THE ROAD SO FAR

STILL ALIVE

‘Cause I was lost at sea while the waves were dragging me underneath. Shine a light on, shine a light on me.

Quando 2016 começou, eu tinha apenas duas coisa em mente: não fazer resoluções mirabolantes e não criar expectativas. Depois de um ano tão difícil – e pesado, e terrível, e estranho – quanto 2015, a única coisa que eu queria para aquele novo ciclo era poder ter um pouco mais de paz e a possibilidade de viver um dia de cada vez, como a pessoa serena que eu nunca fui – pelo menos, não até aquele momento. Não havia nada de mirabolante aí. Mesmo assim, naqueles minutos que antecediam a virada, prometi pra mim mesma que não ficaria com a bunda no sofá esperando que as coisas acontecessem na minha vida, e reforçando o combinado que tinha feito com uma amiga algum tempo antes, prometi que também não reclamaria tanto, mas abraçaria o que estivesse por vir com todas as consequências inclusas no pacote. Não sei até que ponto vocês acreditam no poder das palavras ou na força do pensamento, mas a essa altura, não posso deixar de pensar que todas as mudanças – rápidas, enormes, assustadoras – e todas as coisas que aconteceram nesse meio tempo não tiveram algo a ver com aquela versão meio rabugenta de mim mesma que não esperava nada, absolutamente nada, daquele ano que estava chegando.

Sometimes you have to allow yourself to be weak in order to grow stronger. Quem disse isso foi Eleanor Waldorf em um contexto que agora já não lembro mais, mas precisei anotar essa frase para nunca esquecer que às vezes é preciso se permitir ser fraco, vulnerável e cair de cara no chão, antes de se levantar mais forte que nunca. Em um ano tão intenso, talvez essa seja a frase que melhor resume os meus últimos 366 dias. Quando o ano começou, eu não tinha a menor consciência de que estava embarcando numa montanha-russa determinada a me deixar sem fôlego, com os cabelos em pé e a calcinha saindo pela cabeça. Foram muitos altos e infinitos baixos, e às vezes eu ainda tenho dificuldade em assimilar que tanta coisa tenha acontecido na minha vida num período relativamente curto de tempo. De certa forma, era como se o tempo todo algo potencialmente importante estivesse acontecendo – pro bem e pro mal – e eu nunca tinha tempo de compreender a complexidade dos meus sentimentos e das minhas reações antes de efetivamente tomar alguma decisão. Em muitos momentos, minha vontade sincera era jogar tudo pro alto e fugir para as colinas, mas na maior parte do tempo eu quis ficar, mesmo quando isso significava abraçar uma porção de coisas ruins e situações difíceis demais para se encarar de frente – coisas que me assustavam profundamente e me faziam sentir pequena e incapaz. Não era difícil que, num dia (ou numa semana, ou num mês) particularmente ruim, eu me refugiasse embaixo do meu edredom e chorasse até não aguentar mais, numa tentativa desesperada de continuar seguindo em frente em busca de respostas difíceis demais de encontrar. Entretanto, se só os covardes vão embora quando as coisas ficam difíceis, 2016 talvez tenha me dado algo do que me orgulhar.

