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VICTORIA AVEYARD, VAMOS SER AMIGAS?

Então eu li um livro que me fez querer acender uma fogueira nos primeiros quinze capítulos, até que ele terminou e tudo que eu queria era dar um abraço na autora. Momentos.

O livro, no caso, é A Rainha Vermelha, e conta a história de Mare Barrow, uma moça de 17 anos nascida num universo alternativo onde as pessoas são separadas pela cor do seu sangue. Mare tem o sangue vermelho, o que significa que ela e sua família estão destinados a viver na miséria pelo resto da vida, escravizados pelos nascidos com sangue prateado – criaturas poderosas e muito arrogantes, que possuem habilidades sobrenaturais e são terrivelmente perigosas. Mare acredita já ter seu destino traçado: ao completar 18 anos, será obrigada a ir para o campo de batalha, do qual tem certeza que nunca voltará. Mas daí, num desses plot twists (não tão) aleatórios do destino, Mare descobre que tem poderes e coloca em perigo todo o “”””equilíbrio”””” da sociedade em que vive e, principalmente, a soberania dos prateados. A partir daí ela é obrigada a abrir mão da pouca liberdade que tem, e passa a viver no palácio, fingindo ser uma pessoa que não é, convivendo com pessoas que abomina em tempo integral, num plano que claramente tem tudo pra dar errado.

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Já aviso de antemão que, a não ser que você tenha morado em Marte nos últimos anos, é muito difícil desassociar o universo do livro de suas referências. Victoria Aveyard, a autora, bebe de fontes como Jogos Vorazes, Game Of Thrones (oh lord, she did it), e d’A Seleção, só pra citar alguns, e faz isso da forma mais descarada possível. É mais ou menos como ler um compilado de tudo que fez sucesso no mercado editorial nos últimos anos, dentro de um contexto meio aleatório que não chega a ser forte o suficiente pra fazer você esquecer que opa, acho que já vi isso antes em algum lugar. Claro que isso não me impediu de me envolver demais com a trama e shippar horrores o casal principal, nem de ficar louca de raiva com os personagens odiáveis (são muitos), e principalmente com o plot twist que rola mais pro final, mas concordam que é meio puxado levar a sério um troço que segue religiosamente a cartilha do autor de sucesso?

Eu estava pronta pra escrever algo sobre como o leitor de YA ainda é subestimado, sobre como as pessoas não conseguem mais escrever uma história honesta sem se inspirar nas tantas outras que vieram antes e sobre essa mania insuportável de inventar uma adaptação cinematográfica diferente todo santo dia, sem nenhum critério aparente, quando já se tem tanta gente incrível e talentosa escrevendo textos específicos pro cinema. Eu ainda quero escrever sobre isso. Eu ainda vou escrever sobre isso. Mas aí eu resolvi ler os agradecimentos antes, uma coisa que nunca faço, e de repente estava abraçada com o livro em posição fetal na cama, querendo muito ser amiga da pessoa por trás daquelas páginas, pensando que o mundo é um lugar melhor porque ela resolveu acreditar naquela história, mesmo que ela não seja exatamente boa (nem exatamente ruim).

Lena Dunham escreveu que não há nada mais corajoso do que uma pessoa anunciar que sua história merece ser contada, sobretudo se essa pessoa é uma mulher. Eu acredito tanto nisso que não só acho muito importante que a gente conte nossa história, mas que conte também as histórias que saem da nossa cabeça, e que são tão nossas quanto aquelas que vivemos todo santo dia. Foi por isso que, quando eu parei pra pensar que se essa história é o que é hoje (um livro de fantasia, protagonizado por uma mulher, com adaptação cinematográfica já planejada (!) e avaliações muito boas, apesar de não ser um livro exatamente inovador) foi só porque, em algum momento, uma mulher, como todas nós, acreditou que essa história precisava ser contada, e foi lá, correu atrás, e fez as coisas acontecerem.

Ando num vórtice muito bom de encarar a história dos outros como uma coisa real e palpável o suficiente pra ser inspiradora, e isso tem me ajudado muito a reconhecer que eu também posso fazer coisas incríveis com a minha vida, sem necessariamente fazer algo grande, nooooooossa vejam só como sou incrível & inovadora, me amem. É como se alguém me desse um tapinha nas costas e dissesse que tudo bem não ser a melhor em tudo, que eu não preciso ter metas gigantescas na vida pra fazer meu tempo aqui valer a pena, mas que eu posso, na medida do possível, fazer e ser o que e quem eu quiser. Aliás, superem essa mania de achar que só é bem-sucedido quem tem um império nas mãos e a vida toda no lugar aos vinte e poucos anos.

Tenho conversado muito sobre essa vontade de fazer as coisas acontecerem com qualquer pessoa que esteja disposta a conversar sobre o assunto (interessados podem me chamar no chat do Facebook) e o mais legal é que essas conversas nunca são sobre como a vida é injusta ou sobre o grande fracasso que somos, mas sim sobre como nós temos uma porção de planos incríveis e precisamos correr atrás deles. Que seja pra dar errado, mas pelo menos a gente não tá aqui engavetando tudo e fingindo que esqueceu desse monte de ideia sem pé nem cabeça.

