JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

THE FOOLS WHO DREAM

Here’s to the ones who dream
Foolish as they may seem
Here’s to the hearts that ache
Here’s to the mess we make

Lembro como se fosse ontem da primeira vez que pensei em estudar cinema: o ano era 2008, eu tinha quinze anos e estava no primeiro ano do ensino médio, e enquanto considerava uma carreira na moda, li o livro que mudou completamente a minha vida.

O livro, no caso, era Los Angeles, da Marian Keyes – uma história adorável e absurdamente engraçada sobre uma mulher que, após ser a filha certinha, a esposa certinha, a funcionária certinha, etc etc, descobre que sua vida inteira era uma mentira e vai morar com a melhor amiga em Los Angeles; uma melhor amiga que é roteirista e que trabalha duro para deixar sua marca no cinema norte-americano. O livro não idealiza Hollywood em momento algum – na verdade, muito pelo contrário -, mas foi ali, enquanto desvendava os absurdos da terra das estrelas que eu me interessei pela carreira de roteirista e achei que aquilo pudesse ser um caminho profissional viável, ainda que difícil pra caramba. Eu gostava de contar histórias, é algo que gosto de fazer até hoje, e a perspectiva de poder fazer disso uma profissão era tudo que eu precisava para sonhar e acreditar que aquilo era realmente possível.

Demorou até que eu finalmente entrasse na faculdade de cinema, mas o fato é que, uma vez lá, eu nunca acreditei que aquilo pudesse ser tão possível. Eu estava no caminho certo, eu estava onde eu queria estar desde sempre, e estava começando a correr atrás de verdade daquilo que era meu sonho – e continua sendo. O que antes parecia um desejo distante de adolescente, agora começava a ganhar forma, e eu realmente conseguia acreditar num futuro em que eu não só escreveria filmes, mas também os transformaria em algo real, minhas histórias concretizadas numa enorme tela de projeção. Eu acreditava na mágica do cinema, eu acreditava que sonhos podiam se tornar realidade, eu acreditava que a gente era capaz de fazer o que quisesse e chegar onde quisesse com dedicação e força de vontade. Chegava até a ser meio ridículo, mas era isso que me fazia continuar seguindo em frente, e acho que isso também fazia com que muitas outras pessoas continuassem seguindo em frente também. Era perceptível, numa turma de calouros, que todos ali tinham sonhos grandes, imensos, tão ridículos quanto assustadores. Eram pessoas que, assim como eu, também acreditavam que podiam chegar lá – não porque se achavam especiais demais (às vezes, um pouco disso também), mas porque confiavam no próprio potencial, no amor idealizado que sentiam por essa indústria imensa e na possibilidade de transformar sonhos em realidade.

O que não deixa de ser uma visão meio problemática, é claro. Mas sendo eu mesma uma pessoa que sempre acreditou na força dos sonhos e do amor, e que quase sempre foi movida por essas duas coisas, era importante sentir que existiam outras pessoas no mundo que não iam achar minhas aspirações ridículas, que não iam me julgar por colocar os dois pés pra fora da realidade e que de alguma forma acreditavam no meu potencial. Por mais que nenhuma dessas coisas garantam o sucesso de ninguém, acreditar é fundamental pra que você ao menos se permita tentar – o que talvez seja a principal diferença entre quem realmente tenta e quem simplesmente espera que as coisas caiam do céu.

