WALK OF SHAME

UM MINUTO PARA REFLETIR SOBRE O OSCAR

A temporada do Oscar é uma das minhas épocas favoritas do ano – e isso já nem é mais novidade pra ninguém. Gosto que as pessoas sempre parecem se interessar mais por cinema nessa época, que assistam coisas que não assistiriam normalmente e, principalmente, que queiram trocar opiniões, fazer apostas, escolher seus favoritos. É uma época que eu, naturalmente, fico bem cansada – são muitos filmes pra ver, afinal de contas, e quase sempre milhões de textos para escrever -, mas é um cansaço que compensa, que traz satisfação. As pessoas começam a respirar cinema, mesmo que um cinema às vezes questionável, e como boa estudante apaixonada/entusiasmada/retardada/tosca, ver isso acontecer me dá uma ânimo incrível – um ânimo que a gente quase esquece que existe quando está numa sala abafada durante 50 minutos, duas vezes por semana.

Por mais que o Oscar não diga muita coisa sobre a qualidade dos indicados e, principalmente, dos premiados, ele ainda é a premiação mais popular do cinema, aquela que o público médio mais se interessa, e que pode abrir portas para outros filmes e histórias que passam longe do circuito comercial. Eu mesma, por exemplo, só fui começar a me interessar por cinema – e não mais só assistir os lançamentos que me interessavam, dando uma chance para histórias que saiam um pouco fora da curva -, depois de começar a acompanhar o Oscar mais de perto e automaticamente ter curiosidade de assistir os indicados das principais categorias. Eu nem sempre gostava de tudo que assistia, mas aquilo me ajudou a expandir meus gostos e, consequentemente, procurar por um cinema que fosse além do circuito norte-americano e que contasse histórias diferentes daquelas com as quais eu já estava acostumada, que eu sabia exatamente como iriam terminar antes mesmo de chegar na metade. É por isso que eu gosto tanto do Oscar e porque, até hoje, eu acompanho a premiação com uma empolgação que pode parecer ridícula pra muita gente – e talvez seja mesmo! -, mas que eu recomendo fortemente.

O negócio é que, como quase tudo que envolve o cinema norte-americano – e a indústria cinematográfica, de um modo geral -, o Oscar é, também, uma premiação bem controversa. E não quero dizer só pelo favoritismo que vira e mexe premia gente que não merece prêmio nenhum (vocês sabem exatamente de quem estou falando, risos), mas também de problema mais sérios e que também dizem muito sobre a indústria de um modo geral. O fato de 2017 ser um ano com mais pessoas negras e filmes sobre negros indicados em várias categorias diz muito porque, embora seja ainda muito pouco se pensarmos na imensa e histórica luta contra o racismo, é algo que vai totalmente contra o que o Oscar vinha fazendo até agora, e isso talvez seja resultado de uma mudança de mentalidade que, por sua vez, pode trazer mudanças significativas em um cenário ainda tão racista. A princípio, indicações não querem dizer muita coisa, mas eu me permito ficar feliz que tantas pessoas estejam assistindo filmes como Hidden Figures, por exemplo, e amando tão profundamente, se sentindo representadas e se inspirando na história dessas mulheres – coisa que talvez não tivesse acontecido sem essa visibilidade que o Oscar, feliz ou infelizmente, ainda dá.

Mas é essa mesma premiação que reluta em sequer indicar mulheres, quem dirá premiá-las, mesmo quando elas merecem ter seus esforços reconhecidos, que prefere ignorar assuntos como diversidade, machismo e representatividade, e que dá biscoito pra qualquer homem branco que faça um trabalho relativamente bom, mesmo que ele seja uma pessoa horrível até dizer chega – o que, na verdade, tem me dado muito o que pensar. Por mais que essa já seja uma discussão velha, que vem à tona todos os anos, me descaralha a cabeça que ela nunca chegue em lugar algum, justamente porque as pessoas não parecem muito dispostas a encarar a verdade que, por trás de seus ídolos, existem pessoas horríveis que deveriam arder no fogo do inferno – ou, no mínimo, serem julgados pelos seus atos – e não é legal colocar essas pessoas num pedestal como se elas fossem legais, como se merecessem estar ali. Polanski ganhou um fucking Oscar quando nem sequer podia entrar nos Estados Unidos para receber o prêmio, porque era foragido da polícia, acusado de abusar sexualmente de uma menina de 13 anos em 1977; Woody Allen recebeu o prêmio de Melhor Roteiro Original em 2012; e enquanto celebramos as conquistas deste ano, Mel Gibson segue com uma porção de indicações por Hacksaw Ridge – e pode ser que ele não ganhe nada, é verdade, mas pelo menos uma porção de dinheiro ele ainda vai fazer. Isso sem falar do pavoroso Cassey Affleck, que embora tenha feito um trabalho até bem decente em Manchester à Beira-Mar, não é uma pessoa que a gente deva admirar ou tomar como exemplo.

