DRAMAS REAIS

TEMOS NOSSO PRÓPRIO TEMPO

Como todos os textos que nasceram da necessidade meio tosca de justificar minhas ausências, pensei em começar esse com um imenso e ridículo pedido de desculpas, mas então decidi que não valia à pena. Não que pedir desculpas não seja importante, mas a essa altura já é uma verdade universalmente conhecida que a rotina desse blog é feita de pequenos hiatos, que cedo ou tarde chegam ao fim, e eu já deixei de me sentir culpada por eles há tempo demais para continuar a me desculpar. Embora nem sempre tenha sido assim, nos últimos meses, o blog assumiu um espaço na minha vida que passa muito longe de ser uma obrigação; o que é, ao mesmo tempo, bom e ruim: bom porque, naturalmente, eu não passo mais tanto remoendo todos os textos que não escrevi; ruim pelo exato mesmo motivo. Entre uma atualização e outra, muita coisa acaba ficando perdida, e eu estaria mentindo se dissesse que eu não sinto muito, muitíssimo, por todos os textos que não viram a luz do dia.

Curiosamente, essa nova relação com a escrita, de um modo geral, me deixa muito mais tranquila, e taí uma coisa que eu tenho priorizado bastante na minha vida. Aos 24 anos, sempre imaginei que tranquilidade fosse estar muito longe da minha cota de prioridades – “quero dinheiro”, eu pensava, “um casamento”, “um trabalho maneiro”, “viagens”, etc etc -, mas sendo a vida essa grande piada cósmica, é impossível não olhar ao redor e querer viver num mundo em que a gente tenha tempo pra fazer tudo ou não fazer nada se preferir. Se minha vida fosse um filme, o transformaria numa narrativa cheia de silêncios carinhosos, tons pastéis e músicas fofas, e cenas que deixassem o coração de quem assiste mais quentinho. Ainda hoje (na verdade ontem, porque comecei a escrever esse texto num dia, mas só fui concluí-lo no dia seguinte), disse pra uma amiga que, embora eu amasse filmes frios e grandiosos, esse não era o tipo de cinema que eu gostaria de fazer, e é verdade. Não por acaso, os filmes que eu desejo fazer são aqueles que falam sobre pessoas muito desgraçadas, mas que curiosamente contam histórias leves, quentinhas, com sabor de comfort food, que é mais ou menos como eu desejo que minha vida seja também.

Sempre gostei de pensar que eu podia fazer o que quisesse, ser o que quisesse e conseguir o que quisesse, mas foi preciso que minha saúde física e mental entrassem em cena para que eu entendesse que, ainda que eu me sentisse muito capaz o tempo inteiro, nada nesse mundo valia o risco de perdê-las de vez. E que nem sempre eu ia conseguir fazer o que quisesse, ser o que quisesse, etc etc. Tenho a sorte – e o azar – de estar envolvida em muitos projetos e ter responsabilidades pelas quais eu sou completamente apaixonada e que fazem todo o esforço valer à pena. Eu amo a faculdade, eu amo fazer filmes, eu amo escrever. Mas existe uma diferença fundamental em amar todas essas coisas de maneira saudável e esquecer de si mesma no processo. Ser workaholic parece muito bacana na teoria; um milhão de vezes eu disse que era assim que eu queria ser, desde que fizesse o que amava, e era exatamente essa pessoa que eu estava me tornando, sempre ocupada demais para qualquer coisa. Então eu fiquei doente; uma vez, duas vezes, três vezes em pouquíssimos meses. Minha ansiedade voltou com força total. E enquanto eu era obrigada a abandonar um, dois, três projetos, quatro, cinco, seis ideias de textos, invariavelmente, eu me sentia uma fraude. Uma mentira. Uma pessoa incapaz e ridícula e falha e que não ia chegar em lugar nenhum porque ninguém chega a lugar algum se não consegue sequer cumprir um prazo porque está com a cabeça desgraçada demais pra isso.