A faculdade, por outro lado, quebra um pouco desse encantamento. Porque uma vez ali dentro, você descobre que por trás de toda a mágica existem truques que são repetidos à exaustão; entende como eles acontecem, aprende a técnica por trás de cada um deles, constrói e desconstrói essas técnicas para aprender a reproduzi-las e só então construir os seus próprios truques. Por fora, tudo é lindo, colorido, quase sempre impecável; mas essa é uma realidade muito distante daquilo que realmente acontece para fazer com que algo lindo, colorido e impecável surja na tela pra quem quiser ver. De repente, você se vê deixando de acreditar em mágica porque filmes custam muito dinheiro, dão um trabalho imenso que nem sempre compensa, envolvem um milhão de pessoas que no final do dia precisam pagar as contas – e sonhos não pagam as contas de ninguém. Portas são batidas na sua cara, pessoas desacreditam o seu trabalho e você percebe que aquela indústria pautada pelos sonhos de alguém é, na realidade, um universo controverso, quase sempre injusto e cruel, e incrivelmente restrito, que só está interessada em sonhos com potencial de render alguns milhões. É muito fácil se tornar cético quando a realidade bate na porta e você passa a enxergar todas essas coisas, e percebe que sonhos não são suficientes, que a vida real é muito diferente daquilo que a gente vê na tela; e muito difícil acreditar em mágica quando você não tem dinheiro pra pagar as próprias contas, quando vive num lugar decadente, quando tem crises de ansiedade constantes porque não faz a menor ideia do que vai fazer com um diploma em cinema.

Sempre que falo que estudo cinema, as pessoas assumem duas posturas: ou a de achar que eu vou morrer de fome ou que eu tenho uma vida fácil e ultra glamourosa. São duas visões radicalmente opostas, mas que não se distanciam tanto assim da realidade porque a indústria cinematográfica que a gente conhece é, quase sempre, um festival de oitos e oitentas. Não existe um meio termo. Na faculdade, você descobre que esse meio termo até existe, mas que é preciso aprender a se dividir entre sonhos e aquilo que paga as contas – e não é difícil imaginar pra qual lado a balança pende quando a coisa aperta. A maior parte dos meus professores são também cineastas que se dividem entre a carreira acadêmica e a arte que eles acreditam. São pessoas que, com sorte, produzem um filme por ano, mas a maioria desses filmes ficam fora do circuito comercial e raramente rendem dinheiro suficiente para que eles possam se dedicar somente a isso. Ao mesmo tempo, alguns são pessoas completamente desiludidas com a indústria, que tiveram seus sonhos massacrados por ela e que perderam completamente a esperança. Neles, você percebe o olhar de quem já perdeu demais, alguém que um dia foi muito igual à você, mas que não teve tanta sorte, e teme pelo o futuro que lhe aguarda.

Então não é uma surpresa que, semestre após semestre, tanta gente mude de opinião: alguém que antes sonhava em trabalhar com direção de arte agora se contenta em seguir carreira na publicidade, o outro que sempre quis ser diretor decidiu que vai seguir carreira acadêmica ou se tornar crítico de cinema (ou as duas coisas), etc etc. Não é falta de força de vontade: é a percepção de que a vida real é muito diferente daquilo que sonhamos enquanto vivíamos nossas adolescências privilegiadas, é a perda de uma arrogância que precisa ir embora para que a gente aprenda a lidar com a vida como ela é de verdade – perdas, frustrações, raiva, tudo isso incluso no pacote -, não como a gente quer que seja. É um processo doloroso, é claro, mas absolutamente necessário também, e não é por acaso que ao final dele, a maior parte das pessoas desista dessa ideia maluca de ser um Grande Diretor de Cinema™ ou qualquer coisa que o valha. É um baque imenso, uma consciência da realidade que desestrutura completamente e que questiona sem nenhuma cerimônia todas as certezas, sonhos e promessas que tivemos ou fizemos até ali. E é difícil acreditar quando essa realidade bate na porta, quando contas precisam ser pagas, quando dinheiro é o que mais precisa e mesmo assim nenhum oportunidade aparece, nenhuma ideia é comprada, um roteiro é rejeitado atrás do outro.

Em cinco semestres de faculdade, eu desisti de alguns sonhos, guardei outros para momentos mais oportunos, e priorizei aquilo que parecia mais viável dentro da minha própria realidade. Descobri que, embora eu quisesse muito trabalhar com ficção, a escrita poderia ser uma saída justa e agradável quando meus sonhos grandiosos começaram a se tornar a lembrança de um passado ambicioso que já não dizia mais tanto assim sobre mim. Mesmo assim, é muito fácil que vez ou outra eu ainda me pegue pensando que a vida seria muito mais fácil se eu tivesse um emprego chato e estável, que fosse capaz de pagar todas as minhas contas e suprir meus pequenos desejos, sem que tivesse que viver nessa loucura. Mas eu também me permito entristecer pelos sonhos enterrados, pelos que ficaram no meio do caminho, pelos que foram enfiados no fundo da mochila até o dia que puderem ver a luz do dia de novo, ou então por aquela versão de mim mesma que acreditava que o impossível não existia.

