MEMES

UM MEME PARA FALAR DE DOWNTON ABBEY

Eu comecei a assistir Downton Abbey depois de terminar Call The Midwife, num momento em que a única coisa que eu precisava na vida era uma série que me desse um prazer genuíno de passar horas na frente na televisão, que aquecesse meu coração e me encantasse de um jeito confortável e gostoso como um abraço e um carinho na cabeça, e não necessariamente pela sua complexidade ou viradas cabeludas de roteiro. Downton Abbey faz tudo isso, e quase como um barquinho no meio do oceano, me salvou quando me afogar em incertezas parecia o único jeito de lidar com a vida naquele momento – algo que, ao seu próprio modo e tempo, Call The Midwife também fez; e não é exagero dizer nenhuma dessas coisas. Brinco com minhas amigas que elas criaram um monstro porque, desde então, tenho achado particularmente difícil assistir outras coisas ou falar sobre qualquer outra coisa, ao ponto de ter assistido a série inteira por duas vezes consecutivas e ter iniciado uma terceira na sequência. Nunca disse que sabia lidar com limites.

Hoje foi um daqueles dias em que tudo que eu queria era um abraço gostoso, um carinho na cabeça, ser cuidada e amada de um jeito que precisamos sempre, mas que precisamos em alguns dias mais do que em outros; eu estou de tpm, ansiosa e exausta, e faz pelo menos dois dias que não consigo escrever. Quando a Michas sugeriu que eu adaptasse um meme que ela respondeu no ano passado e falasse sobre Downton Abbey, me perguntei como não tinha pensado nisso antes. Downton Abbey: definitivamente a única solução possível.

1. Seu personagem favorito.
Todos, mas com um pouco mais de força a condessa viúva Violet Crawley. É muito fácil amar Maggie Smith sem que ela precise se esforçar para isso; é muito fácil dizer que ela é um monstro (e ela é!) e nutrir um carinho especial por aquela que sempre será Minerva Mcgonagall em nossas lembranças infantis. Mas existe mais. Violet Crawley é, antes de mais nada, a antiga Lady Grantham, muito antes de Mary, Edith e Sybil sequer pensarem em existir, e Cora sonhar em um dia habitar a propriedade da família ou Downton estar sob o comando de Robert; o que significa que o compromisso de Violet para com Downton e o pequeno vilarejo que cerca a propriedade é imenso. Longe de ser uma figura afável, Violet possui uma compreensão gigantesca sobre o papel e dever de sua família, e não deixa de agir quando acredita que é a coisa certa a se fazer – ainda que esteja profundamente errada. Às vezes, isso significa recorrer a discursos conservadores, mas é incrível como, à medida que a série avança, ela pouco a pouco se torna mais flexível, compreensiva e humana, uma faceta reservada à poucos, é verdade, mas que ainda faz parte de sua personalidade. Uma de minhas cenas favoritas é quando Violet vai ao quarto de Mary e diz que a ama, porque expor-se daquela forma não parece algo do seu feitio, mas elas ainda são uma família, e embora todos sejam muito bons em esconder os próprios sentimentos, ainda se amam profundamente. Entre todas as mulheres Crawley, Violet se sobressai como uma figura complexa, engraçada e extremamente inteligente, que não tem medo de dizer o que pensa ou manipular aqueles ao seu redor para conseguir o que deseja, sobretudo quando precisa defender a honra de sua família.

2. O personagem de que você menos gosta.
Edna Braithwaite. É preciso resistir para não falar sobre O’Brien: embora seja uma mulher odiosa em muitos momentos, acredito que existe mais sobre O’Brien do que acredita nossa vã filosofia; seria muito fácil classificá-la como uma personagem simplesmente horrível, embora ela o seja em 90% do tempo. É mais ou menos o que acontece com Thomas, que faz muita merda ao longo das seis temporadas da série, mas nenhuma dessas merdas existem no vácuo. O que nos leva à Edna – a empregada dos Crawley que começa a dar em cima de Tom, só para depois fingir uma gravidez que nunca existiu. Odeio a forma como ela é petulante, como desrespeita tudo e todos, como é cínica e tenta manipular as pessoas de um jeito completamente horrível e sem escrúpulos. Mas odeio, especialmente, como sua narrativa reforça a ideia da mulher que se utiliza de uma gravidez falsa para se dar bem. Por sorte, as coisas acabam indo de mal a pior, e sua farsa é descoberta. Edna vai embora de Downton com o rabinho entre as pernas para nunca mais voltar, amém.

3. Sua temporada favorita.
Todas, mas em especial a segunda. Ainda que eu goste muito da primeira e da terceira, a segunda é quando as coisas verdadeiramente começam a acontecer, quando a vida de todos é virada de cabeça pra baixo por causa da guerra e quando patrões, criados e todas as pessoas em Downton são obrigadas a mudar seu modo de vida. O casarão se transforma numa casa de apoio onde soldados vão passar um tempo para se recuperar após receberem alta do hospital, e toda a rotina da casa, bem como o mundo em que vivem os Crawley, muda drasticamente. Não é por acaso que, mesmo após o fim do conflito, as coisas jamais voltem a ser as mesmas: eles conheceram um outro modo de vida, conheceram os horrores da guerra, e é impossível voltar a ter a vida como conheciam novamente, como se nada tivesse acontecido.