Por mais que muitos momentos tenham sido dramáticos ao ponto de eu me questionar se sairia viva dessa, os últimos doze meses foram um lembrete constante de algo que aprendi no ano passado, mas que por algum motivo ainda custo a acreditar: eu aguento infinitamente mais do que posso imaginar. Isso não significa que eu não chore um bocado no processo, ou então que eu não tenha tentado me refugiar nos meus próprios pensamentos, numa fuga irreal da vida que eu gostaria de ter, mas infelizmente – ou felizmente – não tenho. Mas tudo o que aconteceu, de alguma forma, contribuiu para que eu começasse a confiar um pouquinho mais no meu potencial, no meu trabalho e na minha capacidade em resolver os meus próprios problemas. Não foi fácil, mas aqui estamos para contar essa história. Entretanto, uma coisa importante que aprendi esse ano é que eu não preciso aguentar nada sozinha e que existem pessoas incríveis ao meu lado para segurar as pontas junto comigo. Me dar conta disso após todas as coisas horríveis que aconteceram em 2015 foi como encontrar uma pequena luz acesa em meio ao breu – uma luz que, à medida que eu me aproximo, se torna maior, maior e maior, até me engolir inteira e de uma vez só. Em 2016, eu fui inteiramente engolida pelo amor daqueles que me cercavam – da minha família, dos meus amigos, do meu namorado – e vivi momentos preciosos ao lado dessas pessoas, momentos que vou lembrar por muito tempo, talvez pela vida inteira. I have learned that the best way to find light in the darkness is not by pushing people away but by falling straight into them.

Equilibrar minhas inseguranças e minha absoluta certeza de que todo mundo sairia correndo tão logo descobrissem a pessoa horrível que eu sou de verdade foi desafiador ao ponto de às vezes eu acreditar que seria muito mais fácil seguir em frente sozinha do que correr o risco de me magoar de novo. No entanto, foi só quando Guilherme chegou na minha casa em um dia particularmente ruim, ignorando minhas mensagens e depois de ouvir que eu não queria vê-lo de jeito nenhum, e me pegou no colo e permitiu que eu desabasse ali, todos os meus cacos jogados no chão de uma vez só, que eu me dei conta de que nem todas as pessoas vão embora quando a vida se torna escura, feia, sem esperanças. Foi libertador descobrir que existem pessoas nesse mundo que vão me amar, independente do que aconteça, e que essas pessoas estão mais perto do que eu podia imaginar. Por mais que me assuste um bocado a ideia de permitir que cada uma delas ultrapasse a guarda que construí com todo o cuidado no último ano, ver alguém desconstruí-la é como um respiro de ar fresco depois de muito tempo vivendo em um quarto abafado. Assim, aprendi que somos todos humanos e que, por mais triste que possa parecer em um primeiro momento, decepções são inevitáveis quando nos relacionamos – a diferença é que algumas pessoas vão entender nossas complexidades e encontrar aí um motivo para ficar, enquanto outras vão fugir na primeira oportunidade. Talvez seja a hora de reconhecer que só as primeiras merecem espaço na minha vida.

Foi movida por essa nova perspectiva que eu permiti, talvez pela primeira vez em toda a minha vida, que uma amiga me visse desabar de uma forma tão crua e triste, e me convencesse de que algo realmente estava errado comigo e que eu precisava de ajuda o mais rápido possível – e, contrariando até a mim mesma, eu pedi. Foi, muito provavelmente, meu momento mais difícil do ano inteiro, aquele que eu não gosto de lembrar tanto assim, embora a lembrança seja uma parte muito importante: ela é, afinal de contas, um lembrete constante de que as coisas poderiam ter sido muito piores se eu continuasse me recusando a falar sobre os meus problemas em voz alta e seguisse lidando com tudo sozinha, mesmo que no fundo eu já não estivesse me arrastando, completamente incapaz de continuar. Ser diagnosticada com ansiedade e depressão não foi exatamente o fim do mundo – foi apenas a confirmação de coisas que eu já vinha sentindo há bastante tempo, só tinha um bocado de medo de admitir pra mim mesma que eram reais. A ajuda, no entanto, foi essencial para que, nas palavras dessa mesma amiga, eu ganhasse perspectiva e pudesse voltar a enxergar as coisas com mais clareza dali em diante. Alguns dias ainda são melhores do que outros e eu estaria mentindo se dissesse que as crises sumiram completamente – essa semana, por exemplo, tive momentos realmente ruins de chorar na frente do espelho por ser quem eu sou -, mas a essa altura já consigo ter um pouco mais de calma e lidar com certos fantasmas sem parecer que minha cabeça pode, a qualquer momento, explodir em mil pedacinhos. Eu já não passo mais tantas noites em claro e já não sinto vontade de passar um fim de semana inteiro (literalmente) chorando no meu quarto e assistindo Grey’s Anatomy porque minha vida é uma bosta (o que aconteceu alguns meses antes de eu iniciar o tratamento, e por mais engraçadinho que pareça num primeiro momento, foi terrível e extremamente desgastante). Meu caminho ainda é longo e ainda tenho um bocado de dragões com os quais lutar na terapia, assim como ainda preciso tomar remédios todos os dias pela manhã e tenho consultas periódicas com médicos variados, mas aos poucos já consigo ter forças suficientes para tomar as rédeas da minha própria vida e reconhecer que eu sou a dona da minha história. É quase como voltar a respirar depois de tanto tempo submersa por ondas: é um alívio enorme, embora o peito ainda arda de vez em quando, como uma lembrança de tudo o que aconteceu.