Quando assisti La La Land, eu pensei em tudo isso.

La La Land conta a história de Mia e Sebastian, dois jovens que vão tentar a sorte em Los Angeles com o sonho de se tornarem grandes estrelas – ela, como uma renomada atriz de cinema; ele, como um importante músico. São pessoas sonhadoras, ambiciosas, movidas pelas suas paixões e que acreditam que o impossível não existe, sem medo de parecerem ingênuos demais; tudo isso enquanto dançam e cantam pela cidade dos anjos. A história dos dois é contada em um filme igualmente ambicioso, sonhador, que não tem medo de parecer ingênuo: um musical caro, difícil, grande, arriscado e extremamente ousado que, não por acaso, levou seis anos para ser concretizado. É um filme colorido, lindo, [quase] impecável, completamente deslocado da realidade; é a mágica do cinema acontecendo em tempo integral. É difícil não gostar do filme, não querer dançar junto com os atores, não querer fazer parte daqueles números tão adoráveis. Mas mais difícil ainda é não se identificar com Mia e Sebastian, e não pensar que a história dos dois é, em alguma medida, a história de todos nós – especialmente se esse “nós” é composto por pessoas que também querem fazer fama, dinheiro e sucesso nessa indústria maluca e completamente obcecada por si mesma.

É por isso que, quando assisti ao filme na última sexta-feira, embaixo das cobertas enquanto comia um pedaço de pizza gelada, muito longe da realidade que sonhei pra mim aos vinte e poucos anos, eu senti como se todos os meus sonhos tivessem sido desenterrados e, pouco a pouco, fossem jogados na minha cara – não de um jeito ruim, num tom de acusação, mas de uma forma especial que só quem também sonha alto, com força e que às vezes tem medo dos próprios sonhos é capaz de entender. Mia e Sebastian não recebem nada de mão beijada: eles são desvalorizados, aceitam trabalhos ridículos, mal conseguem pagar as próprias contas (quando conseguem) e recebem uma porção de “nãos” até o dia que recebem um “sim” – e aí, é incrível como a história dos dois muda radicalmente. Mas eles nunca (ou quase nunca) deixam de acreditar naquilo que sonham, que algum dia eles podem transformar tudo aquilo em realidade. O fato dos dois conseguirem, apesar de tudo, só nos lembra que sonhos são sim possíveis, mesmo que sejam muito difíceis de serem alcançados – a grande diferença está em quem acredita neles o suficiente para correr atrás e quem simplesmente espera que eles caiam do céu. O próprio Chazelle, diretor do filme, era um nome completamente desconhecido até o dia que não era mais; e ontem, durante o Oscar, enquanto segurava o prêmio nas mãos e entrava para a história como diretor mais jovem a ganhar um prêmio naquela categoria, era justamente nisso que eu pensava. Assim como Mia e Sebastian e tantas outras pessoas da indústria, ele também acreditou que era possível transformar sonhos em realidade – e foi lá e fez.

Tem esse discurso do Bryan Cranston (que se não me engano ele fez quando recebeu o Emmy, mas posso estar radicalmente equivocada) em que ele diz que aceitou uma porção de trabalhos ruins, que se sujeitou a uma porção de situações ridículas até o dia que conseguiu um trabalho legal de verdade que o levasse até onde ele queria estar. Ele não diz isso com essas palavras, mas é essa a mensagem principal do seu discurso, e eu sempre tento pensar nisso quando as coisas ficam difíceis demais – e agora, junto com ele, eu também vou lembrar de La La Land, de Mia e Sebastian, e de todos os sonhos que não devem morrer jamais.

