennet que o diga. Aliás, os dois também foram o melhor ship desse ano, aquele que fez meu coração doer de tão maravilhoso, mesmo já sabendo o final.

6) O MAIS IMPORTANTE

A Redoma de Vidro. Todo mundo sempre me falou como era assustadora a sensação de ler A Redoma de Vidro e se enxergar inteiramente na Esther, personagem principal do livro, que é também uma semi-biografia de sua autora, Sylvia Plath, que se suicidou aos 30 anos de idade em decorrência da depressão. A leitura do livro coincidiu com um período muito específico da minha vida, em que eu mesma fui diagnosticada com depressão e ansiedade, e precisava acima de tudo de alguém que me entendesse nos termos mais difíceis. A Redoma de Vidro fez esse papel na minha vida. Não vou dizer que é uma leitura fácil, mas fui surpreendida por não ficar tão pior do que eu já estava, ao mesmo tempo que me senti inteiramente compreendida. Se para tantas pessoas é tão difícil entender porque pessoas que têm aparentemente tudo acabam apresentando doenças mentais, Esther foi a prova mais clara de que não existe justificativa e que qualquer pessoa está sujeito a sofrer com esse tipo de problema, independente de cor, classe e oportunidades que teve na vida. Diferente do que acontece na tv e principalmente no cinema, mas na ficção de um modo geral, o livro não romantiza a doença, mas mostra o sofrimento que uma tristeza tão profunda pode trazer para a vida de uma pessoa de uma forma muito honesta e visceral. Foi um livro que realmente mudou a minha vida, que me deu muito sobre o que pensar e que, de um jeito meio torto, me ajudou a levantar do buraco em que eu tinha me metido.

“Acontece que eu não estava conduzindo nada, nem a mim mesma. Eu só pulava do meu hotel para o trabalho e para as festas, e das festas para o hotel e então de volta ao trabalho, como um bonde entorpecido. Imagino que eu deveria estar entusiasmada como a maioria das outras garotas, mas eu não conseguia me comover com nada. (Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.)”

7) NÃO-FIÇÃO

Do ano passado pra cá, tenho tentado explorar mais livros de não-ficção – um gênero que até pouco tempo atrás eu ignorava completamente. Comecei devagar, no ano passado, e consegui ler um pouco mais esse ano (e já tenho alguns na estante esperando para serem lidos no ano que vem). Ajuda muito o fato de que, finalmente, pessoas pelas quais eu me interesso profundamente – seja pelo trabalho, seja pela pessoa em si – estejam escrevendo sobre a vida, o universo e tudo mais. É por isso que minha lista de desejados não para de crescer e é justamente por isso que é bem possível que ela não pare nunca mesmo. Bless my little heart.

Tá Todo Mundo Mal: O Livro das Crises foi uma leitura de praticamente uma sentada, que eu bichei com a Analu sem ninguém saber (não que fosse segredo, só não foi uma bichice anunciada, risos) e que me fez pagar a língua por sempre dizer que eu jamais leria livro de youtuber, mesmo que a youtuber em questão fosse a Jout Jout, uma mulher que eu gosto bastante do trabalho e admiro um bocado. Seu livro é quase como extensão do seu trabalho na internet, e como a Analu colocou muito bem em uma das nossas conversas, lê-lo é quase como ouvir a voz da Jout Jout contando cada um dos causos como se estivesse na frente das câmeras. Gosto de como ela parte de situações muito pessoais para falar de questões que são universais, e como consegue manter sempre o bom humor. Eu me identifiquei o tempo inteiro e quis dar um abraço na moça ao final, com a certeza de que, embora todo mundo esteja de fato muito mal, nós nunca estaremos sozinhas nesse barco.

“É engraçado como chegamos a conclusões muito diferentes quando questionamos um costume que já está arraigado em nossas entranhas. Você percebe que nem concorda com grande parte deles e que só continua fazendo algumas dessas coisas porque nunca as questionou. Tipo não tomar banho depois de comer, porque pode levar à morte. Alguém disse que não podia em uma época que outras pessoas formavam o seu caráter, em que você não tinha opiniões formadas sobre nada. Tinha certos e errados muito bem definidos e ditados por outros. E aí você cresce e vê que mocinhas não têm que ser mais comportadas do que mocinhos. Que comer manga com leite não mata ninguém. Que suas celulites não são um impeditivo para movimentos naturais como cruzar as pernas.”

A Garota da Banda, por sua vez, foi o tipo de leitura certa, num momento meio errado, mas que ao mesmo tempo me ensinou uma porção de coisas importantes e me transformou em fã de uma mulher que eu nunca tinha procurado saber quem era para além da sua carreira no Sonic Youth – uma banda que, a propósito, eu nunca fui muito fã. Kim Gordon é uma dessas mulheres que nos inspiram de uma forma muito profunda e que consegue subverter muito da imagem que se tem de uma rockstar. Entrar em seu mundo é como passear por um corredor imenso e cheio de portas que escondem diferentes momentos da sua vida e pelos quais podemos aprender muito sobre a vida, o universo e tudo mais. Amo especialmente quando ela fala da sua relação com a música, sobre feminismo e como era, de fato, ser a – única – garota de uma banda. Para alguém que romantizou a música a vida inteira, seu relato tão visceral é como um convite para visitar os bastidores de um mundo em que eu sempre quis estar, e reconhecer que nem tudo é perfeito quando as luzes se apagam.

