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TIGRES À BEIRA MAR

Comecei a ler Tigres Em Dia Vermelho ainda no aeroporto, enquanto esperava um voo para o Rio de Janeiro. Sozinha embaixo do ar-condicionado gelado do aeroporto de Brasília e sem qualquer previsão de quando finalmente embarcaria rumo a um fim de semana de praia, sol e vinho rosê ao lado do meu amorzinho, Paloma Engelke, permiti que a história de Liza Klaussmann me engolisse inteira; uma história que, ironicamente, também se passa em um cenário idílico de sol e praia, onde o vinho era substituído por infinitas doses de gim. Logo no primeiro capítulo, Helena e Nick, as protagonistas, rodopiam sob o céu escuro de uma noite de verão, bebem gim em copos de geleia e celebram o fim da Segunda Guerra Mundial. Depois de anos de incertezas, o futuro finalmente se tornara uma realidade palpável, e não mais uma promessa distante, instável e pouco razoável. Nick e Helena fazem planos, riem em voz alta e dançam, dançam, dançam, como se nada fosse mais importante – e não era -, mas também choram a distância, lamentam separar-se uma da outra.

Em uma história onde a relação mais importante e complexa é desenvolvida por e entre duas mulheres, não é uma surpresa que o que acontece ou deixa de acontecer com Nick ou Helena tenham um peso tão grande para a outra; antes de se casarem, formarem a própria família e se tornarem mulheres independentes, Nick e Helena são primas e, sobretudo, amigas, e desde a infância dividem uma história complexa em que são, ao mesmo tempo, confidentes e ruína uma da outra. Nick é a mulher de traços sisudos, de personalidade hipnotizante, expansiva, por quem todos se apaixonam, embora ninguém saiba exatamente o motivo. Helena é o contrário. Ela é doce e introvertida, bonita com seus cachos cor de areia e a pela macia, mas mais suscetível à submissão. Helena é o clichê da mulher comum e banal das décadas de 40, 50 e 60, exatamente o que Nick jamais desejou ser, mas que, ao seu próprio modo, também o é. A história constrói essas mulheres de modo que elas sejam capazes de levantar questões e trazer à tona sentimentos muito específicos da existência feminina. Não é uma história universal, não há como ser. Às vezes, temos acesso ao ponto de vista de outros personagens, e esses personagens às vezes são homens, mas ainda é uma história essencialmente feminina, que trata de dramas e conflitos que conversam muito de perto, de forma direta ou indireta, com a experiência de ser mulher numa sociedade ocidental; um fato que, por si só, já muda absolutamente tudo. Nick e Helena são mulheres, logo possuem experiências e sentimentos que muitas vezes também nos dizem respeito – o que nem sempre é bom, mas que alívio descobrir que não estamos sozinhas nesse mundo.

Em 1945, a maior preocupação de Nick era voltar a viver com o marido – Hughes, que estava na guerra – e não viver mais em um mundo controlado por cartões de racionamento. Helena, por sua vez, tinha planos de ir para Hollywood casar-se com Avery Lewis – um produtor cinematográfico picareta que vendia seguros e adorava contar vantagem – após seu primeiro marido ser morto em combate. Ter alguém para chamar de “meu” parecia ser a única ambição daquelas mulheres, que se satisfaziam com a ideia de casamento, filhos e a vida de dona de casa, mas não é uma surpresa que, pouco tempo depois, ambas estejam frustradas com seus maridos, filhos e uma com a outra, mas principalmente consigo mesmas. O futuro que lhes fora prometido, afinal, não era tão bonito assim na prática. Tanto Helena quanto Nick projetam nos outros e em si mesmas expectativas irreais, é por isso que elas se decepcionam. Assim, quando Nick se entrega à romances extraconjugais que não significam nada, absolutamente nada, ela não está dizendo que não ama seu marido; ela só está em busca de uma fuga de um casamento que parece perfeito na teoria, mas não na prática. Quando Helena bebe, bebe, bebe sem parar, quando toma uma porção de remédios, quando foge da própria realidade, ela está fazendo exatamente a mesma coisa – a fuga de uma mulher torturada por um mundo de homens. São mulheres machucadas demais, complexas demais, e o grande trunfo da história é a construção dessas personagens não como pessoas limpinhas demais, boazinhas demais, mas seres humanos que vivem coisas desagradáveis o tempo inteiro e são complicadas, muito complicadas. São mulheres irritantes, dramáticas, mesquinhas, invejosas, falhas; todas características muito humanas, mas que ainda são ignoradas quando falamos sobre a experiência feminina, porque é muito mais simples lidar com uma mulher que no máximo vai derrubar o café na blusa ou deixar um monte de coisas caírem na frente do cara gato do trabalho. Ser mulher é complicado pra cacete.