La La Land não é o melhor filme do mundo, não é o mais importante. Mas isso não anula o fato de que ele é um ótimo filme, que é lindo, especial, e com uma mensagem linda que nunca foi tão necessária. São tempos difíceis para os sonhadores e às vezes, a gente realmente só precisa de filmes que nos lembrem que a mágica é real – desde que nunca deixemos de sonhar.

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2 Comments

  • Reply Natália Oliveira 28 de fevereiro de 2017 at 10:25 PM

    Sou suspeita pra falar porque não gosto muito de cinema (sorry) mas entendo que é um grande passo correr atrás nos nossos sonhos. Primeiro porque realizar um sonho nunca é algo confortável de se fazer. Na real, tem muito mais a ver com sair da zona de conforto do que qualquer outra coisa. Temos que responder aos comentários maldosos da família e dos “amigos”, lidar com a ignorância das pessoas em relação ao tema e ainda temos que lidar com a realidade, que muitas vezes mais te afasta do sonho do que te coloca dentro dele. Não esqueço de uma matéria que li na finada revista GLOSS, sobre uma estilista que começou a fazer sucesso. Ela conta que, enquanto Kim Kardashian e Paris Hilton usavam as roupas que ela fazia e a marca dela aparecia constantemente em todas as colunas fashion mais chiques do mundo, ela fazia as contas num bloquinho pra saber se ia conseguir pagar o aluguel. Mesmo depois que o sonho dela se tornou realidade, a vida real ainda batia na porta e demorou um tempo considerável pras coisas darem certo.
    Voltando a falar sobre o assunto cinema, você ainda tem muita luta pela frente. Acabei de ver um vídeo do Pipocando com a Lully de Verdade em que eles falam sobre o sexismo na indústria cinematográfica e ela falou uma coisa muito certa: pra nós mulheres, não basta ser boa. Você tem que provar constantemente que você é A melhor e, mesmo assim, sempre vão rolar comentários babacas e aquele rumor de que você dormiu com fulano e ciclano. Péssimo.
    [eu deveria estar tentando te animar, né? Foi mal]
    Acho que o ponto bom nisso tudo é que a internet vem trazendo novas mídias e novos meios de consumir cinema. Com sorte, daqui há um tempo, vai ser muito ~menos difícil~ fazer com que boas produções, mesmo que independentes, cheguem ao conhecimento do público.
    E, se quer um conselho, sei que não é fácil, mas não desista. Eu brinco que nós que não nascemos privilegiados temos que vender a alma pra viver e que vale muito mais a pena vendê-la por algo em que acreditamos. Se você tem a sorte de saber qual é o seu sonho, corra atrás dele. Acho que ninguém pode garantir sucesso no seu caminho, mas fazer o contrário é garantia de insatisfação.
    Beijos e muita força :)

  • Reply Manu 28 de fevereiro de 2017 at 11:35 PM

    Amiiiiiiiiiiiiiga
    Não assisti La La Land porque eu sou essa eterna ridícula me esquivando do hype, mas cá está você me fazendo rever meus conceitos. Eu acho maravilhoso sempre que você toca nesse tema tão difícil pra nós, jovens millenials criados como floquinhos de neve – nossos sonhos e o que fazer com eles agora que descobrimos que a vida não é aquilo que pensávamos, e acho maravilhosa a sua coragem de ser essa pessoa que não desiste deles e escolhe o caminho que, como vc mesma coloca, faz a gente sofrer demais. Eu tento viver baseada nisso, tento seguir a filosofia do nosso amado Heisenberg e sigo fazendo meus trabalhos bosta, pensando sempre no futuro e em quando e como vou conseguir fazer aquilo que eu realmente quero. Acho que os primeiros anos são realmente difíceis da gente viver a vida dos sonhos, mas é muito fácil ficar conformado com a situação e passar a vida se queixando do que podia ter sido e não foi porque a gente não quis sair daquela zona de conforto inicial. Enfim, vou assistir La La Land assim que puder e espero poder compartilhar desses mesmos feelings <3
    :**

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