JOHN HUGHES NÃO DIRIGE MINHA VIDA

POLÍTICA, EGOÍSMO E GAITAS DE FOLE

Esses dias, voltando pra casa, me deparei com um grupo deveras peculiar no sinal. Eram uns cinco ou seis rapazes, que se dividiam entre os que distribuíam panfletos e os que ficavam balançando bandeiras freneticamente ou tocando algum instrumento meio exótico. Foi a gaita de fole que um dos rapazes tocava que chamou minha atenção. Ela não era assim dessas bonitonas que a gente vê no cinema – era bem simples, na realidade – mas o som era tão lindo e tão alto que fiquei extasiada. A vontade era começar a dançar ali mesmo, no meio da rua, enquanto esperava o semáforo abrir pra mim. O cabelo bagunçado, a bolsa pesando no ombro, o crachá ainda na mão.

Esse texto, no entanto, muito pouco tem a ver com minha recém descoberta paixão por gaitas de fole, de forma que essa introdução não passou de uma divagação randômica. Esse é muito mais um post sobre política e aí céus, só Deus sabe o quanto eu relutei em falar sobre isso.

Religião, política e futebol são três assuntos que prefiro evitar. E faço isso não porque acredito que discutir sobre não seja válido, mas porque já vi conversas aparentemente saudáveis tomarem caminhos absolutamente errados e terminarem em brigas fenomenais. Fujo de polêmica como o diabo foge da cruz, e por mais que eu goste de falar sobre política, não me sinto confortável para ficar expondo minhas ideias e opiniões por aí. A questão é que um dos panfletos dos rapazes exóticos veio parar na minha mão, e foi aí que eu entendi o que toda aquela folia fora de época era, de fato. Nada de festas culturais ou a celebração de alguma data específica em alguma embaixada ali perto. Se tratava de um manifesto contra o chamado “totalitarismo de esquerda” e que propunha, entre outras coisas, programas de governo de combate ao aborto, à eutanásia e ao uso de drogas; a defesa do casamento heterossexual e  medidas que assegurassem o direito dos pais de educarem seus filhos sem a intervenção do Estado.

Não sei se fui eu que andei passeando por um universo paralelo durante as últimas duas eleições ou se as coisas realmente mudaram muito de lá pra cá, mas juro que não me lembro de viver um período eleitoral tão terrível como esse. O primeiro turno foi sofrível, mas pelo menos ainda me restava um sopro de esperança de que as coisas podiam, de fato, mudar. Levei um belíssimo ice bucket na cabeça quando percebi que não, a vida real não funciona desse jeito, e desde então tenho vivido essa morte horrível chamada segundo turno. Perdi as contas de quantas pessoas já deixei de seguir no Instagram desde então e sigo contando, porque não suporto mais essa militância sem limites, a briga entre PT-PSDB, o discurso de ódio destinado a qualquer um de opinião contrária. Não vejo sentido em colocar a mão no fogo pelos candidatos, especialmente quando eles  não têm nada melhor pra falar do que ficar apontando os defeitos do adversário. Como disse a Analu, “continuem colocando a mão no fogo e vão se queimar bem feio”. Vão mesmo.

Da mesma forma que sinto uma vergonha alheia e certa irritação com essa situação toda, ver pessoas reivindicando por questões que se apoiam em argumentos tão vazios me parece um pouco de falta do que fazer. Eu acredito sim no debate sobre questões como o aborto e o casamento gay, mas não no sentido de combater, como dito no manifesto. De forma muito simples, acredito que quem é contra deveria simplesmente não fazer, e não ficar caçando sarna pra se coçar na vida dos outros. Repito: de uma forma muito simples. Coisa que, de fato, essas questões não são.

Não quero tentar convencer ninguém de que meu ponto de vista é mais certo ou menos certo, mas acho que com o tanto de problema que esse país já tem, ficar tentando limitar a escolha dos outros sem nenhum motivo plausível é egoísmo demais. Não dá pra dizer que eu sou contra o aborto sem pensar na quantidade de mulheres que morrem fazendo o procedimento de forma ilegal e na quantidade de crianças que nascem sem eira nem beira porque os pais não têm condições de criá-los. Não dá pra falar de eutanásia sem se colocar na pele da pessoa que sofre, de fato. Não dá pra falar do casamento gay quando você, heterossexual, tem os direitos todos na mão. Da mesma forma que não dá para querer que o Estado não interfira na criação das crianças e adolescentes, como se fosse fácil ignorar que muitos deles sofrem (às vezes morrem) na mão de parentes terríveis.

Já dou graças por essa morte horrível estar com os dias contados, mas fico apreensiva quando lembro desse lado tão egoísta da moeda. Não vou ser hipócrita de anular minhas necessidades em prol do conjunto o tempo todo, mas por mais chateada que eu fique pelo Ciências Sem Fronteiras não contemplar o meu curso, reconheço que ele deu uma oportunidade única pra muita gente que sequer imaginaria colocar os pés fora do país. Da mesma forma, a legalização do aborto não implica que eu o faça, ou a legalização do casamento gay não me transforma automaticamente em homossexual, mas são medidas que certamente melhorariam a vida de muita gente. Indiretamente, até a minha.

Talvez eu só esteja sendo ingênua. Mas talvez eu só queira viver num lugar melhor e mais justo. O Brasil é infinitamente maior que essa picuinha egoísta. E nem a gaita de fole mais linda desse mundo vai me fazer desistir de lutar por ele.

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2 Comments

  • Reply Gaby 24 de outubro de 2014 at 4:20 AM

    Você não é a unica que está feliz por essa situação toda estar com os dias contados, não sei como uma eleição, que seria para a melhoria do nosso país, se torna apenas entre guerra de partidos e trocas de farpas, realmente tenho pena da onde o Brasil irá parar com toda essa bagunça.

  • Reply Manu 26 de outubro de 2014 at 1:52 AM

    Menina, em tempos de treta eleitoral que delícia ter lido esse teu post! Olha, não aguento mais essa mimilitância horrorosa desses partidários fanáticos nas redes sociais – especialmente vivendo o fato de que todo mundo que eu sigo no twitter aparentemente está alinhado com um determinado candidato, que não é o candidato em quem votarei. É tanta piadinha idiota e desrespeito com o eleitorado contrário que eu num guento maisssssssssss D: Não bastasse isso, a gente ainda tem que ouvir as abobrinhas de eleitores como esses que você encontrou! Me incomodo muito, de verdade com ese tipo de coisa. Gente, por favor, vão cuidar da vida de vocês e deixem o coleguinha cuidar da vida dele, namorar, casar com quem quiser, controlar a própria prole e usar os tóxicos que quiser na sua casinha com o seu dinheirinho ganhado honestamente. Talvez eu seja radical e liberal demais, mas não vejo como ficar colocando entraves em questões como essa, que são super pessoais, pode ajudar a sociedade de forma geral. To esperando aqui também pela superação dessas picuinhas bestas!!
    beijos, Ana!
    (ps: meu curso tbm nao é contemplado pelo CsF!!! :( #galeradehumanas #chatiadissima hahauhau)

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