Não por acaso, muito disso me fez lembrar da Ana Luíza de dez anos atrás. Minha psicóloga sempre diz que eu falo muito dos meus treze anos e é verdade. Muito mais do que os doze, os 13 foram repletos de mudanças intensas, decepções avassaladoras e experiências que refletiram diretamente na pessoa que sou hoje. Eu consigo lembrar claramente de todas as coisas horríveis que fiz, das pessoas que conheci, dos problemas de autoestima, das brigas com a minha mãe, das coisas horríveis que disse na cara dela, de todas as vezes que eu desejei que meu primo, hoje com 14 anos e alguém que amo muito profundamente, nunca tivesse nascido, ou então de todas as vezes que eu escrevi textos enormes na parede do meu quarto dizendo que preferia morrer do que continuar vivendo daquele jeito. Embora hoje eu reconheça que era – e continuo sendo – uma pessoa privilegiada em muitos aspectos, tudo que eu mais queria era poder dar um abraço nessa versão de mim mesma e pedir que ela buscasse ajuda o quanto antes – algo que, ironicamente, eu demorei um bocado para fazer, mesmo dez anos depois. Não foi por acaso que eu decidi escrever para ela justamente esse ano. Se 2016 foi um ano tão estranho, intenso e cruel, 2006 foi o equivalente em todos os sentidos e, por mais que eu tenha saído viva dele, muitos fantasmas daquela época continuam me assombrando até hoje, ao ponto de terem criado raízes em mim e se expandido para setores da minha vida que eu jamais imaginaria.

Talvez por isso, estar tão próxima e tão conectada ao meu eu adolescente não tenha me feito sentir menos adulta do que sou hoje, ou uma pessoa menor e mais imatura, muito pelo contrário. Por mais que eu continue muito diferente da pessoa que eu imaginei que seria aos 23 anos, depois de passar tanto tempo relutante em crescer e me tornar adulta, hoje eu consigo assumir que é isso que eu sou, e que envelhecer é uma parte natural da vida de qualquer ser humano e não é uma porção de questões mal resolvidas, medos e inseguranças empilhados um em cima do outro que vão me fazer pensar o contrário. Fazer as pazes com o tempo e, principalmente, com a passagem dele, é algo que eu ainda preciso aprender. Contudo, isso não significa que eu não possa aproveitar o que tenho agora e assuma, mais pra mim do que pra vocês, que é possível ficar, viver e celebrar – a vida, os erros, as escolhas ruins, os joelhos ralados, as promessas quebradas, os sonhos perdidos. Que continue sendo sempre assim – nos 23 ou nos 94.

