NOVELA MEXICANA

UMA MORTE NEM TÃO HORRÍVEL ASSIM

Ou: A inauguração da Forever 21 em Brasília

Oi, meu nome é Ana Luíza, tenho 21 anos e adoro me meter numa boa cilada. Não é que eu realmente goste, mas não há dúvidas de que nasci com o dom pra tal, de forma que prefiro fazer jus a essa pré-disposição tão peculiar do que ficar tentando fugir dela. De voltar andando do shopping e não só cair numa belíssima poça de água no caminho, mas também passar por um terreiro de macumba; até encarar barca de parque de diversões caquético e totalmente sem segurança, já passei por poucas e boas que até hoje rendem muita história e comprovam essa minha inclinação deveras peculiar.

A cilada da vez foi a inauguração da Forever 21. Eu e a Juli (minha melhor amiga and eterna parceira de crime) já tínhamos prometido que esperaríamos o tumulto passar para gastar nossas preciosas dilmas na loja, mas depois de infinitos e-mails e propagandas everyfuckingwhere, resistir se tornou uma missão impossível. Demos nossos bracinhos de biscoitera (no caso do meu) a torcer e no sábado da inauguração, lá estávamos nós, chegando no shopping e quase caindo pra trás com o tamanho da fila. Todo mundo viu o inferno que foram as inaugurações em outros estados e eu realmente não esperava que em Brasília fosse ser diferente, mas ver mais de 300 pessoas fazendo fila antes das 7 da manhã, em pleno sábado, me deixou ligeiramente assustada.

filaforever21

Uma vez no inferno, resolvi abraçar o capeta e garantir meu lugar naquela morte horrível. Sou uma pessoa bem paciente e esperar, de fato, acabou não sendo tão terrível assim. O calor era quase insuportável e meu bronze palmito deu lugar a um cor deveras exótica no tempo que passei embaixo daquele sol pentelho. Mas tirando esse pequeno detalhe, não tenho muito do que reclamar. Ficar em pé, por exemplo, não foi um problema, porque o tempo todo a gente tinha uma calçada maravilhosa à disposição pra sentar a hora que quisesse. Quase não parecia uma cilada. Quase.

A questão é que assim como as filas de shows muito disputados, alguma confusão fatalmente acabaria pipocando ali. A diferença é que, nesse caso, o interesse não era ficar na grade pegando baba do cantor x, e sim garantir o tal do jabá (um projeto de havaiana muito duvidoso, se querem saber) prometido às primeiras 500 pessoas da fila. Quem sou eu pra julgar se o principal motivo que me fez entrar com os dois pés nessa cilada foi o mesmo, mas por mais injusta que seja essa história de furar fila e “guardar lugar”, isso jamais me faria comprar briga da forma que vi acontecer por lá. Achei super justo quando algumas pessoas que se sentiram prejudicadas foram reclamar com os seguranças e deixaram que eles se resolvessem com quem estava, de fato, furando fila, mas daí ficar batendo boca e apontando o dedo na cara dos outros são outros quinhentos. Vi a hora do circo pegar fogo e gente sair no tapa por causa de um brinde que nem era tão legal assim. A gente riu pra não chorar, porque esse é o tipo de situação vergonhosa que me faz querer sair correndo para as colinas sem olhar pra trás.

Vi uma mulher perder total a razão ao armar um circo com praticamente qualquer pessoa que estivesse na sua frente, fazendo a filha passar a maior vergonha. Vi um senhor perder a compostura e discutir com meninas que tinham a idade para serem suas netas. Vi rapazes tendo que apartar briga de mocinhas exaltadas e evitar que as coisas ficassem ainda piores do que já estavam. E no meio de tudo isso estava euzinha, me questionando pra caralho se tudo aquilo era realmente por causa de um brinde. Momentos.

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O JABÁ É MEEUUUU!!!111

Tudo isso aconteceu ainda do lado de fora do shopping. Lá dentro, no ar condicionado, o clima era outro. Mudou da água pro vinho. Só posso agradecer às pulseirinhas numeradas, que uma vez no nosso pulso, garantiam lugar certo na fila. Quem tinha um número até o 500, comemorou, ganhou jabá e ficou feliz da vida. Quem não pegou, já era, that’s it. Não tinha chorume. Tranquilidade mandou abraços. Demorou pelo menos uma meia-hora até a loja abrir realmente e mais uma meia-hora (senão mais) até eu colocar meus pés no paraíso, mas só de estar dentro do shopping, sentada no chão gelado e sentindo o ventinho do ar condicionado bater no pescoço, já era um alívio enorme. Ganhamos garrafinhas de água, todas bem bonitinhas e personalizadas, e distribuídas sem frescura nenhuma. Não tinha nenhuma limite de quantidade por pessoa, e por mais óbvio que isso pareça, já vi tanta marca limitar esse tipo de coisa que não custa nada elogiar. Próximo.

Nessa altura do campeonato eu já revirava meus olhinhos a cada gritinho animado de alguma moça deslumbrada que tinha colocado os pés cansados dentro da loja, mas fui obrigada a morder a língua quando atravessei o tapete vermelho na entrada (sim) e me vi naquele universo paralelo, tão mágico e tentador. E nessa hora eu tive a certeza de que todo o esforço tinha valido a pena. As roupas eram maravilhosas, os preços super convidativos e o deslumbramento inevitável. Quando perguntei pra Juli qual foi o primeiro pensamento quando ela se viu dentro da loja, tive a resposta que traduziu muito bem meu próprio feeling. “Eu queria tudo”, simples assim.