Na faculdade, é muito comum que a gente se esqueça de quem são as pessoas por trás dos filmes para pensar somente na arte, no que eles estão dizendo, em suas influências e referências. A gente é incentivado a pensar assim e, na realidade, muito pouco se discute sobre quem são as pessoas contando essas histórias. Mas por mais que eu continue assistindo esses filmes – às vezes por obrigação, às vezes por vontade própria (o que é bastante irônico, mas bear with me) – não consigo ficar alheia ao que eles representam, e o que as pessoas por trás deles fazem ou deixam de fazer. Existe uma diferença enorme entre consumir algo de forma consciente, e ignorar que por trás de cada uma dessas produções existem pessoas com uma índole bastante questionável, quando não são criminosas mesmo.

Em 2014, Dylan Farrow escreveu uma carta, publicada no The New York Times, onde ela fala justamente sobre o abuso que sofreu aos sete anos de idade. Ela começa a carta perguntando “qual é o seu filme favorito do Woody Allen” e a partir daí, discorre sobre todo o trauma que sofreu; sobre assistir seu abusador sair impune do crime que cometeu, sobre como foi crescer com medo de ser tocada por outros homens, sobre os distúrbios alimentares, e principalmente sobre como era terrível que, enquanto ela sofria todas as consequências, Woody Allen continuava a ser tratado como um gênio, um Grande Nome do Cinema™. Ele continuava a ser premiado, quotado por outros artistas, estampava revistas, camisetas, posteres imensos; e Dylan, por sua vez, tentava esconder o pânico que era ter o rosto de seu abusador a perseguindo em tempo integral.

Hoje, o The Hollywood Reporter publicou um texto (e eu sinto muito, mas não vou fazer o desserviço de linkar aqui) em que, basicamente, diz que caras como Woody Allen, Cassey Affleck, Mel Gibson, Polanski e cia, devem ser julgados pela Academia pelo trabalho que fazem à frente ou atrás das câmeras, e não por aquilo que fazem ou deixam de fazer em suas vidas privadas. Isso porque, segundo o argumento do texto, já existe uma premiação no próprio Oscar que é dedicada à pessoas que fazem não só um trabalho incrível, mas que também são pessoas extraordinárias em suas vidas privadas, alguém que o povo norte-americano deve se orgulhar; e que qualquer prêmio além desse não deve levar em consideração quem diabos são e que porra fazem as pessoas indicadas – e, eventualmente, premiadas. É um argumento completamente descabido, que ignora completamente o trauma de mulheres como Dylan Farrow, e perpetua a ideia equivocada de que tudo bem esses caras serem horríveis em suas vidas, porque isso não anula o fato de que eles são gênios, grandes artistas; pessoas que devemos, em alguma medida, admirar; quase como se ser uma personalidade tão horrível os ajudasse a construir o mito que esses caras eventualmente personificam.

E é perigoso isso. É perigoso demais. Separar o artista de sua obra parece a opção óbvia quando ignoramos que, ao fazer isso, estamos ajudando as únicas pessoas que não deveriam ser ajudadas – os abusadores, criminosos, agressores, estupradores, etc – enquanto silenciamos aquelas que merecem ganhar voz – as vítimas -, que lembram, temporada de premiação após temporada de premiação que vivemos num mundo cruel, machista, que prefere tampar os olhos diante de um problema real e muito sério, ao invés de dar o braço a torcer. Se é tão óbvio que um homem qualquer deva ser punido após cometer um crime, então por que ainda colocamos esses caras acima da lei? Por que ainda prestigiamos agressores, estupradores, abusadores em série, e agimos como se estivesse tudo bem? Como se entre os artistas que endeusamos não existissem pessoas que foram acusadas pelos crimes que cometeram e, ainda assim, não perdem o status de ídolo, continuam vivendo uma vida como se nada tivesse realmente acontecido. É perigoso demais manter esse tipo de mentalidade e ignorar que existe muito além da arte para se considerar; como se todas essas coisas também não influenciassem uma porção de outras pessoas, caras que, embora não sejam ídolos de ninguém, vão acreditar que tudo bem fazer o que quiser com uma mulher. É isso que eles fazem, nós podemos fazer também?

Separar artista e obra é a opção mais óbvia porque é a opção mais fácil, mas isso não significa que ela seja a melhor, muito menos que seja a ideal. Por mais que nem sempre sejamos capazes de manter uma opinião clara sobre o assunto, porque não é simples mesmo chegar nesse ponto – eu, por exemplo, escrevi tudo isso mas continuo consumindo a obra de muitos desses caras, o que é no mínimo contraditório -, é preciso discutir, é preciso olhar além e perceber que existe um problema, e que não podemos ignorá-lo, e é por isso que o Oscar, sendo a premiação mais popular do cinema norte-americano – e talvez, do mundo inteiro – deveria levar isso em consideração. Não é ignorar a arte: é olhar para além dela. No entanto, enquanto essa mentalidade retrógrada de que voters should judge the art and not the artist seja a regra, não a exceção, vamos continuar vivendo esse filme de horror que é, na verdade, nossa própria realidade.

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