Pensando nisso agora, talvez tenha sido justamente esse pensamento que me manteve viva esse ano e que não me deixou perder as esperanças mesmo quando tudo parecia perdido. Pra quem acredita em astrologia, existe toda uma explicação que justifica as coisas ruins que aconteceram no Brasil e no mundo, mas também nas nossas vidas – todas as tragédias, os ciclos que inevitavelmente se fecharam, etc etc. Eu acredito um bocado nisso, ainda que não cegamente, mas foi difícil manter o controle e pensar que eram só os astros quando o mundo explodia na porta de casa. Foram inúmeras batalhas perdidas, derrotas que sentimos de verdade, absurdas, doídas. Li em algum lugar que o mundo tinha acabado em 2012 mesmo, alguém só tinha esquecido de avisar, e isso nunca pareceu tão real quanto agora. Em outro lugar, li que 2016 foi o ano em que todas as coisas absurdas e que jurávamos impossíveis aconteceram. Eu não podia concordar mais. Golpe? Teve. Trump presidente? Teve. Brexit? Teve também. Isso só pra citar alguns. Se tivéssemos mais uma semana no calendário, tenho certeza que o mundo daria um jeito de explodir inteiro em mil pedacinhos só para acabar com essa palhaçada de uma vez. Foram coisas que, inevitavelmente, me fizeram questionar e principalmente duvidar do que, afinal de contas, estávamos fazendo no mundo, e se a vida realmente merecia ser vivida e celebrada num ambiente que, de repente, se tornara tão hostil. Eu chorei várias noites pensando no que aconteceria no dia seguinte; eu cheguei a realmente acreditar que ninguém sairia vivo dessa, que a Terceira Grande Guerra explodiria e mandaria todo mundo pro espaço junto, e por mais absurdo que isso possa parecer agora, a possibilidade nunca me pareceu tão grande quanto este ano. Se 2016 foi o ano dos absurdos, é bem possível que eu tenha chegado no nível de só esperar pelo próximo enquanto calmamente tomava um café ou qualquer coisa assim.

Se seres humanos sempre foram criaturas horríveis, é como se esse ano muitos tivessem feito questão de mostrar que o são de fato. Eu chorei várias noites pensando no que aconteceria no dia seguinte, em todos os refugiados, na Dilma, nos protestos, em todo o caos que tomou conta do mundo em 2016, pelo time da Chapecoense, pela Carrie Fisher e pela Debbie Reynolds, não porque sou uma pessoa ultra sensível (eu sou), rainha da empatia ou qualquer coisa assim, mas porque eu nunca senti tanto medo do futuro na minha vida inteirinha, pelo menos não de um jeito tão amplo quanto agora. Mais de uma vez me vi em conversas sobre como eu adoro a ideia de ter filhos, mas como, ao mesmo tempo, me apavora o fato de estar colocando pessoinhas em um mundo fadado ao fracasso. Não era uma questão pessoal – será que vou ter dinheiro para pagar escola para essas crianças?, será que vou ter um emprego?, sei lá -, não era apenas sobre mim: era sobre um mundo inteiro que, pouco a pouco, dava passos para trás. Várias vezes, eu presenciei meus próprios familiares apoiarem discursos tenebrosos, acreditando que aquilo era verdadeiramente o melhor. Não é como se meus ideais fossem os mais corretos, muito menos os únicos corretos, mas me assusta pensar na incapacidade do ser humano em olhar para além do próprio umbigo e perceber que o problema não é só aquilo que te afeta, que existem pessoas sem qualquer privilégio no mundo e que deveríamos usar os nossos para ajudar quem realmente precisa de apoio. Isso e não esquecer nunca da história, que está aí com todas as desgraças da humanidade registradas pra quem quiser ver.