As compras foram frenéticas. Não dava tempo de refletir sobre o que realmente valia a pena comprar, sem correr o risco de perder a peça. Era pegar e só depois analisar, tudo na base do olhômetro, porque experimentar estava fora de questão. A fila do provador era quilométrica e dava tanta volta que fiquei com vontade de chorar. Perdi as contas de quantas peças catei em cada sessão, pra só depois sentar num canto e ver o que eu realmente queria (e podia $$$) levar pra casa. Algumas pessoas provaram ali mesmo, no meio da loja, na frente de todo mundo, sem nenhum pudor. Arrependi por não ter ido com uma roupa mais prática, que me permitisse fazer o mesmo. Paciência, a vida segue.

Pagar talvez tenha sido a parte mais sofrida dessa história toda. Meu corpo já gritava por descanso, meu estômago roncava desesperado e o calor era tão insuportável que depois de um tempo a Ju começou a passar mal. Não tinha água ou ar condicionado que dessem conta daquele sufoco, mas como as chances de sair pra pegar um ar e voltar eram iguais a zero, a gente só podia rezar pra aquela morte horrível terminar logo. Quem tá no inferno beija a boca do capeta, e depois de tanta cagada, uma fila a mais não ia fazer tanta diferença assim, OH MEU DEUS. Culpo o cansaço por ter transformado a situação num bicho de sete cabeças, mas nem fico remoendo isso porque só de lembrar da sensação maravilhosa de sair absoluta pelas portas daquele inferno ~fashion~ com minha sacola amarela em mãos, já fico rindo a toa no melhor Ana Retardada way of life.

Eu podia terminar esse post fazendo uma reflexão sobre essa loucura toda, mas acho desnecessário. Fiquei assustada com o desespero das pessoas? Fiquei. Achei o brinde meio vagabundo? Achei. Mas dá pra entender o apelo. Se fosse pra comparar, diria que a Forever 21 fica ali no meio termo entre Renner e Zara, sendo mais barata que a primeira e infinitamente mais em conta que a segunda. Desde a inauguração, já voltei lá duas vezes e gastei boa parte do meu dinheiro em peças que achei realmente válidas. Os itens com preço muito baixo meio que sumiram do mapa e eu não sei se culpo o ritmo frenético das vendas ou a loja em si, mas por mais que eu não encontre croppeds por R$15,90 e camisetas por R$18,90, fico feliz em colocar os pés lá dentro e encontrar vestidinhos por R$50,00 e leggings à R$34,90, porque quase nada é tão legal quanto poder encher o guarda-roupa de peças novas sem precisar vender um rim.

shopping

Desde já aceito convites para novas ciladas.

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5 Comments

  • Reply Juli/Ju 9 de novembro de 2014 at 9:56 PM

    Pode ser um convite meu? Hahahahaha.
    Vamos dar um pulo lá nas férias? :-)
    Adoro mil vezes sua companhia, mina s2

  • Reply Xará 10 de novembro de 2014 at 12:06 PM

    (Gastei toda a minha cota de falta de freio social do mês nesse momento, colocando XARÁ no nome do comentário. Me ame)
    Guria, confesso que quando você disse que estava preparando um post sobre a inauguração da Forever 21 eu tremi nas base porque já imaginei você querendo virar uma blogueira fyna, cheia dos jabá, que ganha dinheiro e faz uma porção de posts mais do mesmo. HAHAHAHA, olha o nível. Não que eu tenha algo contra esses blogs aí – inclusive passo o olho em alguns – mas prefiro muito mais esse estilo aqui – gente que fala da vida e principalmente, das ciladas.
    Morri de rir com o post e to aqui amargando que em Curitiba nem se falou sobre o assunto de abrir uma dessas. Sdds.
    Beijos!

  • Reply Fernanda 12 de novembro de 2014 at 10:22 PM

    Fui daquelas que deixou pra visitar a F21 aqui do Rio MESES depois da inauguração (fui lá tem 2 semanas!) e acredita que as filas ainda eram quilométricas? Fui com uma parceira de crime também, uma que d-e-t-e-s-t-a escolher roupas em magazines, e até ela se empolgou e levou umas peças.

    Ficamos mais ou menos uns 40 minutos na fila pra provar e foi aquele: “pode entrar com até 12 peças”, nós pegamos 12 peças de tudo que gostamos pra depois decidir se valia ou não, hahaha. No final eu nem comprei tanta coisa assim, as coisas mais legais que ainda estavam nos manequins já tinham acabado há eras (e achei paia deixarem no manequim tantas peças que já estavam esgotadas) e muito pouco valia o preço que foi cobrado ):

    Não sei se foi porque deixei pra ir tanto tempo depois, mas não achei lá a última bolacha do pacote como todo mundo fala. Tem roupas bonitas? Tem. Tem preços bons? Garimpando tem sim, e muito. Mas a meu ver achei pouca coisa um pouquinho mais diferenciada do que estamos acostumadas a encontrar em Renners e Riachuelos da vida. Vou dar um tempo pra voltar lá uma outra vez e aí quem sabe não ache umas coisas mais legais e minha opinião até mude? Hehe.

    Bjs!

  • Reply Carol de Castri 13 de novembro de 2014 at 12:40 AM

    SEM OR, que luta! hahaha Aqui em São Paulo eu demorei bastante para ir na Forever (meses e meses) agora está mais “tranquilo”, pois eles estão abrindo mais loja no estado, o que eu acho ÓTIMO porque fico angustiada em comprar roupas e ver aquele monte de gente. Eu curto olhar e namorar as peças antes de comprar e eu não consigo fazer isso com um monte de gente ao meu redor com uma cara de “vai logo, menina, quero ver tbm!” HAUAHAU

  • Reply S 14 de novembro de 2014 at 12:27 AM

    Acho que o melhor das ciladas é que a gente tá sempre acompanhada com alguém, vergonha e azar compartilhada é o melhor.
    Beijos

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