Tenho pensado bastante sobre essa coisa de ser mulher e como, por muito tempo, vivi em uma bolha em que era preciso fingir o tempo todo ser uma pessoa quando, na realidade, eu era outra – às vezes radicalmente diferente. Como eu neguei tantos sentimentos na tentativa de me adequar e como hoje parece quase impossível lidar com esse turbilhão, porque ninguém me ensinou o que isso significava ou o que eu devia fazer quando essas coisas acontecessem. Ao longo da vida, tive muito mais contato com a produção artística de mulheres – exceto, muito provavelmente, pelo cinema -, ao contrário de muitas amigas, que primeiro conheceram e consumiram o cânone cultural construído e moldado por homens, dentro de um contexto em que nos dizem que o masculino é universal, uma experiência que me deu a noção de que mulheres poderiam ocupar quaisquer espaços e estar em literalmente qualquer lugar. Contudo, ainda que eu me identificasse com essas mulheres e entendesse muito do que elas estavam dizendo, na prática, eu ainda me limitava; eu jamais poderia ser como elas – ao menos, não de uma forma tão aberta e vulnerável.

Quando constrói duas personagens (três, se também considerarmos Daisy, a filha de Nick) tão ambíguas, Klaussmann está dizendo que esses sentimentos são possíveis, que eles existem; não somos as garotas boazinhas e unidimensionais que um dia nos disseram que deveríamos ser. É um convite a pensar nos papéis que estamos desempenhando, sobre quem somos e qual, afinal de contas, é nosso lugar no mundo, mas sobretudo sobre nos reconhecermos como pessoas que às vezes são boas, às vezes são más, mas jamais são uma coisa só – um reconhecimento brutal, mas também libertador. No título, os tigres são uma referência a Tiger House, a casa de veraneio localizada na ilha de Martha’s Vineyard onde a maior parte da trama e do drama se desenvolvem; mas gosto especialmente como, de maneira menos óbvia, ele também faz referência a suas personagens, que amam, desejam, brigam de forma furiosa, como tigres. E sentem, sentem, sentem o tempo todo. Existem várias coisas acontecendo, inclusive um assassinato, mas a resolução dele se torna bem menos importante quando há tanto a ser dito sobre essas mulheres, seus sentimentos e as relações que estabelecem entre si; um lugar em que inveja, ressentimento, amor, cuidado e carinho coexistem como iguais.

Algum tempo atrás, me vi em uma situação bastante delicada, que envolvia sentimentos com os quais eu não estava acostumada a lidar, que não sabia nomear. “Então isso é inveja?”, eu me perguntei um milhão de vezes enquanto tentava entender o que estava acontecendo comigo, qual era a natureza daquele sentimento, como eu podia ficar tão feliz por uma pessoa e ao mesmo tempo tão frustrada, sem conseguir deixar de pensar “por que não eu? por que não comigo?”. Eu me senti suja, mesquinha e egoísta como poucas vezes na vida, mas quando conversei com outras mulheres sobre isso, ninguém me fez sentir mal ou culpada, ninguém disse que eu era a pior pessoa do mundo. Todas elas fizeram com que eu me sentisse acolhida e amada, sem jamais invalidar meus sentimentos. Porque elas entendiam. Porque muitas delas já haviam pisado nesse lugar antes. Foi uma experiência surpreendente, mas triste também, porque me lembrou que o mesmo mundo que nos cria para sermos criaturas delicadas, sensíveis e, de preferência, invisíveis, é o mesmo que nos ensina a utilizar o sucesso de outra mulher como prova do nosso fracasso. A grama do vizinho é sempre mais verde, mas ela é especialmente verde quando falamos da grama de outra mulher. É algo que tentamos quebrar todos os dias, e eu sei disso porque vejo mulheres todos os dias tentando romper com esse padrão, mulheres que tentam subverter a regra, mudar tudo, começar de novo. Mas ainda são as mesmas mulheres que choram na frente do espelho porque não são quem deveriam ser, porque queriam trocar de lugar com outra pessoa, porque se perguntam o tempo inteiro “por que não eu? por que não eu?”, que se ressentem por aquilo que todas as outras são. Eu sou uma dessas mulheres – e é irônico, contraditório e difícil, mas jamais dissemos que não seria.