Quando a Anna Vitória escreveu no Valkirias sobre colocar o pé no freio e se permitir absorver as coisas com calma, uma parte de mim jazia no chão completamente exausta depois de passar horas gritando na minha cabeça que aquele era um passo terrivelmente equivocado e que eu ia me arrepender amargamente de tê-lo aprovado num futuro nem tão distante assim. Depois de um ano intenso, porém maravilhoso, parecia uma decisão estúpida seguir na contramão daquilo que vinha dando tão certo. 2017 seria um ano do trabalho duro, diziam os astros, de fazer as coisas acontecerem, e eu, que nunca precisei de muito incentivo para acreditar nessas coisas, levei a máxima a sério o suficiente para me permitir ser engolida pelo trabalho. E pelos meus sonhos e projetos e ambições, como se de algum modo eu precisasse provar que eu era uma pessoa ocupada de verdade e que não passava o dia inteiro sentada na frente do computador atoa, assistindo vídeo de gato e jogando conversa fora com minhas amigas – ironicamente, as coisas que eu deveria estar fazendo também, mas que simplesmente não encontravam espaço para coexistir com a loucura entre faculdade e projetos que se multiplicavam de maneira insana. Eventualmente, consegui entender que pisar o pé no freio não significava fracassar ou admitir uma possível derrota; é uma decisão que parte muito mais da consciência de que, para acontecer da forma que queremos, nosso trabalho precisa de cuidado e atenção e tempo, do que de supostos fracassos. Além disso, somos todas humanas e não adianta nada falar sobre a humanidade não aceita de tantas personagens se nós sequer somos capazes de aceitar nossas próprias limitações.

Por mais difícil que seja, aceitar que nem sempre dá pra fazer tudo, ser tudo, dar conta de tudo, é fundamental para seguir com o baile. Continuo acreditando que crescer é importante, que fazer cada dia mais e melhor também é, mas desde que isso não custe tão caro ao ponto de se tornar prejudicial. É uma relação completamente nova com a escrita, é claro, mas também com minha vida acadêmica, profissional e também pessoal porque nem só de trabalho e problematização e artigos de cinco mil palavras é feita a vida; o que naturalmente também reflete no blog. Diferente de muitas pessoas que abandonaram os blogs para continuar falando sobre a vida em outras plataformas ou simplesmente se dedicar a outros projetos, eu continuo incrivelmente determinada a continuar nesse espaço, mas sem a obrigação que um dia já foi regra. Quero continuar a escrever sobre a vida e registrar minhas memórias aqui, mesmo que nem tudo seja explicitamente escrito, porque essa ainda é a melhor forma que encontrei para lembrar e guardar aquilo que é importante, e o que não é também, mas que eu vou gostar de lembrar quando tiver 84 anos e conversar com meus netos e deixar para trás depois que eu morrer – mesmo que ninguém se importe com isso além de mim mesma. Uma das minhas maiores frustrações é não ser fruto de uma família de gente que escreve, obcecada por registros e memórias, e nunca ter tido a oportunidade de passear pelas lembranças dos meus avós, que são pessoas que eu admiro tão profundamente e que tenho certeza que viveram coisas incríveis, mas que jamais foram registradas e que terminaram se perdendo com o tempo.

Meu avô nasceu em 1914, dois anos após o naufrágio do Titanic e no mesmo ano em que começou a Primeira Guerra Mundial, um conflito de importância histórica que, dizem alguns, foi ainda mais traumático, sujo e brutal do que a Segunda Guerra. Ambos parecem distantes demais da nossa realidade, separadas por um período de mais de cem anos, mas que não parece tão distante assim quando sabemos que pessoas que conhecemos estiveram lá de alguma forma e fizeram parte da história, mais ou menos como nós também estamos fazendo agora. Meu avô assistiu muitos dos maiores fatos históricos que marcaram o século XX acontecerem em tempo real, e eu realmente gostaria de saber o que ele pensava sobre esses assuntos, quais eram suas opiniões, seus medos, frustrações. O homem que eu conheci – e que infelizmente já não está mais entre nós – é uma versão infantil e carinhosa moldada pela perspectiva da neta que passou dezesseis anos sendo chamada de passarinho, que ria de suas piadas e que acreditava que nenhum outro homem poderia ser tão gentil quanto aquele; mas existiam muitos outros e sinto muito por não tê-los conhecido também. Não é muito diferente do que acontece com a minha avó. Ela, que nasceu em 1927, também já viveu e assistiu muita coisa, mas ainda que conversemos um bocado sobre o passado, algumas memórias simplesmente se esvaem com o tempo.