É irônico, então, que num ano tão repleto de tragédias, eu tenha conseguido manter o pensamento positivo – nem sempre, mas quase sempre. Nas minhas conversas quase diárias com a Yuu (tão necessárias para que eu continuasse me mantendo sã), frequentemente me lembrava daquele longo discurso que a Izzie faz, em Grey’s Anatomy, quando a Meredith se afoga e a esperança de todos de que ela possa sair do episódio com vida começa a vacilar. Nele, ela diz que acredita em uma porção de coisas – I believe that if I eat a tub of butter and no one sees me, then calories don’t count; and I believe that surgeons who prefer staples over stitches are just lazy, etc etc – e termina dizendo que acredita que acreditar que sobrevivemos é justamente o que faz a gente sobreviver. I believe we survive, George. I believe that believing we survive is what makes us survive. Poucas coisas fizeram tanto sentido pra mim este ano. Às vezes, me sinto meio ridícula por ter tentado me manter positiva em situações que claramente não tinham nada de bom para oferecer, mas ao mesmo tempo, acredito que foi essa confiança de que, apesar de tudo, as coisas iam se ajeitar em algum momento, que me mantiveram aqui essa ano inteiro – viva, com o coração batendo com força – e foi isso também que, de certa forma, me ajudou a conseguir ajudar outras pessoas que precisaram de mim em alguma medida nesse meio tempo.

Aos trancos e barrancos, todos nós sobrevivemos – ainda bem.

No entanto, se sobreviver não é suficiente, 2016 também me deu motivos de sobra para agradecer todos os dias por estar viva. Embora o turbilhão de experiências ruins e sentimentos conflitantes tenha sido muito real, nesses 366 dias eu também consegui viajar sozinha mais uma vez, dessa vez para passar o aniversário da minha Passarica junto com ela e conhecer sua filhinha Mabel. Foram dias maravilhosos de sol, amor e vinho rosé, e que só não foram ainda melhores porque eu fiz o favor de ficar doente no meio do caminho. 2016, that’s how we roll. Nesse ano, eu também abracei a Couth mais de uma vez; virei noites e noites conversando (ou jogando adedonha) (ou fazendo palavras cruzadas) com a Analu; marquei dates maravilhosos com a Thay e dividi com ela todas as minhas angústias e medos, mas também todas as alegrias, crushes e infinitos episódios de séries porque é isso que a gente faz quando encontra uma irmã de alma.

Em 2016 eu comecei um BEDA, desisti do BEDA e aí decidi participar do Blogmas com pessoas incríveis e, contrariando todas as expectativas, o que antes era um projeto fadado ao fracasso acabou dando muito, muito certo. Ao contrário do ano passado, quando eu me planejei inteira, escrevi textos com antecedência e fiz tudo conforme manda o figurino, dessa vez tudo foi feito no susto e foi divertido poder trabalhar de um jeito diferente e ver tudo dar certo no final. Eu fiz 8 anos de namoro com meu melhor amigo e depois de tantas coisas que vivemos esse ano, foi um alívio enorme perceber que o amor continua vencendo. Assim como sempre fazemos, no dia propriamente dito, fugimos para um hotel e tivemos um dia só nosso, com direito a todas as risadas do mundo, infinitos episódios de séries, jantar no meu restaurante favorito dessa vida, e muito, muito amor. Eu vi minha avó por parte de pai, que já não via há anos, e foi maravilhoso. Assisti um show do Guns – com Duff, Axl e Slash juntos! – e choveu horrores quando eles tocaram November Rain (em novembro), o tipo de coisa mágica que só fã idiota vai querer viver. Eu finalmente comecei a estudar audiovisual e a gostar da faculdade, como não acontecia há bastante tempo. Fui ao cinema tantas vezes quanto foi possível e comi tanta pipoca que me surpreende o fato de que eu mesma não tenha virado um enorme saco de pipoca vermelho. A Luna teve uma bebêzinha e, embora ela não tenha ficado com a gente, foi uma das coisas mais lindas e preciosas que aconteceram no meu ano.