“Eu sempre achei que há algo geneticamente incutido e inato nos californianos – que a Califórnia é um lugar de morte, um lugar para o qual as pessoas são atraídas porque não percebem, no fundo, que elas na verdade têm medo do que querem. Tudo é novidade, e elas estão fugindo de suas histórias enquanto ao mesmo tempo correm em direção à sua própria extinção.”

Leitura dos 45 do segundo tempo, Girlboss é um desses livros que você é absolutamente incapaz de largar e prova disso é que eu, também conhecida como a pessoa mais enrolada do mundo, consegui lê-lo inteiro em, literalmente, uma sentada. A verdade é que a história de Sophia Amoruso, CEO da Nasty Gal, é leve, inspiradora e incrivelmente fácil de ler mesmo que nem sempre trate de assuntos fáceis. Embora não concorde com todas as suas lições muito menos com toda a sua forma de enxergar o mundo ao seu redor, acho incrível que Sophia não impõe regras à ninguém, mas conta sua história enquanto pede de joelhos que a gente quebre todas as regras se assim tivermos vontade de fazer. Ela mesma, que foi uma pessoa tão fora da curva, que nunca se deu bem ao tentar se encaixar em padrões, que nunca tirou boas notas e que nunca conseguiu ficar muito tempo nos empregos ao longo da vida, é a inteira representação da quebra de regras, e acho importante que, enquanto muita gente venda sua trajetória como o conto de fadas moderno, ela recusa completamente essa visão. Muitas de suas lições acabam sendo realmente valiosas e um relato tão honesto é, no mínimo, um empurrãozinho muito bem vindo pra quem sempre sonhou em conduzir o próprio negócio ou tem uma porção de sonhos esperando para serem tirados da gaveta.

“Fique acordada e fique viva. Não existe Corretor Automático na vida – pense antes de enviar mensagens ao universo. Quebrar as regras só por diversão é fácil demais – o verdadeiro desafio está em aperfeiçoar a arte de saber que regras aceitar e quais reescrever. Quanto mais você experimentar, enfrentar riscos e errar, mais poderá se conhecer, mais poderá conhecer o mundo, e mais focada estará.”

8) OS MELHORES DE 2016

Num ano tão estranho quanto 2016, não é exatamente uma surpresa que minhas leituras favoritas tenham sido um reflexo muito honesto do que eu vivi nesse ano que passou. Foram leituras que, embora muito diferentes entre si, falam muito sobre a vida em diferentes perspectivas, e que de alguma forma foram capazes de me segurar em pé quando o mundo inteiro parecia desabar na minha cabeça.

Cartas de Amor Aos Mortos, da Ava Dellaria, não costuma ser uma unanimidade, muito pelo contrário. Sua presença na minha estante, aliás, só aconteceu porque eu sou muito, muito, muito cabeça dura e comprei mesmo com as recomendações das minhas melhores amigas, que juravam de pé junto que esse livro era pavoroso, um repeteco mal feito com personagem feminina de As Vantagens de Ser Invisível – um livro que, contrariando todas as expectativas, eu não gostei tanto assim. Eu acredito muito que alguns livros surgem na nossa vida quando mais precisamos deles e, de certa forma, acho que foi isso que aconteceu aqui. Embora Laurel, a personagem principal, esteja vivendo um momento muito diferente do meu na sua vida e enfrente problemas que não são, à primeira vista, tão similares assim aos meus, suas cartas deram voz a muitos sentimentos com os quais eu ainda não sabia lidar completamente – a perda, o luto, o medo, a confusão, o inevitável amadurecimento – e me ajudaram a exorcizar alguns demônios que eu vinha tentando ignorar há tempo demais e me perdoar por erros que me assombravam de um jeito que não fazia mais o menor sentido. É um livro realmente delicado e sensível, que me fez chorar um bocado, e que transmitiu uma força fundamental para que eu continuasse colocando um pé na frente do outro nesse ano e tivesse esperanças.

“Talvez ao contar histórias, por pior que sejam, não deixemos de pertencer a elas. Elas se tornam nossas. E talvez amadurecer signifique que você não precisa ser uma personagem seguindo um roteiro. É saber que você pode ser a autora.” 