4. Temporada de que menos gosta.
Nenhuma. Acho que as coisas mudam muito a partir da quarta temporada e, talvez por isso, ela se torne uma temporada mais fraca, quase como uma readaptação: novos personagens passam a ter mais espaço, outros vão embora de forma definitiva, e tudo isso, de um jeito ou de outro, interfere no ritmo da série. Eventualmente, ela volta ao seu curto natural, mas ainda assim, não há como dizer que seja uma temporada ruim: sentimos falta de Matthew, amaldiçoamos os novos pretendentes de Mary; mas ainda é quando Edith começa a finalmente ganhar o espaço que lhe é negado ao longo das outras temporadas e sair da sombra da irmã mais velha, quando acontece o estupro dentro do casarão, e tantos outros acontecimentos que mudam drasticamente os rumos da série e acontecem nesse período.

5. Episódio favorito.
O Especial de Natal da segunda temporada!

6. Episódio de que menos gosta.
Possivelmente o que Patrick – ou, assim ele diz – retorna à Downton, numa tentativa de recuperar aquilo que lhe era de direito: a propriedade, o casamento, o título de nobreza. Amo que essa é uma questão nunca resolvida e Patrick vai embora antes mesmo que fique provado que ele era o falecido herdeiro de Downton.

7. Sua frase favorita.
São tantas! Amo, especialmente, as ditas por lady Violet, talvez a personagem com maior acervo de frases incríveis da ficção, de modo que escolher apenas uma é uma missão quase impossível. Entre minhas favoritas, no entanto, estão: “I’m a woman, Mary. I can be as contrary as I choose”, “never complain, never explain”, “I’m not a romantic but even I concede that the heart does not exist solely for the purpose of pumping heart”, “life is a game where the player must appear ridiculous”, “no life appears rewarding if you thing too much about it” – e chega, risos.

8. Música favorita.
“Did I Make the Most of Loving You?”, dã.

9. Personagem secundário favorito
É difícil falar sobre personagens secundários quando todos os personagens de Downton Abbey são tratados com tanto cuidado e carinho, e possuem jornadas construídas com o mesmo esmero daqueles que seriam, em um primeiro momento, os protagonistas. Gosto muito de como a série não se restringe ao universo da alta sociedade inglesa, mas também utiliza a criadagem como uma parte essencial da narrativa e não personagens secundários como meros assessórios dentro da história. Amo, particularmente, a trajetória de Daisy, que começa como uma jovem inocente e sem família, e pouco a pouco ganha mais autonomia, se torna assistente de cozinha, começa a estudar e se torna uma mulher esclarecida, o que é lindo, lindo de ver.

10. Apresentação favorita de personagem.
Atticus Aldridge. Sua participação na série é bem pequena e restrita, mas acho uma gracinha como ele aparece pela primeira vez, de um jeito completamente aleatório, se oferecendo para carregar as sacolas da Rose num dia de chuva; e os dois riem e conversam e se encantam um pelo outro. A história dos dois é tão linda quanto esse primeiro encontro e fico feliz que eles tenham ficado juntos no final, mesmo que suas famílias fossem tão contra o relacionamento a princípio; a mãe de Rose, por Atticus ser judeu, o pai de Atticus, por Rose não ser judia. As diferenças, contudo, são eventualmente deixadas de lado e os dois vivem felizes, muito felizes, nos Estados Unidos.

11. O personagem que mais se parece com você.
São questões. Gosto de pensar que num mundo perfeito, eu seria a Sybil, com seu jeito revolucionário e doce, absolutamente doce. Parece um jeito totalmente pisciano de encarar o mundo – e de fato, é! -, mas na prática, me enxergo muito mais nas outras duas irmãs Crawley: Mary e Edith. É uma identificação menos óbvia, porque no fundo não sou ipsis litteris nenhuma das duas, mas que ainda existe e vez ou outra bate com força. Contudo, ironicamente, em dois testes que fiz para saber que personagem era, os resultados foram, respectivamente, Carson e Lorde Grantham. Vai entender.

12. Season finale favorita.
A da primeira temporada, quando Lady Grantham perde o bebê, Mary e Matthew desmancham o possível noivado antes mesmo que ele tenha a chance de existir, e a Primeira Guerra Mundial é anunciada – algo que tem um peso gigante pra série. Era o início de tudo, ninguém podia imaginar o que viria a seguir; e eram muitas coisas. Ainda, gosto muito do final da terceira temporada, quando Lorde Grantham, Branson e Matthew celebram os pontos num jogo de críquete. É irônico que, dali pra frente, as coisas descessem tão baixo, mas gosto do contraponto que essa cena faz com todo o resto, numa ironia necessária, ainda que extremamente dolorosa.

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1 Comment

  • Reply Manu 12 de agosto de 2017 at 9:44 PM

    CRIAMOS UM MONSTRO
    Esse meme é maravilhoso e até eu to pensando em respondê-lo. Nem sei mais o que comentar porque já comentamos tanto sobre essa série topper que provavelmente vou me repetir aqui, mas vai lá: Violet, rainha da porra toda, definitivamente a única personagem possível. Acho que minha temporada menos preferida é a quarta, mas provavelmente pelo baque do final da terceira e a reorganização da família em torno dos fatos. Daisy = MEU AMOR DESDE O EPISÓDIO 1, meu sonho era que ela tivesse ido pra Londres e aberto uma confeitaria fabulosa e Mrs. Patmore tivesse se casado com Mr. Mason. Downton tem frases sensacionais, mas acho que nenhuma me impactou tanto quanto “don’t be defeatist, dear, it’s very middle class” (Violet, como sempre sambando na nossa cara – MEU SONHO É SER NOBRE IGUAL ESSE POVO)
    :** <3

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