É uma obsessão idiota, mas não vazia, e é isso que, de certa forma, me faz continuar aqui. Me perguntaram uma vez porquê eu continuava com o blog quando existia um sem fim de plataformas onde eu poderia fazer exatamente a mesma coisa, e eu não precisei pensar duas vezes antes de responder: porque o blog ainda é, dentre todas as coisas, algo essencialmente meu. Tirando duas ou três coisas nessa vida, esse é o único espaço do qual eu tenho pleno controle e que não vai sofrer mudanças se alguém além de mim mesma quiser; o que é muito mais do que eu posso esperar de um Medium da vida ou de um Tinyletter qualquer. Esse foi um dos motivos, aliás, que me fez desistir da newsletter nos moldes em que ela estava; embora eu ainda tenha a pretensão de fazer algo novo com ela, escrever sobre a minha vida em um novo espaço pode fazer muito sentido pra muita gente, mas definitivamente não faz pra mim. O blog é minha casa, é meu lar, é o cantinho que tem a minha cara e que muda comigo cada vez que eu achar necessário, como um corte de cabelo que muda ao longo dos anos, cada vez que sentimos a necessidade de apresentar uma nova faceta ao mundo. É aqui que eu quero poder sentar no tapete com uma taça de vinho na mão e falar sobre a vida e não faz o menor sentido tentar mudar o que acontece nesse espaço se eu já me sinto tão confortável aqui.

Ainda existem muitas coisas que eu quero fazer e pouco tempo para, de fato, fazê-las. Quero escrever mais e em novos lugares, quero remodelar a newsletter, aprender a bordar, voltar a fotografar, escrever mais roteiros, começar uma pequena produtora e produzir mais filmes, fazer colagens, terminar um livro; mas são coisas que inevitavelmente precisam de tempo e calma – e às vezes dinheiro – para acontecerem e eu estou disposta, talvez pela primeira vez na minha vida, a esperar e dar um passo de cada vez ao invés de sair atropelando tudo sem nunca ser capaz de curtir nada porque estou mais preocupada em fazer com que elas aconteçam do que realmente aproveitar cada uma dessas conquistas – que podem ser pequenas ou não, mas devem ser celebradas da mesma forma. Escrever mais ainda é meu maior objetivo, mas ao final de um dia de trabalho, eu ainda quero poder entrar nesse blog e descobrir que esse é exatamente o lugar em que eu desejo estar.

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3 Comments

  • Reply Carolina S. 8 de junho de 2017 at 9:48 PM

    Que texto lindo, sério; e o que mas me permitiu me afeiçoar a ele (tal como a grande parte do seu blog em si) é a maneira com que posso fazer das suas palavras minhas palavras também. Todas essas linhas soaram tão familiares pra mim porque elas expõe questões nas quais me pego mergulhando constantemente.

    Tu listou teus principais motivos para manter um blog pessoal (e esses motivos são semelhantes – quando não idênticos – aos meus), e que bom que eles existem, porque acho lindo esse espaço que tu criou aqui. ;)

  • Reply Larie 10 de junho de 2017 at 1:06 PM

    Amiga <3 Esse texto me fez lembrar o porquê de eu ter criado meu blog. Saudades da despretensão de atingir um monte de gente. A gente escreve porque gosta de escrever e gosta de lembrar. A Anna já chegou a escrever um texto assim no So Contagious lá em meados de 2011 (eu lembro porque me tocou muito) e acho que no fim das contas é sobre isso. Lembrar os filmes, os livros, as séries, os amores, a faculdade, a loucura, enfim. TUDO. Remexo meus arquivos de 2012, 2013, 2014 e vejo minha evolução. Me arrependo de ter postado coisas na newsletter na real, porque não dá um senso de "gaveta", sabe? Elas estão lá meio perdidas e isso me chateia bastante.

    Amei seu texto. Estarei sempre aqui lendo esse lugar que você cultiva com tanto carinho.

    Beijos <3

  • Reply Ju. 11 de junho de 2017 at 2:58 PM

    Que leveza, meu Deus! Tudo pode estar desabando por dentro, mas sua escrita tá leve… Como eu amo há 5 anos! ❤

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