É por isso que, enquanto eu lia os agradecimentos no final do livro, não pude deixar de dar um sorriso e querer muito fortemente ser amiga da Victoria, porque era exatamente isso que ela parecia: uma amiga. Logo na primeira página ela agradece os autores que fizeram com que seu mundo fosse muito maior do que as limitações de uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos, e mesmo eu, que cresci numa cidade grande (que parece o quintal de casa, mas bear with me), consigo ver muito de mim nessa parte. Se hoje sou uma pessoa que escreve (?) é só porque, em algum momento, essas pessoas me mostraram que tão legal quanto ler as histórias dos outros, era escrever as minhas próprias. Elas podem até não ser tão boas, mas ninguém precisa de muito mais do que vontade e um pouquinho de coragem pra começar. O resto a gente torce pra vir com o tempo.

Ler A Rainha Vermelha foi como ler o livro de uma amiga muito querida e sentir que poderia ser eu no lugar dela, não de um jeito invejoso de quem quer muito viver a vida de outra pessoa, mas como a amiga orgulhosíssima que se vê representada por uma pessoa muito especial. Se vocês me perguntassem se o livro é bom, eu diria que tudo é uma questão de gosto. Pode ser que ele não seja exatamente bom, pode ser que ele não seja exatamente original, mas isso não quer dizer que ele seja de todo ruim. É provável que eu não leia o primeiro volume de novo, mas estaria mentindo se dissesse que não passei as últimas duas semanas pesquisando sobre Glass Sword, segundo livro da série que só vai ser lançado em 2016.

king

É tudo uma questão de ponto de vista.

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3 Comments

  • Reply Beatriz 9 de outubro de 2015 at 12:36 PM

    Eu acho tão lindo isso e meio que não esculhambo muito um livro que li e odiei por acreditar na mesma coisa. Acho tão, mas tão corajoso e desafiador escrever um livro e dar a cara a tapa pras pessoas amarem ou odiarem. É a mesma coisa que um blog, só que em proporções bem maiores. Você ta ali exposto, porque você acreditou que tinha algo pra contar, pra compartilhar com as pessoas. E isso é lindo demais, acreditar na sua própria voz. Principalmente quando se trata de histórias contadas por mulheres, é preciso ter coragem de entrar nesse mundo que, infelizmente, ainda é bem machista. Então meio que relevo um pouco? porque escrever 30 posts por mês dá trabalho, mas imagina escrever um livro? Imagina todo sentimento que aquela pessoa colocou ali, todo suor, cada parte sensível do seu ser, as horas gastas. Então seria maravilhoso se o livro fosse sensacional, mas se não foi, meio que ele ainda tem seu mérito, sabe? Ele tem toda uma carga por trás e concordo demais com o que a Lena falou, além disso, pode ser que eu não goste, mas tenho absoluta certeza que alguém dentre os 7 bilhões de pessoas no mundo vai gostar.
    Adorei o texto e meio que também me incentivou a soltar minha voz (?). To precisando escrever mais, na verdade, nós, mulheres, precisamos escrever mais.
    Enfim, beijoss

  • Reply Thay 9 de outubro de 2015 at 2:53 PM

    Primeiramente: CHARLIE! ♥
    Segundamente (q): CHARLIE colocando a coroa no DEAN! HAHAHA, não é a toa que usei esse momento como icon do twitter por tempos. ♥ ♥ ♥

    Terceiramente (q) que amor que você é, Ana! Quando você falou no twitter desse livro eu fui logo procurar, né, e fiquei de cara com esse monte de referências embutidas na história. Acho que ficaria incomodada ao ler, mas esse seu post me fez ter vontade de dar uma chance para a autora. Adorei que você enxergou além do óbvio, viu a alma da autora e a vontade que ela tinha de realizar esse sonho de escrever e ser publicada. Em um mundo em que fazemos os julgamentos primeiro e pensamos depois, foi realmente legal ler esse seu texto. Me fez abrir os olhos pra um viés totalmente inesperado. ♥

    Beijo, beijo!

  • Reply Monique Químbely 12 de outubro de 2015 at 9:35 PM

    To com o ebook desse livro no meu noteook me esperando e acho que qualquer dia desses eu me jogo nesse mar sim ^^
    Já tinha uma ideia de que a autora bebeu de outras fontes porque atualmente é o que mais há (nem Jogos Vorazes que tantos tanto dizem ser “”inspiração”” pra outros autores é tão original, porque existe outro livrinho anterior à trilogia chamado Battle Royale, apesar de eu acreditar de que a autora de JV pegou a ideia e fez coisas novas com ela dum jeito muito bom). Só que eu quero dar uma chance pra saber se é ou não essa coisa toda que a publicidade sobre o livro diz que ele é. Vai que eu me surpreendo Além disso, nunca é demais ler histórias feitas por mulheres com protagonistas mulheres.
    Beijo!

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