Em 2016 eu abracei JG quantas vezes foram necessárias – e todas as que não foram também – e passei momentos preciosos ao lado dele, tipo todas as vezes que ele se aninhou em mim antes de dormir, quando ele gritou pra eu buscar “meu pacotinho” depois do banho – que no caso era ele, enrolando no roupão (daí o pacotinho, risos) -, ou quando ele me chamou de dindinha feia, o jeitinho carinhoso e rebelde que ele resolveu me apelidar. Todas as risadas, todas as tardes assistindo Peppa Pig, todos os nossos pequenos segredos.

Em 2016 eu conheci a Yuu de uma forma muito profunda e esse talvez tenha sido o presente mais precioso que esse ano me deu. Como eu sempre gosto de dizer, estar com ela é como flutuar num mar enorme, lindo, mas um pouco hostil também, tendo alguém para apoiar minhas costas e manter os pés fincados no chão para que eu não me perca na imensidão azul, mas que de vez em quando se permite flutuar junto comigo – e eu amo tanto essa imagem de nós duas que espero de verdade um dia poder viver esse momento. Eu também conheci várias pessoas novas e incríveis que quero levar comigo pra toda a vida; eu fortaleci amizades que já existiam há algum tempo e abracei meus amigos com toda a força que pude. Eu disse que amava pessoas mais vezes do que achei que alguma vez fosse capaz, sem me preocupar se ouviria de volta ou não – porque era isso que eu estava sentindo e era importante que eu deixasse que as pessoas soubessem que elas realmente eram importantes na minha vida antes que fosse tarde demais; eu nunca ouvi tantos “eu te amo” em toda a minha vida, risos. Eu saí várias vezes, infinitas vezes; bebi mais caipirinhas do que em todos os anos que vivi até agora e muito mais vinho também; mas também passei dias maravilhosos em casa, com as pernas pra cima, assistindo aproximadamente todas as séries do mundo ou rolando com meus bichinhos.

Em 2016 minha filha nasceu e isso já seria motivo suficiente para valer o ano inteiro. Porque eu ganhei uma família, amigas que pretendo levar para minha vida inteira, parceiras de crime maravilhosas, confidentes espetaculares. Hoje, quando vejo o que construímos, é quase impossível acreditar que tudo só começou porque um dia eu tomei coragem e decidi perguntar no twitter se alguém (assim, quem sabe) estava interessado em embarcar numa cilada junto comigo – suando frio, morrendo de medo de não ter nenhuma resposta e pronta para apagar o tweet assim que me desse conta de que aquela tinha sido uma ideia furadíssima, mas ainda assim. Contrariando minhas expectativas, no entanto, as pessoas certas apareceram e hoje são elas que contam essa história comigo e se apaixonam todos os dias por aquilo que construímos juntas. É nessas horas que acho mais difícil acreditar que não existe uma força superior agindo, e é uma alegria enorme saber que as coisas têm dado certo desde então. Conflitos existem, problemas brotam do nada e a correria é inevitável, mas é bonito como nós passamos por cada obstáculo de mãos dadas e construímos uma relação que vai muito além do projeto que nos uniu, que ultrapassa as barreiras do site e todos os dias me faz acreditar que juntas somos realmente mais fortes. É por isso que eu sempre fico tão feliz quando alguém vem falar que sente uma vibe boa emanando do site, quando fazem um elogio, quando agradecem pelo nosso trabalho. Por mais que a gente não ganhe nenhum dinheiro com o que fazemos ali, é um presente gigantesco saber que conseguimos fazer a diferença na vida de outras pessoas e que todos os sentimentos – a felicidade, a gratidão, a amizade tão forte que construímos nesse meio tempo – transborde em cada novo texto, em cada postagem numa rede social, em cada newsletter, em cada e-mail respondido. Eu estaria mentindo se não dissesse que sonho que nossa filha cresça até o infinito e domine o mundo inteiro, mas por mais sonhadora que eu seja, é preciso admitir que nem nos meus melhores sonhos eu imaginaria que teríamos um retorno tão positivo em tão pouco tempo, e se hoje eu arranco meus cabelos e abro mão de tanta coisa para trabalhar só mais um pouquinho, é só porque eu – assim como todas as outras meninas – acredito em cada pedacinho daquilo que construímos e em cada pessoa que está nessa junto comigo, e amo demais cada parte do trabalho que a gente faz. Eu arranco a calcinha pela cabeça com um sorriso no rosto e a segurança de quem acredita de verdade naquilo que faz e que tudo dá certo no final (nem sempre dá, mas a gente precisa acreditar mesmo assim, risos).