Liza Klaussmann parte da experiência de mulheres das décadas de 40, 50 e 60, um período em que, depois de serem incentivadas a saírem de suas casas e desempenharem funções antes reservadas exclusivamente aos homens (porque não haviam homens para fazê-las, eles estavam na guerra, pelo amor de deus), elas são novamente convidadas a se retirarem e voltarem aos afazeres domésticos, ao marido, ao lar, aos filhos, a coisa toda. É um contexto diferente do nosso, é claro, embora ainda exista um abismo quando pensamos na realidade de homens e mulheres no mercado de trabalho, mas ainda que a História nos separe dessas mulheres, existe o universal de feminilidade que nos unem à elas. Um universal que está longe de ser bonito e que jamais é preto e branco. Ao mesmo tempo, existe algo de ordinário ali, confortável porque já é muito conhecido. Nick e Helena são mulheres extraordinárias em sua própria banalidade. Elas sofrem muito, o tempo inteiro, mas seu sofrimento jamais ganha contornos mirabolantes. A complexidade dessas mulheres jamais é posta à prova, mas seus conflitos não são originados a partir de histórias cabeludas; tudo se encaixa perfeitamente no nosso universal de feminilidade. O ressentimento, a inveja, o casamento fracassado, o abandono, o abuso, a raiva. Existe muita raiva ali, em todos os lugares. Em determinado momento do livro, Helena, em um fluxo de consciência terrivelmente íntimo e visceral, confessa que odeia Nick; mas num reconhecimento de sua própria ambiguidade, também diz que sente falta da prima, porque ela é uma pessoa encantadora, divertida e insuportável, características ambíguas que coexistem numa só pessoa e que, em contrapartida, gera sentimentos contraditórios, difíceis de lidar. Tudo isso em um cenário tão, tão bonito que parece óbvio que aquelas pessoas sejam felizes, lindas, mas elas são apenas humanas, atormentadas por uma porção de fantasmas. Existem os romances de verão, mas eles jamais são perfeitos, simples; existem as festas, mas elas são apenas uma forma mais ambiciosa de encenação. É tudo extremamente banal e, ainda assim, é em meio ao banal que coisas extraordinárias acontecem.

Ainda falamos muito pouco sobre mulheres banais, sobre o valor que essas histórias têm. Sobre como é importante se reconhecer em algo além do extraordinário, ou de, pelo contrário, reconhecer o extraordinário dentro das nossas vidinhas comuns. Essas histórias têm ganhado muita força nos últimos tempo, e é revolucionário que isso esteja acontecendo, mas se me perguntassem, ainda acho que existe muito espaço para ser ocupado. Que ainda existem muitas histórias esperando para serem trazidas à tona, muitas mulheres com as quais podemos nos identificar. Já conhecemos homens comuns demais. Um dos pontos negativos do livro que muita gente apontou é o fato do assassinato ser resolvido de um jeito meio morno e o final perder força por causa da revelação que parece óbvia a partir de determinado ponto. E eu concordo, mas ainda acho que existe mais sobre essa história, e que esse mais é menos sobre quem matou quem, e mais sobre os dramas vividos por Nick, Helena e, em alguma medida, também Daisy; que é o que existe de mais poderoso no livro e o que me faz gostar tanto, tanto dele, ao ponto de sempre olhá-lo com carinho e sonhar com o dia que terei tempo de retornar à Tiger House, apesar dos pesares. Ainda há um caminho imenso pela frente, mas me permito admirar quem ao menos tenta contar essas histórias e dizer em voz alta que estamos longe de sermos perfeitas – graças a Deus.

 

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