Oceano no Fim do Caminho, por sua vez, foi meu primeiro contato com um autor que eu já admirava de monte: Neil Gaiman. A surpresa, no entanto, foi descobrir que, muito mais do que uma fábula sobre experiências que temos na infância, a história do livro me fez pensar muito na vida – na minha vida – e que levanta algumas questões que são fundamentais na vida de qualquer pessoa. Não se trata apenas de uma história que você termina e segue com a vida, porque é absolutamente impossível seguir com a vida depois de ter um monte de pequenas porradas sendo jogadas na sua cara em doses homeopáticas, fingindo como se nada tivesse acontecido. Não é por acaso que a história é considerada um romance adulto: embora apresente a jornada de uma criança, todos os assuntos contidos ali conversam muito de perto com questões que, em algum medida, se tornam muito mais próximas à medida que crescemos e tomamos consciência de coisas que, até então, não nos faziam perder o sono. Eu tive inúmeros pesadelos e várias noites mal dormidas durante a leitura, mas foram coisas essenciais para a experiência de ler uma história tão diferente de tudo aquilo com o qual eu já tinha tido contato até então e que me conectou tanto com a minha própria infância.

“Existem monstros de todos os formatos e tamanhos. Alguns deles são coisas que as pessoas têm medo. Alguns são coisas que se parecem com outras das quais as pessoas costumavam ter medo muito tempo atrás. Algumas vezes os monstros são coisas das quais as pessoas deveriam ter medo, mas não têm.”

De todos os livros que li este ano, no entanto, A Arte de Pedir, da Amanda Palmer, foi de longe o meu favorito, aquele que me fez sentir o tempo inteiro e que me ensinou lições que, embora ainda sejam muito difíceis de serem colocadas em prática, são coisas que eu pretendo levar para a vida inteira. Embora o título de autoajuda engane um pouco no início, as quase 300 páginas do livro escondem a história preciosa de uma mulher, artista, mãe, esposa, amiga, filha e tudo mais que possa existir aí no meio, em busca do seu sonho de ser artista e a importância dos laços e conexões em sua vida, bem como a necessidade de aprender a se permitir ser vulnerável. Por mais que pedir seja uma parte importante de sua trajetória, é a vulnerabilidade que está por trás de tudo, e pouco a pouco ela nos mostra que, embora seja difícil pra cacete se permitir ser vulnerável no mundo em que vivemos, essa é uma parte essencial das nossas vidas – uma parte que vai nos encarar quando a gente menos esperar e que, por mais que a gente tente com força, nem sempre vamos ser capazes de fugir. Amanda foi a ajuda que eu precisava para encarar os ciclos que se fecharam no ano passado e com os quais eu não sabia lidar completamente ou que ainda me recusava a aceitar, porque era difícil demais imaginar minha vida sem as pessoas x, y ou z. Hoje, no entanto, por mais que não coloque em prática todos os seus ensinamentos, já não me fecho mais para o mundo como costumava fazer no passado, mas abraço cada possibilidade, cada relação, cada novo caminho, com o que quer que esteja incluso no pacote. É como a Brené Brown diz no prefácio do livro: Passei a maior parte da vida tentando ficar a uma distância segura de qualquer coisa que parecesse incerta ou qualquer pessoas que pudesse me ferir. Porém, como Amanda, aprendi que a melhor maneira de encontrar a luz nas trevas não é afastando as pessoas, mas caindo nos braços delas. É isso aí.

“A percepção de que vulnerabilidade é fraqueza é o mito sobre a vulnerabilidade mais difundido e o mais perigoso. Ao passarmos a vida repelindo e nos protegendo da sensação de vulnerabilidade ou de sermos vistos como emotivos demais, sentimos desprezo quando os outros são menos capazes ou menos dispostos a mascarar os sentimentos, a engolir as coisas e marchar em frente. Chegar ao ponto de, em vez de respeitar e reconhecer a coragem e a ousadia por trás da vulnerabilidade, deixar que nosso medo e nosso desconforto se convertam em juízo e crítica.”

Que sejamos todos mais vulneráveis daqui em diante (e aceitem a porra dos cookies) (ou da flor, risos).   

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2 Comments

  • Reply Tati 28 de dezembro de 2016 at 6:56 PM

    Amiga, eu queria tanto ter paciência pra fazer uma lista bonita dessas, mas infelizmente nasci desprovida de tal qualidade.
    E A Arte de Pedir. que livrão né? Tinha lido em pdf no inicio do ano pois pobre, e agora acabei comprando a versão física e deeeeoooos que alegria colar post-it em tudo! haha

    Novembro Inconstante

  • Reply Mia 29 de dezembro de 2016 at 7:10 PM

    Tô com muita vontade de ler Os garotos corvos. Talvez porque o livro de vampiros adolescentes wiccanos AQUELE tenha um cara meio corvo no meio? É possível. Mas quero. Já.

    A arte de pedir tá na minha lista há muito, muito tempo. Não sei quando será lido, pois quero lê-lo na versão física, mas SERÁ.

    Achei bem interessante cê colocar O oceano no fim do caminho como um dos melhores do ano. Eu gosto muito do livro, mas não chegou a fazer todo esse efeito em mim. Aliás, isso é bem legal na literatura: a coisa é toda extremamente subjetiva.

    A REDOMA DE VIDRO, MELDELS. Reli esse livro lá pelo início do ano e foi um soco no estômago diário, mas altamente necessário.

    Retrospectiva amorzinho a sua ♥

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