É claro que eu também tive algumas derrotas pessoais nesse ano que passou. Eu ouvi um não para cobrir a Comic-Con, meu roteiro foi recusado em uma seleção de estágio, meu padrasto foi demitido de novo – dessa vez, para sempre, porque a empresa fechou as portas oficialmente em Brasília -, e o inferno continua sendo a ausência das pessoas de que temos saudade, fora todos os dramas que eu já contei antes e não preciso repetir mais uma vez. No entanto, quando paro para olhar o todo, percebo que todas essas coisas foram muito pequenas perto daquilo que foi especial, verdadeiro, importante, e eu preciso reconhecer isso também. Eu nunca estive tão segura daquilo que quero e embora o caminho não seja fácil, saber para onde estou indo já é suficiente. Por mais que ainda seja muito difícil agir para mim e não em função da plateia que me assiste e coloca expectativas em mim o tempo inteiro, pela primeira vez eu fui capaz de reconhecer que para estar onde eu quero estar, talvez seja necessário abandonar muitas certezas e abraçar um futuro cheio de possibilidades – algo que me assusta em tempo integral. No entanto, eu ainda tenho um caminho enorme pela frente. E como minha psicóloga me disse uma vez, aos poucos eu vou entender que talvez não seja necessário destruir tudo para construir algo completamente novo, que às vezes uma reforma já é suficiente. 2016 foi assim, o ano que eu acordei e descobri que as paredes do meu quarto já não me representavam mais e agora estou em busca de uma nova cor para cobri-las. Azul? Rosa? Branco? São questões – mas que bom que eu ainda tenho bastante tempo para refletir sobre a escolha.

Termino 2016 – esse ano maluco, contraditório, intenso e cheio de riscos – dançando no meu quarto sozinha, com os braços pra cima, enquanto tento escolher uma roupa para usar na festa de logo mais. Parece que a vida tem corrido mais rápido do que eu podia esperar e pela primeira vez, decidi passar a virada numa festa com meus amigos. Definitivamente, acontecem coisas. Minha vida continua cheia de problemas, eu ainda estou longe de terminar a faculdade, ainda tenho muitos medos e uma porção de perguntas sem resposta. Também não fiz minha limpeza de fim de ano e não comprei roupa nova para usar hoje, tudo porque eu estava exausta demais para pensar em qualquer uma dessas coisas, quem dirá colocá-las em prática. Mas eu nunca me senti tão plena, em paz e ao mesmo tempo tão viva como agora, e é realmente maravilhoso poder conhecer essa versão de mim mesma. Não faço a menor ideia de como isso aconteceu, mas talvez eu devesse tomar logo vergonha e tirar não uma, mas duas tatuagens do papel. A chance é maravilhosa, vocês vão ter que concordar. Aguardem cenas dos próximos capítulos, risos.

O que 2017 guarda ainda é um mistério, mas por enquanto me reservo o direito de não criar muitas expectativas, embora continue sempre esperando por um ano incrível. Temos muito o que reconstruir nesses 365 dias que nos aguardam. Espero que nunca faltem forças para que a gente continue lutando e não deixe de acreditar nunca. Feliz ano novo, meus amores. A gente se encontra no ano que vem.

Você devia tentar compreendê-los. Tudo que eles desejam é ver a luz do sol outra vez. Não podemos condená-los por isso.

♥      

Previous Post Next Post

No Comments

Leave a Reply